Capítulo 5. Casa da Música | A nova face do projeto artístico
5.6. Crise orçamental
Este não seria, contudo, o principal problema vivido no seio do Remix Ensemble. À parte a questão do vínculo contratual, propriamente dito, o grande abalo no moral do grupo dar- se-ia por altura da crise económica que, no início da década, afetou o país — momento em que a situação de urgência que vinha justificando «severos cortes no orçamento de Estado teve como consequência a redução do financiamento à Casa da Música». Em reação às dificuldades financeiras por si sentidas, o Estado português incumprira já no financiamento dos «dez milhões de euros estipulados» pelo acordo celebrado com a instituição, transferindo, em 2011, apenas «oito milhões e meio, o que represent[ara] uma redução de 15% relativamente aos anos anteri- ores». Corte, esse, agravado pelo incumprimento da transferência «dos valores referentes ao contrato-programa que financia[va] a orquestra» — dotação que estivera «em declínio gradual desde 2007», culminando com a retirada deste apoio específico, no ano de 2011 (Rodrigues, 2013: 193).
«Por tudo isto, a redução das contribuições do Estado para a Fundação atingir[a] os dois milhões de euros (um milhão e meio de contribuição direta à fundação e quinhentos mil euros dedicados à orquestra), [algo] sobejamente pronunciado nos meios de comunicação so- cial». Mas seria apenas em 2012 — perante o anúncio de novo corte no financiamento estatal — que a situação se agravaria a ponto de justificar reações extremas. A despeito do acordado, em abril desse ano — uma redução de 20% nos dez milhões de euros que, inicialmente,
constituíam a sua contribuição anual —, o Estado fixara a diminuição no valor das transferên- cias para a instituição em 30%. Levando a que, em 18 de dezembro, «o Conselho de Adminis- tração da Casa da Música renunci[asse] aos seus mandatos, na sequência do corte adicional anunciado pelo Secretário de Estado da Cultura» (ibid.: 193–194).
Deixou as pessoas todas inquietas. Não foi só o Remix; deixou a Casa toda inquieta. Porque um corte — e estamos a falar de 2012 — de 30% no finan- ciamento do Estado, ninguém tinha ilusões de que isso ia ter impacto, não é? Porque... foi brutal. Aquilo a que se chegou na altura, e que se mantém até hoje, foi um entendimento do que, para mim, deviam ser as prioridades, do que era essencial preservar. E, nesse aspeto, houve um total consenso com o Conselho de Administração e com o Diretor Geral, e depois com o Conselho de Fundadores, em como era fundamental preservar os pilares da Casa da Música, que são os agrupamentos residentes e o serviço educativo. E preser- var à outrance. Com sacrifícios: o Remix fazia muito mais projetos, aqui na Casa da Música, em 2011, do que faz hoje. Gostaríamos que a Orquestra Barroca fizesse mais do que os cinco projetos que faz por temporada. Não é possível, ainda. O próprio Coro teve que reduzir um bocado a atividade. Mas foi tudo calculado de forma a causar o menor dano possível à solidez dos agrupamentos, nomeadamente do Remix Ensemble. (António Jorge Pacheco)
Da decisão estatal resultariam, assim, duras consequências para a atividade regular do Remix Ensemble. Os dez projetos anuais que os músicos julgavam assegurados — a que se somavam pontuais concertos extraprogramação, bem como as já mencionadas digressões naci- onais e internacionais — ver-se-iam, desta forma, reduzidos a oito. Levando a que, por exem- plo, a receita proveniente dos concertos do grupo descesse para valores substancialmente infe- riores: dos 20.897 euros registados em 2010, baixariam para 9.258 em 2015, de acordo com os dados disponíveis. Com naturais implicações ao nível da despesa com músicos e maestros, que, por sua vez, passaria dos 347.584 euros, em 2012, para 216.178, no ano de 2015 (RC, 2010– 2015).
Mas não só. Também os programas dedicados à música de câmara, entre os quais se destacavam os concertos do Quarteto Remix — quarteto de cordas formado por instrumentistas do agrupamento, e que manteve assinalável atividade nos anos que antecederam o período de crise financeira —, se veriam integralmente suprimidos.
O Remix, quando começou, fazia dez projetos por ano, tínhamos os progra- mas de música de câmara, e tudo isso foi retirado. Os programas de música de câmara, que nós podíamos propor, extra-Remix, e, ainda por cima, dos dez programas anuais que tínhamos passámos para oito. E há a tendência, de quem nos tutela, da Casa da Música, para dar mais trabalho com dias extra. Ou seja — temos um projeto por mês —, colar àquele projeto outros
programas, pagos como dias extra, que é muito diferente de nos pagarem um projeto mensal. Portanto, este processo resultou na redução de música de câ- mara, que tínhamos inicialmente, na passagem de dez projetos para oito e no facto de termos projetos bastante intensos, com dois programas — que, no fundo, deveriam ser dois projetos diferentes, e a Casa da Música centra tudo num programa e paga-nos como dias alargados. (M11)
A proposta inicial da direção da Casa da Música, não obstante, previa um corte supe- rior — no caso, de três programas, correspondendo aos 30% de redução no financiamento. Só por reação dos seus membros efetivos — e fruto da coesão entre elementos do Remix, que, uma vez reunidos, acabariam por rejeitar o plano avançado pela equipa de António Jorge Pacheco — se chegaria a acordo quanto ao número de projetos anuais. Sendo que ao descontentamento dos músicos, pelo teor da proposta — e isto apesar de se mostrarem sensíveis às dificuldades que o seu diretor artístico enfrentava, na hora de lidar com as consequências dos cortes orça- mentais —, acrescia, ainda, a assumida incompreensão pelo modo como a decisão fora comu- nicada, momentos antes de um concerto, em plena digressão no estrangeiro.
Os problemas orçamentais só nos afetaram, verdadeiramente, em 2011 ou algo do género. E não correu lá muito bem, porque a verdade é que o António nem sempre é o melhor comunicador, quando se trata de recursos humanos. Um certo dia, antes de um concerto, ele disse-nos: 'Bem, a propósito, vamos ter de cortar mais dois projetos por ano'. Portanto, também não ajudou. E o ambiente ficou pesado, durante algum tempo. Agora está mais ou menos es- tabilizado, acho eu. As pessoas têm a sensação de que as coisas vão melhorar, mas a questão é saber como tudo vai ser financiado. Porque eles têm um or- çamento global — que, de momento, é dividido, se não me engano, em oito projetos por ano — e, para que seja aumentado, têm de conseguir financia- mento de outros lados, portanto não é assim tão simples. Eu imagino que o trabalho do António seja difícil, também, porque tudo tem de estar ligado a projetos, compositores ou festivais. E nós, como músicos, nem sempre temos uma noção exata de como as coisas são financiadas — e, de certa forma, eu prefiro ficar à margem disso. Não vou discutir assuntos que desconheço. (M1) Essa coesão também existiu nos momentos graves, em termos financeiros. Quando nos quiseram fazer a tal redução para os sete programas, o grupo tomou a decisão de não aceitar, correndo o risco de ficarmos sem nada, de o Remix acabar. 'Não aceitamos esta situação.' E, basicamente, foi qualquer coisa como... Antes de um concerto, em Colónia, dissemos: 'A decisão é esta. Ou se faz o concerto ou não se faz'. Foi um bocadinho bater o pé. E o grupo — apesar de muitos de nós subsistirmos com este trabalho — manteve-se sem- pre unido, coisa que se nota. Depois dessas decisões... é muito difícil haver fricção, muito difícil. Se há um problema, ninguém decide por si, ninguém vai falar com o chefe. Há sempre uma decisão de grupo, e isso é ótimo. (M15)
O momento far-se-ia, por isso, de consternação. As discordâncias no que diz respeito à questão dos contratos de trabalho haviam deixado marcas, bem certo, mas seria nos anos sequentes à redução no número de programas anuais que o ambiente geral, no interior do Re- mix, se agravaria. A ponto de o próprio Peter Rundel salientar os danos que a decisão acarretaria não só no estado de espírito dos músicos — que, mais e mais, se viam forçados a complementar o seu vencimento com outro tipo de atividades profissionais ou, inclusivamente, a questionar a permanência no grupo — mas ao nível do desempenho do ensemble e respetivas rotinas de trabalho também, porquanto a redução prejudicava, significativamente, a trajetória de aproxi- mação aos seus congéneres europeus. Entendia o seu maestro titular que a redução no número de projetos ia além do recomendável para que a dinâmica do grupo, no mínimo, se mantivesse, colocando, desse modo, em causa o seu desenvolvimento musical.
Claro que foi um choque para o grupo. Quando isto aconteceu, o Remix, por comparação com os grandes grupos europeus, os grupos de sucesso ao nível da música contemporânea, estava, em termos de volume de trabalho, no li- miar mínimo — mesmo nos melhores tempos, eu diria. Porque um ensemble que se quer desenvolver artisticamente precisa de tocar. E com isto não quero dizer que, quanto mais toca, melhor fica; mas há um certo patamar que é, de facto, saudável para o grupo. Para além disso, no momento em que se corta um projeto, para os músicos isso significa um salário a menos — o que, para alguns deles, é assustador. Quer dizer, eles já não têm vinte anos; têm trinta ou quarenta, têm família, têm responsabilidades, portanto têm de pensar nas suas prioridades. O que fazer, onde conseguir o dinheiro de que precisam... Ou seja, é uma situação complicada. Em termos do moral do grupo, eu só espero — e essa umas das razões que me mantêm aqui — que consigamos sobreviver a estes tempos e que as coisas melhorem outra vez. (Peter Rundel)
Período particularmente negro do trajeto da formação, como tal. Sendo que, neste ponto em particular, os Relatórios Anuais de Atividades e Contas se mostram, uma vez mais, elucidativos. O número total de bilhetes vendidos para os concertos do Remix Ensemble pas- saria dos 3020 registados em 2010 para uns expressivos 1299, ao longo de todo o ano de 2015. Evolução, esta, que se explica, em parte, pela supressão de projetos verificada durante este período, mas a que, por outro lado, se contrapõe também uma queda abrupta no número médio de bilhetes vendidos por evento do grupo — cifras que cairiam de um valor de 302 entradas, segundo dados relativos a 2010, para uns magros 108 bilhetes contabilizados em 2015.
A mitigar esta tendência para uma diminuição no número de projetos anuais da forma- ção, assinala-se alguma recuperação, nos anos anteriores ao período em que decorreu o trabalho de campo, no número de digressões internacionais — 2015, por exemplo, ficaria marcada por
deslocações a Estrasburgo, Monte Carlo, Toulouse e Hamburgo — e, aspeto nem sempre valo- rizado, a criação da Academia de Verão do Remix, que incluía uma série de masterclasses de direção com Peter Rundel, para além de workshops, ensaios e recitais de música de câmara, numa iniciativa que concedia aos seus participantes a oportunidade de integrar o ensemble no decurso do estágio, beneficiando, assim, da experiência dos seus instrumentistas.
Os anos subsequentes à mudança para a Casa da Música seriam, pois, feitos de altos e baixos. Se, por um lado, assistiríamos a um claro desenvolvimento musical do agrupamento — propiciado quer pela mudança de regência, quer pela quantidade e diversidade de experiências profissionais por que passariam (sem esquecer a estabilidade alcançada nas novas instalações) —, este foi, em igual medida, período marcado por alguma intranquilidade no plano interno. Ficando, assim, a plena afirmação do Remix, no contexto europeu, ensombrada pelas conse- quências da crise económica e financeira.
Capítulo 6