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Digressões e afirmação internacional do Remix Ensemble

Capítulo 5. Casa da Música | A nova face do projeto artístico

5.2. Digressões e afirmação internacional do Remix Ensemble

Corolário do descrito, seria sob a regência do seu novo maestro titular que o Remix Ensemble conheceria, em subsequentes anos — e não obstante a sua já bem-sucedida partici- pação em certames como o Festival de Huddersfield, entre outros (Cristina Fernandes, Público, 25/11/2003) —, verdadeira notoriedade no plano europeu. «A grande qualidade dos instrumen- tistas (...) e o fantástico entrosamento de todo o conjunto, tanto no pequeno como no grande plano (fruto do trabalho consequente e categorizado dos seus maestros — o anterior, Stefan Asbury, e o actual, Peter Rundel), afirma[va]m», de acordo com Fernando C. Lapa,«reiterada- mente a excelência do ensemble e projecta[va]m o Remix para uma carreira cada vez mais internacional» (Público, 21/02/2006).

Sendo que o plano se fazia ambicioso. Para os três anos que se seguiam à entrada em funções do seu novo maestro, a direção do Remix Ensemble programara «um total de 19 saídas ao estrangeiro, a locais de passagem obrigatória para melómanos, compositores e intérpretes da música dos nossos dias, como os festivais de Estrasburgo, Ars Musica, Wien Modern e Ultima, entre alguns outros», a que se juntava «o projecto de 26 estreias absolutas, resultantes de enco- mendas da Casa da Música, marcadas para o mesmo período» — num lote que incluía nomes como o já citado Emmanuel Nunes, mas também Olga Neuwirth, Georg Friedrich Haas, Johan- nes Maria Staud, Toshio Hosokawa, Georges Aperghis, Cândido Lima, Pedro Amaral, Vítor Rua ou ainda Nuno Côrte-Real (Diana Ferreira, Público, 21/10/2005).

Com as saídas ao estrangeiro, começámos a mostrar que, afinal, em Portugal, ao contrário de outros países — por exemplo, Espanha, que é manifestamente maior e investe mais dinheiro na cultura —, nós tínhamos, de repente — no Porto, que nem sequer é a maior cidade do país —, um grupo de dimensão europeia, no mínimo. E começámos também a conquistar alguns lugares no circuito europeu, que é o circuito da música contemporânea. (M12)

Eu acho que a afirmação do grupo lá fora, nos festivais, foi gradual. Quer dizer, no início, éramos uns desconhecidos, e depois fomos angariando algum reconhecimento. Hoje em dia, em muitos sítios onde vamos, nota-se clara- mente que as pessoas veem o Remix como um grupo de bom nível. E eu acho que houve aí alguns concertos que foram importantes para isso. Sei lá, quando fomos tocar ao IRCAM, quando tocámos em Berlim, por exemplo, ou quando fizemos, pela primeira vez, concertos nos festivais mais importantes — que foram pontos marcantes para o grupo em si. (M13)

Trajetória alicerçada, por sua vez, num estreitar de laços com ensembles (e salas de concerto) congéneres no contexto europeu, através da pertença a redes de instituições culturais como a European Concert Hall Organisation ou a (entretanto extinta) Réseau Varèse — mercê, por um lado, da intenção, cedo assumida por António Jorge Pacheco, de promover colaborações com as diversas organizações hoje parceiras da Casa da Música (aspeto que, aliás, motivara receios em Stefan Asbury) e, por outro, do crescente reconhecimento que os seus agrupamentos residentes vinham granjeando no meio musical direta ou indiretamente ligado à criação con- temporânea.

Fazemos parte de várias associações ao nível europeu que nos procuraram, que reconheceram em nós parceiros credíveis e a algumas dessas associações só se acede por convite, não é por uma candidatura. Pode-se candidatar, mas... são associações com regras e com critérios muito restritos e esse lado também tem vindo a ser acentuado ao longo do tempo, que é esse reconheci- mento dos nossos colegas, dos nossos parceiros a nível internacional de nos convidarem a integrar e interatuar com eles. (António Jorge Pacheco, apud

Rodrigues, 2013: 203)

De entre as estruturas fixas da Casa da Música — e ainda que a estratégia de inter- nacionalização da sua atividade as incluísse como um todo —, ao Remix Ensemble caberia papel de especial relevo. Desde logo, porque o projeto artístico da instituição passa, em grande medida (na atualidade como em pretéritos tempos), pela aposta na música contemporânea, mas, igualmente, por questões organizativas — «uma opção da administração», de acordo com os músicos. Tratando-se de «um grupo relativamente pequeno», «mais barato e mais fácil de trans- portar do que uma orquestra», acabaria, desse modo, por desempenhar a função de «porta-es- tandarte da Casa da Música» (M13), por ser o seu «ponta-de-lança» (M11) no que à represen- tação em espaço europeu diz respeito.

Cabal exemplo disso seria a digressão Ring Saga1 (2011), que propunha «uma ver- são de bolso da grande obra wagneriana O Anel do Nibelungo». Tendo por mentor Antoine Gindt, diretor do T&M-Paris — «estrutura dedicada às novas formas de teatro musical e lírico» —, o projeto abraçaria, assim, o desafio de levar a cena uma leitura essencialista, despida, da «imponente tetralogia» de Richard Wagner (assinada pelo encenador Graham Vick e pelo com- positor Jonathan Dove), reduzindo o habitual efetivo orquestral a um grupo de 18 músicos — e que, de acordo com Marie-Aude Roux (Le Monde, 07/11/2011), «nada perdia em pujança»

1 Produção do T&M-Paris e da Casa da Música, em coprodução com a Cité de la Musique, Grand Théâtre Luxem-

perante o original, com a suma vantagem de «se oferecer a um público alargado». Ring Saga teve, por isso, como objetivo — confessava Gindt — «retirar o Anel do gueto das grandes salas de ópera para o trazer até sítios mais modestos», pelo que «o apelo fora voluntariamente lançado a artistas líricos que não eram cantores wagnerianos, mas sim habitués da música contemporâ- nea», o mesmo se aplicando aos «excelentes músicos do Remix Ensemble». A tournée (por- ventura) mais aplaudida pela crítica especializada, particularmente marcante para o moral do grupo, não passaria, como tal — e algo paradoxalmente —, pelo repertório mais consentâneo à formação (sequer à área de especialização de Peter Rundel); antes por um monumental ciclo do romantismo tardio.

O projeto do Wagner, de facto, trouxe um grande destaque ao Remix, inter- nacionalmente, porque estivemos quatro meses fora. Quatro meses: setembro, outubro, novembro, dezembro. Íamos e vínhamos, claro, mas foi, basica- mente, todas as semanas a trabalhar. Fizemos a Tetralogia doze vezes, penso. Era uma ópera à sexta, duas ao sábado e uma ópera ao domingo. Isto doze vezes! Ainda fomos mais uma vez a Itália, Luxemburgo... Foi um trabalho gigantesco, mas absolutamente marcante para nós. (M15)

Face aos atrasos estruturais do país, as digressões internacionais — objetivo mais evi- dentemente perseguido durante o período da direção de Peter Rundel — são, por isso, inequi- vocamente mencionadas pelos vários membros do Remix Ensemble como momentos decisivos no percurso artístico do grupo — e que, em seu entender, sem as diversas parcerias com as mais instituições culturais europeias não teriam exequibilidade. Marcos como os concertos que rea- lizariam na Philharmonie de Berlim, na Kontzerhaus de Viena e na Tonhalle de Zurique, ou ainda feitos mais diretamente relacionados com o universo da música contemporânea, em que se destacariam a primeira aparição do grupo no IRCAM mas, também, as suas muitas partici- pações nalguns dos principais certames do ramo.

Em Portugal, (a música contemporânea) ainda é um mundo muito fechado, que não se abre ao grande público, e lá fora não é assim, claro. Nós vamos a um festival, e há sempre seis ou sete ensembles da mesma formação, ou uma formação muito parecida, que vão lá tocar também, e há um público que já está habituado a ouvir e sabe do que gosta. E isso são coisas que nós preci- samos também. Nós temos que ter essa exposição lá fora, porque cá somos os únicos, somos os melhores, por assim dizer, e isso não serve a ninguém. Pre- cisamos do contacto com outros grupos, com as outras casas, para ter alguma troca de informação. Sem essas experiências, não chegaríamos a ser quem somos. Porque é o facto de nós já termos tocado na Konzerthaus, em Viena, na Tonhalle, em Zurique, em Berlim, na Philharmonie... Quer dizer, isto são coisas que a maior parte das orquestras, em Portugal, ainda não fez. Nós temos uma experiência completamente diferente, e são essas experiências que

nos dão uma — sei lá! — sabedoria, se calhar; um conhecimento que o resto dos músicos, em Portugal, simplesmente não tem. Têm a qualidade, mas não têm a oportunidade. E são essas parcerias que nos dão as oportunidades, porque não seria a Casa da Música, sozinha, a fazer isso, obviamente. (M5)

Mas será, talvez, à figura de Emmanuel Nunes — compositor português de nomeada, cedo radicado em Paris — que o Remix Ensemble deverá também boa parte dessa consolidação da sua imagem no plano internacional. Se a promoção da música portuguesa, dentro e fora de portas, fora, desde sempre, ponto de honra para o grupo — tomada, segundo testemunhado, na sua pluralidade de orientações estéticas —, facto será, no entanto, que a ligação especial (a dada altura estabelecida) com Nunes muito terá contribuído para propalar o nome do Remix. A ponto de se falar, hoje, numa vera simbiose entre aquele que foi um dos mais destacados autores portugueses na contemporaneidade e o ensemble que mais sistematicamente se dedicou à inter- pretação do conjunto da sua obra.

O Remix Ensemble é o grupo português mais internacional de sempre. Nunca houve nenhum grupo que tivesse tanta projeção a nível europeu. Isto é um facto; é uma constatação. E levando — não sempre, porque nunca achámos que isso fosse obrigação especial, devia ser algo natural e por mérito — a interpretação da música portuguesa e dos compositores portugueses. Isso surgiu naturalmente, sem nenhuma espécie de imposição, e muito menos de quotas. Mas a verdade é que, a partir de dada altura — quando começou a estabelecer, nomeadamente, uma relação muito estreita com o Emmanuel Nu- nes — através da sua influência o Remix teve várias oportunidades e convites para tocar em festivais por essa Europa fora, porque passou a haver uma identificação entre o grande compositor português vivo e o grande ensemble português. Portanto, essa associação foi virtuosa, acho que foi mutuamente benéfica, essa ligação tão intensa e tão forte — tão afetiva, até —, entre o Emmanuel Nunes e o Remix Ensemble. (António Jorge Pacheco)

Sem esquecer — parte essencial no ascenso do Remix — o aparecimento dos primei- ros registos discográficos da formação. Haviam já editado, em 2004, um duplo-álbum pela Nu- mérica — com obras de Brice Pauset, Emmanuel Nunes, James Dillon, Johannes-Maria Staud, Jorge Peixinho, Miguel Azguime e Nuno Côrte-Real —, mas seria apenas no período subse- quente à instalação no novo edifício que o catálogo do grupo se avolumaria. Também pela Numérica, assinariam trabalhos monográficos dedicados a Emmanuel Nunes (2007) ou Antó- nio Pinho Vargas (2008) e, já sob a chancela da æon, um título com música do britânico James Dillon (2009). A que se acrescentariam ainda dois outros registos com obras de Klaus Ib Jør- gensen (2009), pela Dacapo Records, e de Wolfgang Mitterer (2010), na col legno — esta úl- tima uma das mais prestigiadas editoras exclusivamente dedicadas à música contemporânea. O

principal destaque neste particular surgiria, contudo, ao virar da década, por alturas do lança- mento de um dos primeiros álbuns partilhados com a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música — Pascal Dusapin Ao Vivo 2012 —, que viria a ser considerado pela Gramophone, publicação de referência na área, como um dos melhores discos editados em 2013. Facto tão mais relevante — insistia o coordenador do grupo, António Jorge Pacheco — na medida em que esta distinção vinha «na sequência das excelentes críticas saídas, quer na Gramophone quer na revista Diapason, que tinha dado pontuação máxima [à gravação, salientando] 'as notáveis interpretações ao vivo do Remix Ensemble e da Orquestra Sinfónica da Casa da Música'» (Ex- presso, 08/01/2014). Testemunho de uma progressiva consolidação do percurso artístico do agrupamento.