4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Vivificação da morte e mortificação da vida
4.1.8 Cuidados Paliativos e busca por protocolos
Por vezes a atuação em cuidados paliativos mostrou-se apenas como um protocolo a ser seguido.
“Bela discorreu sobre sua relação com os pacientes em cuidados paliativos: ‘Com cuidados paliativos a conduta é mais de conforto, muito mais conforto respiratório, não fico com paciente em cuidados paliativos por que não demanda tanto de mim como médica’”.
A médica Bela refere que a atuação em cuidados paliativos não demanda tanto dela como profissional da medicina e que, nesses casos, a conduta a ser realizada preza apenas pelo conforto. Bela entende que a postura de cuidado com pacientes fora de possibilidade de cura se dá em prol do conforto, mas enfatiza o conforto respiratório através do uso do respirador e de medicamentos. Foca, deste modo, na dimensão biológica do adoecimento e deixa de lado a compreensão de que o conforto pode ser realizado de diversas outras formas. A medicina mais uma vez é posta como uma profissão técnica que se volta apenas ao cuidado do corpo biológico em prol da cura das enfermidades deste.
Arantes (2016, p.47) posiciona-se acerca dessa questão:
Penso que todo médico deveria ser preparado para nunca abandonar seu paciente, mas na faculdade aprendemos apenas a não abandonar a doença dele. Quando não há mais tratamento para a doença, é como se não tivéssemos mais condições de estar ao lado do paciente. A doença incurável nos traz uma sensação ruim demais de impotência, de incapacidade. O médico que foi treinado sob o conceito ilusório de ter poder sobre a morte está condenado a se sentir fracassado em vários momentos da carreira. A infelicidade é uma presença constante na vida do médico que só aprendeu sobre
doenças. Já aquele médico que busca o conhecimento sobre o “cuidar” com o mesmo empenho e dedicação que leva para o “curar” é um ser humano em permanente realização.
“Lisa Simpson: ‘A gente tem que saber, se é paliativo, não faz isso e aquilo’”. Nesse caso, a paliação é vista apenas como a proibição da realização de algumas práticas.
“Betty Boop: ‘Têm vários desafios. Têm os desafios até, primeiro, dos próprios colegas profissionais de entenderem o que são os cuidados paliativos, eu até postei agora, fizeram a festa do Pipa, aí eu postei no grupo “ó, os cuidados paliativos, não significa você decidir parar tratamento, você decidir se vai ter cuidados intensivos ou não. Os cuidados paliativos são muito mais além de tudo isso. É realização de sonhos, desejos, aproximações...”. Então, às vezes, a própria parte médica, o pessoal “e aí, vai pra UTI ou não vai pra UTI?” Isso, tipo assim. E é só isso? Vai pra UTI ou não vai pra UTI? Isso não é o mais importante, então a gente tem que quebrar até isso’.
Betty Boop destaca que o grande desafio da atuação em cuidados paliativos dá-se acerca do entendimento dos profissionais sobre a proposta e as prerrogativas de tal perspectiva. Ela ressalta que cuidados paliativos não se tratam apenas de parar o tratamento curativo ou de decidir se o paciente vai ou não para a UTI, mas de inúmeras questões além dessas, tais como realização de sonhos e de desejos, aproximações e fechamentos, consideradas muito mais importantes.
“Mônica apontou a necessidade de formação em relação à temática da comunicação de más notícias e enfatizou que não há necessidade de tanta diretividade, pois ser tão claro às vezes é empurrar do precipício. Disse que sabe que esse tipo de conduta está sendo apregoada nas formações mais atuais em CP e afirmou que, se esse jeito for o certo, prefere estar sozinha fazendo o jeito errado. Questionou-se acerca da sutileza de como dizer? O que dizer? ‘Isso é um caminhar junto nos caminhos possíveis’”.
Usando como mote sua preocupação acerca da comunicação de más notícias, Mônica denuncia que determinadas condutas, consideradas, por ela como agressivas, estão sendo apregoadas nas formações de cuidados paliativos e indica que quando os protocolos se tornam o maior norteador das condutas, a dimensão ética é posta de lado e a assistência passa a orbitar em torno do certo e do errado. Destituindo, deste modo, a possibilidade de caminhar junto ao paciente nos caminhos possíveis para ele.
A moda indica que há um grande interesse pelo tema, além de tornar-se uma fixação e uma mania, algo que se repete e que aparece com constância. Tal destaque para a proposta dos cuidados paliativos se mostra de grande valia para o movimento e desperta a atenção para as discussões em torno do tema, possibilitando que haja uma intensificação e um crescimento do número de encontros, congressos, formações sobre a temática, além da constituição de equipes em serviços que não a possuíam. O que ocorre, porém, quando os cuidados paliativos viram moda? Na intensidade que os movimentos de moda produzem, há a chance dos profissionais e gestores dos serviços se prepararem para a atuação e amadurecerem seus estudos e reflexões sobre o tema? É possível haver processos de reflexão na moda? Ou corre-se o risco das práticas se tornarem hegemônicas e não questionadas? Tornarem-se norma e esquecendo a dimensão do singular?
Para Kovásc (2012), há uma grande preocupação em torno das formações na área de cuidados paliativos no que se refere ao conteúdo curricular das mesmas. Para a autora, são importantes os conhecimentos da tecnologia e farmacologia para o cuidado da dor
e outros sintomas incapacitantes, mas é fundamental que não se perca a visão humanista, a presença humana e reconfortante, a busca do sentido e significado no momento de aproximação da morte, bem como a ênfase na dimensão espiritual (KOVÁSC, 2012, p.141-142).
Tal inquietação aponta para o risco de as formações ganharem um caráter eminentemente técnico e deixarem de lado a dimensão do cuidado integral considerando os aspectos emocionais e espirituais do paciente e de seus familiares. Kovásc (2012) continua e alerta que a proposta dos cuidados paliativos não se trata de um dogma religioso de carácter indiscutível e imutável, mas sim de uma visão terapêutica voltada às reais necessidades das pessoas e que deve ser individualizada e singularizada. Em consonância com Pessini (2005, p.499), acredita-se que “a ética do cuidado enfatiza essencialmente a natureza vulnerável e dependente dos seres humanos [e não diz respeito] somente (...) ao processo de decidir, mas também envolve a qualidade das relações, tais como continuidade, abertura e confiança”.
Dessa forma, e com base nos relatos postos acima, afirma-se que os cuidados paliativos não são apenas um protocolo a ser seguido rigidamente para a assistência a pacientes fora de possibilidade de cura e não se referem apenas ao uso ou não de tecnologias duras, tais como a internação na UTI, a realização de cirurgias e procedimentos invasivos e a utilização de respirador e outros equipamentos. Refere-se, destarte, ao cuidado holístico e integral sempre voltado aos sujeitos, suas necessidades, vontades e desejos; mesmo que estes sejam conflitantes com o que é apregoado nas formações e documentos orientadores das equipes de cuidados
paliativos. Destaca-se ainda que a proposta dos cuidados paliativos deve ser amplamente divulgada e debatida, porém deve haver zelo no modo como tais ações são realizadas de modo que os fundamentos não sejam distorcidos e protocolados tornando-se algo puramente técnico.