4 COMO O CORPO PODE PERGUNTAR EM FORMA DE IMAGEM?
4.1 A DANÇA EM PINA BAUSCH
4.1.2 Dança: Um Modo do Corpo Pensar o Mundo
A dança em Pina Bausch trata de um modo específico de dançar, pois, se pode afirmar que, a experiência dos corpos, no entrelace com os contextos, está altamente implicada. “Colagem”, “linguagem para a vida”, “modo de pensar o mundo”, “escrita cênica”, são algumas das classificações feitas a este modo de configurar dança que alcançou notoriedade entre as demais formas de dança que compõem o diversificado conjunto conhecido como dança contemporânea. A própria coreógrafa não gostava de tecer definições para a sua dança, antes disso, articulava considerações sobre o que pode ser a dança.
Há uma quantidade de coisas que as pessoas pensam que não são dança e que o são para mim. A dança, no meu trabalho, talvez apareça sob forma reduzida. Mas o que vem a ser a dança afinal? É um certo tipo de movimento, e pode ser também qualquer coisa de muito estilizado. [...] Continuo a ter grande vontade de dançar, e é por isso que, de todas as vezes, tento construir a dança. Depois, no fim, acontece-me cortar tudo. Não porque a dança não funcionasse nessa construção, uma vez que, pelo contrário, pode até sair muito bem; mas é que me dou conta de que não era aquilo que eu queria dizer. Na realidade, queria qualquer coisa de muito mais simples, e fico com a nostalgia dessa dança que eliminei, mas que, pelo seu lado, estava bem. Consolo-me dizendo para comigo que, no espetáculo seguinte, farei muito mais dança. Mas acontece-me a coisa de novo, na produção seguinte, que também não me satisfaz. (BENTIVOGLIO, 2006, p. 157-158).
A coreógrafa destila a tradicional compreensão de dança, por vezes aceita como um conjunto de passos ordenados, e arquiteta uma configuração de dança articulada com as particularidades das experiências do corpo em contato com o ambiente. A dança de Pina Bausch é construída com a descoberta de movimentos e não com formas prontas. Nessa descoberta, o acervo de lembranças, imagens, histórias, ações, percepções do corpo, ganham notoriedade, pois são os propulsores de um processo criativo onde a dança é algo a ser encontrado e não uma forma/meta a ser alcançada/executada. Dizia a coreógrafa:
É mais importante para mim olhar para as pessoas na rua do que ir ao teatro ver um bailado [...] E contanto que esteja a trabalhar com os meus bailarinos e a gostar do que eles me mostram durante os ensaios, esqueço-me da dança, deixo de a viver como esse problema que consiste no fato de que eu deveria fazê-los dançar. (MORETTI, 2006, p. 79).
Em sua concepção de dança, Pina Bausch instaurou procedimentos de composição com os quais a dança não é uma preocupação a ser atingida, mas uma construção que vai sendo desenvolvida conforme os corpos criadores vão expondo e experimentando elementos das suas vivências. Nesse entendimento, alinhavado por Bausch, a dança, se compreendida enquanto linguagem, não é uma forma extraordinária pautada em execuções virtuosas, mas um modo de dizer algo que tem seus procedimentos elaborados no vínculo com o que é dito.
A dança deve ter outra razão além de simples técnica e perícia. A técnica é importante, mas é só um fundamento. Certas coisas se podem dizer com palavras, e outras, com movimentos. [...] É aí que tem início a dança, e por razões inteiramente outras, não por razões de vaidade. Não para mostrar que os dançarinos são capazes de algo de que um espectador não é. Há de se encontrar uma linguagem com palavras, com imagens, movimentos [...]. (BAUSCH, 2000, p. 11).
“Pina vai levar tão longe os ingredientes que favorecem à dança uma capacidade expressiva que acaba por invalidar qualquer possibilidade de defini-la apenas por meio da presença dos passos de dança” (KATZ, 1998, p. 10). A contagem de passos, a velocidade de deslocamentos, o virtuosismo de execuções, são categorias desnecessárias nesta outra compreensão de dança. “Dança como uma propriedade que brota da coleção das partes sem reducionismo, um algo-que- não-a-soma-das-partes” (KATZ, 2005, p. 27). A autora completa comparando isso com a cor, que, de um conjunto de fotoreceptores, surge como um padrão- mensagem e não como uma especialidade. As imagens, as palavras, os movimentos, os gestos, todos entrelaçados, são os elementos que tornam a dança uma ação expressiva, na qual, conjunto e partes, embora se mostrem fragmentados, são indissociáveis na colagem que os instaura.
“[...] É preciso primeiro aprender alguma coisa de diferente, diz Pina Bausch, aí então talvez poderemos voltar a dançar.” Muito prudentemente, ela reaprende a dançar, procura fórmulas, definições novas, as desenvolve, derruba as rígidas barreiras e avança em direção à regiões onde a dança começa. Um convite, um leve movimento de cabeça, um olhar, uma caminhada em direção ao outro, e um contato – movimentos cotidianos ou já dança? “Um afago pode também parecer com uma dança. A dança: talvez uma chave para a ternura e uma tentativa de chegar mais próximo de si mesmo e dos outros.” (HOGUE, 1988, p. 04).
Conforme a narração do filme documentário “A la búsqueda de La danza – El otro teatro de Pina Bausch” (1993), sob direção de Patricia Corboud, a dança (de Bausch) é uma exploração da condição humana. O modo como configura sua obra, com os elementos vivenciais fornecidos pelos seus dançarinos, instaura a possibilidade de compreender a dança como uma investigação acerca de questões humanas. Trata-se de um modo de fazer-pensar dança onde a pessoa, o corpo, o
humano é referência e criador. Os procedimentos de Bausch possibilitam um outro aprendizado acerca do que é e pode ser dança. Com Bausch é possível entender que, se a dança é uma ação do corpo, outras ações do corpo podem ser dança.
Quando questionada sobre a possível contribuição do seu trabalho para a História da Dança, Bausch disse:
Agrada-me que haja hoje em dia muitas pessoas a usar as suas fantasias, as suas formas próprias de fazer as coisas. Talvez tenha ajudado um bocadinho a abrir essas possibilidades, que são infindáveis. Gosto disso. Outra questão é que a dança, em muitos países, é uma parte importante da vida, tem um sentido muito diferente daquele que nós lhes damos aqui, que a representamos em grandes teatros [...]. Mas a dança é utilizada, em muitos locais do mundo, de forma social em rituais, em religiões, em muitas ocasiões. É bom que a dança não seja apenas uma coisa bonita, ou simpática, mas que tenha algo a ver conosco, que dê atenção aos nossos sentimentos, aos nossos desejos, às nossas aspirações [...]. (GUERREIRO, 2007, p. 69).
Nota-se que Bausch entendia seu trabalho em dança como uma abertura para as possibilidades de criação que surgem das formas que cada um pode elaborar. Mesmo produzindo dança como espetáculo, dentro da estrutura palco e platéia, Pina Bausch reconhecia que a dança também acontece como evento social, inserido no cotidiano de pessoas que a praticam como ato cultural, religioso, social. Nesse sentido, importa que a dança não seja somente algo para ser apreciado, que agrada, emociona, ou inspira. Importa que a dança aconteça na tessitura de vínculos com as questões e situações humanas, tanto os que já existem entre corpo, ambiente, criação, arte, quanto os que podem ser estabelecidos com e a partir dessas relações.
Pina Bausch fazia uso de um “jeito de pensar a dança como uma via de deciframento do mundo” (KATZ, 1997, p. 01). A dança era o seu modo de pensar, compreender e organizar as relações que estabelecia com o mundo e que percebia no mundo. Katz (1998) descreve que no ano de 1989, logo antes da queda do Muro de Berlim, Pina Bausch criou o espetáculo “Palermo, Palermo”, que inicia, literalmente, com o desabamento de um muro. Os intérpretes dançam sobre e entre os blocos, escombros e a poeira do muro. Essa escolha artística, Bausch justificou dizendo:
Nunca sabemos como os blocos vão cair, o que implica numa atenção permanente por parte dos bailarinos e isso não representa um lado gratuito de tornar a interpretação mais difícil para eles, mas sim de facilitar a conquista da consciência sobre a realidade. (KATZ, 1998, p. 01).
Pina Bausch “faz da dança um modo de pensar o mundo” (KATZ, 1998, p. 01). Entre estas e outras situações e escolhas artísticas, Bausch instaurou um modo de fazer-pensar dança no qual importa a consciência da realidade do que é experienciado enquanto se dança. Isso, se argumenta que, possibilita a compreensão de que essa dança é um ato de intervenção no real,uma experiência que se vive e se percebe. Evidenciando a consciência da realidade no ato de dançar, Bausch estrutura sua dança como uma forma de pensar o mundo. O corpo- dançarino vive, percebe, entende a realidade dessa ação – dança – construída por meio das suas vivências, dos modos como se relaciona com o mundo.