3 COMO TECER RELAÇÕES ENTRE CORPO, IMAGEM E PERGUNTA?
3.2 DAS IMAGENS, COM PERGUNTAS, ÀS NARRATIVAS
3.2.1 Imagens, Narrativas e Perguntas sobre Corpo
Narrativa 1: (sem título) Milla (2010)
Imagem 7 – Da Narrativa 1: (sem título).
Imagem pesquisada pela educanda Milla.
Um corpo almeja insistentemente ser feliz [...].
Ele procura essa tal felicidade em outras pessoas, lugares e coisas, não sabendo que enquanto não encontrar satisfação dentro dele mesmo, será inútil procurar em outra parte. [...].
Em meio a essa busca sem sucesso, este corpo vai sendo impregnado de decepções, dúvidas, desespero e tristeza, tornando-se curvo e tenso.
Nesta imagem, o fundo escuro pode não permitir uma identificação imediata do ambiente onde está o corpo. A luz projetada sobre o corpo enfatiza-o como protagonista da imagem. Os elementos agregados nas extremidades da imagem,
flores coloridas, podem sugerir uma certa vibração em torno da proposição de movimento que este corpo expressa. Na narrativa o protagonista é o corpo e não alguém que tem um corpo. As ações são do corpo e não de uma pessoa que age com ou por meio de seu corpo. Buscar, procurar e encontrar são ações, atitudes, escolhas, decisões e possibilidades do corpo. A autora localiza o corpo como o agente que articula a narrativa e não como o suporte de um sujeito.
A narrativa também possibilita a construção de perguntas referentes a: Que questionamentos sobre corpo suscita a expressão encontrar satisfação dentro dele
mesmo? Com a frase este corpo vai sendo impregnado de decepções, dúvidas, desespero e tristeza, tornando-se curvo e tenso, que entendimentos acerca do
corpo são possíveis? O que significa dizer que existem situações internas (decepções, dúvidas, desespero e tristeza) que determinam posições externas (curvo e tenso)? Que relações são possíveis entre estas expressões e as compreensões dos procedimentos sensório-motores e conceitual-abstratos do corpo? Como as ações de almejar, procurar, encontrar, buscar, possibilitam compreender o corpo como processual?
Narrativa 2: O corpo que “fala” Taína (2010)
Imagem 8 – Da Narrativa 2: O corpo que fala.
Imagem pesquisada pela educanda Taína.
Aquele corpo relatava uma série de coisas, inclusive uma ideologia.
A sua expressão denunciava um posicionamento que ia de encontro ao senso comum daquela sociedade, que em pleno século XXI sustentava e reproduzia posturas e discursos corporais carregados de julgamentos preconceituosos e machistas [...].
Ela, a mulher, conseguia transcender o entendimento de corpo feminino nu e não o reduzia à figura de um corpo constituído apenas por formas, curvas e sensualidade, mas compreendia que ali existia um movimento político que instaurava afirmação, aceitação e revolução.
A imagem denota desgastes nas paredes, no ambiente onde o corpo está, nas prováveis relações às quais ele está ligado. As cores promovem certa diversidade
de aspectos que envolvem esse corpo. A narrativa trata o corpo como um relator de ideologia, entre tantas outras coisas. A expressão do corpo denuncia posicionamentos, posturas, discursos e julgamentos. Aqui o corpo relata e denuncia. A problemática de gênero destaca uma mulher que transcende a figuração do corpo enquanto belo (formas, curvas, sensualidade) em vista de uma compreensão acerca da existência de um movimento político no corpo (afirmação,
aceitação, revolução).
Dizer que o corpo relata e denuncia pode estar próximo de dizer que ele (se) comunica? Como as relações sociais, culturais, afetivas marcam o corpo? Como as marcas dessas relações aparecem/permanecem no corpo? Como as relações de gênero produzem o corpo feminino e o corpo masculino? Que relações são possíveis entre as questões estéticas (formas, curvas, sensualidade) e as questões éticas (afirmação, aceitação, revolução) do corpo?
Narrativa 3: (sem título) Ricardo (2010)
Imagem 9 – Da Narrativa 3: (sem título).
São seis e quinze e o sol ainda está se pondo; uma cor amarelada envelhecida, uma brisa que parece arranhar as coisas, ela já sabe que o seu dia é hoje. Com o olhar fixo no relógio ela espera ansiosa o tempo passar, ele demora, parece fazer de propósito. É possível sentir o sangue correndo em suas veias e as batidas ritmadas do seu coração, uma contagem regressiva. Madrugada chegou e o seu rosto está mais lânguido, seu corpo está derretendo, os olhos abrem e fecham com um leve ar de sorriso no rosto. E com um peso gostoso se deita e se entrega a um sono profundo.
A imagem denota um ambiente propício para que o corpo se mova à vontade, sem preocupações com olhares externos. Mesmo com o fundo escuro, alguns traços do ambiente, como paredes e mobília, são identificáveis. A narrativa relata uma experiência decisiva, fatal. São relações, experiências cotidianas, ações e percepções de uma pessoa que espera o tempo passar, um momento chegar. Embora o termo corpo não apareça explicitamente enfocado na escrita, a narrativa é desenhada, desencadeada pelas ações do corpo. Imagem e narrativa constroem um ambiente e espetacularizam o cotidiano. Os detalhes da descrição (de)notam as ações do corpo vistas como imagens. Os detalhes parecem fornecer hipertextos que abrem outras pequenas narrativas.
Como perceber relações entre corpo, percepção, ambiente, nas descrições acerca do coração que bate ritmado e o sol poente que amarela/envelhece o ambiente, o sangue que corre nas veias e a brisa que arranha as coisas? Como uma pessoa sozinha pode se relacionar? Em que sentido é possível relacionar-se consigo, com os estados de si próprio? Como é relacionar-se com o tempo, com a espera, com a ausência? Como as ações do corpo podem ser entendidas enquanto imagens?
Os entendimentos acerca do corpo que os educandos relatam, constituem particular relevância na tessitura da pesquisa. Corpo como processo, como relator, como ambiente de diversas ações que emergem na relação com o ambiente. Com essas compreensões e conceitos, emergidos da experiência, são evocadas proposições de autores, estruturando assim o entrecruzamento da bricolagem. As perguntas emergidas das narrativas não objetivam respostas diretas, mas, junto dos
entendimentos acerca do corpo, seguem movendo a reflexão em direção às vinculações com os autores articuladas a seguir.