O colapso do Estado Novo e do orgulhosamente sós, levou a cultura a quebrar barreiras e a tentar
suplantar geografias. Parece portanto evidente que tivessem surgido esforços evidentes de diálogo, de intercâmbio, de permuta, enfim, de internacionalização da arte portuguesa.
O movimento de Portugal para fora teve algum impacto e eco na imprensa generalista nacional. Foram
noticiadas mostras, exposições, eventos no estrangeiro em que participaram artistas e arquitectos portugueses. Uma das primeiras foi, em 1978, a mostra “Portuguese Art since 1910”, exibida na Royal Academy of Arts, em Londres. No entanto, esta iniciativa do Comité Executivo da Sociedade Anglo-Portuguesa, com patrocínio da FCG, levantou polémica por vários motivos. O principal era o facto da direcção artística ter ficado a cargo de Hellmut Wohl, do Departamento de História de Arte da Universidade de Boston, portanto, um estrangeiro, facto considerado como uma má escolha, não seria a opção mais adequada para fazer a divulgação da arte portuguesa no estrangeiro. No final,
afastando-se do enredo, a Gulbenkian declarou-afastando-se insatisfeita com o resultado111. Mais significativa terá sido talvez
a participação de artistas portugueses nos eventos das vanguardas do momento. Wolf Vostell visitou Lisboa, em Setembro 1978, para propor a participação de artistas portugueses na Semana de Arte Contemporânea de Malpartida de Cáceres (SACOM-2), certame relevante que contou com exposições
e estudos de arquitectura e poesia Fluxus112. Destes diálogos resultou a participação de Julião Sarmento,
Palolo, Ernesto de Sousa, Helena Almeida, Fernando Calhau, José Conduto ou Leonel de Moura na SACOM-2, que decorreu de 24 a 30 de Dezembro de 1978.
Além das artes plásticas, a arquitectura surgiu também neste circuito internacionalizante. Em 1983, o centro cultural Georges Pompidou mostrou aos parisienses, e aos franceses em geral, a experiência arquitectónica dos arquitectos portugueses que laboravam no longínquo território de Macau, na
exposição “Macao ao Jouer la Différence”113. Em 1985, a exposição “Desenhos de Arquitectura – Luiz
Cunha, Manuel Graça Dias, Troufa Real, Tomás Taveira”114 viajou para Espanha sendo exibida na
ARCO, em Madrid, e, no ano seguinte no Colégio de Arquitectos de Málaga.
No mesmo ano, a arquitectura de Portugal destacou-se e foi descoberta na Bienal de Paris, cuja primeira
edição fora em 1959. No núcleo expositivo em La Villette entre os escolhidos estavam Álvaro Siza
(moradia em Ovar), Eduardo Souto Moura (mercado municipal de Braga), Carrilho da Graça, Manuel
111 EXPRESSO, nº306, 9 Setembro 1978, p.18R.
112 Em 1979, Vostell seria alvo de uma completa retrospectiva na Galeria de Belém e na FCG (cf. EXPRESSO, nº306, 9 Setembro 1978, p.18R; EXPRESSO, nº308, 23 Setembro 1978, p.22R. e DIAS, F. S. & GONÇALVES, R. M. (1985), p.58).
113 Exposição apresentada de 20 Julho a 17 Outubro 1983, fruto de uma parceria entre o Governo de Macau e o Centro de Criação Industrial (CCI) do centro Georges Pompidou.
171
Vicente. José Daniel Santa-Rita e João Maia Macedo)115. As Bienais de Paris de 1982 e de 1985 foram,
no que respeita à presença da arquitectura, momentos particulares pelo que revelaram nas suas intenções metodológicas. Na edição de 82, com o tema “A modernidade ou o espírito do tempo” estava presente uma postura evidente de oposição à exposição que, dois anos antes, consagrara a
presença do passado, a Strada Novíssima na Bienal de Veneza. Por seu lado, na edição de 85, com o
tema “Visto do interior ou a razão da arquitectura”, a mostra encerrava uma “assumida vontade
restauradora: afinal a arquitectura não é a aceitação do desregramento como pele comum de toda a contemporaneidade, a arquitectura tem uma razão, a razão da arquitectura”116. A presença de portugueses nesta edição da Bienal foi relevante pois nela também estiveram presentes nomes, e eventos, provocatórios que ainda
incendiavam a crítica arquitectónica, como, por exemplo, a exposição “Novos prazeres da Arquitectura”,
no núcleo expositivo em Beaubourg, com desenhos e maquetas de Venturi, Rossi, os Krier,, Moore
(mas sem nenhum ibérico) em que coabitaram “arquitecturas irónicas ou provocatórias (…); colagens revivalistas
de estilos do passado (…); hieratismos ou gigantismos de conotações “totalitárias” (…); arquitecturas pintadas e não construídas (…)”117.
Inversamente, o país abria-se à produção criada lá fora. Em 1981, os jardins da Gulbenkian acolheram um conjunto de obras de Henry Moore, na segunda exposição organizada pelo Centro de Arte Moderna. A presença da obra de Moore em Portugal foié um investimento considerável, a exposição demonstrou um processo, apresentou uma poética e revelou a sabedoria de um escultor que recusava
as teorias estéticas da ruptura e privilegiava a comunhão com a natureza, com o mundo, com o todo118.
A arquitectura de outras realidades ganhava espaço no circuito expositivo nacional. Assim, em 1985, foi possível conhecer os arquitectos franceses Christian de Portzamparc, Henri Gaudin e Henri Ciriani ou o caso de Barcelona, através da intervenção de Juan Busquets.
A exposição “3 arquitectos franceses – Christian de Portzamparc, Henri Gaudin, Henri Ciriani”119,
visitável na SNBA, em Lisboa, durante o mês de Junho e promovida pelos serviços culturais da Embaixada de França e pelo Instituto Francês de Arquitectura, chegou às páginas dos jornais e
provocou reacções opostas. José Manuel Fernandes120 considerou que a exposição, para além de bem
organizada e rica em conteúdos, fora uma boa representação da nova situação da arquitectura gaulesa. Fugindo a uma pesada herança dos anos 50 e 60, que desembocara no crescente número de projectos
115 DIAS, M.G., “Descobertos mais portugueses na Bienal de Paris” in JORNAL DE LETRAS, nº147, 30 Abril a 6 Maio 1985, p.9 e PORTAS, N., “Dois portugueses no panorama da arquitectura actual” in JORNAL DE LETRAS, nº145, 23 a 29 Abril 1985, p.12.
116 SILVA, R. H., “A arquitectura nas bienais de 1982 e 1985” in JORNAL DE LETRAS, nº147, 30 Abril a 6 Maio 1985, p.8.
117 PORTAS, N., “Dois portugueses no panorama da arquitectura actual” in JORNAL DE LETRAS, nº145, 23 a 29 Abril 1985, p.12.
118 Cf. PORFÍRIO, J. L. “Moore: da modernidade à sabedoria” in EXPRESSO, nº466, 3 Outubro 1981, pp26R-27R.
119 Esta exposição estava integrada num ciclo de manifestações, no campo da arquitectura e da comunicação, organizadas pelo Bureaux d’Action Linguistique da Embaixada de França, que estavam enquadradas pelo tema “Architectures Nouvelles et Urbanisme”. Os vários eventos distribuíram-se pelo Instituto Franco-Português, pela Associação dos Arquitectos – Sociedade Nacional de Belas Artes e pela Faculdade de Arquitectura, e tinham como lema demonstrar a dimensão da força e interesse da arquitectura francesa como sistema cultural em França (cf. FERNANDES, J. M., “3 Arquitectos Franceses em Portugal” in ARQUITECTURA PORTUGUESA, nº2, Julho/Agosto 1985, p.75).
172
com má qualidade média, falta de capacidade inventiva e protagonizada pelo novo-riquismo, o país apostava agora numa inversão, na aposta no investimento em arquitectura. Centrado na capital, o investimento das autoridades (públicas e privadas) percebia que a arquitectura poderia um dos veículos ideais para transmitir uma imagem renovada. Como primeiro indício, a inauguração do centro Georges Pompidou onde, num país tradicionalmente considerado avesso a atrevimentos estrangeiros, se permitira a contribuição estrangeira com uma proposta que pretendia explorar linguagens arquitectónicas renovadoras. Os três arquitectos franceses apresentados em Lisboa, Portzamparc, Gaudin e Ciriani, continuavam esse caminho. Paulo Varela Gomes, pelo contrário, considerou a
escolha destes nomes discutível se o objectivo era “expor uma amostragem do que se faz hoje em França”121.
Começou por criticar os textos que estes três arquitectos tinham escrito para a exposição “Architectures en France – modernité/post-modernité” (reproduzidos no catálogo da exposição em Lisboa), realizada em 1981 no Centre Georges Pompidou, em Paris, por oscilarem no intimismo entre o que pensavam e o que desenhavam. Em relação à exposição na SNBA, destacava Ciriani por se
afirmar pela arquitectura das “barras e torres, num construtivismo (...) optimisticamente modernista”122 que lhe
parecia interessante. Os outros não se decidiam entre o simbólico e o funcional, as suas formas eram esteticamente tímidas e corriam o risco de resvalar para o utilitarismo banal. Enquanto que Gaudin
reflectia na sua obra sobre “lugares de encontro de ângulos inesperados”123, Portzamparc apresentava pedaços
soltos de vocabulário pós-moderno misturado com elementos de classicismo free-style. Discordava de
Portzamparc quando este afirmava que é do espaço que brotava o saber, que no princípio não estava o verbo, mas o espaço. A questão era que, por se tratar aqui de uma exposição de arquitectura em que se pretendia uma visão global, até que ponto deveria o desejo de reentrada na história do real, a procura do regresso ao sentir, ser a verdadeira aporia da arquitectura pós-moderna.
Não esquecendo que “(…) jamais serão concretizáveis exposições de arquitectura suficientemente convincentes para se
poderem substituir à experiência efectiva de percorrer um edifício no seu espaço interior ou de o olhar no seu relacionamento com a paisagem envolvente”124, o certo é que elas terão uma função a desempenhar na história da arquitectura. Seja pela divulgação de ideias, projectos, discursos, obras de outros, seja pelo impacto que terão no público receptor. Público que tanto é o público geral como o fruidor/criador de nova(s)/outra(s) obra(s), no caso, os arquitectos.
4.4 | Habitação
Como se referiu, o sector da habitação em Portugal padecia, nos anos 70, de carências acentuadas pelos fenómenos sociais ocorridos nas décadas de 50 e 60. A migração da população para o litoral
121 GOMES. P. V. “Arquitectura, soberba, catástrofe: a propósito de “3 Arquitectos Franceses”” in JORNAL DE LETRAS, nº154, 18-24 Junho 1985, p.10.
122 Ibidem.
123 Ibidem.
173
urbano resultou, de um modo geral, na degradação do parque construído. Nas zonas rurais, o abandono da população correspondeu ao envelhecimento e degradação das estruturas construídas e a uma fraca capacidade reivindicativa (no sentido) de obter fundos para salvaguarda da infraestruturação básica (em especial a rede de águas e esgotos e a rede eléctrica). Nas cidades, a chegada em massa de cada vez mais pessoas, resultou no aumento no número de desalojados e na concentração de cerca de
¼ da população urbana125 em habitações degradadas, bairros de lata, ilhas ou fogos sobrelotados. A
acompanhar esta situação, o investimento público no sector era manifestamente parco e insuficiente.
A revolução abriu um campo de expectativa para, finalmente, se conseguir resolver este problema. A nível
político, os três D do MFA – descolonizar, democratizar, desenvolver –, enquadraram a acção: a
Habitação inseria-se tanto no desenvolvimento como na democratização. No entanto, para lá do clima reivindicativo que pairava no país nos primeiros momentos, longe de se vislumbrar uma solução, questões particulares, decorrentes da evolução da situação política, vieram ainda agravar a situação. A descolonização, por exemplo, acarretou um fenómeno que viria a ser determinante para a reconfiguração social em Portugal continental: o regresso em massa de cidadãos portugueses residentes nas ex-colónias, os retornados. Este foi o maior e mais rápido êxodo populacional na história nacional
recente, e obrigou à integração económica e social de mais de 500 mil pessoas126. Por integração, refere-se
um conceito que deveria enfrentar e, rapidamente, conseguir resolver todos os problemas decorrentes deste afluxo populacional. Os principais foram, decerto, o emprego e a habitação: elaborou-se um programa de apoio financeiro e de crédito bonificado a novos projectos económicos e à construção de habitação; facilitou-se aos retornados a integração progressiva de prestações específicas de acção social no regime normal de segurança social do país.
“Os conflitos urbanos, desencadeados no pós 25 de Abril de 1974, que geraram importantes processos reivindicativos e se foram articulando com outros movimentos sociais, mediados pela alteração de conjuntura política ocorrida em Portugal, modificaram – sabe-se agora que provisoriamente – a lógica de funcionamento da estrutura urbana resultante da manifestação da correlação de forças entre diferentes e contraditórios interesses. Durante um certo tempo foram alteradas, ou melhor, suspensas, aquelas regras”127.
125 VARA, A. (1994), p.346.
126 Na sequência da descolonização e do processo de independência das ex-colónias fixaram-se em Portugal famílias brancas, negras, mulatas e outras (por exemplo, de origem indiana, especialmente provenientes de Moçambique onde havia uma comunidade indiana com bastante expressão), oriundas sobretudo de Angola e Moçambique, que optaram por manter a cidadania portuguesa e vir viver para o território europeu. O seu regresso foi também motivado pelo despoletar de conflitos internos no Ultramar, que, em muitos casos, desembocaram em guerra civil, com a consequente insegurança, em especial no que toca à população branca. A integração económica e social deste contingente não foi pacífica e nem a criação do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN), em Março de 1975, conseguiu resolver os problemas provocados por este afluxo. Descontentes com os critérios de integração preconizados, os retornados levam a cabo uma série de acções reivindicativas como, por exemplo, a ocupação do Banco de Angola, uma concentração junto à Assembleia da República e a ocupação de hotéis em Lisboa (cf. COSTA, F. (1999), p.589).
175
As alianças que o movimento popular dos moradores estabeleceu, e que atingiram sectores periféricos do Estado (por exemplo, o SAAL), possibilitaram aos técnicos uma intervenção activa na elaboração de propostas para o vazio criado entre a esperança de uma nova lógica e a sua anterior fixação em
termos de Plano. Álvaro Siza refereia-se à situação dizendo: “Depois do 25 de Abril conseguimos intervir no
interior de um movimento de transformação muito importante. Não se tratava de um problema de mudança de método ou de pensamento, significava ter a possibilidade de realizar um trabalho prático com toda a riqueza que pode ter o contacto quotidiano com uma realidade em contínua transformação. Não fomos nós que mudámos, mas as condições do nosso trabalho.”128. E, de facto, dias depois da Revolução deram-se as primeiras ocupações de casas.129
Constituída a entidade responsável pelo sector da habitação em Portugal, o Fundo de Fomento à Habitação (FFH), desenvolveram-se uma série de programas, com carácter de urgência, no intuito de resolver as carências no sector, por exemplo: o apoio generalizado à actividade cooperativa na habitação, a intensificação dos programas de alojamento em curso, o Programa de Recuperação de
Imóveis Degradados (PRID)130 e o Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL). O direito à habitação
ficaráia consagrado, a 2 de Abril de 1976, no artigo 65 da Constituição da República Portuguesa onde
se declarava que “Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em
condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar”131.