• Nenhum resultado encontrado

O caso paradigmático da intervenção na Casa dos Bicos

No documento 74-86 (páginas 194-199)

Todavia, o que, sem dúvida, permaneceu para a história da arquitectura portuguesa, como caso mais

interessante, e polémico, da XVII, foi a intervenção na Casa dos Bicos.

A recuperação do edifício, feita por uma equipa coordenada por José Santa-Rita e Manuel Vicente179,

punha questões de vária ordem. O prédio correspondia a um edifício de habitação, mandado erigir por Brás de Albuquerque, que fora destruído pelo terramoto de Lisboa de 1755. Nos dois séculos

seguintes, reduzido apenas a dois pisos dos quatro iniciais180, o seu uso fora inconstante, a sua

reconstrução nunca fora resolvida e o seu aproveitamento fizera-se ao sabor das necessidades.

A hipótese de fazer uma reconstrução que replicasse o edifício inicial fora descartada, pois os elementos originais encontrados eram insuficientes para que tal pudesse ser feito de forma séria e credível. A equipa projectista optou então por uma ideia de projecto assente na resolução das omissões da fachada, baseado na investigação da arquitectura civil da época e no levantamento e análise

comparativa da iconografia do local, que permitisse propor uma “collage ideal do nosso quinhentos, ponto de

encontro de uma certa memória da “idade do ouro”, feito objecto de fruição pública e quotidiana181. Para o efeito, à equipa de arquitectos juntaram-se António Marques Miguel, responsável pelo desenho de vãos da fachada sul, Alberto Oliveira, responsável pelo arranjo dos espaços exteriores, e Hélder Carita responsável pelo levantamento arqueológico e histórico do edifício. Uma das primeiras descobertas foi o facto de muito possivelmente as cérceas e aberturas dos últimos pisos serem mais amplas que as dos pisos térreos, o que parecia ir ao encontro dos conceitos espaciais da época. Daqui se percebia a importância do trabalho de Marques Miguel, pois, uma vez estabelecida a métrica e o dimensionamento de vãos, restava a sua emolduração. A solução de projecto optou assim pela manutenção da unidade no paramento da fachada sul e pela refenestração numa reinterpretação da iconografia da época. O programa interior, foge no entanto, desta linha de conduta, não investigava os

177 FRANÇA, J.A. (2000), p.69.

178 Cf. CARVALHO, P. T., “Ser ou não ser a exposição do século…” in JORNAL DE LETRAS, nº68, 27 Setembro a 10 Outubro 1983, pp.10-11.

179 Na qual também trabalharam João Maia Macedo, Raquel Cunha Ferreira e José Caldeira.

180 Segundo um painel de azulejos que retratava a frente ribeirinha antes do terramoto de 1755, onde se inseria a Casa dos Bicos, e demais iconografia da época.

193

parâmetros da arquitectura civil residencial do século XVI e adaptava-se a um programa expositivo182

em função de uma escadaria longitudinal que configurava galerias. Segundo os autores “a escada é um

facto forte. Deliberadamente excessiva – pelo menos na aparência –, celebrando outros excessos em que a componente surreal da poética peninsular tem sido sempre fértil183, no fim do percurso marcado pela escada, atingir-se-ia o nível mais elevado do edifício, o sótão, e, daí, poder-se-ia simultaneamente ter a percepção dos limites físicos da Casa dos Bicos e percepcionar a concepção interior da obra na sua totalidade.

O objectivo era ambicioso: pretendia-se que a Casa dos Bicos fosse uma afirmação da arquitectura nacional. Mas, cingindo-nos à cultura e crítica arquitectónica do momento, ambicionava-se ainda criar

um marco definitivo e credível da arquitectura pós-moderna em Portugal184.

A intervenção neste edifício provocou reacções incendiadas. Ainda antes da sua inauguração, já José

Manuel Fernandes185 referia o valor simbólico da Casa dos Bicos, que os autores do projecto

consideravam pertencer à memória afectiva colectiva da cidade ribeirinha, e apontava que o cerne da questão estava no modo como se deveria fazer a recuperação. Dizia ainda que num debate entre especialistas, realizado em Setembro de 1982, a opinião geral fora a de que a intervenção nem chegava a ser polémica, era simplesmente criminosa. Os arqueólogos, por exemplo, criticavam que se tivesse ignorado liminarmente um património que se descobrira aquando da preparação dos terrenos para as obras e que indiciava ser de valor inestimável. Para eles tal acontecimento fora um salto negativo estonteantemente grande na balança dos ganhos e perdas e não aceitavam uma recuperação espectacular, mas não contextualizada, dos vestígios arqueológicos encontrados. Os projectistas

defendiam-se afirmando que “nunca em Lisboa se fez uma obra no tecido histórico com tanto cuidado186.

182 A exposição exibida na Casa dos Bicos, “A dinastia de Avis e a Europa – a vida quotidiana no Paço”, comissariada por Vítor Pavão dos Santos alojou-se nos pisos 2, 3 e 4 do edifício. O piso térreo albergou notas sobre a arqueologia e história do edifício, à responsabilidade de Hélder Carita. O projecto da exposição, coordenado por José Santa-Rita e Manuel Vicente, foi dirigido por Fernando Lemos que orientou a equipa de Raquel Cunha Ferreira, Guilhermina Lemos, José Caldeira e Isabel Santa-Rita.

183 ARQUITECTURA, 151, Janeiro / Fevereiro / Março 1983, p.71.

184 Cf. GOMES, P.V. (1995) A Arquitectura nos últimos vinte e cinco anos. Dir. de PEREIRA, P., pp.547-578.

185 Cf. FERNANDES, J. M., “A metamorfose da Casa dos Bicos” in EXPRESSO, nº520, 16 Outubro 1982, pp32R-33R.

186 Manuel Vicente citado em FERNANDES, J. M., “A metamorfose da Casa dos Bicos” in EXPRESSO, nº520, 16 Outubro 1982, pp32R-33R.

194

Casa dos Bicos, Lisboa (Manuel Vicente, José Daniel Santa-Rita, 1981-83)

195

Graça Dias afirmava, em Maio de 1983, ser compreensível que o Movimento Moderno (esquivava-se a dizer nomes) se recusasse a admitir que fosse possível reconstruir uma fachada/imagem, impregnada de altíssimo valor simbólico na cidade e na cultura portuguesa, e que isso pudesse ser um acto artístico honesto e até inovador. Perante as dúvidas que o conceito também lhe provocara, via-se agora

obrigado a admitir ser o resultado irresistível: “a parede encrespada, finalmente com escala, o entremeado de bicos

introduzindo diagonais dinâmicas para todos os lados do olhar, a presença, entre o monumental e o urbano, do objecto agora alteado, (…) deixou de ser um curioso armazém de batatas, (…) é um diamante branco187. No geral o projecto fora cumprido, sendo um percurso sensível, recheado de múltiplas referências, uma pertinaz criação de um espaço-espectáculo, que conseguira substituir o prazer imediato pela fruição.

Mas tal tipo de posicionamento não era partilhado por todos. Sérgio Pessoa188 lamentava a perda da

ruína189, que representava a antítese do novo espaço-espectáculo. A decadente Casa dos Bicos pré-XVII representava uma faceta pouco heróica dos Descobrimentos, a arquitectura civil, a arquitectura que

representava o homem comum, o português que “arriscava a morte para fazer pela vida190, e aí residia o

seu principal e mais poético interesse. No fundo, de um monumento aos Descobrimentos criara-se um monumento ao pós-modernismo, o que seria moralmente discutível.

O Jornal dos Arquitectos convidou quatro arquitectos a visitarem os núcleos da XVII que tinham sido alvo de maior intervenção arquitectónica e a comentarem os resultados. É interessante observar os comentários de Vasco da Câmara Pestana, José Manuel Fernandes, Manuel Graça Dias e João Paciência em relação à Casa dos Bicos.

Vasco da Câmara Pestana191 começou por lamentar que a XVII exposição não tivesse conseguido criar

a festa, isto é, a recuperação do espaço público pelo imaginário colectivo. Considerou, no entanto, que a

Casa dos Bicos era justamente a excepção e que o risco da alteração na fachada dos bicos fora ganho.

Para ele, o conceito metodológico inerente ao projecto era o modo de reinterpretar dados e ensinamentos históricos à luz de uma tecnologia sofisticada, e o conceito filosófico era o modo de

conciliar a arquitectura de hoje com o ser monumental. Na concepção do interior, ao afastar-se de uma

suposta objectividade museológica conseguira provocar no fruidor uma viagem em busca de um tempo perdido e distante, não em quilómetros, mas no tempo, na memória e no espírito. Invocava portanto

187 DIAS, M.G., “A Casa dos Bicos: o diamante branco” in EXPRESSO, nº549, 7 Maio de 1983, pp.26R.

188 PESSOA, A.S., “A saga da Casa dos Bicos” in JORNAL DE LETRAS, nº75, 13-19 Dezembro 1983, p.21.

189 A este propósito parece interessante recuperar o texto de Aloïs Riegl já mencionado, quando este se refere aos valores comemorativos dos monumentos. O autor apresenta uma classificação em três ordens: valor idade, valor histórico e valor comemorativo intencional. O valor idade

revela-se pela aparência datada (incompletude, ausência de integralidade, tendência para dissolver forma e cor) que contrasta com as características dos artefactos novos. No novo, o valor idade não confere atmosfera mas no velho, os traços de destruição, as marcas da passagem do tempo pela acção da natureza sobre o construído, testemunham que o monumento foi criado algures no passado e o valor idade

reside precisamente na percepção óbvia de tais traços. A satisfação estética que uma ruína produz no fruidor, enquadra-se portanto no quadro valorativo introduzido pelo valor idade (RIEGL, A. (1998), pp.631-632).

190 PESSOA, A.S., “A saga da Casa dos Bicos” in JORNAL DE LETRAS, nº75, 13-19 Dezembro 1983, p.21.

191 PESTANA, V. C., “A Casa dos Bicos” in JORNAL DOS ARQUITECTOS, nº21/22/23, Outubro/Novembro/Dezembro 1983, pp.11-12

196

uma portugalidade histórica centrada na aventura, no medo, na solidão e no fascínio que estes conceitos exerciam no imaginário colectivo nacional, um território mental marcado pela obsessão da distância, da partida, da evasão e do esquecimento. Estas eram as paisagens para as quais o interior da Casa dos Bicos o remetia.

José Manuel Fernandes192 considerou que a intervenção na Casa dos Bicos renovava ao introduzir um

espaço arquitectónico e um espaço urbano envolvente no projecto e ao articular esses dois tipos de criações com a diversificação do tratamento das fachadas. A obra subvertia as relações presentes em intervenções paralelas, não era discreta, integrada ou coerente mas anunciava o atrevimento do Pós. Para ele na Casa dos Bicos conseguira-se um exemplo feliz de adaptação da investigação às novas

realidades, e concretizava citando o uso despudorado do pastiche sem receios nem preconceitos

historiográficos, a utilização irónica nas fachadas sul e norte partindo dos ambientes respectivos que a cidade fornecia à obra e não de uma suposta coerência interna do projecto, e a subversão de tal mistura linguística no desenhos dos vãos e caixilharias.

Ao contrário do que escrevera no jornal Expresso em Maio de 1983, Graça Dias193 exprimia no final do

ano, no Jornal dos Arquitectos, a opinião mais radical. Se a intervenção no exterior se podia considerar um

erro, a do interior seria um escândalo. A escada afunilada não tinha escala para o sítio, o revestimento a mármore e o enfiamento pelo espaço dentro remetia para cenários cinematográficos expressionistas.

As três galerias circundantes do buraco expressionista, cada uma de sua cor194, não construíam

nenhuma unidade visual o que deveria ter sido primordial. O único ponto positivo era a sinaléctica, mas quanto à intervenção arquitectónica, esta reduzia-se à complexificação desnecessária de um espaço exíguo e à criação de circuitos tortuosos – não havia conteúdo, só forma.

João Paciência195 lembrava que o pano envidraçado da fachada posterior que, em projecto, lhe suscitara

dúvidas, agora, depois de construído, nem sequer insólito lhe parecia – a leitura dessa fachada era afinal tangencial e o seu desenho fora bem conseguido pela contenção. No entanto, a intervenção no interior não lhe parecia tão bem conseguida. A ideia forte de uma escada ramificada ter-se-ia perdido e prevalecia a sensação labiríntica, a coerência entre espaço arquitectónico e espaço museológico não funcionava e, finalmente, a metáfora da escada em direcção ao céu não se lia, havia três projectos (escada + fachada + espaço de exposição envolvente da escada) cada um com resultados dificilmente sobreponíveis. Uma análise aprofundada do confronto entre um discurso especializado e dirigido e um

192 FERNANDES, J. M., “os 5 núcleos” in JORNAL DOS ARQUITECTOS, nº21/22/23, Outubro/Novembro/Dezembro 1983, pp.12-13

193 DIAS, M. G., “XVII – eis posições modernas” in JORNAL DOS ARQUITECTOS, nº21/22/23, Outubro/Novembro/Dezembro 1983, pp.14-15

194 Graça Dias espantava-se também com a opção cromática das três pequenas galerias que considerava, no mínimo, duvidosa. Uma era esverdeada para simbolizar a esperança, outra avermelhada para significar o auge e a última, azulada, teria a ver com o declínio. Para além de questionar esta simbologia, uma certeza tinha, as três cores não combinavam (cf. DIAS, M. G., “XVII – eis posições modernas” in JORNAL DOS ARQUITECTOS, nº21/22/23, Outubro/ Novembro/ Dezembro 1983, p.14).

195 PACIÊNCIA, J., “Notas à margem de três projectos” in JORNAL DOS ARQUITECTOS, nº21/22/23, Outubro/ Novembro/ Dezembro 1983, pp.16-17

197

discurso generalista e abrangente seria certamente, uma interessante linha de investigação a seguir, como se referiu na introdução deste trabalho. No caso da posição de Manuel Graça Dias em relação à intervenção na Casa dos Bicos, parece evidente uma ruptura discursiva que poderá, ou não, ter a ver com a consciência do público para quem se produz o discurso.

Feito o investimento nesta imagem de portugalidade, e usando o património para legitimar o

reconhecimento internacional, eram aguardadas as consequências. Uma exposição internacional, patrocinada pelo Conselho da Europa, dera decerto visibilidade ao país e, talvez o tivesse colocado na

agenda das organizações internacionais, com um eventual desbloquear de apoio financeiro. O facto foi que, no mesmo ano, surgiram dois exemplos ilustrativos do reconhecimento do património português por uma organização de referência, a UNESCO. A 20 de Julho, Angra do Heroísmo, após o processo de reconstrução desencadeado pelo terramoto de 1980, foi considerada património mundial. Em Évora, a 6 de Dezembro, a recuperação de casas degradadas no perímetro da muralha fernandina foi apoiada pela UNESCO e pelo Conselho da Europa.

No documento 74-86 (páginas 194-199)