As exposições de arquitectura, ou sobre a obra de arquitectos, passaram a incluir de forma mais consciente não só a reprodução da obra em si, mas também os elementos constitutivos do seu processo. Neste quadro, o desenho foi protagonista.
A galeria Cómicos58, fruto da iniciativa de Luís Serpa, pretendeu ser um projecto de intervenção no
espaço artístico português. Este projecto pretendeu abrir o sentido a uma nova cultura, apostando não em nomes consagrados (e portanto vendáveis) mas em propostas alternativas, criando-lhes assim um novo mercado. Neste espaço, além das artes plásticas, houve lugar para exposições de arquitectura,
uma prática até então rara em Portugal. Em 1985, foi inaugurada a exposição “Desenhos de arquitectura –
Luiz Cunha, Manuel Graça Dias, Troufa Real, Tomás Taveira”59 e, no mesmo ano, os desenhos destes
quatro arquitectos foram apresentados na ARCO60, em Madrid. Os autores exprimiam diversas
perspectivas de desenhar arquitectura, diversas concepções de comunicar, bem como áreas de formação
escolar e sensitiva desigual e contrastante, numa procura comum por uma nova sensibilidade
arquitectónica. Foi também na Cómicos que, em Novembro de 1985, Tomás Taveira inaugurou a
exposição/manifesto New Transfiguration61 onde apresentou uma instalação pontuada por elementos
cerâmicos da tradição portuguesa, alterando-os. Usou a ironia num auto-manifesto para uma arquitectura transformada e teve um óbvio intuito polémico.
58 A galeria Cómicos/Espaço Intermédia recuperou o nome do grupo de teatro que funcionara nas suas instalações, o grupo “Os Cómicos”. Foi criada em 1984 por Luís Serpa na sequência da exposição Depois do Modernismo (realizada entre 7 e 30 Janeiro de 1983) (cf. PINHARANDA, J., “Cómicos: muito perto dos artistas” in JORNAL DE LETRAS, nº89, 20 a 26 Março 1984, p.17).
59 Exposição realizada entre 8 de Maio e 1 de Junho de 1985 (cf. SERPA, L., “O autenticamente falso”, in ARQUITECTURA PORTUGUESA, nº4, Novembro/Dezembro 1985, pp.52-53).
60 ARCO (ARte COntemporánea) é uma Feira Internacional de Arte Contemporânea realizada todos os anos em Madrid com o objectivo de impulsionar o mercado da arte, através da amostragem de galerias de arte e da promoção do coleccionismo. Desde a primeira edição em 1981, propõe um programa expositivo representativo da produção artística mundial, contando com a presença de galerias, artistas, comissários e curadores na construção de uma rede que englobe as novas áreas criativas e os centros de produção artística (informação retirada do site oficial http://www.arco.ifema.es/ consultado em 12-12-2006).
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Transfiguration XVIII (Tomás Taveira, 1985), exposição na galeria Cómicos de 7 a 30 de Novembro de 1985 “Desenhos de Arquitectura”, exposição na galeria Cómicos de 8 de Maio a 1 de Junho de 1985
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A Galeria Cómicos albergou, na década de 80, uma série de exposições relacionadas com arquitectura62.
Tais exposições não se revestiam do carácter que se costuma associar a uma exposição de arquitectura:
ou seja, de divulgação da obra arquitectónica63. Pautavam-se antes por privilegiar a actividade paralela
de arquitectos (no caso do mobiliário ou de instalações) e a metodologia de projecto (no caso do desenho). Referindo-se às marcas identitárias que caracterizaram a produção artística dos anos 80, Luís
Serpa afirmava “na arquitectura, intervieram a paródia, a utilização da cor e de elementos classicizantes, inclusive
kitsch. As exposições de arquitectura na Galeria, (…) representaram uma linha excessivamente decorativista pós-moderna (…). Gostaria bastante de ter feito mais iniciativas no âmbito da arquitectura.”64. No entanto, Cómicos
não pretendia ser um espaço de tendência, pelo contrário, pretendia juntar artistas emergentes e artistas
estabelecidos, trazer ao país artistas estrangeiros contemporâneos conceituados, conjugar sistematicamente as áreas disciplinares da pintura, escultura, desenho, instalação, fotografia, vídeo,
design e arquitectura.
O próprio Serpa assumiu que a área da arquitectura foi justamente uma das que mais se colou a essa
imagem de tendência. Segundo ele, “A Galeria (…) rapidamente passou daquela euforia de alguns exemplos mais
vincadamente pós-modernos das exposições de arquitectura (…)”65. Lamentava porém que a esse momento
tivesse correspondido o desaparecimento progressivo da arquitectura do seu espaço “(…) faltou
nitidamente essa vertente internacional da arquitectura e do design que contrapusesse esta visão meramente decorativista que se fazia em Portugal nos anos 80. Coisa que veio a acontecer na programação em outras áreas, tanto na pintura como nas instalações ou na fotografia, principalmente.”66.
A consciência da autonomia e especificidade do desenho de arquitectura foi-se instalando nos meios
culturais portugueses. Em 1986, a Galeria de Arte do Casino Estoril albergou o I Salão Nacional de
Arquitectos/Artistas que expôs a obra (artística) de 44 arquitectos. Entre os presentes contaram-se Nadir Afonso, Fernando Lanhas, Álvaro Siza, Noronha da Costa, Manuel Graça Dias, Tomás Taveira e Natividade Correia. No entanto, os objectivos da exposição eram ambíguos e geraram polémica. A confusão entre as duas áreas e a ausência do desenho como elo de ligação entre Arquitectura e Artes Plásticas (e, particularmente, no caso da pintura) foi alvo de críticas. Noronha da Costa lamentava que
62 Exposições relacionadas com arquitectura (ou com arquitectos) exibidas na Cómicos entre 1984 e 1988: De 11 de Abril a 5 de Maio de 1984 – “Casa com Molduras”, Manuel Graça Dias
De 7 a 31 de Agosto de 1984 – “Jovens Arquitectos do Porto”
De 6 a 30 de Novembro de 1984 – “Móveis & Móveis”, José Caldeira e Manuel Graça Dias De 5 de Fevereiro a 2 de Março de 1985 – “Desenhos de Arquitectura”, Luiz Cunha
De 8 de Maio a 1 de Junho de 1985 – “Desenhos de Arquitectura”, Luiz Cunha, Manuel Graça Dias, Troufa Real, Tomás Taveira De 7 a 30 de Novembro de 1985 – “New Transfigurations”, Tomás Taveira
De 5 de Junho a 5 de Julho de 1986 – “Da Arquitectura Perdida”, Ana Paula Calheiros, Teresa Castro e José Soalheiro De 20 de Janeiro a 21 de Fevereiro de 1987 – “Da invenção dos templos e outras artes” de Amâncio Guedes De 14 de Janeiro a 20 de Fevereiro de 1988 – “3 Bocados”, Manuel Graça Dias
(informações retiradas do site da Galeria Luís Serpa, www.galerialuisserpa.com consultado em 11-05-2007).
63 Nesta galeria, a excepção terá sido talvez a exposição Jovens Arquitectos do Porto, que contou com a participação, entre outros de José Gigante, Carlos Prata, Adalberto Dias ou Eduardo Souto Moura.
64 Entrevista a Luís Serpa realizada por Sandra Vieira Jürgens, em 22 de Dezembro de 2006 (http://www.artecapital.net/entrevistas.php?entrevista=15&PHPSE consultado em 12-03-2007).
65 Ibidem.
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apenas ele e Tomás Taveira tivessem aproveitado a ocasião para destacar a arquitectura e citava o exemplo do desenho de Siza que não manifestou o seu olhar enquanto arquitecto. Lamentou-se ainda que este cruzamento das duas áreas estivesse muitas vezes relacionado com um elemento muito prosaico: a dificuldade de encontrar trabalho enquanto arquitecto. Neste lote encontravam-se os pintores que, por opção ou imposição, desistiram de ser arquitectos como Fernando Lanhas ou Carlos Calvet. Entre as abordagens presentes estavam duas linhas distintas: os que encaravam a arquitectura e as artes plásticas como áreas independentes e separadas; os que se interessavam pela relação entre as
duas áreas durante o processo criativo. Isto é, a dicotomia arquitectos que pintam e arquitectos que mostram
uma arquitectura pintada e desenhada. A Graça Dias interessava mais pensar nas fronteiras entre os dois
campos e no projecto enquanto acto gerador. Em relação à arquitectura dizia, “aqui está uma Arte que,
subsidiariamente, tem várias formas de aproximação; os arquitectos como artistas plásticos – ao limite, o arquitecto poderia mostrar uma fotografia da sua própria arquitectura”.67
Além desta exposição, Tomás Taveira esteve presente numa exposição individual de obras plásticas no Centro Comercial das Amoreiras. As obras eram plásticas, mas eram essencialmente constituídas por
imagens de arquitectura, o que remetia directamente para a visão pós-moderna que o autor subscrevia. Via-se como autor de imagens visuais, que se constituiam como símbolos. Para ele, Arquitectura era igual a mais símbolos e menos espaços de vida. Com esta postura considerava que cada trabalho se auto-justificava, na medida em que se encerrava na expressão da sua imagem. Não deixa de ser curioso que a exposição das suas imagens-símbolo decorresse num edifício-símbolo polemicamente por ele projectado.