Na imprensa, depois de o Expresso ter surgido a 6 de Janeiro de 1973, propondo-se “contribuir para que
se alcance em Portugal a liberdade de informação – liberdade de informar e de ser informado”, a era
democrática viu surgir um conjunto de conflitos profissionais e políticos, designadamente n’O Século e
no Jornal do Comércio, que marcaram a nova actualidade. Como foi referido, o jornal Expresso, fundado por Pinto Balsemão, não renegava as suas raízes políticas e, até 25 de Abril de 1974, foi uma voz da herança da Ala Liberal. Nas suas páginas, continuaram a encontrar eco os partidários de uma oposição moderada, situada entre o regime e a esquerda tradicional.
86 Perante a crise aberta no 2º Governo Provisório, o presidente Ramalho Eanes (1935-...) dissolveu-o e promoveu a formação de três governos provisórios (http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Governos/Governos_Provisorios/GP05/Composicao/ consultado em 25-05-2006).
(http://www.presidencia.pt/index.php?idc=13&idi=24 consultado em 25-05-2006)
87 As eleições realizadas em 5 de Outubro de 1980, ganhas pela Aliança Democrática (AD), com 45% dos votos, deram origem ao VI Governo Constitucional, que tomou posse a 3 de Janeiro de 1980, tendo como Primeiro-Ministro, Sá Carneiro. Com a morte de Sá Carneiro (1934-1980), tomou posse o VII Governo Constitucional, a 9 de Janeiro de 1981, tendo como Primeiro-Ministro, Francisco Pinto Balsemão (1937-...).
(http://eleicoes.cne.pt/cne2005/raster/index.cfm?dia=05&mes=10&ano=1980&eleicao=ar consultado em 25-05-2006) (http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Governos/Governos_Constitucionais/GC06/Composicao/ consultado em 25-05-2006) (http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Governos/Governos_Constitucionais/GC07/Composicao/ consultado em 25-05-2006)
88 As eleições realizadas em 25 de Abril de 1983, ganhas pelo Partido Socialista (PS), com 36% dos votos, deram origem ao IX Governo Constitucional, um governo de coligação entre o PS e o PPD (que obtivera 27% dos votos), que tomou posse a 9 de Junho de 1983, tendo, como Primeiro-Ministro, Mário Soares (1924-...) e Vice Primeiro-Ministro, Mota Pinto (1936-1985).
(http://eleicoes.cne.pt/cne2005/raster/index.cfm?dia=25&mes=04&ano=1983&eleicao=ar consultado em 25-05-2006) (http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Governos/Governos_Constitucionais/GC09/Composicao/ consultado em 25-05-2006)
89 Aníbal Cavaco Silva (1939-...) começou o ciclo de maioria absoluta com as eleições de 19 de Julho de 1987, em que o PSD obteve 50,1%, resultado reforçado nas eleições de 6 de Outubro de 1991 com 50,43%.
(http://eleicoes.cne.pt/cne2005/raster/index.cfm?dia=19&mes=07&ano=1987&eleicao=ar consultado em 25-05-2006) (http://eleicoes.cne.pt/cne2005/raster/index.cfm?dia=06&mes=10&ano=1991&eleicao=ar consultado em 25-05-2006)
90 As nacionalizações perderam espaço perante as privatizações do audiovisual, a estrutura do sector alterou-se com a emergência de pequenas e médias empresas e a consolidação de grupos empresariais multimédia, a Alta Autoridade para a Comunicação Social substituiu o Conselho da Comunicação Social e o Conselho de Imprensa, a estruturação do espírito de classe na comunicação levou à criação de novas hipóteses de formação o que levou ao aparecimento de novas gerações de profissionais. A formação superior nas áreas da comunicação social começou “(...) em finais do anos 70, (…) com a 1ª licenciatura em Comunicação Social na Universidade Nova de Lisboa (1979, com direcção de Adriano Duarte Rodrigues). Surgem também outras iniciativas no âmbito da formação como a criação do Centro de Formação de Jornalistas, CFJ, em 1983 com o objectivo de actualizar e aperfeiçoar os profissionais da informação. Em 1985 é fundada no Porto a Escola Superior de Jornalismo, e em 1986 o Centro de Formação de Jornalistas, Cenjor (...)” (MESQUITA, M. (1994), p.395).
39
Segundo Mário Mesquita, o jornalismo movia-se entre duas tendências: a demissão da função crítica que deveria ter e a luta pelo controlo dos meios de comunicação social (em especial depois de 28 de Setembro). O próprio presidente Ramalho Eanes diria mais tarde, que se tentara resolver a questão da
comunicação com modelos militares – explicar menos, impor mais –, e Mário Soares diria que as
intervenções na comunicação não passavam de tentativas de impor um modelo hegemónico91.
A nova Lei de Imprensa foi promulgada a 26 de Fevereiro de 1975. Após o 11 de Março surgiu uma radicalização à esquerda e, na sequência do processo de nacionalizações, parte da imprensa, que estava
na posse de privados, passou para o Estado. Só os vespertinos lisboetas República e Diário de Lisboa e o
diário portuense O Primeiro de Janeiro mantiveram o estatuto privado, num período de forte domínio dos
media por parte da esquerda, nomeadamente marxista.
Em Portugal repetiu-se uma tipologia que, também ela, e usando terminologia típica da época,
reproduzia a classe social dos leitores. Usando uma classificação proposta por Marshall McLuhan92, há
a referência e há o popular. A imprensa de referência distingue-se a vários níveis. Considera-se em
Portugal, que o Expresso, o Diário de Notícias e o Jornal se enquadram nesta ordem. Nos conteúdos,
privilegiam a política, a sociedade, a economia e a cultura. No género e no estilo, destacam a reflexão, comentários e estudos e um grafismo discreto e sóbrio. Em termos de públicos, têm por alvo a opinião pública dirigente e, deste modo, relacionam-se com os processos de decisão. Por oposição, a imprensa
popular, como o 24 Horas, o Correio da Manhã e o Tal & Qual, opta por temáticas desportivas, de
entretenimento e os ditos fait-divers, dirige-se à opinião pública comum, e o seu estilo aposta no
sensacionalismo.
Abriu-se espaço para novas tipologias na imprensa. Por exemplo, em Junho de 1978, era publicado o
primeiro número do semanário Sete, um periódico cultural que pressupunha a existência de um
conjunto de acontecimentos culturais significativo e de um público para eles – trata-se de uma
aproximação à cultura de massas93, uma nova cultura assente no conceito de espectáculo e na fabricação
de êxitos.
Até Abril de 74, o espaço radiofónico era dividido entre o Estado e a Igreja situação que se prolongará
após a Revolução94. Apesar do domínio partilhado entre Estado e Igreja, a verdade é que entre 74 e 86
emergiu um fenómeno que alterou esta hegemonia aparentemente sólida: as estações legais assumiram
91 Cf. CÁDIMA, F. R. (2002), p.190.
92 MESQUITA, M. & REBELO, J. (org.) (1994), p.20.
93 Cf. DIONÍSIO, E. (1994), p.470.
94 As nacionalizações de 2 de Dezembro de 1975 permitiram a criação da Radiodifusão Portuguesa (RDP), vindo juntar à Emissora Nacional estações que cobrirão a totalidade do território, como os recém-estatizados: Rádio Clube Português, Emissores Associados de Lisboa, Emissores do Norte Reunidos e Rádio Ribatejo. Por seu lado, a católica Rádio Renascença viu aumentar a sua cobertura (rede FM, de onda curta e reforço da onda média). (Cf. BARRETO, A. & MÓNICA, M. F. (2001) Dicionário de História de Portugal, volume IX, entrada “rádio”, p.201-202; e cf. BRITO, J. M. B. & ROSAS, F. (1996) Dicionário de História do Estado Novo: volume II (M/Z), entradas ‘rádio’, pp.809-811; ‘rádios clandestinas’, p.811).
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um carácter cada vez mais regional, e até local; o panorama dominante começou a ser de coexistência
das estações legais com outras, fruto de iniciativa privada – as rádios-pirata95. Depois da adesão à
Comunidade Europeia, a Lei da Rádio seria promulgada, em 1988, abrindo a possibilidade de licenciamento a estas estações que, durante quase toda a década de 80, funcionaram ilegalmente e contribuíram para alteração de um cenário de modelos, formas e conteúdos radiofónicos com um longo passado.
No âmbito do serviço público de radiodifusão, na modalidade de televisão, as emissões regulares, a preto e
branco96, tinham sido iniciadas97 em Portugal a 7 de Março de 1957 (em directo do estúdio do
Lumiar98). As emissões foram alargadas com a criação de um segundo canal, denominado 2º Programa
(que apenas repetia programas emitidos no 1º) em 25 de Dezembro de 1968 e, em 1972, estenderam-se aos Açores e à Madeira. Esta situação, em que apenas existiam dois canais estatais nacionais,
prolongar-se-ia até aos anos 80.99
A pressão no sentido de permitir o acesso de operadores privados começou a acentuar-se na década de
80, mas só depois da adesão à União Europeia100, e já com o espaço televisivo internacionalizado, se
criaram condições socio-políticas favoráveis à televisão privada. Porquê? Novos factores tornaram tal medida inevitável. A expansão da televisão via satélite, através de antenas parabólicas; grande parte do país acedia aos canais da televisão espanhola, sobretudo na zona raiana; a progressiva internacionalização do espaço televisivo; o rápido desenvolvimento de novas tecnologias que
inviabilizava o fechamento; o exemplo da situação multicanais na maioria dos países da CEE.
O papel da televisão é amplamente reconhecido, a facilidade e rapidez com que se imiscui na orgânica doméstica contribuiu desde cedo, ainda em tempos de totalitarismo, para a corrosão de uma autarcia cultural imposta e para a evolução das mentalidades. Depois da revolução e da implantação democrática, aquando da preparação para a europeização, a situação socio-cultural da sociedade portuguesa, exposta progressivamente à internacionalização da comunicação, contribuiu para desbloquear o acesso dos operadores privados ao espaço televisivo.
95 Os pedidos de licenciamento começaram em 1976, as emissões não autorizadas em 1979, e a “explosão” de emissões radiofónicas dá-se sobretudo a partir de 82 com as chamadas rádio-piratas (Cf. MESQUITA, M. (1994), pp.390-391).
96 A emissão a cores chegará a 7 de Março de 1980, com o 17º Festival da Canção, e restringindo-se ao território continental.
97 O impulsionador governativo da implantação dum serviço de radio-televisão fora Marcelo Caetano (1906-1980), que era sensível à importância de uma opinião pública que servisse de suporte ao regime e via aqui uma arma para a sua defesa. Seria também a televisão que, neste caso, reflectiriu o impasse político da sua presidência: nas Conversas em Família que tinha regularmente com o povo português através da RTP, a continuidade começou a sobrepor-se à renovação, era o fim anunciado da Primavera Marcelista.
98 As primeiras emissões foram na Feira Popular de Lisboa, no recinto de Palhavã, onde hoje se encontra a Fundação Gulbenkian (Cf. REIS, A. (1990.b), p.203).
99 Cf. BARRETO, A. & MÓNICA, M. F. (2001) Dicionário de História de Portugal, volume IX, entrada ‘Radiotelevisão Portuguesa (RTP)’, pp.204-206 e cf. BRITO, J. M. B. & ROSAS, F. (1996) Dicionário de História do Estado Novo: volume II (M/Z), entrada ‘televisão’, pp.970-971.
100 Com a promulgação da Lei da Televisão, em 30 de Setembro de 1989, foi atribuída a concessão de dois canais a operadores privados: a Sociedade Independente de Comunicação (SIC) iniciou a sua emissão a 6 de Outubro de 1992; a Televisão Independente (TVI/Quatro) foi lançada a 20 de Fevereiro de 1993. Um ano depois, em 1994, começou o processo de implantação da TV Cabo. No aproximar o milénio o panorama televisivo era já diferente: 4 canais nacionais (2 públicos + 2 privados), televisão via satélite e televisão por cabo.
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Numa fase inicial, os conteúdos começaram por mostrar um conjunto de novidades culturais e políticas, em programas que pretendiam suscitar o debate democrático emergente. Esta tendência confirmou-se pelo importante contributo das cooperativas de cinema, que produziram um significativo espólio documental sobre as mais diversas actividades do quotidiano português dos anos da revolução, sobretudo no período 1975-1977. No entanto, o esfriar do espírito revolucionário, esbateu este
aparente boom de produção de conteúdos culturais com intenções pedagógicas e politizantes, sendo
substituído por conteúdos associados ao entretenimento. Paradoxalmente, na chegada dos anos 80, o
acesso a práticas culturais diversas sofreu uma inflexão negativa significativa101. Como exemplo curioso
da mudança de costumes, mentalidades, bem como de gostos, refira-se o enorme sucesso, em termos mediáticos genéricos, da telenovela. Este tipo de programa, que emergiu no final do PREC, estreou-se em Portugal a 16 de Maio de 1977, com uma adaptação da obra do escritor brasileiro Jorge Amado,
Gabriela102.
A democratização/descentralização cultural foi, portanto, marcada por duas instituições: a Gulbenkian,
na cultura de elite, e a televisão, na de massas103. A que se adita a diversificação de novidades tecnológicas
– e nestes três vectores assentou a base da transformação de produção, linguagens e consumos culturais. Na viragem para os anos 80, os meios de comunicação social eram vistos como questão
importante. A geração de protagonistas, a intelligentsia, nomeadamente cultural/artística, assumiu a
necessidade de conquistar espaço e visibilidade. E, para o fazer, elegeu duas vias: a comunicação social e o cosmopolitismo. A vida urbana, a conquista da cidade, acompanhou a evolução social: com a mudança do interior para o litoral e a opção pela vida urbana, Portugal passou por uma transformação radical. Tal conquista originou novos comportamentos em relação ao corpo, à imagem e à interacção
entre as pessoas104. Comportamentos fundamentais para a época – a afirmação do afastamento em
relação ao período revolucionário e a emergência de novas gerações marcadas por um corpus de valores
diverso.
101 Se tomarmos como exemplo o caso do cinema, verificou-se um acentuado decréscimo de espectadores:
1975 – 42 milhões 1977 – 39 milhões 1978 – 34 milhões 1979 – 32 milhões 1980 – 30 milhões 1985 – 19 milhões 1990 – 10 milhões (Cf. CÁDIMA, F. R. (2002), p.194).
102 O sucesso da telenovela brasileira originou a produção de novelas portuguesas na década seguinte: 1982 – Vila Faia (realizador: Nuno Teixeira, autores: Nicolau Breyner e Thilo Krassman,, produtora: Edipim) 1983 – Origens (realização: Nicolau Breyner, autores: Nicolau Breyner e Thilo Krassman, produtora: Edipim) 1985 – Chuva na Areia (realização: Nuno Teixeira,, autores: Luís de Sttau Monteiro, produtora: Edipim)
1987 – Palavras Cruzadas (realização: Nuno Teixeira,, autores: Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães, produtora: Atlântida) 1988 – Passerelle (realização: Nuno Teixeira,,, autores: Ana Zanatti e Rosa Lobato Faria, produtora: Edipim)
(Cf. CÁDIMA, F. R. (2002), p.194).
103 Cf. DIONÍSIO, E. (1994), p.443.
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As revistas de arquitectura são habitantes vaidosos e incómodos dessas pequenas cidades de palavras e de imagens que são as nossas bibliotecas. Quem as compra, guarda, lê e relê, sequencia em filas nas prateleiras tem, muito a dizer sobre o assunto. Se as revistas literárias têm quase todas o mesmo tamanho e se vestem de cinzento, as revistas de arte e de arquitectura vestem-se à moda; preferem a cor e a imagem e têm a necessidade de mudar frequentemente. E, como trocar de argumentos e de módulos tipográficos não é suficiente, muitas vezes mudam também de dimensões, de “formato”: impõem-se a dietas rigorosas ou abandonam-se alegremente aos prazeres da grande dimensão. Ou melhor, em vez de mudar de aspecto, mudam de director, ou mudam mesmo os dois. Às vezes é o director que emigra de revista em revista, e duas revistas, aparentemente diferentes, acabam por ter a mesma identidade (…). A identidade essencial e formal das revistas de arquitectura, as suas mudanças de orientação, as suas aventuras editoriais, constituem um capítulo fundamental da história da arquitectura. Não pretendemos fazê-lo aqui; é uma tarefa séria e difícil (…). Nos últimos dez anos do século XIX, as revistas de arquitectura ainda tinham um tom profissional, de crónica e uma apresentação modesta, quase burocrática. The Builders em Inglaterra, Deutsche Bauzeitung na Alemanha, a Revue Générale de l’Architecture et des Travaux Publics em França, são exemplos típicos deste género estritamente reservado aos especialistas que preferiam os formatos de grandes e médias dimensões que permitiam reproduzir os desenhos técnicos sem reduzir a legibilidade.
O vento da modernidade chega atrasado à imprensa arquitectónica mas produz uma transmigração significativa. Sob o signo de l’art dans tout, as revistas de arte começam a interessar-se por arquitectura enquanto que as “artes decorativas” tornam-se o núcleo central no debate da renovação da cultura visual enquanto expressão directa do estilo e do espírito do tempo. L’art Moderne, fundada em 1881, é o cadinho do grupo dos Vinte, a tribuna de Van de Velde que publica os seus desenhos na minúscula e muito elegante revista literária Van nu en Straks. Em Inglaterra, Macmurdo publica, de 1884 a 1893, The Hobby Horse, uma revista em que a arquitectura tem uma importância mínima. Em 1893, surge The Studio que acompanhará, solidamente, todas as vicissitudes da modernidade. É o modelo dominante que uma infinidade de outras revistas europeias e americanas copiarão.
43 2 | Arquitectura e Imprensa
Com o período revolucionário e o subsequente caminho democrático, o papel dos meios de
comunicação social no país, sofreu alterações intrínsecas profundas. Dos media nas suas diferentes e
variadas expressões. Ou seja, a expressão dos meios de comunicação é particularmente relevante para compreender a actividade criativa (no seio da qual se insere a arquitectura) especialmente porque narra aspectos que a envolvem e que habitualmente são descurados pela história como, por exemplo, os conflitos e polémicas que envolvem a prática, ou a relação com os contextos específicos.
Aliás, é precisamente nos media que muitas vezes os conflitos, mais ou menos simbólicos, começam
por se insinuar, basta lembrar questões como a luta pelo reconhecimento e a divulgação de ideias e de
expressões individuais. Além disso, os media são veículo de transmissão de ideias e de práticas, o que os
transforma num dispositivo de socialização, de integração social e de reprodução cultural. Tais características foram enfatizadas e sobrelevadas no movimento pós-moderno.
Afigura-se pois importante estudar o modo como o pós-modernismo influenciou o fenómeno
mediático em geral. A multiplicação e democratização dos media que é típica deste período, fez com
que todas as actividades recebessem uma nova atenção e surgisse um público interessado em conhecê-las, no sentido de se gerar um fenómeno de sedução de massas em que qualquer bem é (um) consumível e, consequentemente, necessita do reconhecimento e da aceitação do público. Este fenómeno gera por um lado, uma grande apetência para a interactividade cultural ao favorecer o conhecimento de novas realidades e, por outro, um mimetismo comportamental exacerbado por outros fenómenos que entretanto se expandiram como o culto da imagem e a moda. A proliferação de imagens com conteúdos arquitectónicos mostra que a arquitectura ganhava uma nova presença perante a opinião pública.
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“A primeira maneira de ver o que se contrói no mundo contemporâneo é (…) a da história da arquitectura, na medida em que a compreendamos ainda tradição da história da arte, mais que na das ciências sociais. Ora, o que se dá a ver aos especialistas na óptica desta tradição são objectos disseminados, aqui e ali, num espaço social que parecem já não estar em condições de moldar ou de estruturar significamente, e ao qual de resto não parecem já senão marginalmente pertencer; apresentam-se como esculturas destinadas a ser visitadas, olhadas e fotografadas, mais que habitadas. O espaço parece ter-se tornado para a arquitectura uma espécie de museu esparso, onde a obra, pela sua própria presença, remete antes de mais para um acto já passado e para o comentário que, só ele, está em condições de fazer reviver a intenção: presença verbal. Antes de mais, o lugar privilegiado da arquitectura já não é a cidade, mas a Revista (…). O espaço simbólico que molda efectivamente segundo a sua intenção própria já não é o das cidades, subúrbios ouy campos que os habitantes do mundo moderno quotidianamente frequentam, mas são as paredes dos estúdios ou dos ateliers que as imagens daí extraídas decoram, e, mais ainda, os jogos do lápis e do espírito, as utopias da imaginação arquitectónica que renunciou a cumprir-se na sua matéria própria: projectos e esboços, investigações e discursos, posters e cibernética de discoteca projectada à escala mundial.”
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A mediatização da arquitectura incentivava a organização de eventos que envolvessem a actividade arquitectónica. Ou seja, começarem a desenvolver-se iniciativas de promoção do debate e da divulgação de ideias como, por exemplo, mostras e encontros de arquitectura ou congressos de arquitectos.
2.1 | As publicações periódicas estrangeiras mais influentes entre 74 e 86
O acesso aos periódicos estrangeiros de arquitectura era naturalmente de acesso pouco prático para um arquitecto português. Os motivos são óbvios, a dificuldade de ultrapassar as barreiras linguísticas, o custo elevado das subscrições das revistas estrangeiras tendo em conta o nível médio de vida em Portugal. O facto de nos referirmos a um período anterior à abertura de fronteiras no espaço Schengen, à banalização da Internet ou à massificação das viagens para a população, tornava a compra, ou acesso, a estas publicações, bastante mais restrito do que viria a ser no final do século.
Parece, no entanto, plausível considerar que houve duas vias principais de acesso à produção escrita estrangeira sobre arquitectura: um eixo mediterrânico e outro anglo-saxónico. No primeiro incluem-se a França, Itália e Espanha, naturalmente por afinidades linguísticas entre idiomas de raiz latina e por relações antigas estabelecidas com Portugal. No segundo, incluem-se o Reino Unido e os Estados Unidos da América não só por serem países cuja situação política, económica, social e cultural se confirmara ao longo do século XX, mas também pelo uso do idioma inglês que no final do século XX se alargou e impôs a nível mundial.