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Depois do Modernismo

No documento 74-86 (páginas 163-167)

De 7 a 30 de Janeiro, expôs-se, em Lisboa, o resultado de um ano de conversas e debates de um grupo, dinamizado por Luís Serpa, que se dedicara à discussão sistemática de problemáticas relacionadas com

o movimento pós-moderno. Depois do Modernismo apresentava-se com um formato, de certo modo,

inovador em que a exposição, que incluia secções de artes visuais, arquitectura e moda, se

acompanhava com eventos como momentos de teatro, dança e música, para além dos mais convencionais

colóquios e debates. Não existia, à partida um programa pré-definido. As participações limitaram-se à

presença de artistas nacionais (por motivos orçamentais) e o postulado do evento foi o formulário de cinco questões (às quais se pretendeu dar resposta, sabendo que estas seriam sempre inconclusivas).

Ter-se-ia a modernidade esgotado completamente? Até que ponto a energia da modernidade estava

reduzida a um conceito vazio que se utilizava para significar qualquer coisa, tudo e nada? Teria sentido procurar na realidade portuguesa formas de expressão artística que integrassem (num sentido lato da palavra) o conceito de pós-moderno? Eram possíveis pontes de entendimento entre campos diversos? Desses fragmentos recolhidos e reunidos seráia possível delinear, não uma tendência geral, mas um estado de espírito particular? Estariamos em algum lugar, quando tudo levava a crer que já não estavamos em parte alguma?

81 A revitalização insere-se no processo de internacionalização da arte portuguesa. Por exemplo, no final de 1978, realiza-se no Kensiington Palace, em Londres, a exposição “Modern Portuguese Tapestries”, a partir duma ideia do Ministério dos Negócios Estrangeiros, reiterada pela Embaixada de Portugal em Londres e apoiada tecnicamente pela Gulbenkian (cf. AMADO, T., “Da queda de um avião à originalidade…” in

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Síntese de artigos sobre a exposição “Depois do Modernismo”:

“Que modernidade?” in JORNAL DE LETRAS, nº49, 4 a 17 Janeiro 1983, p.32

Luís SERPA “Depois do Modernismo, ainda” in JORNAL DE LETRAS, nº49, 4 a 17 Janeiro 1983, p.32

José Manuel PEDREIRINHO, “Arquitectura portuguesa, modas e bordados” in JORNAL DE LETRAS, nº50, 18 a 31 Janeiro 1983, pp.14-15

José Manuel FERNANDES “A surpresa do Porto – uma arquitectura ausente” in JORNAL DE LETRAS, nº50, 18 a 31 Janeiro 1983, p.15

Manuel Graça DIAS “O biombo neura” in JORNAL DE LETRAS, nº50, 18 a 31 Janeiro 1983, p.15

Alexandre MELO “Da pose, com uma coluna de champagne” in JORNAL DE LETRAS, nº51, 1 a 14 Fevereiro 1983, p.19

José Manuel PEDREIRINHO “E depois de…?” in JORNAL DE LETRAS, nº51, 1 a 14 Fevereiro 1983, p.19

Bernardo Pinto de ALMEIDA “Depois do oportunismo” in JORNAL DE LETRAS, nº55, 29 Março a 11 Abril 1983, p.20

Francisco BELARD “Depois do Modernismo” in EXPRESSO, nº525, 20 Novembro 1982, p.32R

Eduardo Prado COELHO “Pós-moderno, o que é?” in EXPRESSO, nº525, 20 Novembro 1982, pp.32R-33R

163 Depois do Modernismo representou a inserção de Portugal na contemporaneidade artística, ou seja,

aconteceu paralelamente a um género de iniciativas curatoriais que ocorriam à época no mundo. Com

referência imediata a Lyotard (recorde-se que La Condition Postmoderne fora publicada quatro anos

antes), posicionou-se ideologicamente para além do vanguardismo e pôs os artistas no palco da oratória. Isto é, propôs um modelo alternativo que criticava as vanguardas e simultaneamente mostrava os artistas a olhar para um momento estético multidisciplinar. Como evento, tentou criar uma situação

social, de cidade, de vida urbana82 – marcou o princípio da institucionalização de uma

contemporaneidade portuguesa.

O comissário executivo do sector de arquitectura, Michel Alves Pereira83 defendia que insistir numa

ideia de arquitecto enquanto agente privilegiado de transformação com vista ao progresso era, não só

inglório, como inútil. A transformação seria um impulso inevitável que decorre e transcorreria sempre. E

mais, fá-lo-ia com ou sem arquitectos, mais à sua revelia que à sua disposição. Restaria portanto uma nova postura para os arquitectos. Postura mais real, modesta mas inevitável. A produção e utilização da

arquitectura teria de amparar-se na história, na continuidade, enfim na descriminalização das linguagens

históricas e na consequente reabilitação estilística. No texto que escreveu para o catálogo realçou o

espírito do novo tempo: “Do Arquitecto para os utentes há uma abertura de diálogo, as linguagens criadas tentam

aproximar-se das culturas não eruditas, comandar os esquecimentos, relacionar o acto de projectar com a realidade específica que preencherá e envolverá os futuros espaços arquitectónicos e urbanos. E mais, o prazer, a ironia, a Arquitectura como Arte, o não acreditar já nos grandes gestos mas misturar o pequeno e o grande, marcar as profundas contradições e ambiguidades do acto da produção da Arquitectura no contexto social, cultural e material em que é construída, é a possível posição pós-moderna. (…)Contra a pureza, contra a moral da limpeza, contra o anonimato que nos têm querido impor, pela sobrevivência das individualidades e das diferenças aparecem as diversas atitudes após a falência do Moderno e do Progresso.Só a isto se poderá chamar Pós-Moderno84.

Com uma representação de 44 elementos85, expondo individual ou colectivamente, a arquitectura teve

uma projecção inusual para o corrente nas exposições artísticas. Este facto permitiu um panorama abrangente da diversidade da produção da arquitectura de autor, que reflectisse posições individuais.

Foi acompanhada por dispositivos modernaços, dois diaporamas usando o novo meio audiovisual, num

82Aqui temos que referir o Frágil, o bar onde as pessoas se encontravam à noite, onde se falava e promovia um verdadeiro alargamento disciplinar” (ALMEIDA, B.P., BARROSO, E.P., FERNANDES, J. F., LOOCK, U., MELO, A. & PINTO, A. C. (2006), p.99).

83 Comissários executivos para os restantes sectores de Depois do Modernismo:

- António Cerveira Pinto para o sector Colóquios; - Leonel Moura para o sector Artes-Visuais; - Carlos Zíngaro para o sector Música; - Nuno Carinhas para o sector Moda.

Para além dos comissários executivos, a comissão consultiva era constituída por Helena Vasconcelos, João Vieira Caldas, José Manuel Fernandes, Julião Sarmento, Manuel Graça Dias, Ricardo Pais e Safira Serpa (cf. SERPA, L. (coord.) (1983), p.6).

84 PEREIRA, M. A.(1983), p.30.

85 Adalberto Tenreiro, Alberto de Sousa Oliveira, António Barreiros Ferreira, António Belém Lima, António Marques Miguel, Bernardo Daupiás Alves, Cândido Chuva Gomes, Carlos Lemonde de Macedo, Carlos Marques, Carlos Silva Lameiro, Carlos Travassos, E. Cardim Evangelista, Fernando Sanchez Salvador, João Carrilho da Graça, João Paciência, João Paulo Conceição, João Serra de Vasconcelos, João Vieira Caldas, Joaquim Braizinha, Jorge Farelo Pinto, José Charters Monteiro, José Santa-Rita, José Manuel Caldeira, José Manuel Fernandes, Júlio Teles Grilo, Luís Cunha, Luís Lourenço Teles, Luís Patrício Costa, Luís Sá Machado, Manuel Bastos, Manuel Graça Dias, Manuel Lacerda, Manuel Vicente, Margarida Grácio Nunes, Maria do Céu Barracas, Maria Manuel Godinho de Almeida, Michel Toussaint, Miguel Chalbert Santos, Teresa Almendra, Tomaz d’Eça Leal, Troufa Real, Vicente Bravo Ferreira, Victor Consiglieri e Victor Mestre.

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trabalho coordenado por José Manuel Fernandes: um sobre o percurso da arquitectura erudita em Portugal no século XX (até aos anos 60), outro sobre arquitecturas de não-arquitectos. O conjunto resultou na exibição de uma tendência geral de superação dos valores do modernismo e das vanguardas, e na constatação da pluralidade. Uma pluralidade onde se fez o ponto de situação da

actividade dos jovens arquitectos e onde coexistiam sementes de futuras oposições. Ou seja, “ao lado

dos que estavam no caminho daquilo que se poderia definir como uma radical recuperação de um sentido vanguardista na construção de espaços e formas, surgiam os que apelavam à reinvenção de imagens beaux-arts e da casa tradicional portuguesa86.

Apesar de estar prevista a colaboração de sete arquitectos do Porto87, esta acabou por não se

concretizar por desistência conjunta da delegação portuense. Fizeram-se, no entanto, representar no catálogo com um texto onde, ao invés de exibirem obras ou projectos (como os restantes participantes), dissertavam sobre o caminho da experiência passada da arquitectura portuguesa num

percurso que pressentiam ser “saudavelmente discordante da abordagem feita pelos organizadores (…)88. O

grupo dos sete arquitectos da ESBAP presenteou o catálogo com um texto de antítese. Num contexto

de afirmação da mistura, como ideal para os novos tempos, que teria sido violentamente arrancada da

realidade pelo advento cultural moderno, defenderam que tal pressuposto não poderia ser transposto para a realidade nacional. Assumindo uma posição teórica fundamentada na história da arquitectura portuguesa, seleccionaram criteriosamente exemplos que analisaram, demonstrando a tese que

enunciavam no início do texto: “a evolução da arquitectura portuguesa é marcada pela condição de cruzamento de

culturas e pautada pela alternância ou simultaneidade de estrangeiros nacionalizados e nacionais estrangeirados89. Foi exactamente esta formulação que demonstraram com os exemplos escolhidos, centrando-se objectivamente na história da arquitectura portuguesa, num trabalho de pesquisa histórica, indo buscar

casos ilustrativos do final do século XIX até à produção actual90.

Em Portugal, os arquitectos não viveram o mesmo contexto dos colegas que operavam na Europa em (re)construção do pós-guerra. A geração portuguesa coetânea, de que Távora era um representante,

teve outros pressupostos na base do seu trabalho, viveram na “tensão que se cria entre a necessidade cultural

de aceitar o movimento moderno e simultaneamente respeitar as raízes do nacionalismo como factor contrário ao regionalismo fascizante91. A evolução da arquitectura portuguesa caracterizava-se pela presença de elementos muito específicos que resultaram inevitavelmente num individualismo ecléctico (salvo as inevitáveis excepções). A crítica ao racionalismo e à ortodoxia do CIAM poderia incluir-se num outro

86 ALMEIDA, R. V. (1997), p.77.

87 Constituído por Adalberto Dias, Alcino Soutinho, Alexandre Alves Costa, Álvaro Siza, Domingos Tavares, Eduardo Souto Moura e Sérgio Fernandez.

88 FERNANDES, J. M., “A surpresa do Porto – uma arquitectura ausente” in JORNAL DE LETRAS, nº50, 18 a 31 Janeiro 1983, p.15.

89 SERPA, L. (coord.) (1983), p.115.

90 José Luís Monteiro, Raul Lino, Carlos Ramos, Cassiano Branco, Rogério de Azevedo, Januário Godinho, Cotinelli Telmo, Cristino da Silva, José Porto, Vieira da Costa, Fernando Távora, Nuno Teotónio Pereira, Bartolomeu Costa Cabral, Nuno Portas e Álvaro Siza.

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universo, o da contribuição crítica dos países periféricos onde as realidades nacionais assumiram uma importância moderadora, onde surgiu a sociologia na arquitectura. A partir dos anos 60, a história da arquitectura portuguesa mostrava a pesquisa sobre referências urbanas que completassem as raízes rurais da teorização sobre o espaço e a forma, o sentido de pesquisa da expressão da obra de autor, a valorização das realidades nacionais, os fenómenos sociais como componente de valorização do espaço e a integração da dimensão urbana no específico da arquitectura. Sendo apenas reflexo, e não campo, da luta de classes, à arquitectura caberia somente uma acção modeladora do espaço físico construído. Assim, não se poderia afirmar (como talvez o fizessem os pós-modernos) que, na arquitectura portuguesa, a depreciação da história e do legado do passado e, portanto, a abertura à destruição dos tecidos urbanos antigos, era da responsabilidade do processo cultural moderno, nem sequer que ocorreu de modo simultâneo e semelhante aos países europeus a braços com a reconstrução. Necessário sim, seria uma coerência disciplinar alargada, que assumisse a dimensão valorativa e crítica

da história. Tese que sinteticamente explicitavam no final do texto: “Eis porque a ruptura das máquinas

produtivas europeias pouco têm a ver com a nossa condição; eis porque o que produzimos não pode senão aparentemente ou artificialmente incluir-se nas mesmas coordenadas; eis porque a polémica em torno do que vagamente se chama pós-modernismo não pode provocar mais ansiedade do que as condições desesperadas do exercício da profissão em Portugal”.92

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