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França: L’architecture d’aujourd’hui

No documento 74-86 (páginas 76-81)

Nesta conceituada publicação, as referências a Portugal eram, até então, escassas59 contudo, para a

edição de Maio/Junho de 1976, foi organizado um número especial, o 185, coordenado por Raul

Hestnes Ferreira (com a colaboração de Manuel Miranda), que teve por título Portugal an II e traçou um

percurso da história da arquitectura portuguesa do século XX até ao momento.

A publicação de um número com esta temática foi relevante, uma vez que as referências às realidades mais periféricas na revista se concentravam na actividade nas colónias francesas – como Marrocos, Argélia ou Tunísia – e as referências aos casos europeus fora dos grandes centros (países centro-europeus) eram escassas. A relação com a obra de arquitectos de expressão portuguesa fez-se pela presença assídua de artigos sobre a arquitectura no Brasil, o que não foi certamente alheio à força do nome de Óscar Niemeyer.

Portugal an II percorreu brevemente o passado – começou com a experiência sob o fascismo e deteve-se, de seguida, sobre o seu fim, com destaque exclusivo para as operações SAAL. A experiência pré-revolucionária foi estruturada em três períodos:

- 1930/1948, ‘o fascismo puro e duro’, por José Augusto França;

- 1948/1961, ‘esperanças desiludidas e inquietação cultural’ por Manuel Vicente; - 1961/1974, ‘ a abertura neo-capitalista’ por Carlos Duarte.

A abordagem destes temas era intercalada pela publicação de obras e projectos ilustrativos. O primeiro período foi ilustrado com Cassiano Branco, o segundo com Fernando Távora e, por fim, acompanhando o período imediatamente anterior a Abril de 74, surgiam Nuno Teotónio Pereira e João Paciência, Vítor Figueiredo, Gonçalo Byrne, Manuel Vicente, Hestnes Ferreira e, finalmente, Álvaro Siza.

58 O nº419, de Novembro de 76, publica artigos sobre a operação SAAL.

59 Numa breve leitura às edições da revista desde o seu início até ao período em estudo neste trabalho, encontraram-se as seguintes referências:

- Immeuble “Ford” a Lisbonne – Arch. Pardal Monteiro, L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI, nºX, Janeiro 1934, p.32; - Immeuble d’appartements, Lisbonne – R. d’Athouguia et Formosinho Sanches, L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI, nº57, p.82; - Hôtel dans l’île de Porto Santo – E. Anahory, L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI, nº105, 1962, p.69.

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Este último teve direito a dois pequenos textos introdutórios, da autoria de Vittorio Gregotti60 e de

Oriol Bohigas61. Tais textos surgiam na sequência de um convite de Bernard Huet, chefe de redacção

de L’architecture d’aujourd’hui, que lhes propôs que escrevessem sobre aquele que considerava ser um arquitecto pouco conhecido fora dos círculos portugueses, e eventualmente dentro de alguns contextos

espanhóis e italianos, mas que era sem dúvida um dos grandes arquitectos da nova geração europeia.

Marcando a excepcionalidade da obra de Siza num contexto periférico, praticamente privado de tradição arquitectónica recente e, no plano socio-político, ainda bastante retrógrado, Gregotti realçou a sua qualidade. Segundo ele, Siza construia a partir de um processo de acumulação e depuração de descobertas sucessivas, isto é, na sua obra nada era construído isoladamente mas sempre em relação com as respectivas ligações, resultando em sequências de acontecimentos que continham a memória das experiências passadas. Na sua arquitectura era sempre possível encontrar o reflexo das condições físicas do lugar e da dimensão histórica do meio.

Siza concebia uma estratégia que permitia a um lugar histórico e geográfico pré-existente tornar-se actor principal do projecto, mas tal não implicava que a sua intervenção desaparecesse ou se minimizasse em relação ao meio constituído. Pelo contrário, encontrava na situação urbana uma

presença susceptível de provocar novas leituras do conjunto. Siza focalizava a especificidade do lugar

como história e como matéria primeira do projecto, pois era o único material capaz de restituir através das diferenças a possibilidade de comunicação.

Bohigas, por seu lado, contextualizou Siza num cenário onde também incluiu o holandês Aldo Van

Eyck, o austríaco Hans Hollein e o italiano Aldo Rossi. Em comum, o facto de encararem o gesto

artístico como predominante na produção arquitectónica. Deste modo, a arquitectura de Siza era acima de tudo um programa formal, que partia da aceitação do reportório linguístico nascido no racionalismo. Reportório este que se articulava e transformava criticamente num processo semelhante à mutação operada pelo Maneirismo. Respeitava a tradição imediata, mas fazia uma codificação que a

criticava e decompunha através de uma nova utilização do código baseada na colagem, na surpresa e nas

alterações sintácticas – isto é, da manipulação artística e, consequentemente, crítica de uma linguagem já

codificada. Bohigas referia ainda a obra de Siza como uma série de variações em torno do tema da relação entre edifício e lugar, entre arquitectura e paisagem.

60 Figura incontornável na actividade editorial em arquitectura, Vittorio Gregotti esteve envolvido, por exemplo, em Casabella, Edilizia Moderna, Il Verri (revista literária e cultural, fundada em Milão em 1956 por Luciano Anceschi, que se tornou uma referência nos anos 60 e 70), Lotus ou Rassegna (Cf. MOLITERNO, G. (ed.) (2000) Encyclopedia of Contemporary Italian Culture, entrada ’Gregotti, Vittorio’, p.262).

61 José Oriol Bohigas Guardiola é uma figura destacada da cena arquitectónica catalã situada na geração do pós-guerra que procurava a conciliação entre a continuação e a renovação moderna. A sua actividade profissional tem sido prolífica nos campos prático e teórico. O escritório MBM Arquitectes, que mantém em parceria com Josep Martorell e David MacKay em Barcelona, permitiu-lhe a exploração não só em arquitectura mas também em urbanismo. Para além de ser autor de obras fundamentais da teoria da arquitectura, como Contra una Arquitectura Adjetivada (1969), mantém uma intensa actividade redactorial tendo participado em praticamente todas as revistas de arquitectura relevantes como, por exemplo, Arquitectura Bis, AMC – Architecture, mouvement, continuite, Oppositions, Casabella, Lotus International, Casabella,

Deutsches Architektenblatt (DAB), Der Architekt, A & V, El Croquis, The Architectural Review ou ON Diseño (Cf. MONTANER, J. M. (1998), p.36+97+108).

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Na nota introdutória ao pós 25 de Abril de 1974, com o título “Le 25 Avril 1974... et les architectes”,

Hestnes Ferreira situou o papel dos arquitectos nos desafios ao poder num tempo marcado pela

espontaneidade da participação popular, que tomou formas de democracia directa62. Mas indiciava-se já

o desvanecimento deste fervor participativo.

Portugal an II, continuava com um artigo síntese da experiência do Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), seguido de um conjunto de projectos (Lisboa, Porto e Algarve) e de uma conversa final entre protagonistas deste processo.

Este tema, Portugal e Revolução, tinha bastante a ver com o período que orientava a própria revista nesta época. Estava sob a direcção de Bernard Huet que orientara a linha editorial para uma vertente mais à esquerda, com influências do pensamento marxista.

Depois deste número temático, as referências à situação portuguesa voltaram a estar praticamente ausentes porém, em 1980, elaborou-se outro número que voltou a destacar a situação nacional. Desta vez organizou-se um número monográfico em torno da figura do arquitecto Álvaro Siza Vieira, que entretanto, devido à obra que tinha no estrangeiro (desde 1979 iniciara uma série de trabalhos em Berlim, na Alemanha, na Holanda (p.e., Haia) e em Espanha (p.e., Barcelona), adquirira considerável

projecção mediática internacional. O número 211, de Outubro de 1980, intitulou-se Álvaro Siza, projets

et réalisations 1970-1980 63.

Como o título indica, apresentavam-se obras e projectos, de 1970 a 1980, implantadas na maioria em Portugal mas mostrando também obra no estrangeiro (intervenções no bairro Kreuzeberg em Berlim, datadas de 1979). Tipologicamente os exemplos eram variados e contemplavam várias escalas de intervenção, como se verifica nos exemplos escolhidos que figuram na tabela abaixo:

62 A democracia directa, começou por ser designada por poder popular e, na Constituição da República, foi consagrada com a designação de

poder local (Cf. FERREIRA, R. H. “Le 25 Avril 1974... et les architectes”, in L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI, nº185, Maio/Junho 1976, pp.58-59).

63 A título de curiosidade, refira-se que, dez anos mais tarde, a mesma revista consagra outro número temático a Siza, organizado por Laurent Beaudouin: o número 278, de Dezembro de 1991, que se intitula simplesmente Álvaro Siza. Neste número revisita-se Évora, expõem-se os projectos de três escolas (Porto, Penafiel, Setúbal), três habitações unifamiliares (Puerto de Santa María, Famalicão, Taipas) e quatro projectos urbanos (Berlim, Sicília, Paris, Santiago de Compostela).

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QUADRO RESUMO*

TIPOLOGIA OBRA LOCAL DATA

casa Alcino Cardoso Moledo do Minho 1971

cooperativa Domus, bairro da Pasteleira Porto 1972

HABITAÇÃO

casa Beires Póvoa do Varzim 1973-76

agência do banco Pinto e Sotto Maior Oliveira de Azeméis 1971-74

agência do banco Pinto e Sotto Maior Lamego 1972-73

COMÉRCIO

agência do banco Borges & Irmão Vila do Conde 1978-80

bairro SAAL - São Victor Porto 1974-77

bairro SAAL - Bouça Porto 1973-77

INTERVENÇÕES URBANAS

Quinta da Malagueira Évora 1977

(*NOTA: consultar apêndice 1.6 para ver todas as obras e projectos publicadas na AA 211)

Considerava-se que um dos vectores mais marcantes da sua obra era a relação com o lugar de

intervenção, que esava na base do seu trabalho: “num jogo de confronto com a realidade, faz com que

elementos simples se sujeitem a transformações por vezes complexas que atravessarão a construção/obra/conjunto desde a sua forma geral até ao detalhe. Inicialmente não se compreende a origem dessas transformações. As paredes nuas não o são verdadeiramente; (des)dobram-se por razões que não se adivinham, formam-se ângulos, …, depois vagamente desenha-se a impressão que tudo tem uma razão ou um fim e que nada escapa à lei que o criou mas o que se vê nunca é o importante, o importante está sempre noutro lado, para lá de uma parede ou por detrás de uma janela. A percorrer o espaço, nunca se atinge o centro, que no entanto existe, mas sempre noutro lado. Este “pôr o centro noutro lugar” provoca a sensação forte de deslocamento, … a arquitectura encontra a sua realidade por fragmentos, por paredes que se juntam a outros fragmentos e a outras paredes, porventura mais antigas. A violência deste confronto entre o construído e o existente enraíza-se na trágica impotência de transformar as relações sociais apenas pela arquitectura. Os caminhos do diálogo entabulado com a população aquando das operações SAAL e que se seguiu em Évora, são aceites como testemunho de uma arquitectura viva (…)”.64

A citação é longa mas tem a vantagem de ser suficientemente ilustrativa da atenção, interesse e valorização que a obra de Siza Vieira despertara a nível internacional.

De 1980 a 1986, as referências a Portugal regressaram à escassez habitual, sendo que o nome mais referido continuou a ser o de Álvaro Siza:

- no nº235, de Outubro de 1984, com o título de capa Projets, foi publicado o projecto da casa Mário

Baia em Gondomar (1983);

- no nº240, de Setembro de 1985, com o título de capa Interieurs, a casa Avelino Duarte em Ovar

(1981-85);

64 BEAUDOIN, L. & ROUSSELOT, C., “Ce que j’écris n’est pas à moi”, in L’ARCHITECTURE D’AUJOURD’HUI, nº211, Outubro 1980, p.5.

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- no nº242, de Dezembro de 1985, com o título de capa Projets Europeens, o projecto de um bairro para

o Campo de Marte, na ilha da Giudecca, em Veneza (1985).

Ou seja, a mais conhecida revista francesa da especialidade abriu as suas páginas à arquitectura portuguesa no século XX. Os primeiros indícios desta curiosidade francófona situavam-se ainda na primeira metade do século, mas, sem dúvida que a publicação de um número monográfico que lhe foi

inteiramente dedicado fez com que o número 185 de L’architecture d’aujourd’hui fosse “aquele número de

AA”65.

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