3. Os direitos humanos e seu caráter universal
3.3. A positivação dos direitos humanos
3.3.11. Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948)
Aprovada pela Assembleia Geral da ONU em 10 de dezembro de 1948, constitui o que Celso Lafer chama de “evento-matriz” no trato dos direitos humanos,48 uma vez que, dando maior concreção aos preceitos insculpidos na Carta das Nações Unidas, inaugura uma ordem internacional de proteção da
47 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional, p. 135.
48 LAFER, Celso. “O cinqüentenário da Declaração Universal. A tutela dos direitos humanos no plano
internacional no limiar do século XXI. Resistência e realizabilidade”. In: Comércio, desarmamento,
pessoa humana, reconhecendo que a condição de pessoa é o único requisito para a titularidade dos direitos que enuncia.
Sua importância é fundamental no processo de internacionalização dos direitos humanos. A seu respeito, assevera Thomas Buergenthal:
A Declaração Universal é o primeiro instrumento de direitos humanos proclamado por uma organização internacional universal. Por seu status moral e pela importância legal e política que adquiriu ao longo dos anos, a Declaração se equipara à Magna Carta, à Declaração Francesa dos Direitos do Homem e à Declaração Americana de Independência como marco na luta da humanidade por liberdade e dignidade humana. Seu débito para com esses grandes documentos históricos é inequívoco.49
A Declaração, juntamente com a Carta da ONU de 1945, constitui o fundamento sobre o qual se ergueu todo o sistema normativo internacional atual, no qual os direitos humanos ocupam papel central, como aponta Valerio de Oliveira Mazzuoli:
Inaugurado com a Carta das Nações Unidas de 1945 e com a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, o sistema internacional de proteção dos direitos humanos é hoje um corpus
juris autônomo e um dos mais importantes capítulos do direito
internacional público contemporâneo. O Direito Internacional dos Direitos Humanos não existia como ramo autônomo do direito até a Segunda Guerra Mundial, tendo auferido esse status jurídico tão somente após a entrada em vigor da Carta das Nações Unidas, em 1945. O resultado, hoje, desse processo legiferante, que teve início na metade do século XX, é uma avalanche de tratados internacionais formadores de um verdadeiro código internacional de proteção dos direitos humanos, maior do que qualquer outro já conhecido no domínio do direito internacional público.50
O documento foi aprovado de forma unânime por 48 Estados, com oito abstenções, sendo emblemático o fato de que não houve qualquer espécie de
49 BUERGENTHAL, Thomas. International human rights in a nutshell, p. 25-6. No original: “The Universal Declaration is the first comprehensive human rights instrument to be proclaimed by a universal international organization. Because of its moral status and the legal and political importance it has acquired over the years, the Declaration ranks with the Magna Carta, the French Declaration of the Rights of Man and the American Declaration of Independence as a milestone in mankind’s struggle for freedom and human dignity. Its debt to these great historic documents is unmistakable”. 50 MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Tratados internacionais de direitos humanos e o direito interno, p.
impugnação, por parte dos signatários, ao teor do documento. De acordo com Flávia Piovesan, a
inexistência de qualquer questionamento ou reserva feita pelos Estados aos princípios da Declaração, bem como de qualquer voto contrário às suas disposições, confere à Declaração Universal o significado de um código e plataforma comum de ação. A Declaração consolida a afirmação de uma ética universal ao consagrar um consenso sobre valores de cunho universal a serem seguidos pelos Estados.51
Não resta dúvida de que os princípios constantes da Declaração foram acolhidos pela totalidade dos países signatários, representando, por conseguinte, um consenso praticamente universal acerca de seu conteúdo. Nas palavras de Fábio Konder Comparato,
a Declaração, retomando os ideais da Revolução Francesa, representou a manifestação histórica de que se formara, enfim, em âmbito universal, o reconhecimento dos valores supremos da igualdade, da liberdade, e da fraternidade entre os homens, como ficou consignado em seu artigo I.52
Uma vez que a Declaração não tem a natureza de tratado internacional, há profunda discussão doutrinária acerca da sua força jurídica, tanto em relação à existência ou não de força vinculante, como também, entre os que reconhecem sua força vinculante, acerca do fundamentos de tal característica. A esse respeito, esclarece Flávia Piovesan:
Mas qual o valor jurídico da Declaração Universal de 1948? A Declaração Universal não é um tratado. Foi adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas sob a forma de resolução, que, por sua vez, não apresenta força de lei. O propósito da Declaração, como proclama seu preâmbulo, é promover o reconhecimento universal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais a que faz menção a Carta da ONU, particularmente nos arts. 1º (3) e 55.
Por isso, como já aludido, a Declaração Universal tem sido concebida como a interpretação autorizada da expressão “direitos
51 Ob. cit., p. 141. 52 Ob. cit., p. 223.
humanos”, constante da Carta das Nações Unidas, apresentando, por esse motivo, força jurídica vinculante.53
A autora não deixa, no entanto, de reconhecer a existência de correntes que buscam outros fundamentos para a força vinculante da Declaração. Com efeito, afirma que “há, contudo, aqueles que defendem que a Declaração teria força jurídica vinculante por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os princípios gerais de direito, apresentando, assim, força jurídica vinculante”.54
A conclusão a que chega Flávia Piovesan, por congregar os mais relevantes argumentos no sentido da cogência da Declaração, afigura-se a mais adequada, sendo, por isso, adotada no presente trabalho:
Para esse estudo, a Declaração Universal de 1948, ainda que não assuma a forma de tratado internacional, apresenta força jurídica obrigatória e vinculante, na medida em que constitui a interpretação autorizada da expressão “direitos humanos” constante dos arts. 1º (3) e 55 da Carta das Nações Unidas. Ressalte-se que, à luz da Carta, os Estados assumem o compromisso de assegurar o respeito universal e efetivo aos direitos humanos.
Ademais, a natureza jurídica vinculante da Declaração Universal é reforçada pelo fato de – na qualidade de um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX – ter-se transformado, ao longo dos mais de cinquenta anos de sua adoção, em direito costumeiro internacional e princípio geral do Direito Internacional.55
Impõe-se, por conseguinte, reconhecer a força jurídica vinculante da Carta, ainda que uma das críticas que se façam a ela diga respeito justamente a uma suposta falta de força jurídica. Contudo, pelos argumentos expostos, tal crítica não se afigura procedente.
Também há críticas no sentido de que a Declaração foi omissa acerca de direitos relevantes, como os das minorias, o de resistir à opressão e o dos habitantes de colônias. Porém, tais omissões foram supridas posteriormente por
53 Ob. cit., p. 148.
54 Ob. cit., p. 149. Dentre os autores que, de acordo com Flávia Piovesan, entendem que a
Declaração teria força jurídica vinculante, pode-se citar Fábio Konder Comparato (in A afirmação
histórica dos direitos humanos, p. 244). 55 Ob. cit., p. 151.
meio de instrumentos específicos, no que Bobbio chama de quarta etapa de evolução dos direitos do homem (a especificação).
Finalmente, uma terceira crítica concerne ao fato de que a Declaração teria sido inspirada por valores típicos da cultura ocidental, o que macularia sua universalidade. Contudo, a participação de países da Ásia, do Oriente Médio e da URSS no Comitê de Redação da Declaração demonstra que, se há uma inequívoca influência dos países ocidentais na elaboração da Declaração, esta não deixou de receber, ainda que de modo menos evidente, os influxos de outras culturas. Destarte, ainda que a crítica proceda sob determinada ótica, não se mostra robusta o bastante para impugnar o universalismo que, de resto, deflui do próprio conteúdo de seus dispositivos, e não de sua origem.
Do exposto, constata-se que, a despeito das críticas que eventuais imperfeições da Declaração podem ensejar, sua relevância como instrumento de garantia dos direitos humanos no plano internacional, bem como a força normativa que dela deflui, a tornam um dos mais relevantes documentos relativos a direitos humanos já elaborados – relevância esta que se reafirma a cada dia.