7- PROPOSTAS PARA APRIMORAMENTO DO DIREITO ELEITORAL
7.1 Democracia intrapartidária
Conforme já assinalado anteriormente na presente dissertação, a liberdade dos partidos políticos não é absoluta, estabelecendo a própria Constituição algumas condicionantes, em seu artigo 17.
Muito embora não haja previsão expressa em referido artigo sobre a democracia intrapartidária, determinar a sua observância, ao contrário de tolher a autonomia dos partidos políticos, é fazer cumprir o que está no art. 1º. da Constituição Federal, caput e parágrafo único.
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Com a ressalva da mudança para o “distritão”, que perdeu o aval até mesmo do autor da emenda aprovada na comissão especial que analisou a matéria, o deputado Miro Teixeira (Rede-RJ). Desse modo, o sistema eleitoral é o único tema da PEC 77/03 cuja votação foi concluída. Com o fatiamento da discussão, resta ainda examinar outros assuntos polêmicos.
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Os partidos devem ter em seu interior mecanismos democráticos de funcionamento, posto que isso representa um direito dos próprios cidadãos, independentemente de estarem filiados, na medida em que os partidos os representarão.
Defende-se, aqui, que os membros do partido devem ser iguais em direitos e obrigações; o programa do partido deve ser elaborado de forma a contemplar os interesses da maioria do partido e, não sendo algo imutável, deve ser passível de permanentes análises críticas e sugestões.
Assim, o partido verdadeiramente democrático é aquele cujas ações são oriundas de mecanismos democráticos desenvolvidos internamente. A democracia interna, portanto, é uma necessidade que se impõe na vida dos partidos políticos e para a democracia do país como um todo.
Cabe trazer a lume questão recente envolvendo esse tema. A Procuradoria Geral da República (PGR), em 20 de dezembro de 2017, ingressou com Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 5875/DF94), com pedido cautelar, em face do art. 1º da Emenda Constitucional 97/17, na parte em que alterou o art. 17, § 1º, da Constituição Federal, ao atribuir aos partidos políticos autonomia para estabelecerem a duração de seus órgãos provisórios. Aduz a PGR que tal dispositivo fere o art. 1º caput e parágrafo único; art. 17 caput e inc. I; e art. 60, § 4º, inc. II e IV, todos da Constituição Federal.
Consoante excertos transcritos na decisão95 do Ministro Luiz Fux, Relator da referida ADI 5875 - que apreciou a medida cautelar - aduz a PGR que a Emenda Constitucional:
“deturpa o sistema de direitos fundamentais de ordem política, propiciando entraves injustificáveis ao direito de filiados de participar de eleições, além de restringir a efetividade do caráter nacional que os partidos devem ter e de frustrar o direito fundamental da cidadania a que os partidos que se propõem ao seu sufrágio sejam concordes com o sistema democrático também na sua estrutura e no seu modo de agir”.
Os partidos políticos têm por hábito manter a administração por comissões provisórias em diretórios municipais e estaduais por longo tempo. Os dirigentes de tais comissões são nomeados pelos “caciques” dos partidos, em nível nacional, ou seja, ficam a mercê da vontade destes para que permaneçam na função.
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STF. ADI 5785 MC/DF. Rel. Min Luiz Fux. DJE 02.03.2018.
95 Em razão da relevância do assunto, entendeu o Ministro Relator que a decisão será tomada em caráter definitivo.
São esses diretórios precários, limitados em sua liberdade, que vão indicar os candidatos do partido na circunscrição em que atuam, em completa afronta ao princípio democrático, com a concentração do poder nas mãos daqueles que exercem o domínio dentro dos partidos e impedindo a renovação política municipal ou estadual, perpetuando-se no poder os líderes nacionais máximos. Os dirigentes das comissões provisórias acabam se tornando meros reprodutores da vontade dos “caciques” do partido96.
Prossegue a PGR, consoante trecho extraído da decisão do Ministro Luiz Fux: “uma organização partidária autoritária, na qual os dirigentes atuam como soberanos, pode restringir ainda mais as opções já limitadas dos eleitores, com prejuízo ao direito fundamental de participação política”.
Constatada essa prática, para combatê-la, o TSE havia fixado um prazo de duração para a temporariedade dos diretórios provisórios (120 dias).
Entretanto, com a alteração promovida, a Emenda Constitucional, ao permitir a livre regulação da duração de seus órgãos partidários, viola o direito fundamental à participação política dos cidadãos, por possibilitar a concentração de poder no diretório nacional.
A autonomia dos partidos não significa soberania, de sorte que eles devem se submeter a parâmetros decorrentes de opções essenciais do poder constituinte originário, que se sobrepõem à vontade dos poderes constituídos. E conclui a PGR: “a organização e funcionamento dos partidos políticos devem assegurar o direito fundamental dos indivíduos de representação autêntica (CF/88, art. 17, caput). A democracia intrapartidária fortalece os partidos políticos ao obstar gestões internas opacas e eternizadas pelo monopólio decisório; daí não poder ser preterida”.
Assim sendo, como alternativa, dentre as condicionantes que a Constituição Federal atualmente prevê, sugere-se o acréscimo de preceito que obrigue os partidos a serem democráticos internamente, adotando eleições primárias, prévias partidárias, com escolhas democráticas e transparentes de seus candidatos, membros dirigentes etc.
Pode soar óbvio, afinal, a observância da democracia intrapartidária deveria existir independentemente de previsão expressa. Entretanto, diante da falta de democracia interna que impera atualmente, propõe-se, a título de sugestão, seja alterada a redação do art. 17, § 1º, da Constituição Federal para que se faça constar, expressamente, a obrigatoriedade da observância da democracia interna no âmbito dos partidos políticos.
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Em caso recente, o MDB nacional retirou o diretório pernambucano do poder do Vice-Governador, repassando-o a um Senador. Diante do inconformismo daquele, o caso foi levado à apreciação do Poder Judiciário, ainda pendente de julgamento (STF. Medida Cautelar em Conflito de Competência CC 8015 MC/PE. Rel. Min. Ricardo Lewandowski).
A proposta é simples, tal como formulada no parágrafo abaixo, em destaque, mas que pode trazer boa repercussão, auxiliando na retomada de credibilidade dos partidos e no seu fortalecimento; motivando uma maior filiação dos eleitores e, consequentemente, permitindo um maior engajamento do povo nos debates, discussões de ideias relativas às questões públicas:
Art. 17. ...
§ 1º É assegurada a autonomia dos partidos políticos para: [...]
II - estabelecer regras sobre escolha, formação e duração de seus órgãos permanentes e provisórios e sobre sua organização e funcionamento, observado, internamente, o princípio
da democracia, com a participação de todos os seus membros;
[...]
Constando a sugestão acima de forma explícita na Constituição Federal, eventual inobservância poderá ser objeto de questionamento perante o Poder Judiciário.