• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1 – M ETODOLOGIA DE PESQUISA

1.3 Procedimentos utilizados na constituição do corpus de análise

1.3.3 Desafios decorrentes do trabalho de campo

Uma vez que tínhamos nosso olhar voltado, no início da investigação, para as contingências do trabalho docente, com vistas a compreender melhor a natureza complexa das dificuldades enfrentadas pelos professores, não conseguíamos olhar para determinadas situações específicas. Tudo parecia relevante e, portanto, sentíamos necessidade de “anotar tudo”. Na escola estadual, especialmente nas primeiras semanas, os registros eram quase diários, mas não discerníamos muito bem o que era situação observada do que era reflexão sobre essa mesma situação. Também não compreendíamos como aquelas anotações, que apontavam para inúmeros aspectos, dentro dos limites do que conseguíamos observar e registrar, poderiam nos conduzir às respostas que buscávamos.

Tomar um distanciamento para “olhar de fora” foi-se configurando como uma condição cada vez mais necessária. Evidentemente, isto não significava estar fora da escola, fisicamente. Entretanto, a possibilidade de evitar a superposição de papéis – professora e pesquisadora, no mesmo espaço – permitia vislumbrar o desenvolvimento de um olhar mais agudo que viabilizasse o questionamento de por que as pessoas faziam o que faziam e do jeito que faziam. Em função disso, ainda durante o trabalho exploratório na primeira escola, concluímos que seria necessário observar a dinâmica concreta da sala de aula, de preferência em outra escola, mesmo que não fosse possível realizar este trabalho por um período muito prolongado. Para compensar o tempo relativamente curto de observação de aulas na escola municipal, procuramos nos certificar de que a variável qualidade da formação docente, pelo menos naquele contexto, estaria de certa forma assegurada pelas informações prévias que tínhamos a respeito da professora investigada.

Vale destacar que, nessas condições, vamos a campo para nos indagar sobre o que se passa, procurando desvelar aspectos nada óbvios, e não para emitir juízos de valor. Não nos cabe, como pesquisadores, adotar uma postura de denúncia ou intervenção; cabe-nos buscar compreender os fatores que determinam, no contexto de investigação, nosso objeto de estudo.

A leitura do texto de Elsie Rockwell (1986) trouxe contribuições muito importantes no sentido de tornar mais inteligíveis certas minúcias do método que eram até então desconhecidas. Logo no início, a autora esclarece que a Etnografia, em seu sentido mais estrito, inclui todo o processo de construção do conhecimento a partir de um trabalho de campo longo e intenso, mas não se confunde com ele. Quando iniciamos nossa coleta de informações, preocupávamo-nos em conseguir o maior número possível de dados, para uma análise posterior à leitura de textos que fundamentassem teoricamente a interpretação desses

50

dados; mas a própria descrição daquilo que se observa é, segundo a autora, produto de um trabalho analítico conceitual. Paulatinamente fomos percebendo as falhas decorrentes de um primeiro momento de familiarização com o método, que representam percalços a serem superados conforme se alternem o estudo dos dados de campo e as leituras teóricas acerca do método e do próprio objeto que vai emergindo desse diálogo.

À medida que realizávamos nossos registros e acompanhávamos as disciplinas no programa de Pós-Graduação da FE-USP, verificamos a necessidade de elaboração de versões ampliadas das notas de campo, razão pela qual era conveniente criar-se uma rotina de visitas ao local de observação de modo a permitir a elaboração desses registros, que implicam uma reflexão sobre o observado, o diálogo com leituras teóricas, a re-elaboração das perguntas iniciais à medida que melhor se configura o objeto a ser investigado, o voltar a campo sempre com questões mais específicas decorrentes da ampliação dos registros anteriores. No texto citado, Rockwell relata o processo de reflexão etnográfica subjacente a uma pesquisa que desenvolveu em parceria com outras colaboradoras4. Em função de suas próprias condições de vida e de trabalho, que impuseram restrições ao processo etnográfico, realizaram uma experiência de campo descontínua, ao longo de três anos, com maior intensidade em determinadas épocas do ciclo escolar. Segundo relata, o tempo em campo era aproveitado ao máximo em observação e conversação e “cada dia de campo gerava outros três ou mais de trabalho de transcrição e elaboração das ‘versões ampliadas’ das notas de campo” (1986, p. 10).

Em linhas gerais, o processo de entrar em campo e familiarizar-se com o trabalho de observação e registro ocorreram conforme relatado. A experiência de estar em campo vivenciando o papel de observadora e, ao mesmo tempo, acumulando a função de professora (na escola estadual), trouxe muitas angústias devido ao esforço para manter atenção constante e prolongada a praticamente tudo o que presenciávamos, procurando desvelar o desconhecido e revelador num ambiente paradoxalmente tão familiar. Buscamos fazer uma descrição relativamente detalhada, o que não se confunde com o conceito de descrição densa, postulado por Geertz (1987). O sentido que o autor atribui para este termo repousa na busca por interpretações que ultrapassam a superficialidade dos dados – cuja descrição, por mais minuciosa que seja, não implica que falem por si sós. É preciso “ler” o que está por trás dos dados, sem esquecer que tais interpretações não se sustentam ou sequer se justificam tão somente pela subjetividade do olhar de quem investiga determinado objeto. Elas devem

4

Rockwell, E. e Ezpeleta, J. ( codireção), R. Mercado, C. Aguilar e E.Sandoval. “ La práctica docente y su contexto institucional y social”. México:DIE, 1986.

convencer fundamentadas nos dados e nas referências teóricas que sustentam sua análise. No dizer de Erickson (1989), “o investigador interpretativo faz uma análise objetiva de dados subjetivos”.