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Quer I quer II têm que cumulativamente cumprir os seguintes critérios:

4. Perspectivas sobre o desenvolvimento do psicoterapeuta

4.2. Abordagem qualitativa: estudos de Skovholt, Rønnestad, Jennings, Sullivan e colaboradores

4.2.1. Desenvolvimento integral do psicoterapeuta

Os autores, inspirados pela metodologia da grounded theory, procederam a uma identificação de 6 fases de desenvolvimento do psicoterapeuta (Rønnestad & Skovholt, 2003), de acordo com os anos de experiência e com o treino/formação em psicoterapia.

A primeira fase é conceptualizada de fase do ajudante convencional16 (lay helper phase) e

corresponde à fase que antecede a prática psicoterapêutica supervisionada. Tal como o nome indica, a ajuda é fundamentada na experiência pessoal do psicoterapeuta. É portanto uma fase em que a significação de intervenção é marcadamente orientada por uma epistemologia pessoal e pelo senso comum, motivo pelo qual é percepcionada enquanto autêntica e genuína, especialmente susceptível a projecções pessoais e a sobre-envolvimento emocional, o que pode condicionar o desenvolvimento de relações empáticas e de ajuda, onde não existem fronteiras claras entre as necessidades dos clientes e as necessidades dos psicoterapeutas.

A segunda fase, estudante iniciado (beginning student phase), contrasta claramente com a anterior, sendo percebida enquanto particularmente desafiante, dada a confrontação com a prática psicoterapêutica. Os primeiros clientes representam simultaneamente uma fonte de ansiedade e de estimulação, sendo a iniciação prática um momento percebido enquanto passível de promover estados de insegurança e de questionamento, face à adequabilidade em prestar ajuda psicoterapêutica. Os formadores/supervisores são duplamente significados, quer enquanto agentes de validação da performance do psicoterapeuta, quer enquanto fontes de feedback positivo e de reforço do investimento na prática. Os modelos teóricos, nomeadamente os modelos mais passíveis de serem mais facilmente apreendidos, são conceptualizados enquanto salva-vidas, face à complexidade percebida da prática psicoterapêutica. Os autores argumentam que, nesta fase, a cristalização da escolha de um único modelo pode subsequentemente desembocar numa atitude defensiva e de estagnação desenvolvimental. Apesar de nesta fase alguns psicoterapeutas experienciarem um sentido de competência pessoal, esta representação parece não ser a regra, sendo que na generalidade os sentimentos mais expressos são de ansiedade e de ameaça. Num outro estudo realizado com psicoterapeutas noruegueses, os autores (Rønnestad & Von der Lippe, 2001, cit. in Rønnestad & Skovholt, 2003) verificam que esta fase desenvolvimental é particularmente susceptível à emergência das seguintes dificuldades: (i) falta de confiança pessoal na capacidade para se revelarem eficazes na ajuda psicoterapêutica; (ii) níveis elevados de incerteza de como agir com o cliente; (iii) níveis elevados de ansiedade despoletados pela impotência face às

experiências trágicas de vida dos clientes; (iv) medo de perder o controlo do processo psicoterapêutico; (v) preocupação com questões éticas e morais emergentes na prática psicoterapêutica; (vi) irritação face à resistência ou bloqueamento activo do cliente perante as propostas do psicoterapeuta; (vii) culpabilização face a situações com as quais o psicoterapeuta não consegue lidar na consulta. Noutra publicação, os autores (Skovholt & Ronnestad, 2003) relevam a importância desta fase enquanto período particularmente conturbado do desenvolvimento do psicoterapeuta, dada a coexistência de uma panóplia de factores já enunciados e que integram a ansiedade de realização, avaliação e observação de supervisores, baixas percepções de auto-eficácia, mapas conceptuais inadequados, necessidade extrema de validação dos mentores e dificuldades no estabelecimento de fronteiras emocionais equilibradas. Os autores advogam que este último factor resulta da não diferenciação entre o self e o outro, processo que é progressivamente desenvolvido ao longo da experiência relacional com os clientes. Este mecanismo está associado aos processos de regulação emocional do psicoterapeuta, ou seja, à sua capacidade para atender, clarificar e expressar emoções que permitam a evolução do processo psicoterapêutico, particularmente em situações que constituam desafio na psicoterapia. Nesse sentido, os autores (Rønnestad & Skovholt, 1991; Skovholt & Ronnestad, 2003) identificam três estilos diferenciais desenvolvidos pelo psicoterapeuta aquando da gestão de material desafiante que possa emergir na consulta e introduzir descontinuidades na evolução do processo psicoterapêutico, a saber:

i) encerramento prematuro (premature closure) - face à complexidade da prática, o psicoterapeuta adopta uma postura de exclusão defensiva, passível de se manifestar na incapacidade para lidar com a expressão de emoções intensas do cliente e na dificuldade em manter uma relação empática e de aceitação incondicional. Os acontecimentos psicoterapêuticos parecem não despoletar reflexões internas e de questionamento da acção pessoal do psicoterapeuta;

ii) encerramento insuficiente (insufficient closure) - o psicoterapeuta revela dificuldades na interrupção do processamento de informação da sessão psicoterapêutica. Cognitivamente, manifesta-se na incapacidade para deixar de pensar nos problemas

experienciação de emoções despoletadas na interacção com os clientes. Relacionalmente, manifesta-se na incapacidade para definir fronteiras e em reacções contratransferenciais;

iii) encerramento funcional (functional closure) - as situações experienciadas em consulta passíveis de desencadear processos de auto-reflexão são entendidas enquanto fontes desenvolvimentais, sendo posteriormente integradas nas acções subsequentes do psicoterapeuta. Se inicialmente este processo é dificultado aquando do início da prática psicoterapêutica, posteriormente parece ser significado por psicoterapeutas mais experientes, nomeadamente por psicoterapeutas experts, como veremos mais à frente, enquanto factor central de eficácia relacional.

Na fase 3, conceptualizada de fase do estudante avançado (advanced student phase), os psicoterapeutas possuem expectativas elevadas de performance e revelam ainda uma marcada auto-centração e dependência de validação externa. Todavia, assiste-se a uma progressiva emergência de uma avaliação crítica, face aos modelos teóricos e aos formadores anteriormente significados enquanto agentes de informação primordial. Tal movimento é postulado numa transferência gradual do foco atencional de características apreendidas através da modelagem de psicoterapeutas seniores (foco externo) e de modelos teóricos para características que emanam de dimensões pessoais do psicoterapeuta (foco interno).

A fase 4, fase do profissional novato (novice professional phase), corresponde a uma prática acumulada de cerca de 5 anos. Com a acumulação da prática psicoterapêutica, o psicoterapeuta confronta-se com o facto de os modelos teóricos se constituírem enquanto grelhas que não oferecem respostas por si só para todos os processos psicoterapêuticos e com a incapacidade para prestar ajuda efectiva a todos os clientes. Assiste-se a uma progressiva identificação de características e contextos profissionais em que o psicoterapeuta se sente mais confortável e competente, sendo este um indicador de uma procura gradual de congruência entre o self pessoal e profissional. A relação psicoterapêutica é também ela relevada neste processo e, consequentemente, assiste-se a uma maior preocupação na definição das fronteiras emocionais e no papel de ambos os elementos da díade-cliente e psicoterapeuta.

Os resultados de um estudo (Magalhães, 2008; Magalhães & Matos, 2010), realizado com 10 psicoterapeutas portugueses de diferentes orientações teóricas e com uma média de experiência psicoterapêutica de 4.7 anos (anos de experiência variáveis de 3 a 6 anos), revelam igualmente a necessidade sentida pelos psicoterapeutas de personalização progressiva da prática psicoterapêutica, através da procura de equilíbrio na articulação entre os desafios inerentes à autonomização e a auto-centração despoletada pelo medo de cometer erros. Na generalidade, a autora conclui que as representações de mudança dos psicoterapeutas podem ser conceptualizadas a 3 níveis fundamentais: (i) mudanças percebidas no self, que se prendem com percepções de maior tolerância, de relativismo e de autoconhecimento; (ii) mudanças percebidas na psicoterapia, associadas a um reconhecimento mais profundo da implicação da relação psicoterapêutica, preocupação pela articulação do self pessoal e profissional e maior genuinidade; (iii) mudanças percebidas nos outros, patente num maior apreço e admiração pelo ser humano.

A quinta fase, profissional experiente (experienced professional phase), é caracterizada já pela consolidação integrada e coerente entre o self pessoal e profissional. A relação psicoterapêutica assume um papel crucial na prática psicoterapêutica e as técnicas e os métodos são aplicados de forma personalizada e flexível. Assiste-se a um reconhecimento progressivo das múltiplas respostas psicoterapêuticas passíveis de se revelarem igualmente eficazes e a um aumento progressivo de percepções de competência pessoal e de capacidade para articular apoio e desafio na prática psicoterapêutica. Verifica-se também uma diferenciação mais clara das potencialidades e limitações da psicoterapia e do papel do sujeito enquanto psicoterapeuta. A gestão das fronteiras psicoterapêuticas, ou seja, o estabelecimento de um distanciamento optimal que iniba o sobre-envolvimento, é reportada enquanto competência crucial do psicoterapeuta, dado permitir a construção de uma relação empática. Este processo, designado de boundaried generosity (Skovholt, Jennings, & Mullenbach, 2004), constitui-se também enquanto importante mecanismo de prevenção do burnout e é considerado como sendo incontornável numa profissão que está exposta à vivência continuada do sofrimento humano. Nesta fase, o psicoterapeuta tende a atribuir maior relevância às experiências relacionais com os clientes, nomeadamente as de carácter

desenvolvimentais privilegiados. Segundo os autores, estas fontes de influência de carácter relacional permitem o desenvolvimento de conhecimento sensível ao contexto (contextually sensitive knowledge), que parece mapear a personalização da intervenção psicoterapêutica.

A última fase, fase do profissional senior (senior professional phase), corresponde a um acumular de experiência de cerca de 25 anos. Esta é uma fase que pode coincidir com a experienciação de perdas na vida do psicoterapeuta nos domínios familiar e profissional. Os psicoterapeutas parecem ter uma representação mais pronunciada das limitações da psicoterapia. Tais limitações e uma visão menos iludida da psicoterapia poderão desembocar em representações de menor investimento na prática psicoterapêutica, na experienciação de maior apatia intelectual, em percepções de estagnação desenvolvimental e em sentimentos de frustração face à emergência de novos conhecimentos que são sentidos enquanto repetições de conhecimento anterior. A este respeito, um dos psicoterapeutas séniores do estudo refere:

By the time a person reaches the end of one´s work life, he/she has seen the wheel reinvented so many times, has seen fashions in therapy/counseling change back and forth. Old ideas emerge under new names and it can be frustrating to the senior therapist to see people make a big fuss about something he/she has known about for years. This contributes to the cynicism for the person. (p. 26)

Noutro sentido, a experiência acumulada e reflectida poderá consubstanciar-se em sentimentos de valorização pessoal, nomeadamente em situações que impliquem a transmissão de conhecimento a psicoterapeutas mais jovens.

Ainda antes de nos debruçarmos sobre os temas emergentes do desenvolvimento do psicoterapeuta, pensamos ser relevante sublinhar que o modelo de desenvolvimento apresentado deve ser compreendido, antes de mais, enquanto corpo de resultados que amplia os contextos e os vectores desenvolvimentais dos psicoterapeutas, dado não se encerrar em características de carácter profissional. Este modelo não deve ser entendido enquanto perspectiva estanque do desenvolvimento do psicoterapeuta, dado, por um lado, relevar a importância da reflexão enquanto mecanismo de acomodação de experiências idiossincraticamente interpretadas como sendo de carácter desafiante e, por outro lado, verificar-se que, à semelhança do estudo de Orlinsky e Rønnestad (2005), são as experiências

de carácter relacional, não passíveis de serem operacionalizadas directamente na formação dos psicoterapeutas, que parecem constituir-se enquanto agentes desenvolvimentais preferenciais. Assim, os timings devem ser interpretados com algum distanciamento crítico, dado o seu carácter meramente informativo de possíveis marcadores críticos de desenvolvimento.

No sentido de relevar a natureza dialéctica da análise preconizada pelos autores, apresentaremos de seguida uma breve síntese dos 14 temas que consubstanciam as fases desenvolvimentais previamente enunciadas. O primeiro tema conceptualiza o desenvolvimento do psicoterapeuta enquanto processo progressivo de integração self pessoal e profissional. Este processo é passível de ocorrer a dois níveis, intrapessoal e interaccional. No domínio intrapessoal, verifica-se um movimento gradual de um funcionamento pré- conceptual, não articulado, para um funcionamento integrado das experiências relacionais com os clientes e das experiências pessoais. No domínio interaccional, assiste-se, à semelhança do desenvolvimento vocacional de Holland (1997 cit. in Skovholt & Ronnestad, 2003), a uma progressiva descentração das actividades, interesses e competências, no sentido de uma subsequente valorização de características e disposições pessoais no exercício da prática psicoterapêutica. Este tema está associado ao segundo tema, que se debruça sobre as mudanças relativas ao foco de funcionamento do psicoterapeuta. Inicialmente, verifica-se que a operacionalização de ajuda está associada, num primeiro momento, a uma definição interna, baseada no senso comum e portanto mais passível de desembocar em movimentos contratransferenciais e projectivos. Na fase de confrontação com a prática, assiste-se progressivamente a uma focalização em agentes externos, tais como supervisores e modelos teóricos, enquanto dispositivos de validação da performance dos psicoterapeutas. A prática é progressivamente sentida enquanto processo rigidificado, emergindo a necessidade gradual da personalização da ajuda psicoterapêutica e subsequentemente uma nova focalização interna. Esta internalização é, no entanto, conceptualmente diferente da fase inicial, dado estruturar-se na dialéctica da dimensão profissional/pessoal e numa conceptualização profissionalizada de ajuda. Este tema está também intimamente associado a outro tema (tema 5), que sublinha a importância de uma progressiva diferenciação da validação externa na

uma validação progressivamente validada pela sensibilidade emergente do contexto e da experiência. A emergência de uma representação valorativa da experiência idiossincrática do psicoterapeuta, resultante das experiências relacionais no domínio pessoal e profissional, é activada por processos reflexivos que se consubstanciam enquanto requisitos centrais de aprendizagem e de desenvolvimento profissional (tema 3). Este é um processo transversal a todos os níveis experienciais e consubstancia-se enquanto agente inibidor da estagnação desenvolvimental, dado, por um lado, resultar em reformulações passíveis de serem operacionalizadas nas acções psicoterapêuticas e, por outro, permitir ao psicoterapeuta uma libertação da rigidificação despersonalizada da prática. Concomitantemente, a responsabilização do processo psicoterapêutico parece ser progressivamente partilhada, dado verificar-se uma centração gradual no cliente enquanto agente incontornável na definição da evolução do processo psicoterapêutico (tema 14). Com a partilha de responsabilidade e com o empoderamento do cliente no processo psicoterapêutico, assiste-se também a uma diminuição da experienciação de ansiedade (tema 8).

O desenvolvimento do psicoterapeuta implica um elevado grau de compromisso (tema 4), dado não se limitar à integração de desafios técnicos e profissionais. Assim, trata-se de um processo passível de ocorrer ao longo de uma vida (tema 8), dotado de continuidades e de descontinuidades (tema 7) introduzidas por vivências normativas e não normativas. Efectivamente, a influência da vida pessoal no desenvolvimento profissional é um tema bastante valorizado pelos autores. No tema 10, por exemplo, são referidas experiências relacionais no domínio pessoal (tais como padrões de interacção, experiências de parentalidade, crises familiares) enquanto importantes influências no domínio profissional (definição do papel do psicoterapeuta, escolhas das orientações teóricas, estilos psicoterapêuticos). Adicionalmente, é relevada a importância enunciada pelos psicoterapeutas das relações amorosas apoiantes no seu desenvolvimento profissional. Os autores revelam ainda que a representação dessas influências é mais notória em psicoterapeutas com níveis mais elevados de experiência. É também interessante verificar que a vivência pessoal de experiências que impliquem um sofrimento emocional profundo no psicoterapeuta, tais como perdas, parecem, num primeiro momento, ser significadas enquanto fontes de influência negativa. Todavia, as subsequentes integrações dessas mesmas experiências são

passíveis de ser percebidas pelos psicoterapeutas como importantes dispositivos desenvolvimentais e que resultam em níveis mais elevados de tolerância e de empatia.

Um outro tema bastante relevado pelos autores nas fases desenvolvimentais anteriormente descritas, prende-se com a importância atribuída aos clientes enquanto fontes de importância major no desenvolvimento dos psicoterapeutas (tema 9). Os clientes, além de se constituírem enquanto importantes agentes de feedback da intervenção desenvolvida pelo psicoterapeuta, proporcionam-lhe uma vivência relacional do sofrimento emocional e a confrontação com diferentes estratégias de resiliência e de resolução das dificuldades. A vivência partilhada do sofrimento parece também introduzir concomitantemente uma valorização e apreciação da variabilidade humana, uma maior consciencialização da imprevisibilidade da vida e da aceitação da incerteza (tema 13). A significação dos clientes e das experiências pessoais enquanto dispositivos de desenvolvimento preferenciais (tema 11) sublinha, à semelhança do estudo da rede de investigação colaborativa (Orlinsky & Rønnestad, 2005), a maior relevância atribuída a fontes interpessoais de conhecimento relativamente a fontes impessoais no desenvolvimento do psicoterapeuta.