CAPÍTULO II – A MENOPAUSA: UMA RUPTURA OU UM INÍCIO? 74
2. Desocultando sentidos em torno da maternidade 85
A maternidade esteve sempre ligada à mulher, mas não constitui a única possibilidade de
realização feminina; ela é, hoje, uma opção e não uma obrigação, diferentemente do que
aconteceu em épocas anteriores. De acordo com Correia (1998, p.370), no seu artigo sobre
uma breve evolução histórica e antropológica do conceito de maternidade, “Estamos já
A mulher, ao longo das diferentes fases do seu ciclo reprodutivo - puberdade, adolescência,
maternidade e, por fim, a menopausa -, constrói e reconstrói a sua feminilidade, ou seja, vai
amadurecendo e, quando chega à menopausa, enfrenta muitas vezes um outro preconceito: o
envelhecimento, em comum com os homens. No entanto, e sob a perspectiva de género, o
homem vai envelhecendo de maneira contínua, ao longo dos anos, enquanto a mulher perde
de repente a sua fecundidade; e quando surge a menopausa, aos olhos da sociedade, torna-
se sinónimo de envelhecimento (Beauvoir, 1949/1968).
A menopausa representa para as mulheres uma fase de mudanças fisiológicas e psicológicas
importantes que têm sido vivenciadas diversamente, de acordo com as épocas e os contextos
sociais. Por isso, cada vez mais se considera que esta fase deve ser vivenciada como mais
uma experiência do ciclo reprodutivo que contribuirá para que novos significados e atributos
sejam acrescidos às suas vivências.
Se o espectro do feminino não é um privilégio absoluto da mulher, a maternidade é-lo. A
célebre frase de Simone de Beauvoir (1949/1968) “(…) não nascemos mulheres, tornamo-nos
mulheres (…)” desconstruiu a ideia de que o feminino era algo determinado pela natureza,
fora da história e dos contextos sociais. Na verdade, o conhecimento científico feminista tem
vindo a mostrar que o feminino constitui uma característica subjectiva que se desenvolve no
ser humano a partir das suas vivências biológicas, sociais e culturais e que resultam na sua
representação de género enquanto “mulher”.
Todavia, a esfera que circunscreve o desenvolvimento emocional, expresso através de
representações biológicas e sociais, resulta na construção de uma identidade com uma
história pessoal de acontecimentos e afectos. A identidade assume-se como o produto final
da articulação das vivências, das representações, das fantasias e das interacções com o
mundo “real”. Assim, cada mulher adquire a sua identidade, ou seja, adquire a forma como
se vê e como pensa que é vista pelos outros.
Na nossa cultura, a imagem da mulher faz-se, desfaz-se e refaz-se através dos anos e é algo
que se mistura entre o corpo, o psiquismo e o social, criando um conjunto de características
que vão originar representações de género.
Na sua participação no trabalho pago fora do lar, para além da independência económica,
as mulheres desenvolvem a socialização no trabalho, conhecem pessoas, fazem amigos,
constroem saberes, continuando responsáveis pelas actividades reprodutivas, pelas
actividades domésticas em casa, pelos filhos e, ainda, são vistas como “ajudantes no
orçamento familiar” pelo facto de terem um emprego (Gorjão, 2002). Socialmente, o trabalho
das mulheres não é valorizado como tal, mas como um contributo familiar, mantendo-se
muitas vezes ainda a ideia do homem como “ganha-pão”, ideia essa que, na prática, não
corresponde à realidade, na medida em que o salário das mulheres é fundamental para as
famílias e, muitas destas, são monoparentais femininas. Esta representação estereotipada das
mulheres como, fundamentalmente, ligadas ao espaço doméstico tem contribuído para tornar
invisível o seu papel nas diversas dimensões da vida social.
Com já referimos, a maternidade deixou, actualmente, de constituir o principal e único
objectivo da mulher, porque luta por outros ideais. Isto deve-se, em parte, ao aumento da sua
participação no mercado do trabalho, ao facto de que as expectativas e responsabilidades
sobre as crianças são (ou pretende-se que sejam) partilhadas com o homem, já que também
se verificam alterações na postura destes. Hoje, segundo Correia (1998, p.370), alguns
homens partilham as vivências da gravidez, parto e cuidado dos filhos. Assim, “Actualmente, a
decisão de ter filhos é algo pensado e repensado; com a proliferação dos anticoncepcionais, a/o
mulher/casal tem filhos se quiser e quando quiser; a maternidade acontece predominantemente
num contexto de projecto em conjunto com outros projectos profissionais, económicos (…)”.
Na verdade, as mulheres incluem cada vez mais, na sua identidade social, a componente da
autonomia/independência financeira. Mais ainda, a insegurança e a competitividade do
mercado de trabalho não permite aos jovens casais optar por ter filhos cedo, sem garantias
de segurança económica e bem-estar. A acrescentar, as investigações vêm mostrando que,
apesar das várias alterações do mundo, as mulheres portuguesas sabem que ainda cai sobre
elas a maior parte das responsabilidades do cuidar e das tarefas domésticas, pelo que
adiam a maternidade para um momento em que possam conciliar de forma mais equilibrada
a sua vida profissional e familiar (Sousa, 2008).
Sobretudo nos anos 1950-60, a maternidade era, muitas vezes, vista pela sociedade como
um poder da mulher, embora a construção da identidade fosse baseada nas imagens de ser
“mãe, mulher e amante”. Esta representação social vigorou até ao 25 de Abril, apesar de
alguns sinais de mudança que foram sendo visíveis a partir dos finais da década de 1960
(Pacheco, 2000). Paralelamente, em Portugal, a esta concepção de “mãe-mulher-amante”,
existia uma dicotomia social entre a mãe-esposa e a amante, nem sempre representadas
pela mesma mulher. O regime salazarista impunha uma moral muito rígida para as mulheres.
No entanto, de forma mais velada, era permitido aos homens a satisfação dos seus prazeres
fora do matrimónio, pelo que o regime regulamentou a prostituição em casas próprias e,
devidamente vigiadas, em que eram sujeitas a exames médicos (Pacheco, 2000).
Nesta concepção de imagens da mulher - em que a sua valorização está actualmente
associada - uma das grandes questões que preocupavam e que continuam a preocupar as
mulheres de meia-idade é, sem dúvida, o envelhecimento, as perdas que ocorrem e os
possíveis ganhos e as perspectivas quando se envelhece.
Assim, do confronto ambivalente entre as perdas e os ganhos e respectivas representações,
concebe-se, por um lado, o tipo de mulher na menopausa que está consciente da vivência de
um processo individual de envelhecimento - caracterizado pela ocorrência de perdas, como
um possível divórcio, o afastamento dos filhos do lar, o desemprego, a aposentação, a
despromoção - e, por outro, a construção de novas representações de como ser mulher, avó e
companheira. Por outro lado, com as mudanças sociais no estatuto feminino, há mulheres que
têm vindo a associar as perdas físicas contrapostas aos ganhos cognitivos, pois estes advêm
de uma experiência de vida conseguida pelo envelhecimento que lhes atribui, assim, poder e
autoridade, ou seja, ganhos.
Apesar desta dicotomia de representações, é um facto irrevogável que a mulher em
menopausa percepciona uma alteração dos laços afectivos que vão produzir a construção de
novas representações sociais de como ser mãe, com os filhos criados, de como ser mulher sem
menstruação e com rugas, de como ser avó e companheira ou amante no casamento já
construído há muitos anos. Como Joaquim (2006, p.89) escreve:
“Deste modo, é no caleidoscópio destas imagens que aparentemente se apresentam
como antagónicas da mulher, mãe, pureza, impureza, virgindade, maternidade que
se construiu um modelo de feminilidade problemático (e por vezes contraditório).
Imagens que ainda hoje persistem sobre as mulheres. Ditas, claro, e expressas de
modo diverso (e mesmo aparentemente já esquecidas), mas que, em momentos de
controvérsia em torno da maternidade (e da face obscura, o aborto), nesses
momentos também eles contraditórios, tais imagens aparecem vivazes.”
A capacidade de adaptação à mudança, bem como a concretização dos projectos de vida,
constituem requisitos para se viver bem em todas as etapas da existência, especialmente na
idade madura, quando a mulher se depara com os desafios biológicos provocados pela
passagem dos anos. Para além dos desafios biológicos, as mulheres deparam-se ainda com
as atribuições e representações acerca da feminilidade e mais concretamente sobre esta fase
da vida feminina, o que passamos a tratar na secção seguinte.
No documento
Menopausa e sexualidade : o (des)prazer de envelhecer
(páginas 86-90)