2. DO IMAGINÁRIO POPULARPARA A ESCRITA: A ETERNA
2.1. DIFERENTES MANEIRAS DE VER OS SANGUESSUGAS NA
Os mitos sobre os monstros sanguessugas da antiguidade às vezes variam no seu conteúdo, alguns têm várias versões; como são muito antigos, dificilmente saberemos qual é a versão original. No livro Histó- rias dos vampiros – das origens ao mito moderno (2012), Andrezza Christina Ferreira Rodrigues36 narra a história da Lâmia da seguinte forma:
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Possui doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente é professora do Centro Universitário das Faculdades Metro- politanas Unidas. Tem experiência em História Moderna e Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: corpo, história e literatura, história
Zeus, em uma das múltiplas traições à esposa He- ra, envolveu-se com Lâmia, rainha da Líbia. Hera, revoltada com a traição do marido, matou todos os filhos frutos dessa união. Lâmia, em desgraça, passou a atacar cada criança que cruzasse seu ca- minho, devorando-as e bebendo seu sangue (RO- DRIGUES, 2012, p. 16).
Raymond T. McNally e Radu Florescu nos apresentam uma ver- são um pouco diferente:
Na Grécia antiga havia a empusa ou lamia, paren- te do vampiro ─ horrível homem-mulher-demônio de asas, que levava os jovens à morte para beber seu sangue e comer sua carne. Lamia foi uma vez amada por Zeus, que enlouqueceu com o ciúme de sua esposa, Hera. Lamia assassinou seus próprios filhos e vagava pela noite para matar os filhos dos humanos por vingança (McNALLY; FLORESCU, 1995, p. 123, 124).
Comparando as duas versões constatamos algumas diferenças, a primeira menciona apenas Lâmia, já a segunda mostra empusa e lâmia como sendo a mesma criatura. A versão de Rodrigues diz que era Hera matou os filhos de Lâmia, que a partir de então, além de sanguessuga, transformou-se em uma canibal infanticida.
Por outro lado, McNally e Florescu dizem que a criatura podia se metamorfosear em homem ou mulher de acordo com suas intenções e que era alada, além disso devorava jovens e tomava seu sangue. Nessa versão, a Lâmia assassina seus próprios filhos. Obviamente os pesquisa- dores mencionados consultaram obras diferentes quando da confecção dos seus livros.
Enfatizamos as diferenças para esclarecer que os mitos dos chu- padores de sangue podem variar de acordo com as fontes consultadas. Em uma pesquisa rápida na internet e/ou livros de mitologia,nos depara- remos com várias outras versões, no entanto, o aspecto mais relevante é que os nomes das criaturas são mantidos, com algumas pequenas altera- ções na grafia, e estão relacionados com o ato de beber sangue. Outro aspecto importante é que tais seresem algum momento, independente- mente do modo como o mito foi apresentado, desde que tomasse sangue,
e arte, ciência e conflitos sociais, política e movimentos sociais. Disponível em:
provavelmente também serviram de inspiração para os escritores de literatura vampírica.
Marcos Torrigo37no livro Vampiros (2002), além de citar os mitos antigos da Grécia, faz também um apanhado geral dos mitos de chupa- dores de sangue de diversos países. Mencionaremos alguns do mais importantes sanguessugas pesquisados por ele, certamente também nos valeremos de outros autores quando se fizer necessário.
O autor começa sua viagem pela Índia, onde encontramosas Rak- shasas, que frequentavam os locais de cremação e:
Estavam sempre prontos a atrapalhar a consecu- ção espiritual dos ascetas. Datam da era védica38, seu líder é Ravana, de dentes pontiagudos e olhos sinistros, inimigo de Rama. Eles portam unhas longas e venenosas, sua aparência é feroz, sua cor é o azul escuro, mas podem ser verdes ou amare- los.
Os Rakshasas são senhores de grandes tesouros, guardiões de templos e palácios. Vagavam à noite em busca de sangue de crianças, em especial dos recém-nascidos. Também gestantes faziam parte de suas principais vítimas (TORRIGO, 2002, p.8,9).
Observando as colocações do autor, podemos notar que esses su- gadores de sangue indianossão associados a demônios e ao desvio espi- ritual, pois perturbam os ascetas, que se sacrificam e se entregam ao desconforto físico à procura da perfeição espiritual.
Esses seres antigos erammonstruosos e animalescos, longas unhas e aparência feroz, refletindo o bestialismo ao qual estavam ligados. São relacionados à riqueza pois, são senhores de grandes tesouros, guardiões de templos e palácios, evidenciando, desta forma, o capitalismo, que normalmente está ligado à deterioração do espírito e à corrupção da alma. Tais monstros tinham preferência por recém-nascidos e gestantes,
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Torrigo é membro destacado da O.T.O (Ordo Templi Orientis), cabalista, demonólogo, vampirologista, iniciado no Xamanismo e no Tantra Kaula. Faz pesquisas em todos os campos da magia e tem desenvolvido novas teorias e práticas. Fonte: primeira orelha do livro Vampiros (2002).
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Não se sabe a data exata de quando a civilização védica viveu, mas é uma das mais antigas do mundo, no entanto, arqueólogos concordam que é muito anteri- or a Abraão.
evidenciando assim, que seu intuito, assim como vários outros sugado- res da antiguidade, era destruir o início e a fonte geradora da vida.
Torrigomenciona, ainda, uma outra espécie de chupadores de sangue indianos, os Bhutas: ―Os candidatos principais a se tornarem Bhutas eram os que padeciam por morte antinatural, suicídio ou execu- ção; eram loucos, portadores de alguma moléstia ou deformados. Trans- formavam-se, após a morte, em mortos-vivos‖ (TORRIGO, 2002, p. 9). O autor explica que praticamente em todo o mundo pessoas que sofre- ram morte violenta ou tiveram má índole [incluindo suicidas] são fortes candidatos a vampiros. Na Europa, essa crença foi perpetuada até o final do século XIX, sendo que no leste europeu muitas dessas lendas e mitos continuam ainda vivos, em pleno século XXI, sendo respeitados e acre- ditados por moradores supersticiosos, principalmente dos pequenos vilarejos.
A loucura e a deformação física mencionadas pelo autor, fazem parte do estranhamento causado por doenças físicas que não eram com- preendidas pela humanidade no passado. O mundo, durante vários sécu- los, foi muito cruel com os doentes mentais e com pessoas que possuíam deformidades, muitos deles foram tachados de aberrações e de estarem possuídos por demônios, nesse caso, transformando-os, muitas vezes, em vampiros.
Outra criatura indiana a qual Torrigo faz alusão é a Churel, que é do sexo feminino. Qualquermulher que tivesse morte no parto ou que estivesse menstruada poderia se transformar em vampiro e poderiavoltar para aterrorizar sua comunidade:
Ela aparece como uma linda donzela, extrema- mente sedutora, drenando suas incautas vítimas enquanto estas se encontram deleitando-se em seus braços. Outras vezes, ela aparece com dentes caninos enormes, e de sua boca pende uma língua negra, e sua cabeça é ornada com uma selvagem cabeleira igualmente negra (TORRIGO, 2002. p. 10).
O derramamento de sangue, através do parto ou do ciclo mens- trual, poderia ser capaz de gerar uma sanguessuga dentro das tradições antigas indianas. Sendo assim, percebemos que o simples fato de se deparar com um derramamento de sangue, mesmo sendo natural, como nos casos citados acima, seria suficiente para alimentar superstições, mostrando dessa forma, mais uma vez, que os seres humanos semprese preocuparam em achar explicações para o que lhes era desconhecido,
especialmente quando envolvia sangue. Ademais, a sensualidade vampí- rica, que sempre foi muito explorada pela literatura, já era uma caracte- rística de muitas criaturas da antiguidade.
Ainda com origens na Índia não podemos deixar de citar Kali, que ―como muitas divindades vampíricas, simbolizava a desordem que aparecia continuamente entre todas as tentativas de se criar a ordem. A vida era, em última instância, indomável e imprevisível‖ (MELTON, 2008, p. 261). A figura abaixo mostra uma das representações da deusa: Figura VI - Kali
Fonte: https://lulambert.wordpress.com/category/deusas/
Essa deusa é uma das divindades mais importantes da mitologia da Índia, segundo O livro dos vampiros (2009):
Geralmente representada como uma mulher com quatro braços e uma língua comprida, Kali é uma figura aterrorizante. Com uma das mãos ela em- punha uma espada, enquanto com a outra segura a cabeça de um gigante morto. Ao redor do pescoço usa um colar de crânios. Geralmente é representa- da em pé sobre Shiva, sua divindade consorte. Diz a história que Kali estava lutando contra o de de- mônio Raktavija, mas cada gota do sangue dele, ao cair no chão do campo de batalha, se transfor- mava num novo demônio, até que todo o lugar fi- cou cheio de milhares deles. Para derrotar Rakta-
vija, Kali bebeu o sangue diretamente do seu cor- po e devorou os demônios. Embriagada pelo seu sucesso, Kali se deixou levar e passou a destruir tudo o que estivesse à sua frente, até que Shiva se jogou debaixo dos seus pés para evitar a destrui- ção(REGAN, 2009, p.41).
Outras versões do mito rezam que Kali pisa sobre seu consorte, Shiva, mostrando assim seu domínio durante as relações sexuais.
A cultura semita apresenta uma figura muito parecida com Kali, Lilith, que aparece no Talmude, livro das leis, dos costumes e da tradi- ção judaica; segundo este, Lilith foi a primeira mulher de Adão e tal qual Kali também não admitia ser submissa durante as relações sexuais, por essa razão abandona o marido.Devido a sua desobediência, seus filhos foram mortos e ela se transforma em um demônio que passa a matar crianças, assim como a molestar sexualmente os homens durante o sono. ―Os judeus medievais possuíam amuletos especiais para se pro- tegerem contra seus ataques, um feito para meninos e outro para meni- nas. Tradicionalmente, eles representam os três anjos que tentaram per- suadir Lilith a não deixar Adão‖ (McNALLY; FLORESCU, 1995, p. 124).
Talvez o fato de Kali e Lilith não se subjugarem ao sexo masculi- no é que as torna mais demoníacas e fonte de escárnio dos homens, pois são maus exemplo para as mulheres.
No afresco abaixo de Michelangelo Buonarroti (1508-1515) pin- tado no teto da capela Sistina no Vaticano, Lilith é retratada como a serpente que induziu Eva a comer o fruto proibido, crença essa que foi difundida durante a Idade Média.
Figura VII - A queda do homem
Fonte: http://www.jeanniemusick.com/jeannies-writings/lilith-home/lilith-
artwork-gallery/
Já na Itália, de acordo com Montague Summers39 no livro The vampire in lore and legend (2001) originalmente publicado em 1929, durante o império romano existiam as Strix, os gregos a chamavam de Strigla, que culminou no nome atual de stregano italiano moderno. Tais criaturas:
[...] eram vistas como uma mulher-bruxa, que
tem o poder de metamorfosear-se, voa à noite em forma de corvo, tomando sangue humano,
com hálito de veneno mortal; distinta, entretanto, do vampiro, que geralmente é tido como a ressus-
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Montague Summers was not a witch, far from it, he was a Catholic Priest and devoutly against witchcraft, however one feels that his contribution to the litera- ture of witchcraft deservedly earns him a mention in any roll call of witches. He was an eminent scholar and author who wrote extensively about the darker sides of witchcraft, demonology, vampirism and lycanthropy. He believed adamantly that witches were evil servants of the devil 'Satan' who throughout history deserved all the punishments they received. Disponível em: http://www.controverscial.com/Montague%20Summers.htm – Acesso 11.10.15.
citação material de uma pessoa morta, enquanto que a Strigla é um ser humano que toma a forma de um pássaro (SUMMERS, 2001, p. 265, negrito nosso, nossa tradução)40.
Summers defende que a bruxa se transformava em corvo, em ou- tras versões ela aparece como coruja, que é o caso do livroVampiros (2002) de Torrigo e vários sites da internet, o que faz mais sentido, pois corujas são criaturas da noite envoltas em muitos mistérios, os corvos, por outro lado, devoram qualquer tipo de carniça, mas são animais que atuam durante o dia. Strixs,são criaturas que também se envolvem sexu- almente com os homens.
O Livro dos Vampiros (2009) menciona também os ghouls, que além de vampiros, eram também canibais:
Dizia-se que os ghouls eram os filhos de Iblis, o equivalente islâmico a Satanás ─ seu nome vem da palavra árabe para ―demônios‖. Nos contos folclóricos da Península Arábica, os ghouls iam desde bestas irracionais até aqueles que se passa- vam por humanos durante o dia, com vida aparen- temente normais, mas saiam à noite para caçar. Eles tinham a habilidade de assumir qualquer forma, preferindo os animais carnívoros, como a hiena. Fortes e velozes, eles não sentem dor, não envelhecem e não precisam de ar para respirar. A única forma de matá-los era um tiro na cabeça (REGAN, 2009, p.38).
Alguns os ghouls islâmicos, possuíam o dom de serem mortais durante o dia, mas tinham o poder de transmutar-se durante à noite. Apesar de terem o status de demônios, diferentemente de outros vampi- ros, poderiam ser facilmente mortos com um tiro na cabeça. Há outras lendas, que dizem que esses monstros viviam embaixo da terra e que comiam crianças, desta forma, acreditamos que muitos desses mitos podem ter nascido da mente fértil de contadores de histórias para crian- ças, que no passado, eram terrivelmente assustadoras e permeadas de mortes violentas e muito sangue.
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[...] is looked upon as witch-woman, who has the power of changing her form, and flying by night in the shape of a crow, sucking human blood, with breath of deadly poison; distinct, however, from the vampire, which is generally held to be a material resuscitation of a dead person, while the Strigla is a living being who has assumed a birdlike form.
A China também tem seus vampiros, há relatos sobre tomadores de sangue naquele país há mais de 2600 anos, um dos mais famosos é um vampiro alado de cabelos brancos e unhas longas chamado chiang- shih, tal ser também tinha a capacidade de metamorfosear-se em ani- mais, especialmente em lobo, somente o fogo era capaz de destruí-lo (TORRIGO, 2002, p. 17).
Como pudemos perceber, o vampiro, não exatamente com este nome, mas muitas vezes com as mesmas características, faz parte do inconsciente coletivo de vários povos, seria praticamente impossível mencionar todos os países em que tais seres se fazem presentes, nosso intuito foi apenas fazer uma amostragem dos vários monstros chupado- res de sangue que alimentam o imaginário de inúmeros povos ao redor do planeta.
Acreditamos que o mistério envolto nas criaturas sugadoras de sangue, envolvendo dicotomias como: a vida e a morte, a noite e o dia, o humano e o animal, o belo e o feio, o humano e o divino, o sexo consa- grado e o libidinoso, foram fundamentais para transformar esses mons- tros horrendos, mas ao mesmo tempo sedutores, em personagens imor- tais dentro do imaginário do mundo antigo e da literatura na era moder- na.
2.2. QUATRO POEMAS VAMPÍRICOS FUNDAMENTAIS PARA O