Organization and work process in occupational health
3. Discussão e Análise Crítica
No final do século XIX, a indústria e outros setores incorporaram a técnica gerencial chamada de “método científico do trabalho”, método desenvolvido por Frederick Taylor, que serve de base para a compreensão do gerenciamento no setor de telemarketing. O taylorismo introduziu princípios como o de
“aptidão” em uma forma de seleção proporcional ao mais apto, mais capaz de, excluindo os incapazes, utilizando, ainda, o princípio de “adaptação” do ser humano a ritmos excessivos, cronometrados e nocivos para a saúde (Paraguay, 2005). O que ocorreu com as inovações tecnológicas foi uma potencialização do método taylorista. Com a era da introdução de sistemas de informação, as ideias de Taylor se consagraram em comandos de sistemas semirrobóticos(Pena; Thébaud-Mony, 2005).
Dessa forma, reflete-se inicialmente, que o ser humano não é apenas uma ferramenta de trabalho. Não há necessidade de o homem ter que se adaptar às condições impostas pelo meio. Este deve ser inserido de forma a ser participativo, e não passivo, a fim de que seja estimulado a produzir, progredir e qualificar-se.
Com isso, as relações sociais no capitalismo, em seu início, sofreram alterações e a forma de organização do trabalho também, fazendo emergir duas classes antagônicas que permanecem até hoje. De um lado, a burguesia, possuidora da propriedade privada dos meios de produção e do outro lado, a classe trabalhadora, assalariada, que vende sua força de trabalho para se manter. A relação entre as forças produtivas materiais da sociedade dificilmente está em equilíbrio com as relações de produção existentes (Marx, 1987).
Lastimável perceber que o empregado seja submetido a condições precárias de trabalho para atingir metas e resultados impostos por seus empregadores. Aliado a isso, o pouco retorno em condições dignas de trabalho, benefícios e salários condizentes com o seu esforço árduo torna todo esse processo de trabalho agonizante e estressante.
Antunes (2009), baseado em Marx, fala da contradição presente no processo de trabalho e aponta o fato de que o homem se diferencia das outras formas de vida animal, por ser o trabalho uma manifestação consciente e uma forma de expressão de sua inteligência, até mesmo no mais simples trabalho manual. É através do trabalho que o ser humano exerce sua condição social e interage tanto com seus pares como com a natureza. “Através dessa interação, existe um processo de transformação constante e recíproco, em que o homem, ao provocar alterações e mudanças na natureza, altera também sua própria natureza humana” (Filgueiras; Dutra, 2018).
O trabalho compreendido sob uma perspectiva ontológica é apresentado como um processo de interação entre o homem e a natureza, em que o mesmo utiliza sua capacidade de realizar ações para produção de bens e usufruto de sua vida, como mostra Marx no trecho: “põe em movimento as forças naturais de seu corpo – braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana” (Marx, 1987, p. 221).
Neste sentido, significa dizer que a atividade laboral dignifica o homem. Entretanto, ao se ter essa relação com a natureza alterada, distanciada, é visto mudanças na forma como esse indivíduo ver o mundo: de algo mais proativo, para algo mais passivo, que não lhe traz prazer.
O trabalho na sociedade capitalista possui objetivo antagônico ao trabalho pensado como categoria ontológica, que ao invés de humanizar o homem, como ser consciente, o desumaniza através da alienação, fazendo-o adoecer. Para que se compreenda o processo de adoecimento e os fatores desencadeantes em uma sociedade capitalista, é preciso saber qual o
entendimento que a própria sociedade tem do significado doença. Laurell (1982) afirma que desde a década de 1960 o debate sobre o adoecimento, e seus determinantes, aumentou e nele “discute-se que a doença é essencialmente biológica ou, ao contrário, social” (Laurell, 1982, p.2). Esse questionamento, segundo a autora, está associado a efervescência de lutas sociais. Foi, a partir desse processo de lutas, que surgiram diferentes compreensões para os problemas existentes (Laurell, 1982).
As práticas organizacionais sofreram mudanças dramáticas na economia mundial ultrapassando o entendimento anterior sobre as implicações na qualidade de vida, segurança e saúde do trabalhador. Os sistemas considerados como de alta performance, para muitos trabalhadores, resultaram em situações de instabilidades, estresse, riscos e sobrecarga de trabalho (Landsbergis, 2003). Esse modelo de organização com suas elevadas cargas e processos de trabalho insalubres e perigosos, equipamentos e tecnologias ultrapassadas, associado às flexibilidades nos contratos, perdas de direitos e garantias, dentre outras, fazem com que o nível de adoecimento aumente associado muitas vezes à invalidez, que exclui os trabalhadores do mercado de trabalho (Antunes, 2009; Minayo-Gomez; Thedim-Costa, 1997). O trabalho deveria agregar na construção individual do homem, para que se sentisse empoderado, autônomo, valorizado. Mas, em contrapartida, se tornou causa de adoecimento pelas excessivas demandas mentais e psíquicas pelo imediatismo e perfeccionismo exigidos.
As mudanças impostas pelo processo de financeirização e mundialização da economia regem a esfera produtiva atingindo todos os âmbitos da vida social, modificando e intensificando o modo de trabalho e de vida, trazendo a lógica do curto prazo, que estimula permanentemente a inovação da tecnologia e da força de trabalho, com seus trabalhadores descartáveis, favorecendo a terceirização, a informalidade, a precarização, que se tornam ações essenciais à lógica do sistema (Druck, 2015).
No processo dinâmico de transformação no modo de trabalho, segue um argumento de alerta:
“As transformações dos processos e organização do trabalho do novo modelo calcado no setor de serviços desafiam a saúde do trabalhador e exigem inovadoras perspectivas de análise-intervenção, sobretudo porque geram sofrimentos específicos de ordem psicossocial” (Leão, 2014, p. 25).
Nesse sentido, as mudanças no mundo do trabalho influenciam as formas de organização da produção assim como as relações existentes no ambiente de trabalho (Ziliotto; Oliveira, 2014). A integração da informatização e a inclusão cada vez mais comum de novas tecnologias no trabalho têm intensificado as pressões psicológicas, exigindo mais atenção e disponibilidade emocional por parte dos trabalhadores. Ao mesmo tempo em que se percebe o aumento da vigilância e controle da rotina laboral dos trabalhadores e o desempenho por meios de dispositivos dessas mesmas tecnologias (Leão, 2014).
Os processos de trabalho apoiados nas novas formas e métodos de organização do trabalho, com a avaliação por desempenho e estimulo à competividade, deixam as relações sociais mais fragilizadas, gerando individualismo e, consequentemente, sofrimento psíquico. Segundo a abordagem da Psicodinâmica do Trabalho, desenvolvida por Dejours (2011) essa situação dificulta a construção de estratégias defensivas individuais e coletivas. Sistema de defesa que serve para proteção dos trabalhadores ao
sofrimento e adoecimento causados pela organização e condições de trabalho. Essas estratégias, de acordo com o autor, facilitam a elaboração de processos de transformação do trabalho, e ao mesmo tempo, fortalecem as relações de cooperação entre os trabalhadores.
Colegas de trabalho deveriam ser um fator protetoràs pressões e necessidades advindas das atividades laborais desenvolvidas, mas como esse meio é frenético e acirra os ânimos entre eles, torna-os competitivos. Dessa forma, esse ambiente negativo não fornece apoio, e leva o trabalhador para o coping ineficaz das situações cotidianas.
O sofrimento, além de ter origem na rotina excessiva das tarefas, nas imposições e pressões da organização do trabalho, também se desenvolve com o sentimento de incompetência do trabalhador que se sente incapaz de atender às exigências relacionadas ao desempenho e produtividade, sentindo- se inseguro, desanimado e ansioso (Borba, 2011; Dejours; Abdoucheli; Jayet, 1994).
No entanto, o trabalho apresenta uma ambiguidade, pois também se produz saúde. De tanto se falar nas condições precárias de trabalho, nos ambientes e processos inadequados que provocam adoecimento nos trabalhadores, quase se chega a esquecer de que o trabalho gera saúde para o indivíduo. Assim, existem abordagens que ressaltam o caráter positivo do trabalho frente a saúde, produtor de sentido para a vida. Paulo Pena reafirma esse propósito: “Em uma perspectiva de construção da saúde, o trabalho pode estar inserido em um processo capaz de estruturar as dimensões biopsíquica, social, cultural e ambiental. Porém, de forma antagônica, a exploração no trabalho não raramente se relaciona com a doença e a morte precoce. O trabalho exercido de forma parcelada, repetitiva, insalubre e perigosa materializa-se em doenças, acidentes e sofrimento psíquico” (Pena; Cardim; Araújo, 2011, p.135).
As Clínicas do Trabalho, com base na concepção vitalista da saúde de Canguilhem (2017), aponta que a principal característica do ser humano não é a capacidade de adaptação ao meio, mas a de conseguir formas de viver melhor. Isso tem a ver com a saúde, quando diz que saúde é caracterizada pelas possibilidades de criação e recriação de mundos, poder inventar alternativas que favoreçam novas formas de vida em oposição àquelas que lhe são cruéis a vida no ponto de vista do trabalho (Silva; Ramminger, 2014). Os estudos voltados para clínica em Psicopatologia do Trabalho, efetivados no final da Segunda Guerra Mundial, com o propósito de identificar patologias mentais advindas de determinados ofícios, somente são superados na década de 1980, quando se desenvolvem pesquisas voltadas para o não patológico. Christophe Dejours põe em questão a forma como os trabalhadores conseguem evitar o adoecimento frente as pressões da organização do trabalho, preservando-os do adoecimento mental. O autor observou que os trabalhadores desenvolvem sistemas defensivos para se protegerem do adoecimento diante da organização do trabalho. Nessa direção, o importante não são as doenças mentais relacionadas ao trabalho, mas o sofrimento e as defesas geradas pelo sofrimento. O foco deixa de ser a doença, e passa a ser a normalidade, designando esse estudo de Psicodinâmica do Trabalho (Seligmann-Silva, 2011).
Dessa forma, o trabalho não é apenas cumprimento de regras, não é só execução, mas em qualquer situação de trabalho tem-se um ser que pensa
com um corpo que se expressa. Com base nos estudos da Ergonomia da Atividade, os conceitos de tarefa e atividade, ou trabalho prescrito e real, em que o trabalho real foge ao trabalho prescrito, Dejours (2011) desenvolve sua teoria. A atividade manifestada por homens e mulheres para realizar o que ainda não está prescrito pela organização do trabalho, necessita de criatividade, engenhosidade, inteligência prática do corpo, porque toda atividade requer a expressão subjetiva, a experiência internalizada como forma de contribuição para o trabalho executado. O trabalhador ao realizar seu trabalho, se depara com situações que não estão prescritas, previstas nas normas, levando-o a mobilização da sua subjetividade, o engajar do corpo inteiro.
Ao realizar o trabalho prescrito, o trabalhador espera reconhecimento, elogios, retribuições, quando isso não acontece, os indivíduos buscam formas defensivas de se protegerem de doenças mentais. O reconhecimento é fundamental para a luta contra o sofrimento vivido no trabalho. Quando elogiado, reconhecido, estimulado pela hierarquia ou pelos pares, o sofrimento se transforma em prazer, se contrapondo ao adoecimento (Dejours, 2011). Portanto, para a Psicodinâmica do Trabalho, a forma de se antepor ao sofrimento e suas possíveis consequências, se dá através do reconhecimento que proporciona prazer.
4. Conclusão
Buscou-se uma reflexão, ainda que breve, sobre a evolução dos processos de trabalho para entender os impactos diretos e indiretos na saúde do trabalhador, com vistas a compreender como a organização do trabalho influencia na saúde dos trabalhadores. Assim, abordou-se a organização do trabalho e os elementos constituintes da Saúde do Trabalhador, de forma a abranger a sua importância desde a antiguidade, passando pela Revolução Industrial à crise dos anos 70, o trabalho contextualizado nas organizações sociais e sua significação nas relações saúde-doença dos trabalhadores.
Após essa reflexão observa-se que as relações de trabalho devem ser repensadas para que se possa estimular esse trabalhador a desenvolver suas atividades com mais otimismo, dinamismo, empenho através da sua valorização não somente com relação ao ser individual, mas também com a oferta de condições dignas de trabalho. Esse reconhecimento é positivo para melhores formas de enfrentamento das dificuldades, melhoria de desempenho e consequentemente, menos adoecimento no meio dessa classe.Portanto, encoraja-se mais estudos voltados a essa área de investigação afim de se estimular reflexões e intervenções para melhoria dos aspectos relacionados à saúde e segurança do trabalhador.
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