Temporary workers: the importance of the integration process for the reduction of accidents
1. Enquadramento do tema
Faremos uma abordagem inicial para contextualização do tema, onde incluiremos uma revisão da literatura existente, da legislação e normas aplicáveis, bem como um retrato da realidade da empresa onde foi realizado este estudo, em termos de sinistralidade e acolhimento em segurança e saúde do trabalho.
1.1. Enquadramento social
O trabalho temporário assume um papel cada vez mais significativo na realidade laboral portuguesa. Segundo o estudo - Setores Portugal “Trabalho Temporário” - publicado pela Informa D&B em 2019, o ritmo de subida da faturação das empresas de trabalho temporário prolongou a tendência
crescente registada nos anos anteriores, com taxas de variação acima de 10% em vários exercícios, o que permitiu um acréscimo em cerca de 50% entre 2013 e 2018.
Em 2017, as empresas autorizadas a prestar serviços de trabalho temporário eram 227. No total, representavam 90.994 trabalhadores. Para 2019 e 2020, as previsões apontam para um prolongamento da tendência crescente do número de trabalhadores e do volume desta área de negócio.
De salientar também que, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2018 havia mais de 890 mil trabalhadores por conta de outrem com contratos não permanentes. De acordo com dados do Eurostat, publicados em Agosto de 2018, Portugal aparece com a terceira maior taxa de incidência de contratos não permanentes na União Europeia, 22%.
Por tudo isto, e tendo em conta que os trabalhadores recém-admitidos, em especial os trabalhadores com contrato de duração determinada (a termo, temporários e de muito curta duração), são tendencialmente mais vulneráveis a acidentes do que os demais trabalhadores (ACT, 2016), importa discutir metodologias de acolhimento e integração que minimizem os riscos profissionais a que estão expostos.
1.2. Enquadramento legal
De acordo com a Autoridade para as Condições de Trabalho, ACT (2016), o trabalho temporário estabelece-se numa relação triangular em que a posição contratual da entidade empregadora é partilhada entre a empresa de trabalho temporário que contrata, remunera e exerce o poder disciplinar sobre o trabalhador temporário e a empresa utilizadora de trabalho temporário que recebe um trabalhador que não pertence aos seus quadros, mas sobre quem exerce poderes de direção e fiscalização.
Esta relação está enquadrada por três diplomas principais: Código do Trabalho, aprovado pela Lei n.º 7/2009 e sucessivas alterações; Regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho, aprovado pela Lei n.º 102/2009 e sucessivas alterações; Decreto-Lei n.º 260/2009, já alterado, que regula o regime jurídico do exercício e licenciamento das agências privadas de colocação e das empresas de trabalho temporário.
No artigo 186º do Código do Trabalho é claramente definido que o trabalhador temporário beneficia do mesmo nível de proteção em matéria de segurança e saúde no trabalho que os restantes trabalhadores da empresa utilizadora. Neste artigo está também identificada a informação a prestar pela empresa utilizadora à empresa de trabalho temporário, antes da cedência do trabalhador, nomeadamente:
• Os resultados da avaliação dos riscos para a segurança e saúde do trabalhador temporário inerentes ao posto de trabalho a que vai ser afecto e, em caso de riscos elevados relativos a posto de trabalho particularmente perigoso, a necessidade de qualificação profissional adequada e de vigilância médica especial;
• As instruções sobre as medidas a adoptar em caso de perigo grave e iminente;
• As medidas de primeiros-socorros, de combate a incêndios e de evacuação dos trabalhadores em caso de sinistro, assim como os trabalhadores ou serviços encarregados de as colocar em prática.
• O modo de o médico do trabalho ou o técnico de segurança da empresa de trabalho temporário aceder ao posto de trabalho a ocupar.
Conforme definido no artigo 186º do Código do Trabalho, a empresa de trabalho temporário, na posse desta informação, tem a responsabilidade de a dar a conhecer ao trabalhador temporário de forma adequada. São também obrigações da empresa de trabalho temporário dar a conhecer, à empresa utilizadora, a aptidão do trabalhador temporário em resultado do exame de saúde e as suas qualificações profissionais.
Os casos de acidentes de trabalho são reportados à empresa de trabalho temporário pelo que é sobre esta que pende a obrigação de dispor de seguro de acidentes de trabalho. No caso de acidentes de trabalho graves ou mortais, cabe à empresa de trabalho temporário fazer a respectiva comunicação à ACT. Sumarizam-se, de seguida, as obrigações de cada entidade para com o trabalhador temporário:
Tabela 1 - Obrigações da empresa de trabalho temporário e da empresa utilizadora (adaptado do díptico de trabalho temporário da ACT, 2016)
Empresa de Trabalho Temporário
Empresa Utilizadora de Trabalho Temporário
Seguro de Acidentes de Trabalho
Exames de saúde
Vigilância Médica Especial
Avaliação e Controlo de Riscos
Equipamentos de Proteção Individual
Formação em Segurança e Saúde no Trabalho
Independentemente das diferentes obrigações, existe o dever de cooperação e troca de informação entre as empresas intervenientes com o objectivo da proteção dos trabalhadores temporários.
1.3. Realidade da empresa em estudo
A empresa na qual foi realizado o estudo em que se baseia este artigo é uma indústria que produz embalagens, com uma população fabril de, aproximadamente, 140 trabalhadores, localizada no distrito de Leiria. Dispõe de serviço interno de segurança no trabalho e serviço externo de saúde no trabalho.
Esta empresa é utilizadora de trabalho temporário, com trabalhadores cedidos por três entidades diferentes, que podem representar, em alguns períodos, cerca de 10% da força de trabalho.
O processo de integração de novos trabalhadores temporários era realizado de forma a cumprir as obrigações legais, especialmente de formação e
informação, mas a sua eficácia tornou-se questionável aquando da ocorrência de alguns acidentes com trabalhadores temporários.
Estes trabalhadores, por estarem a iniciar funções numa realidade que não conhecem e terem ainda um conhecimento insuficiente dos riscos profissionais, estão mais vulneráveis à ocorrência de acidentes.
Assim, nos primeiros quatro meses de 2018, ocorreram quatro acidentes e um quase acidente. Analisadas estas ocorrências, verificou-se que, em todos os casos, excepto um, tinha havido um ato inseguro na génese do acidente.
Tornou-se assim claro que a formação, informação e o acompanhamento prestado aos novos trabalhadores não estava a ser suficiente. Foram realizadas reuniões entre o Departamento de Segurança, o Departamento de Produção, os Recursos Humanos e o Diretor Geral no sentido de reconhecer as lacunas no processo de acolhimento e integração dos trabalhadores e planificar uma nova abordagem, que será apresentada de seguida.