CAPÍTULO 2. AS DISPUTAS CORPORTIVAS EM UM ESPAÇO
2.1. A TEORIA DE BOURDIEU
2.1.2. A DISPUTA NO CAMPO DA SEGURANÇA PÚBLICA
As disputas objeto deste trabalho não ocorrem somente por posições na estrutura organizacional da Polícia Federal (órgão estatal), mas também pela legitimidade para expressar pontos de vista a respeito do modelo brasileiro de segurança pública, dos instrumentos legais que regulamentam a investigação criminal e da forma de atuação da instituição Polícia Federal. Essa dimensão da disputa ocorreria também no campo caracterizado pelo sociólogo Francisco Thiago Rocha Vasconcelos como "campo da segurança pública", entendido como uma "convergência nacional entre espaços acadêmicos e arenas de políticas públicas" (VASCONCELOS, 2017, p. 36), onde estariam alinhados profissionais da segurança pública e da justiça criminal, pesquisadores e ativistas, redes de políticas públicas e comunidades epistêmicas. Assim, nessa dimensão, esses agentes sociais
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Na atual legislatura da Câmara dos Deputados há dois Delegados de Polícia Federal (Delegado Francischini, PSL/PR e Marcos Reategui, PSD/AP), um Agente de Polícia Federal (Aluísio Mendes, PODEMOS/MA) e um Escrivão de Polícia Federal (Eduardo Bolsonaro, PSL/SP). Em que pese o aparente equilíbrio de forças nesse campo, os deputados delegados federais alinham-se com oito outros deputados federais advindos dos quadros das Polícia Civis de diferentes Estados. Fonte: Parlamento Consultoria e Assessoria Ltda. Profissões dos Deputados Federais. Disponível em: < http://www.parlamentoconsultoria.com.br/site/wp- content/uploads/2014/03/PROFISS%C3%95ES-DOS-DEPUTADOS-FEDERAIS_2015.pdf>. Acesso em 03/02/2018.
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lutariam por um "poder de estabelecer e definir o conhecimento legítimo” (PINTO, apud DUARTE; SOUZA, 2012, p.159) a respeito de temas relacionados à segurança pública. Buscam influenciar no processo de "(...) reforma dos campos político-burocráticos em direitos humanos e segurança pública e as agendas de pesquisa sobre a “questão criminal” no Brasil (VASCONCELOS, 2017, p. 33).
Nesta interseção, as disputas envolvem a própria definição do campo científico/área de pesquisa e suas (sub)disciplinas - Segurança Pública e Sociedade, Criminologia, Criminologia Crítica, Antropologia do Direito, Sociologia da Violência, Sociologia do Crime, Ciências Policiais... -, a partir da qual se impõem as visões hegemônicas dos objetos e métodos científicos e das competências necessárias para atuação profissional (VASCONCELOS, 2017, p. 4).
Para a definição desse espaço, Vasconcelos parte do conceito de campo científico estabelecido por Bourdieu: "(...) espaço de concorrência interna com grau relativo de autonomia, pautado por uma hierarquia em constante modificação por disputas entre grupos de pesquisa em busca de recursos burocráticos e reconhecimento" (BOURDIEU, apud VASCONCELOS, 2015, p. 3). Apesar de o autor deixar claro que o campo da segurança pública não se confunde com o campo científico, os elementos que constituem este último são fundamentais para a compreensão das disputas trazidas para o aqui denominado campo da segurança pública que, aliás, pode ser visto por um viés disciplinar e, portanto, como um subcampo do campo de estudos acadêmicos em Ciências Sociais, tal qual preconizado por Ramos (2017).
Segundo Bourdieu, "o campo científico, enquanto sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial" (Bourdieu, 1983b, p. 122). Os seus integrantes concorrem pelo monopólio da imposição dos critérios que definem o que é ou não "científico", ou seja, pela autoridade científica, também entendida por Bourdieu como capacidade técnica e o poder social de agir e falar legitimamente em nome da ciência, mediante um sistema de outorgas e reconhecimentos conferidos aos agentes (ou grupo de agentes) pelos integrantes do próprio campo (BOURDIEU, 1983b, pp. 122-123).
Como já mencionado, Lima, Sinhoretto & Bueno (2015) observam que os policiais passaram a compor o rol de "atores sociais" integrantes do debate sobre a segurança pública, juntamente com Organizações Não-Governamentais (ONGs) e institutos acadêmicos.
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Segundo Vasconcelos (2015), a 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública (CONSEG), em 2009, marca bem esse movimento.
Segundo o autor, esses novos atores, "(...) ampliaram seus recursos argumentativos a partir de atividades de pesquisa, mobilização social e assessoramento à formulação de políticas públicas, ecoando ideias e experiências internacionais de policiamento" (Pavez et al, 2011 apud Vasconcelos 2015).
Demonstrando a modificação do campo da segurança pública, Vasconcelos argumenta que:
Em parceria com agências internacionais, estas organizações procuraram desfazer a forte polarização entre os atores tradicionais da área por um lado, as Forças Armadas e as altas patentes da polícia civil e militar e, por outro, organizações de militância em direitos humanos. Ao mesmo tempo houve a integração de atores representantes de entidades de baixa patente do sistema de segurança pública e justiça criminal (VASCONCELOS, 2015, p. 11).
De fato, a partir de então, a FENAPEF passa a ocupar lugar Comissão Organizadora Nacional da CONSEG, como representante de trabalhadores na segurança pública. Essa participação foi comemorada em publicação no site da entidade como um marco da conquista de um importante espaço para a defesa de posições não hegemônicas no campo burocrático (FENAPEF, 2009b), onde predomina uma visão da atividade policial calcada em preceitos jurídicos conservadores.
Outro episódio importante a caracterizar as estratégias adotadas neste campo foi o convite feito pela FENAPEF ao pesquisador Michel Misse para a coordenação de uma importante pesquisa sobre o inquérito policial no Brasil. Esse trabalho resultou na publicação do livro "O inquérito policial no Brasil" (MISSE et al, 2010). Em que pese a independência da pesquisa, o próprio autor pondera que considerava a possibilidade de chegar a resultados próximos ao que chegara o então presidente da Federação, em sua experiência policial (MISSE et al, 2010, p. 15). De fato, o trabalho mapeou os números da ineficiência do inquérito policial no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e Brasília.
Não só a FENAPEF e a ADPF, enquanto agentes coletivos, disputam posições nesse campo. Os policiais federais, individualmente, também passaram a se dedicar a ele, com a produção de textos acadêmicos ou opinativos a respeito de temas relacionados à segurança pública.
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Não se pode desconsiderar que, segundo Bourdieu (1983b), "(...) o próprio funcionamento do campo científico produz e supõe uma forma específica de interesse - as práticas científicas não aparecendo como "desinteressadas" senão quando referidas a interesses diferentes, produzidos e exigidos por outros campos" (BOURDIEU, 1983b, p. 123). Nesse sentido, as produções intelectuais de policiais federais, neste campo, também estão orientadas pelas posições por eles ocupadas no campo burocrático e pela visão de mundo que delas decorrem. Portanto, no campo da segurança pública, em geral, os delegados adotam uma postura de defesa e os demais policias a de modificação da estrutura do campo.