CAPÍTULO 3 A GENEALOGIA DO CONFLITO ENTRE "AGENTES" E
3.7. A GREVE DE 2012 E SEUS PRECEDENTES
3.7.1. O PL 6.493/2009 E O PROJETO OPF
Em 25 de novembro de 2009, no final do segundo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o Poder Executivo volta a apresentar ao Congresso Nacional um projeto de lei- orgânica para a Polícia Federal, o PL nº. 6493/2009. A proposta em questão mantinha a estrutura atual da PF e concentrava ainda mais o poder institucional nas mãos dos delegados. O art. 17 do referido projeto estabelecia que o cargo de Delegado de Polícia Federal, definido como autoridade policial, seria incumbido da coordenação das investigações criminais e das operações policiais, bem como, no exercício da autonomia investigativa, a titularidade da investigação criminal nas atividades de Polícia Judiciária da União, além de outras definidas em regulamento (BRASIL, 2009a). O art. 18 do PL definia 12 atribuições ao cargo de delegado. Na visão dos demais policiais federais, o projeto os colocava na posição de meros executores de determinações, por não atribuir-lhes a produção, a coordenação e o planejamento das atividades da PF, além de não tratar das atribuições específicas desses cargos (BRITES, 2010).
Nessa época, presidia a FENAPEF o Agente Marcos Vinício de Souza Wink. Como reação a esse PL, em setembro de 2010 foi levada à discussão, no 14.º Congresso Nacional dos Policiais Federais (CONAPEF), um projeto de reestruturação da carreira policial federal, denominado Projeto Oficial de Polícia Federal (Projeto OPF) (NOVO..., 2010). A proposta era baseada na ideia de ciclo completo de polícia e tinha o propósito de fortalecer a função de prevenção dos crimes de competência da Polícia Federal (polícia administrativa), estabelecendo um limite entre essa função, que seria dirigida por agentes, escrivães e papiloscopistas e a função de polícia judiciária, que continuaria a ser chefiada por delegados (CALDAS, 2011). Assim, essas duas funções seriam demarcadas como duas grandes áreas de atuação da PF: a Polícia Administrativa da União e a Polícia Judiciária da União, coexistentes sob a mesma estrutura, com comandos distintos. A justificativa para a apresentação do projeto era o fato de que, embora a Polícia Federal fosse uma polícia de ciclo completo, o órgão havia se transformado na "polícia civil da União", dada a sobrevalorização de suas funções de polícia judiciária (área dominada pelos delegados).
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Assim, seria necessário apresentar melhor os contornos das atividades preventivas, operacionais, técnicas e de inteligência (área cujas funções eram desempenhadas por agentes, escrivães e papiloscopistas). Uma das principais características do projeto era a distribuição do poder do órgão entre os cargos integrantes da carreira policial federal e também entre os integrantes do Plano Especial de Cargos da PF (os servidores técnico- administrativos), aos quais seriam atribuídas as diversas diretorias do órgão e assentos no Conselho Superior de Polícia.
No fim do primeiro ano de mandato de Dilma Roussef, no dia 29/12/2010, a FENAPEF encaminha ao recém nomeado Diretor-Geral da PF, o delegado Leandro Daiello Coimbra63, uma carta por meio da qual apresentava as suas pretensões em relação ao Projeto OPF. O projeto original previa a unificação dos cargos de agente, escrivão e papiloscopista num novo cargo denominado Oficial de Polícia Federal. Entretanto, após a sua aprovação no 14.º CONAPEF, a proposta foi rejeitada pela categoria dos papiloscopistas, que passou a buscar o seu enquadramento em uma carreira pericial (NEVES, 2011). Diante disso, o projeto foi reformulado e nele foi definida a unificação dos cargos de agente e escrivão, que seriam transformados no cargo de Oficial de Polícia Federal; o cargo de papiloscopista seria transformado no cargo de Perito Papiloscópico Policial Federal.
A acomodação dos interesses corporativos dos diferentes cargos da carreira policial federal e do plano especial de cargos ocorreria mediante a criação de seis categorias de "órgãos centrais" a serem dirigidos por representantes de cada um dos cargos, de acordo com a atividade-fim de cada área. Segundo o projeto, os órgãos relacionados à atividade-fim de polícia judiciária, seriam dirigidos por delegados; os de polícia administrativa, dirigidos por oficiais de polícia federal; de identificação humana papiloscópica civil e criminal e de perícias papiloscópicas pelos peritos papiloscopistas; os órgãos centrais que exercessem a atividade-fim de perícia criminal e técnico-científica seriam dirigidos por peritos criminais; e os demais órgãos centrais seriam dirigidos por servidores técnico-administrativos, ou por ocupantes de quaisquer dos cargos do quadro permanente da Polícia Federal. O projeto também tentava democratizar o acesso à direção dos órgãos de formação e capacitação, que
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seriam geridos por ocupantes de cargo integrante da Carreira Policial Federal, e não apenas por delegados, como ocorre atualmente (FENAPEF, 2011a).
No dia 29/11/2011, a FENAPEF, o Sindicato do Plano Especial de Cargos da PF (SINPECPF) e a Coordenação Geral de Negociações e Relações Sindicais do MPOG assinaram o Protocolo 4/2011, que dispunha “sobre as diretrizes para o processo de negociação referentes aos cargos de Agente de Polícia Federal, Escrivão de Polícia Federal e Papiloscopista Policial Federal” (FENAPEF, 2011b).
O projeto foi debatido em Oficinas de Trabalho que ocorreram em outubro de 2011, com a participação de especialistas em segurança pública, sindicalistas, integrantes do MPOG e Ministério da Justiça (MJ). Os resultados dessas Oficinas foram apresentados à Secretaria de Recursos Humanos do MPOG64, na forma de um relatório e de um anteprojeto de Lei Orgânica para a PF, como substitutivo ao Projeto nº. 6.493, de autoria do Governo Federal (FENAPEF, 2011b). Esta seria a primeira vez em que a FENAPEF negociava diretamente com o MPOG, e de forma autônoma, o que era considerado um "momento é inédito no movimento sindical" (FENAPEF, 2011b). A proposta marcaria a mudança na forma de atuação da FENAPEF, que sentindo os reveses com a greve de 2004, buscava agir mais tecnicamente, apresentando, pela primeira vez, uma proposta de alteração da carreira policial (FENAPEF, 2011b).
3.7.1.1. AS CRÍTICAS AO PROJETO OPF.
Embora fosse defendido pela diretoria da FENAPEF como um projeto que visava à valorização das atribuições de todos os policiais federais, a proposta recebeu críticas advindas das próprias bases sindicais, pois, apesar de ter sido discutida num CONAPEF, a sua difusão no meio policial teria ocorrido de maneira precária. O agente José Ricardo Neves, em artigo publicado na Revista Consultor Jurídico, criticava a unificação dos cargos de agente e escrivão e enfatizava que "embora os policiais federais presentes no referido congresso tivessem legitimidade para decidir em nome da categoria (isto é incontestável),
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Atualmente, com o advento do Decreto nº 9.035, de 20 de abril de 2017, esse órgão passou a chamar-se Secretaria de Gestão de Pessoas do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão.
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infelizmente, aprovaram uma questão ainda não conhecida e sequer discutida com as bases" (NEVES, 2011).
Em comentários postados em matéria publicada pela Revista Consultor Jurídico sobre o Projeto OPF, leitores (geralmente do campo jurídico) teciam ácidas críticas ao projeto. Carlos André Studart Pereira, identificado como Procurador Federal, dizia: "(...) Podem não querer ter o título de 'delegado', mas querem ter as mesmas prerrogativas, mesma remuneração. Aqui digo: cada macaco no seu galho" (NOVO..., 2010).
Nelson Cicone, identificando-se como Delegado de Polícia Estadual, dizia que "a Carta ficou vazia" e que nela não estavam descritas as atribuições do Oficial de Polícia. Num discurso de viés hierárquico, dizia que "a culpa desses pensamentos, por parte dos operacionais, é mesmo do Delegado que se distancia de seus subordinados, dando asas a crescer"(NOVO..., 2010). Outros comentários taxavam o projeto de inconstitucional e outros afirmavam ainda que os policiais federais, não queriam "ser delegados, nem ter as mesmas responsabilidades e atribuições, somente querem ganhar os mesmos salários" (NOVO..., 2010).
Apesar das controvérsias em torno do Projeto OPF, a FENAPEF continuou a defendê-lo junto ao Governo Federal. Paralelamente, em negociação apartada, os delegados defendiam a reposição de suas perdas inflacionárias e aceitaram um proposta oferecida pelo Governo Federal, consistente numa reposição salarial de 15.8%, com a aplicação de um percentual 21,3% para a classe inicial do cargo (ADPF, 2012a). Esse percentual mais elevado, também concedido aos peritos, faria com que o subsídio inicial desses cargos ficasse ainda mais distante do subsídio final dos demais policiais.