PARTE I DO MUNDO FILMÁVEL
3. D ISPOSITIVOS E FENÓMENOS QUE PRECEDERAM A UTILIDADE DA
3.5 Do relacional como modo de pensar
No espaço social, aquilo que nos condiciona é, antes de mais, o lugar em si – as suas dinâmicas, regras e símbolos. Qualquer espaço social forte representa um intervalo entre o Eu e mundo. Nesse sentido, a sala de cinema, enquanto templo ou caverna propícia à suspensão temporária de um mundo exterior, possui ainda todas as características para ser o lugar propício a uma ‘transgressão’, que nos leve a relacionarmo-nos sensivelmente com as imagens projectadas no seu interior, mas também a poder fazer-nos regressar transformados ao mundo exterior. Todavia, por algumas razões como as acima mencionadas38, nessa sala se introduziram os pré- requisitos de uma propriedade privada, com objectos ao dispor do nosso olhar, para uso e consumo. Na sala de cinema, face à gestão económica das durações dos filmes, dos conteúdos e dos dispositivos de imersão e captação de atenção, o sujeito tardomoderno começou a aprender que não precisaria mais de se sujeitar à impotência resultante da convivência com os outros e com as coisas, que o condicionam num espaço comum. A televisão e o mais recente estado demiúrgico que os gadgets nos oferecem são uma sofisticada evidência da condição em que não precisamos mais de co-existir constrangidos num lugar comum.
Virillio considera que o homem do futuro tornar-se-á num pólo de inércia. Esta expressão serve analogamente à concepção de um sujeito alienado de um mundo em que «o espaço já não se estende, pois o momento de inércia sucede à deslocação
contínua» (Virillio, 1993: 33). Tais considerações (mais apocalípticas que as de
Debord) interessam-nos, porquanto evidenciam uma relação estética com um espaço que, à semelhança da sala de cinema, perdeu fisicalidade e sociabilidade. Para Virillio, este é o problema:
Deslocação sem se sair do sítio, aparecimento de uma inércia que está para a paisagem percorrida como a imobilização da imagem para o filme […] como se a conquista do espaço se revelasse em última instância enquanto mera conquista das imagens do espaço. (p. 35)
É justamente esta «mera conquista das imagens do espaço» que des- sensibiliza o nosso ser-com o mundo ao pô-lo ao nosso dispor subjectivo. Vivemos na «era do tempo intensivo» (Virillio,1993: 39), em que estar no mundo não significa necessariamente ser-com o mesmo e com o Outro. A este respeito, o «tempo
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Apontámos apenas algumas razões, pelo que muito ficou por dizer acerca do levantamento técnico e histórico de elementos estruturantes das salas de cinema, ao longo do século XX. No entanto, a nossa intenção é tão só questionar a perda de qualidade estética associada a esse complexo e difícil campo de estudos.
intensivo» de Virillio é o da alienação produzida por um mundo cinematizado, no qual nos basta a interioridade, para estabelecermos com as coisas e as não-coisas uma relação sensorial essencialmente ‘óptica’. A óptica activa da vídeo-informática, inversamente a uma óptica passiva das lentes da luneta de Galileu, serve-nos como suporte para uma ideia de interacção estética que é livre de qualquer exterioridade, mundana ou natural39. A «destruição do ambiente físico», que deriva de um arrastamento da nossa espécie para uma «repentina mutação do tempo próprio» (id.: 105) dos espaços, deve ser pensada não só ecologicamente, mas como forma de destruição da possibilidade de percepção e relação com o mundo ambiente em redor – que ainda é feito de heterogeneidades.
A suspensão originária da experiência contemplativa, apesar de nos remeter para um mundo imaginário, contém a proeza de nos ligar ao mundo, precisamente por nos obrigar a ‘sair’ dele. A cinematização da experiência anula ou danifica essa dobra que a arte, sem livro de regras, sempre tratou de assegurar. O cerne do problema não reside nas formas de mediação ou no tipo de produtos de que continuamos a precisar para nos distanciarmos, pensarmos e re-ligarmos ao mundo. Repetimos: o problema não está no estado actual da cultura e dos seus objectos. Ele reside na anulação do pensamento e de um efeito de ‘transgressão’, que permitem intensificar a relação com o que nos rodeia. Desaparece, assim, a possibilidade essencial de podermos ser ‘presas fáceis’ nos espaços reais em que circulamos. É precisamente de uma forma de reconstrução dessa possibilidade relacional – tão volátil, frágil e humana – que falaremos de seguida.
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No que respeita à distanciação espiritual entre o homem e o meio-ambiente, Hannah Arendt diagnosticou as possíveis origens de uma separação ou quebra dessa relação: «Quanto maior a distância entre o homem e o seu ambiente, o mundo ou a terra, mais ele pode observar e medir, e menos espaço mundano e terreno lhe restará. O facto de o ‘encolhimento’ definitivo da Terra ter sido a consequência da invenção do aeroplano, isto é, do homem ter deixado a superfície da Terra, como que simboliza o fenómeno geral de qualquer diminuição de distâncias terrestres só pode ser conquistada ao preço de se colocar uma distância definitiva entre o homem e a Terra, de aliená-lo do seu ambiente imediato e terreno» (Arendt, 2001: 328). Para Arendt, «a alienação da Terra tornou-se e continua a ser até hoje a característica da ciência moderna», pelo que especula sobre como a descoberta óptica de Galileu desacreditou os nossos sentidos e deu início a uma etapa de primazia das representações sobre o mundo físico: «O que Galileu fez e que ninguém havia feito antes foi usar o telescópio de tal modo que os segredos do universo foram revelados à cognição humana ‘com a certeza da percepção sensorial’, isto é, colocou diante da criatura presa à Terra e dos sentidos presos ao corpo aquilo que parecia destinado a ficar para sempre fora do seu alcance e, na melhor das hipóteses, aberto às incertezas da especulação e da imaginação. […] A moderna concepção astrofísica do mundo, que teve início com Galileu, e a dúvida que lançou quanto à capacidade de os sentidos perceberem a realidade, deixou-nos um universo de cujas qualidades conhecemos apenas o modo como afectam os nossos instrumentos de medição. […] Por outras palavras, ao contrário de qualidades objectivas, encontramos instrumentos e, ao contrário da natureza do universo, o homem – nas palavras de Heisenberg – encontra-se apenas a si mesmo» (id.: 323-325). É assim natural que o ‘negócio’ das imagens na sociedade do espectáculo, desde o século XIX até hoje, se tenha baseado na recuperação credível de sensações subjectivas e cognitivas que se haviam perdido no decurso da história científica moderna.