2 O TRABALHO DO PSICANALISTA EM UM NÚCLEO DE CONVIVÊNCIA DE
2.3 VINHETAS CLÍNICO-INSTITUCIONAIS
2.3.4 Dona Julia: o psicanalista tem que aprender a escutar
Dona Julia, 70 anos, era figura conhecida no serviço e no bairro. Andava pelas ruas com seu carrinho de feira e catava lixo. Nunca frequentava nenhuma atividade do serviço de convivência, marcando presença somente nos dias de entrega de leite e às vezes às sextas- feiras, quando tínhamos nosso almoço de confraternização semanal. Era tida como “louca”.
Ao vê-la, a imagem imediata era a de uma “moradora de rua”, sempre maltrapilha, com a roupas aparentando sujeira e com um odor nada agradável. Ela chegava ao serviço, não respeitava a fila e queria logo pegar o leite ou a comida. Não respeitava as regras. Por mais que a equipe explicasse, ela parecia não querer escutar. E os convites para que participasse de alguma atividade nunca surtiam efeito. Dona Julia não mostrava interesse nem em conversar conosco. Ela era “resistente”. Aparentava fazer um uso puramente utilitarista do que oferecíamos. Além disso, mantinha um isolamento em relação à maioria dos idosos, sendo vista por eles como inconveniente.
Em uma reunião de equipe, discutimos a situação de Dona Julia: a relação que estabelecia com o serviço, com os profissionais e os outros idosos era marcada por um distanciamento, uma ausência de interação. Assim, concluímos que seria interessante propormos a ela um acompanhamento domiciliar, já que não se mostrava interessada nas atividades do serviço de convivência.
A partir daí, iniciaram-se as visitas domiciliares. Foram várias tentativas de encontrá- la em sua casa, mas ela nunca estava ou não cumpria com os agendamentos combinados. Após algumas semanas, conseguimos encontrá-la e ser recebidos por ela.
A sua residência era muito humilde, contando com quatro cômodos: cozinha, sala, seu quarto e de seu neto. Havia um acúmulo de vários objetos de papel, plástico e madeira. “Estou preocupada com meu neto, o pai dele não cuida dele, ele não me respeita”, falava chorando durante nossa visita. Essa era a sua única queixa. A impressão que eu tinha era que ela
mantinha um ar distanciado, não estabelecendo um verdadeiro diálogo. Repetia sua preocupação com o neto como um mantra.
Diante disso, visando à possibilidade de construirmos um vínculo que possibilitasse um trabalho, eu e a assistente social propusemos que a idosa fosse ao serviço para atualizarmos seu cadastro. Então, com isso, fomos nos aproximando de Dona Julia, estabelecendo um vínculo transferencial. Além disso, nos raros momentos em que ela tornava a aparecer no serviço, buscávamos conversar com ela. Eram bate-papos aparentemente banais, sobre o cotidiano, normalmente curtos, mas que marcavam um interesse pelo que Dona Julia tinha a dizer sobre sua vida, seus sentimentos. Tanto eu quanto a assistente social insistimos nessa aproximação. O caso passara a nos “tocar” diante da situação precária que vimos em sua casa. Antes disso, pude perceber que era impressionante o quanto eu fora “insensível” à situação de Dona Julia, pois antes não considerava insistir para que ela participasse das atividades.
A partir da escuta dessa idosa, fomos percebendo que o fato de nos interessarmos por ela e reconhecermos como importante a sua participação nas atividades tinha como resultado uma interação social menos restrita e utilitária conosco. Sobre esse ponto, vemos o peso da relação sujeito e Outro, marcada pelo significante “louca”. Como propôs Lacan (1964/2008): “o sujeito depende do significante” e “o significante está primeiro no campo do Outro” (p. 201). Ou seja, na medida em que o sujeito é situado num lugar de invisibilidade pelo Outro social, isso produz efeitos sobre sua subjetividade – e esse era o caso de Dona Julia. A escuta dessa senhora e a tentativa de compreender como se dava a sua relação com o serviço resultou também no reconhecimento dela como alguém que de fato gostaríamos que frequentasse o serviço e participasse de nossas oficinas.
Isto teve como resultado um novo lugar em nosso discurso à Dona Julia, ou seja, estabelecemos um laço social diferente daquele que Dona Julia vivenciava no bairro: errante, “louca”. Sobre esse aspecto, Rosa (2004b) aponta que “o discurso, um discurso sem palavras, mas não sem linguagem, dá conta dos laços sociais. Estes se constituem a partir da circulação de certos elementos que, ao transitarem por diferentes lugares, produzem laços sociais específicos e promovem diferentes efeitos ou sintomas” (n. p.). Isto é, a passagem dos profissionais de uma posição de não escuta desta senhora para a de uma, digamos, escuta ativa do que ela tinha a dizer, produziu tanto para os profissionais quanto para essa idosa uma nova modalidade de laço. De usuária que se parecia com uma moradora de rua tornou-se Dona Julia, idosa participante de nossa oficina Clube da arte e dos passeios que fazíamos pela cidade de São Paulo, visitando museus e outros espaços públicos.
Desse caso, pude aprender que o trabalho do psicanalista é também se atentar para a escuta do sujeito em casos como o de Dona Julia, que aparentemente não direcionam nenhuma demanda para o serviço ou no qual as queixas, como a que fazia de seu neto, não são supostamente elaboradas como um pedido de ajuda. E, ainda, em casos nos quais muitas vezes o usuário do serviço parece desprezar o atendimento dos profissionais.
Nesse sentido, quando passei ao trabalho de escuta do sujeito, pude evidenciar que Dona Julia era marcada pelo significante “louca”, sendo reconhecida pelos moradores do bairro, pelos usuários do serviço e até por nós, profissionais, como um sujeito fora do laço. E esse significante reduzia o sujeito a um lugar predeterminado no discurso do Outro institucional: quando chegava na instituição, já se supunha a sua “inadequação” em relação `as regras, portanto, ela era atendida o mais rápido possível para que fosse embora. Isso garantia que ela não causasse muito incômodo, porém reatualizava o lugar que todos compartilhavam acerca de sua condição.
Com isso, o sujeito ficava suplantado por uma imagem cristalizada, silenciado quanto ao seu sofrimento e suas possíveis demandas, além de se manter enredado em uma identificação16 a estas “loucura” e “inadequação”. É como Lacan esclarece: “Aqui os processos devem, certamente, ser articulados como circulares entre o sujeito e o Outro – do sujeito chamado ao Outro, ao sujeito pelo que ele viu a si mesmo aparecer no campo do Outro, do Outro que lá retorna” (Lacan, 1964/2008, p. 202). Isto é – e novamente remetendo a uma psicanálise implicada (ROSA, 2016) –, o sujeito sempre está em relação ao Outro, sendo ele a família, a instituição ou o social, tendo o psicanalista, em interlocução com a equipe, o trabalho de fazer reconhecer no âmbito dos serviços como se dá essa relação, contribuindo para que os discursos e as práticas não ratifiquem situações de vulnerabilidade social e risco pessoal, bem como de isolamento social.
16 A partir de Freud (1921/2011), compreende-se aqui a identificação como o processo pelo qual o usuário toma
os significantes “loucura” e “inadequação” como um modelo que o determina. Trata-se de um complexo movimento de fazer das palavras do Outro institucional e sociopolítico aquilo que representa quem o sujeito é, delimitando um modo de expressão cristalizado. O que a escuta psicanalítica revela é esse processo identificatório e a possibilidade de o problematizar, garantindo que o sujeito não se reduza a essa identificação.
2.4 A ESCUTA DO SUJEITO E A PROBLEMATIZAÇÃO DE DISCURSOS E PRÁTICAS