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PROGRESSO MATERIAL E A GANA DO DINHEIRO: CARTA A JOSEPH H. TWITCHELL

No documento PATRIOTAS E TRAIDORES (páginas 98-102)

(14 de março de 1905)

Meu caro Joe,

Conheço um ditado de cabeça oca: “Um homem que é pessimista antes dos 48 sabe muito; se é otimista depois, sabe muito pouco”.

Portanto, fico muito feliz ao refletir que sou uma pessoa me-lhor e mais sábia que você. Ouvi dizer, Joe, que você agora trabalha

“no atacado”; “no atacado” os fazendeiros e senadores americanos são “honestos”. Isso se refere a vendas por dinheiro? Quem duvida?

Seria esta a única medida de honestidade? Não é verdade que exis-tem dezenas de tipos de honestidade que não podem ser medidas pelo padrão do dinheiro? Traição é traição – e há mais de uma for-ma de traição; a forfor-ma dinheiro é apenas ufor-ma delas. Ufor-ma pessoa que não é leal a um dever confesso é simplesmente desonesta e sabe disso; sabe, e sabê-lo a perturba intimamente, e ela não se orgulha de si própria. Julgado por esse padrão – e quem discorda de sua validade? –, não existe um único homem honesto em Connecticut, nem no Senado, nem em lugar nenhum. E neste caso nem a mim eu faço exceção.

Será verdade que o estou condenando e ao resto do populacho?

Não – asseguro-lhe que não estou. Pois conheço as limitações da raça humana, e isso me obriga – prazerosa obrigação – a ser justo com ela.

Toda pessoa nela incluída é honesta de uma ou de várias formas, mas nenhum de seus membros é honesto de todas as formas exigidas – exigidas por quê? Por seu próprio padrão. Fora essa, da forma como eu entendo, não existe para ela outra obrigação.

E eu sou honesto? Dou-lhe minha palavra de honra (particular) de que não sou. Há sete anos venho adiando um livro que minha cons-ciência me obriga a publicar. Considero meu dever publicá-lo. Há outras dificuldades que sou capaz de enfrentar, mas não enfrento essa.

É verdade, até eu sou desonesto. Não de muitas formas, mas de algu-mas. Acho que são 41. Somos todos honestos de uma ou de muitas formas – todos os homens no mundo –, embora eu às vezes tenha a impressão de ser o único que tem uma lista negra tão curta. Às vezes me sinto isolado nessa altaneira solidão.

Ah, é verdade, não estou esquecendo o “progresso constante, de era para era, da vinda do reino de Deus e da virtude”. “De era para era”

– é verdade, é uma boa descrição daquele passo enlouquecido. Eu (acre-dito que nem as Montanhas Rochosas) não estarei aqui para testemu-nhar sua chegada, mas está tudo bem – ele há de chegar, com toda certeza. Mas você não pode ficar ironicamente se desculpando em nome da Deidade. Se o progresso há de chegar, deve-se inferir que Ele quer que chegue; portanto não é generoso de sua parte, e eu me ofendo ao ver você lançar sarcasmos sobre o seu passo. Ainda assim eu não seria justo se não reconhecesse que os sarcasmos são merecidos. Quando a Deidade quer uma coisa e, depois de ter trabalhado por essa coisa du-rante “eras e eras”, não é capaz de mostrar progresso ínfimo visando sua realização é... Bem, a gente não ri, mas somente por não ter cora-gem. A fonte da “virtude” é o coração? É. E movida e dirigida pelo cérebro? É. A história e a tradição confirmam que o coração é mais ou menos o que era no início; não houve nem mesmo a sombra de uma mudança. Seus impulsos bons e maus e suas conseqüências são hoje os mesmos que havia nos antigos tempos da Bíblia, nos tempos do Egito, nos tempos dos gregos, na Idade Média e no século XX. Não houve mudanças.

Enquanto isso, o cérebro não sofreu mudança alguma. É o que sempre foi. Existem alguns bons cérebros e uma multidão de fracos.

Foi assim nos tempos bíblicos e em todos os outros tempos – gregos, romanos, medievais e no século XX. Entre os selvagens – todos os sel-vagens – o cérebro médio é tão competente quanto o cérebro médio aqui e em todo lugar. Um dia eu o provo a você. E também há entre eles grandes cérebros. Eu provo isso também, se você quiser.

Bem, o século XIX trouxe progresso – o primeiro progresso depois de “eras e eras” –, um progresso colossal. Em quê? Materialidades. Fi-zeram-se aquisições maravilhosas em coisas que aumentam o confor-to de muiconfor-tos e confor-tornam mais difícil a vida de outros tanconfor-tos. Mas e o aumento da virtude? É possível descobri-lo? Acho que não. As materialidades não foram inventadas em benefício da virtude; imagi-no que seja muito difícil demonstrar que por causa das materialidades

hoje exista mais virtude que antes. Na Europa e nos Estados Unidos há uma grande mudança de ideais (devida a elas) – você se admira? Toda a Europa e os Estados Unidos inteiros lutam febrilmente por dinheiro.

O dinheiro é o ideal supremo – todos os outros ficam relegados ao décimo lugar para o grosso das nações conhecidas. A febre do dinhei-ro sempre existiu, mas na história do mundo ela não foi a loucura em que se transformou no seu tempo e no meu. Esta loucura corrompeu essas nações; tornou-as duras, sórdidas, cruéis, desonestas, opressivas.

A Inglaterra se ergueu contra a infâmia que foi a Guerra dos Bôeres?

Não – ergueu-se a favor dela. Os americanos se levantaram contra a infâmia da Guerra das Filipinas? Não – levantaram-se a favor dela. A Rússia se levantou contra a infâmia da guerra atual? Não – continuou sentada e nada disse. E o Reino de Deus avançou na Rússia desde o início dos tempos? Ou na Europa e nos Estados Unidos, considerando o grande passo para trás representado pela febre pelo dinheiro? Ou em qualquer outro lugar? Se houve algum progresso em direção à vir-tude desde o início da Criação – do que, na minha inabalável honesti-dade, sou forçado a duvidar –, acredito que devamos limitá-lo a 10%

das populações da Cristandade (mas deixando de fora a Rússia, a Espanha e a América do Sul). Isso nos dá 320 milhões dos quais tirar 10%. Ou seja, 32 milhões avançaram para a virtude e o Reino de Deus desde que as “eras e eras” começaram a correr, e Deus lá sentado, ad-mirando. Bem, isso deixa 1 bilhão e 200 milhões fora da corrida. Con-tinuam onde sempre estiveram; não houve mudança.

N.B. Não vou cobrar por essas informações. Mas apareça em breve, Joe.

Do amigo, Mark.

Mark Twain homenageia neste texto a memória de Carl Schurz, alemão de nascimento e senador pelo Missouri. Os termos da home-nagem, ressaltando as qualidades de caráter e a habilidade política de Schurz, permitem ao leitor apreender nas entrelinhas aspectos reveladores da visão que Twain tem da política, assim como de sua autocrítica como pensador e comentarista político.

A analogia que serve de base ao raciocínio desenvolvido é a do político como mestre piloto, à semelhança dos veteranos do Mississípi com quem ele convivera, capazes de determinar qual curso d’água se deveria seguir sem risco. Essa imagem definidora, que serve de parâmetro para o talento político de Schurz, deixa entrever por parte de Twain a valorização das qualidades do político como estrategista e líder, revelando a matriz iluminista e racionalista que se encontra na base de seu pensamento e de seu antiimperialismo.

Sabemos todos que a morte de Carl Schurz é uma perda irreparável para o país; alguns de nós a sentirão como uma perda individual e pessoalmente irreparável. Eu sempre tive confiança suficiente – talvez excessiva – na minha capacidade de buscar sozinho o canal político certo e seguro, e de segui-lo até as águas profundas além do recife sem me encalhar; mas houve ocasiões, ao longo dos últimos 30 anos, em que me faltou confiança – então me lançava na esteira de Carl Schurz, dizendo para os meus botões: “Ele é tão seguro quanto Ben Thornburgh”. Quando eu era um piloto jovem no Mississípi, há mais ou menos meio século, a confraria relacionava entre os mestres três incomparáveis: Horace Bixby, Beck Jolly e Ben Thornburgh. Onde eles

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