Discurso proferido em 1905 por ocasião de um espetáculo em benefício dos russos, que naquele momento passavam pelos terríveis episódios do massacre e da repressão ao movimento revolucionário abortado. O evento contou com a participação de Sarah Bernhardt, atriz francesa considerada a diva do teatro europeu daquele momen-to. Após reverenciar o talento e a beleza da atriz, Twain discorre sobre o tema da oportunidade perdida, ilustrando-a com uma espécie de parábola que, lida à luz dos acontecimentos políticos da Rússia na-quele momento, constitui-se numa inequívoca alusão de solidarieda-de à causa revolucionária.
No dia 18 de dezembro de 1905 houve um espetáculo no cassino em benefício dos russos sofredores. Depois da apresentação, o Sr.
Clemens falou.
Senhoras e senhores,
Parece uma crueldade infligir a uma audiência como esta a nossa rude língua inglesa, depois de termos ouvido um divino discurso fluin-do na lúcida língua gaulesa.
Ela sempre me maravilhou – a língua francesa; sempre foi um mistério para mim. Como é linda. Como parece expressiva. Como é cheia de graça.
E, quando vem de lábios como esses, como é eloqüente e líquida.
Mas, oh, para mim é sempre um desapontamento, sempre espero ser capaz de entendê-la.
Mas para mim é um prazer tão grande, um prazer tão grande, encontrar madame Bernhardt e rir com ela, mão na mão, coração a coração.
Já a tinha visto atuar, todos a vimos, e ah, ela é divina, mas sempre quis conhecer a própria madame Bernhardt, esta mulher de fogo. Sem-pre quis conhecer esta maravilhosa personalidade.
Ora, ela é a pessoa mais jovem que já conheci, a não ser por mim próprio, pois sempre me sinto jovem na presença de jovens.
Tenho uma gostosa lembrança de um incidente ocorrido há mui-tos anos, quando madame Bernhardt veio a Hartford, onde eu vivia, e devia se apresentar, e os ingressos custavam 3 dólares, e havia duas mulheres encantadoras – uma viúva e sua filha –, nossas vizinhas; muito cultas eram elas, tinham gosto refinado e sublime, mas eram muito pobres, e disseram: “Não podemos gastar 6 dólares com prazeres inte-lectuais; se tivermos de gastar 6 dólares, que seja para ajudar alguém a comprar pão para comer”.
E assim elas lamentaram ter de abrir mão do grande prazer de assistir madame Bernhardt, mas havia dois outros vizinhos igualmen-te cultos que não tinham como comprar pão, e aquelas duas bondosas senhoras lhes deram os 6 dólares – privaram-se deles –, deram o di-nheiro para os pobres vizinhos comprarem pão. E os pobres vizinhos pegaram o dinheiro e compraram ingressos para a apresentação de madame Bernhardt.
É verdade, algumas pessoas têm bom gosto e são inteligentes.
Ora, eu devia fazer um discurso, imagino que devia, mas não vou.
Já está tarde, tarde, por isso vou contar uma história; e uma história tem uma vantagem: qualquer que seja a valiosa moral que se coloca num discurso, ela se perde no meio daquelas frases arrevesadas, e a platéia vai embora sem entender o que era aquela valiosa moral que a gente tentava transmitir; mas, se a gente coloca a mesma valiosa moral numa história, ela se transforma na chave daquela história, e todos a entendem – ela brilha, queima, torna-se a jóia na cabeça do sapo, não se esqueçam.
Se tiver de tratar de um assunto como, digamos, a oportunida-de perdida... Ah, a oportunidaoportunida-de perdida. Qualquer um nessa casa
que tenha chegado a esse ponto na vida – 60, 70, talvez até 50, por aí –, quando relembra sua própria história, encontra ao longo de todo o caminho os marcos da oportunidade perdida, e como isso é patético.
Vocês mais jovens não sabem a tragédia que se esconde nessas palavras – a oportunidade perdida; mas qualquer um que tenha che-gado à velhice, que realmente viveu e sentiu a vida, conhece a tragédia da oportunidade perdida.
Vou lhes contar uma história cuja moral é essa, cuja lição é essa, cujo lamento é esse.
Há muitos anos eu estava numa vila, subúrbio de New Bedford;
bem, quem sabe, New Bedford é um subúrbio de Fair Haven, ou talvez seja o contrário; de qualquer modo, era preciso juntar as duas cidade-zinhas para se ter o grande centro da indústria baleeira da primeira metade do século XIX, e eu estava lá, em Fair Haven, há alguns anos com um amigo.
Estava acontecendo a inauguração da nova prefeitura, um edifício público, e lá estávamos nós naquela tarde. O grande edifício estava lotado, parecia um grande teatro de cidadãos felizes, e meu amigo e eu descemos pelo corredor central. Ele viu um homem parado no corre-dor e me disse: “Veja aquele veterano bronzeado, aquele homem de rosto impassível como se de madeira. Agora, diga-me, você percebe naquele rosto algum traço de emoção? Você é capaz de ver nele algu-ma coisa que sugira que dentro daquele homem exista um incêndio iminente? Você imaginaria que ele é um vulcão humano?”
“Claro que não; não imagino. Ele me lembra o índio de madeira na frente da tabacaria.”
“Muito bem, vou lhe mostrar que até nos lugares menos promis-sores existe emoção. Vou conversar com aquele homem e mencionar da forma mais natural um incidente que se passou com ele. Ele deve estar beirando os 90 anos. Já passou dos 80. Vou mencionar um inci-dente ocorrido há 50 ou 60 anos. Observe o efeito, e tudo vai ser tão natural que você talvez nem perceba o momento em que eu digo aquela coisa, mas observe com cuidado o efeito.”
Ele caminhou até ele e abordou aquela antiguidade, e fez uma ou duas observações. Não consegui acompanhar. Foram tão naturais que não consegui perceber qual acionou aquele botão, pois imediatamen-te o velho entrou em erupção e encheu todo o lugar de obscenidades as mais requintadas. Vocês nem imaginam o nível refinado de obsce-nidades. Eu nunca as ouvi gritadas com tanta eloqüência.
Jamais apreciei tanto a profanidade quanto apreciei aquela noite, mais do que se eu próprio estivesse gritando. Não há nada comparável a ouvir um artista – todas as paixões expressas em lava, fumaça, tro-vão, raio e terremoto.
Então meu amigo me disse: “Agora vou lhe contar a causa de tudo isso. Há cerca de 60 anos aquele homem era um jovem de 23, e acaba-va de retornar de uma viagem de três anos numa baleeira. Chegou feliz e orgulhoso à sua cidade porque agora já não seria mais imediato, ia ser o capitão de uma baleeira, e por isso ele estava feliz e orgulhoso.
“Então ele percebeu que a cidade e toda a região em volta haviam sido atingidas por uma espécie de nevasca, pois durante a sua ausên-cia chegou à região a moda da temperança do padre Mateus. E todo mundo havia feito o juramento; num raio de muitas milhas todos ha-viam feito o juramento.
“Imagine a solidão a que se condenou esse jovem, que gostava bastante de um grogue3. Ele se transformou num renegado, porque quando descobriram que ele não queria entrar para a sociedade do padre Mateus todos o colocaram no ostracismo, e ele andou por aque-la cidadezinha durante três semanas, dia e noite, na mais completa solidão – o único ser humano do lugar que tomava grogue, e era obri-gado a beber sozinho.
“Se você não sabe o que é ser colocado no ostracismo, ser evitado pelos amigos, espero que nunca venha a descobrir. Então ele percebeu que havia nesta vida algo mais valioso que o grogue, a amizade do
3. Do inglês, grog (1770), “bebida alcoólica, especialmente rum diluído com água, servido quente, com limão e açúcar”; de Old Grog, alcunha de Edward Vernon (1684-1757), almirante inglês que ordenou a diluição do rum dos marinheiros; do inglês, grogram, “gorgorão”, pelo hábito do almirante de usar uma capa de gorgorão.
vizinho. E finalmente ele desistiu, e certa noite às 9 horas ele foi à Sociedade para a Temperança do padre Mateus, e com o coração par-tido pediu: ‘Gostaria de ser aceito como membro desta sociedade’.
“E ele se foi chorando, e na madrugada do dia seguinte vieram chamá-lo, acordaram-no, e avisaram que seu navio estava pronto para zarpar numa viagem de três anos. Num minuto ele estava a bordo e partiu.
“E ele disse... Bem, ele nem bem tinha perdido a cidade de vista e já estava arrependido, mas havia decidido que não ia mais beber, e durante toda a viagem de três anos sofreu uma agonia de três anos porque a toda hora ele via o erro que havia cometido.
“Ele sofreu durante toda a viagem; a toda hora seu sofrimento era reavivado, pois a tripulação ia de lá para cá com seus grogues, subia para o tombadilho para beber e ele sentia o perfume torturante.
“Ele sofreu durante os três anos, e afinal, quando chegou ao por-to, nevava, estava frio, e ele andava pelo tombadilho coberto de neve, batendo os pés, louco para chegar à terra, e sua tripulação o torturava até o último minuto com o grogue quente, mas finalmente ele foi re-compensado. Desceu à terra, correu e comprou um caneco e correu à sociedade e disse ao secretário:
“‘Tirem o meu nome dos livros desta sociedade, agora! Estou com uma sede de três anos’.
“‘Isto não é necessário. Você recebeu a bola preta4’”.
4. O termo utilizado no original é blackballed, e significa “você foi excluído”, “você recebeu um voto de exclusão”.
O movimento norte-americano de auxílio à causa da liberdade russa foi lançado na noite de 11 de abril de 1906, em Nova York. Twain e o escritor e dramaturgo russo Máxio Gorki foram os oradores prin-cipais, e Twain fez a apresentação oficial de Gorki.
Se for possível construir uma república russa com a mesma medi-da de libermedi-dade de que gozamos para medi-dar ao povo perseguido dos do-mínios do czar, esta é a hora de metermos mãos à obra. Não será ne-cessário discutir os métodos para chegar a este objetivo. Esperemos que se possa adiar ou evitar a luta, mas se ela for necessária...
Tenho a maior simpatia pelo movimento em andamento na Rússia para a libertação daquele país. Tenho certeza de que terá o sucesso que merece. Qualquer movimento semelhante merece e deveria receber a nossa cooperação ativa e unânime, e o pedido de recursos como expli-cado pelo Sr. Hunter, dado seu signifiexpli-cado justo e poderoso, deveria receber apoio integral de todos e de cada um de nós. Qualquer pessoa cujos ancestrais estavam neste país quando tentávamos nos libertar da opressão terá simpatia pelos que hoje buscam a mesma coisa na Rússia.
O paralelo que acabo de traçar mostra apenas que não é impor-tante saber se a opressão é cruel ou não; homens que têm nas veias sangue vermelho e quente não haverão de suportá-la, tentarão se li-vrar dela. Se nos lançarmos de coração a esta tarefa, a Rússia será livre.