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e narratividade nos projectos de marcação corporal

A selecção da iconografia a explorar epidermicamente no âmbito de um projecto de marcação corporal não decorre tão-somente do gosto estético do praticante, mas evoca também todo um arsenal metafórico e imaginário que remete para os seus contextos sociais de pertença e de vivência ao longo de uma trajectória de vida. A dada altura do processo, nomeadamente quando começa a con- figurar a forma de ritual, passa a haver uma preocupação não só com as afinidades estéticas e éticas entre a iconografia escolhida e a personalidade, a biografia e/ou o modo de vida do praticante, mas também com o valor autobiográfico de um evento pessoal que dê sentido e justifique o acto de perfurar o corpo.

A marca é uma inscrição gravada na superfície da pele. Em he- braico, o termo usado para o verbo gravar (zekner), para além de transmitir a ideia de eternidade, significa também lembrar (Ramos 2001, 92). O acto de gravar o que quer que seja encerra, portanto, o desejo de preservar uma memória. Dadas as suas propriedades de permanência e incisão epidérmica, as marcas corporais, parti- cularmente as tatuagens, oferecem um sistema mnemónico eficaz não só porque tais propriedades operam como um obstáculo ao esquecimento, mas também, sobretudo, porque são investidas de um forte poder evocativo de momentos passados, pontos de refe- rência biográfica estruturantes que reforçam a unidade, consistência e durabilidade subjacentes ao sentido de self.

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Da mesma forma que as cicatrizes involuntárias evocam a situação acidental que as causou (Le Breton 2003; Le Hénnaff e Héas 2007), as marcas deliberadas recordam as emoções e as circunstâncias que, nesse momento particular, justificaram a sua execução. Com efeito, na sociedade ocidental, a visibilidade da ta- tuagem surgia tradicionalmente associada ao registo iconográfico de situações colectivamente marcantes, como expedições, aventu-

ras, guerras ou outras recordações da vida militar,34 os laços de

afectividade e amor que, nesses contextos, temporária ou definiti-

vamente, eram deixados para trás,35 os valores em nome dos quais

o sujeito vivia, se deslocava ou combatia.36 Hoje a tatuagem tende

a ser uma performance cultural associada a evocações mnemónicas mais personalísticas. São múltiplas as histórias contadas pelos jo- vens tatuados a propósito de cada uma das suas tatuagens, poucas delas evocando eventos de ordem colectiva. Qualquer evento que tenha um impacto biográfico subjectivamente considerável é sus- ceptível de justificar uma inscrição corporal:

As tribais que tenho, quando as fiz, queria demarcar qualquer coisa que se tinha passado e que tinha marcado a minha vida […] Há muitas pessoas que... Por exemplo, a propósito da morte de um familiar, ou do nascimento de um filho, seja o que for, resolvem fazer uma marca no corpo para se recordarem sempre pelo que passaram, nos bons e nos maus momentos. Uma pessoa […] quer guardar aquele momento para sempre, e uma tatuagem é uma boa forma de não deixar que as coisas se apaguem.

Profissional de body piercing, frequência universitária, sexo masculino, 25 anos Todas as minhas tatuagens têm uma história […] Tudo o que na minha vida me marcou, retrato através de desenhos no meu corpo, porque fez parte de mim e vai morrer comigo, e isso ninguém me pode tirar! […] E que eu quero que essas coisas vivam enquanto eu

34 Lembremos as célebres tatuagens dos nossos militares quando regressados

da guerra colonial, com referência ao pelotão a que pertenciam ou ao país e anos em que combateram.

35 É igualmente célebre a inscrição corporal «Amor de mãe» ou «Fulana para

sempre», a qual obedece à vontade de marcar a fidelidade eterna a uma relação afectiva através da encarnação metafórica do outro significativo, de o fundir consigo através da mediação do seu estatuto, do seu nome ou iniciais ou de uma dedicatória amorosa.

36 Sobre o aumento da prática da tatuagem em contextos de guerra e de sa-

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existir, e que quando eu morrer vão comigo. Pronto, é a minha vida. É as coisas que me marcaram retratadas no meu corpo.

Gerente de estúdio de tatuagem e body piercing, 9.º ano de escolaridade, sexo feminino, 39 anos

Ao descreverem a sequência das marcas acolhidas na sua pele, os jovens vão construindo nexos de sentido entre as imagens gravadas na pele e as respectivas histórias de vida, narrando acontecimentos e situações marcantes na sua biografia, gostos e desgostos, amores e desamores, cumplicidades afectivas, políticas, musicais, pedaços de histórias pessoais cuja densidade vivencial é metaforicamente imortalizada na vida do corpo que as viveu.

Através de um acto que se pretende irreversível, esses jovens inscrevem epidermicamente imagens gráficas que recordam si- tuações, pessoas, valores e referências entendidos como decisivos na sua trajectória de vida e na construção da sua própria subjec- tividade. O corpo marcado transforma-se num arquivo de si (Le Breton 2002, 114), uma espécie de memorial dos núcleos sociais e simbólicos estruturadores da identidade pessoal e social do seu portador, tal como se de um álbum de fotografias se tratasse. Representa uma intriga iconográfica que sinaliza e sintetiza uma história de vida, o traço indissipável de uma subjectividade que se constrói também por relação ao passado, através da narração de um enredo biográfico construído a partir das suas várias esferas de inclusão (familiar, profissional, afectiva, amical, religiosa, política, de lazer e consumo, etc.), bem como dos episódios sucessivos ou paralelos que, a partir desses campos, entrelaçam a sua existência. Coerentemente unido sob a égide da biografia do seu portador, o mapa iconográfico que o corpo marcado apresenta torna-se assim apenas decifrável, na sua gramática de produção, através da orientação do seu portador. As marcas vêem-se submetidas a uma espécie de privatização dos significados, que se tornam propriedade individual, muitas vezes sob a forma de segredo:

Cada tatuagem minha tem uma história, desde como é que foi feita até ao por que é que foi feita […] Há sempre uma sequência de lógicas, só que já são coisas muito pessoais.

[Compromisso] Esta tem muito significado porque foi no dia em que a minha namorada também fez uma...

[Morte da irmã] Esta tatuagem, por exemplo, tem a minha vida toda até aos dezasseis anos, mais ou menos. Esta caveira para mim tem

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um significado. Quem ouvir isto pensa que é um significado bizarro. Esta caveira para mim é a minha irmã que morreu.

[Problemas com as drogas] Eu, quando era mais novo, também tive um problema com drogas e resolvi simbolizá-lo como uma can-

nabis, em forma tribal, que é o que está aqui em cima, sem cor, sem

o verde da cannabis, mas com as folhas da cannabis.

[Acidente] Por exemplo, esta tão pequenina […] é um olho. Os olhos, para mim, na minha maneira de pensar, têm vida, os olhos dizem o que é que a pessoa é […] Eu estive preso à morte um mês e três dias […] Não digo que foi um milagre, mas mereceu um significado, mereceu uma marca.

[Segredo] Esta já é muito pessoal [bate no braço].

[Referências musicais e pertenças tribais] Depois há este tipo de tatuagens que eu adoro, que têm tudo a ver com o satanismo […] Eu tenho um bocado de diabinho. Gosto demais do 666, mas acho que isso já é exagero. Mas são uns trabalhos que eu admiro à brava. Nas tais fases que eu ouvia heavy metal e ouvia as tais bandas satânicas à brava.

Fiel de armazém, 8.º ano de escolaridade, sexo masculino, 23 anos

A organização do projecto de marcação corporal segundo uma lógica ritual e memorial acaba por funcionar objectivamente como estratégia de gestão no tempo e no espaço de um suporte que é, por natureza, finito: a superfície do corpo. Os jovens extensivamente marcados não esquecem que a epiderme é uma matéria-prima limi- tada e que, como tal, deve ser gerida de forma a não ser totalmente ocupada de um momento para o outro, mediante gestos impulsivos que podem comprometer a coerência e a qualidade do resultado final do projecto de marcação corporal. A pele ainda «virgem» adquire um valor sem par, devendo ser poupada a experiências, arrependimentos e/ou falhas, sendo cada vez maior a exigência relativamente à qualidade do projecto gráfico e do profissional a concretizá-lo. Nesta perspectiva, a ritualização do acto de marcar sob a égide de um sentido (biográfico) que a justifique permite a gestão dos limites do espaço corporal, garantindo igualmente a maturação no tempo acerca dos contornos do projecto a desen- volver:

Tenciono tatuar os braços todos mas quando houver significados para atribuir, não vou tatuar para ficar todo tatuado, para passar num café: «olha aquele gajo todo tatuado!». Não. Tem que haver signifi- cados […] Não é com pressa, não há hora marcada, não tem que ser

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este ano ou o próximo, vou tatuando com as tais sequências lógicas de maneira a não ficar uma perdida da outra, sem lógica nenhuma, encaixando umas nas outras […] Eu quero chegar aos trinta anos — se lá chegar, esperemos que sim — e olhar e pensar que este dia tem que ser marcado e ainda há aqui sítio para fazer. Não quero fazer à pressa, a tatuagem à pressa sai borrada [...] A pessoa acaba por gastar mal o dinheiro não fazendo bem, acaba por desperdiçar a pele e o dinheiro, o significado e o sítio que eu queria pôr nesta tatuagem.

Fiel de armazém, 7.º ano de escolaridade, sexo masculino, 23 anos

Integral ao sentimento de ser, no presente (identidade actual), é o sentido do que se foi, no passado. Neste contexto, quando or- ganizado segundo uma lógica mnemónica, o projecto de marcação corporal vem constituir um dispositivo favorável à expressão de experiências e sentimentos implicados no sentido de passado das subjectividades, recordações que tornam tangível o que, de outra forma, seriam experiências transitórias, momentâneas e perecíveis. Trata-se de um recurso iconográfico subjectivamente investido de um profundo sentido de continuidade cumulativa entre o presen- te e o passado, de superação de momentos de crise indutores de rupturas existenciais. Em última instância, é uma máscara que vem conferir sentido de unidade prolongada a toda uma existência, no tempo e no espaço, que tenta expressar a permanência de um self que se vai projectando numa rede social de pertenças conco- mitantes e sucessivas, de ocorrências que o marcam mas não o corrompem.

É neste sentido que o regime de marcação corporal extensiva pode ser tratado como uma forma iconográfica de identidade nar- rativa, no sentido que Ricoeur (1990) dá ao termo. Para o autor, a narratividade, e não apenas a reflexividade, é um composto essencial da identidade individual, na medida em que corresponde a uma in- triga susceptível de produzir sentido sobre um percurso particular de vida, uma forma de articular e encadear os diversos episódios, personagens e contextos que fazem sentido para o sujeito enuncia- dor e no seio dos quais ele se tenta situar. É através da narratividade que o sujeito constrói e dá a conhecer, no tempo e no espaço, o seu mundo de vida, a sua existência subjectiva, a sua autobiografia, construção através da qual ele se produz enunciando-se.

Embora Ricoeur dê a ênfase principal à dimensão discursiva da narratividade, na sua colocação «em palavra», considerando que «a

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identidade pessoal não se torna narrativa senão quando colocada em discurso» (1990, 180), não deixa de fazer sentido ampliar a noção de narratividade a toda e qualquer forma de expressão de si e da sua história pessoal, a tudo o que, explícita ou implicitamente, expresse intencionalmente a biografia do sujeito. Ora o projecto de marca- ção corporal extensiva não deixa de implicar a construção de uma forma narrativa, servindo de suporte expressivo à representação da historicidade de uma subjectividade. Representa uma narrativa de vida que se traduz em traços e adereços directamente inscritos no bios, em gestos performativos de inscrição no corpo singular que figuram uma grafia e uma codificação próprias do sujeito de enunciação. Trata-se de uma forma simbólica de apropriação e re- presentação de uma identidade para si na sua historicidade, não em termos de verdade histórica, mas enquanto elaboração imaginária da sua verdade sobre si próprio, enquanto produto e simultanea- mente participante numa história onde o sujeito da enunciação se sente sujeito.

Nesta perspectiva, pode fazer-se corresponder o projecto de marcação corporal extensiva ao que Babo designa por acto de ins- crição auto-bio-gráfica, onde se misturam, «até à indeterminação, a experiência de vida, a vivência, a elaboração imagética, a associação amnésica, enfim, uma verdade sempre já impura que é resultado desse heterogéneo e insondável trabalho de memória» (2003, 97). Tal como no acto autobiográfico, há no projecto de marcação cor- poral extensiva «todo um trabalho que consiste em fazer coincidir o corpo anónimo e singular com um nome e a linguisticidade de um eu» (Babo 2003, 98). Neste trabalho, o regime de marcação corpo- ral extensiva funciona a um tempo quer como dispositivo enuncia- tivo dotado dessa «capacidade de dizer eu, recentrando os sujeitos do enunciado e da enunciação», quer como dispositivo espectacular, «um espelho que me reflicta — uma dimensão de auto-retrato que configure a ‘mise-en-scéne do eu’» (Babo 2003, 96).

Por outro lado, ainda que a grafia subjacente aos projectos de marcação corporal não assuma directamente a forma de palavra, a iconografia representada nas marcas corporais, sobretudo na tatuagem, não deixa de dar azo a formas de codificação textual, a formas textuais de narração de vida. DeMello evidencia o amplo poder simbólico que a tatuagem detém enquanto dispositivo de captação de discursos, dentro e fora das redes sociais que as mo- bilizam: «as pessoas falam das tatuagens. Elas falam acerca das suas

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próprias tatuagens, acerca das tatuagens umas das outras, acerca das tatuagens em geral, e todo este discurso, a meu ver, tem um efeito prático: enquadra as tatuagens» (DeMello 2000, 12).

Foi efectivamente notório o gosto dos entrevistados em falarem sobre as suas marcas, orgulhosamente. Mais até do que em mostrá- -las. O investimento iconográfico no signo redobra-se no gosto da palavra a seu propósito. Estas formas narrativas que se geram e têm crescido em torno das tatuagens têm-lhes providenciado um novo contexto emocional e intelectual, estética e biograficamente legitimado, já longe das mitologias e significados historicamen- te consagrados e tradicionalmente associados a estas formas de inscrição no corpo. No cerne das novas mitologias pessoais que enquadram a formulação e o desenvolvimento dos actuais projectos de marcação corporal privilegia-se não apenas a coerência estilística destes como valor estético, mas também, como homólogo valor ético, a coerência e continuidade de uma identidade ao longo de um percurso de vida, integrando desta forma simbólica todas as incertezas, incoerências, impasses e mesmo contradições, que mo- delam actualmente as trajectórias individuais nas suas várias esferas de actuação e ciclos de duração.

Nesta óptica, os regimes de marcação corporal extensiva não deixam de assegurar os dois princípios de organização da identidade narrativa identificados por Ricoeur, nos seus termos, a ipséité e a mêmeté (1990, 167). O primeiro corresponde ao princípio segundo o qual em qualquer narração autobiográfica existe o pressuposto de uma unidade sincrónica na identidade pessoal, há a auto-repre- sentação de uma determinada coerência e estabilidade na forma de ser em diversos mundos, o que reenvia para a ideia de consistência identitária entre as diferentes esferas da existência. O segundo traduz um princípio de perdurabilidade dessa mesma consistência na história do self, consubstanciado no sentimento diacrónico de permanecer a mesma pessoa ao longo do tempo, de existir alguma constância na sua forma de ser, de haver uma certa continuidade da identidade pessoal nas suas diversas etapas de vida.

Por muito fortes, estáveis e fundamentadas que sejam as reifi- cações em que assenta qualquer formulação identitária, ela nunca é impermeável às mudanças do tempo. Novas identificações, novas diferenciações, reiterações ou abandonos, levá-la-ão neces- sariamente a reconfigurar-se. Tanto mais numa época, como a actual — designada por Bauman (2001) como modernidade líquida —,

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marcada pelo risco, incerteza, instabilidade e precariedade, com pontos de referência cada vez mais flutuantes e transitórios, onde é solicitada uma crescente abertura, flexibilidade e plasticidade às identidades que nela são produzidas, bem como aos papéis desem- penhados pelos sujeitos no âmbito de redes sociais cada vez mais complexas, diversas e multiplicadas por vários domínios sociais (relacionais e culturais).

Sennett (1998), observando a corrosão do carácter que afecta o indivíduo contemporâneo, veio sublinhar a actual dificuldade em este viver estruturas simbólicas de longo prazo (como os valores de «fidelidade», «compromisso» ou «lealdade», por exemplo). Isto numa sociedade cujas exigências de flexibilidade e devoção ao imediatismo dificultam ao indivíduo o estabelecimento de relações sociais e simbólicas estáveis e duráveis que lhe permitam provar um sentimento de estabilidade de si. A mundialização da economia de mercado, nas suas formas mais flexíveis de constante deslocação e reestruturação de empresas, bem como nas suas exigências de performance, inovação e reactividade constante, configura um con- texto económico e social que enfatiza a capacidade de adaptação do sujeito à permanente e constante mudança, tendendo a formar identidades moldáveis, abertas à reconfiguração e dotadas de uma enorme plasticidade temporal. Identidades incertas (Ehrenberg 1995), portanto, que se multiplicam num tempo e num espaço cada vez mais complexo e fragmentado (Elster 1985).

Num mundo cada vez mais instável, caracterizado pela fluidez e efemeridade, sem segurança no emprego, carreiras previsíveis e rela- ções duráveis e vinculativas, os tradicionais dispositivos que garan- tiam a estabilidade identitária nas vidas pessoais, como a profissão, o local de trabalho, a comunidade, até mesmo os laços familiares, vão perdendo o seu valor de identificação, em detrimento de ou- tros, porventura simbolicamente mais eficazes no estabelecimento de alguns princípios de coerência e de continuidade identitária e através dos quais os sujeitos tentam resistir aos efeitos da erosão social contemporânea. Apesar da contingência que caracteriza as estruturas das actuais sociedades ocidentais, a manutenção da uni- dade e continuidade identitárias continua a constituir uma preo- cupação subjectiva. E tal sentimento não pode ser reduzido a pura ilusão biográfica, ao contrário do que é profetizado por Bourdieu (1986). A sua existência subjectiva não deixa de se traduzir em consequências objectivas, pelo menos enquanto resultado de actos

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elocutórios que permitem articular o que, aparentemente, (a)parece como dividido.

Com efeito, o uso da narratividade, qualquer que seja o seu formato, opera como resposta ou mediação à crise contemporâ- nea das identidades, funcionando como recurso de defesa perante a vertigem de uma concepção fragmentada de si próprio, própria de um ambiente social instável. Graças ao seu trabalho narrativo, o indivíduo dá unidade e coerência a todos os seus «fragmentos» e torna-se «autor» (elocutório) da sua própria vida. Do mesmo modo, o corpo extensivamente marcado emerge como dispositivo de manutenção de uma certa consistência sincrónica e continuidade diacrónica nas identidades pessoais. Nas suas características ritua- lista, permanente e irrevogável, os projectos de marcação corporal extensiva tendem a servir o praticante na sua intenção de pôr à pro- va a força do seu «carácter», de se prender a uma identidade por ele planeada e construída, uma subjectividade que se pretende manter incólume, incorruptível, perene e resistente na sua autenticidade e singularidade ao longo da sua trajectória de vida, nomeadamente com a entrada na «vida adulta»:

[A primeira tatuagem, uma bracelete no pulso] Era um desenho de que eu gostava e que simbolizava mesmo a cena de me «prender» aos meus ideais, de me «prender» à terra, às coisas que eu gosto, acima de tudo […] «Prender» à terra é, se calhar, tu não te esqueceres o que é que foste ontem. Ou tipo, ganhares o Totoloto e de um dia para o outro te esqueceres do que é que eras no dia anterior. É óbvio que está sempre tudo aqui [aponta para a cabeça], mas, de certa forma, tu, se quiseres, amanhã és outra pessoa. Se quiseres mesmo acreditar nisso, qualquer pessoa acho que consegue fazer isso. E eu não quero, porque agora estou a sentir-me tão bem comigo próprio, que não me quero tornar um porco imundo como muita gente aí. As pessoas quando crescem tornam-se mesmo hipócritas, em si, umas com as outras […] É capaz de ter sido sempre assim, mas não quer dizer que queira aceitar, tás a ver? Eu estou mesmo parado no tempo, em termos de gostos e de fazer coisas, desde os 16 anos que não mudo.