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Capítulo III. Metodologias e Contextos de Investigação

S EGUNDA P ARTE

4.3. Educação na Lisboa oitocentista

Ser alfabetizado, no período oitocentista, é privilégio de alguns. Portugal, em meados do século XIX, à semelhança de Espanha, Itália e Grécia, é membro do clube

europeu dos ignorantes, o grupo de “países do Sul e Sueste da Europa onde a vasta

maioria da população – 75% ou mais – era iletrada” (Reis, 1993, p. 16). A França e a Inglaterra, neste período, tinham um analfabetismo, segundo Reis, situado entre os 10 e os 30%. O desenvolvimento da educação elementar, em cada um destes países, progride de forma diferente, e de tal forma isto sucede que o nível de escolarização dos portugueses em 1910 “era aproximadamente o da Espanha entre 1850 e 1869 e o da Itália entre 1860 e 1870, ou seja, um atraso de cerca de meio século” (Reis, 1993, p. 17).

Reis menciona “que no inquérito de 1875, 50% dos professores primários tinham eles próprios 3 a 4 anos de escolaridade, 40% tinham 5 a 6 anos e somente 10% possuía uma formação adequada ao seu ministério3” (1993, p. 22). Aos professores primários oitocentistas, “o perfil que lhes era exigido situava-se, no dizer de António Nóvoa, entre o sacerdote e o funcionário” (Reis, 1993, p. 27). Noutro inquérito, referido pelo autor, realizado em 1864 sobre as causas da não frequência escolar, entre outras, “56% dos casos referiam a pobreza e a necessidade que os pais tinham do trabalho dos filhos, enquanto 38% a atribuíam à “negligência e desleixo dos pais” (Reis, 1993, p. 23).

Como inverter este estado de coisas? Adolfo Coelho responde: “ a meu ver, o mal apontado resulta principalmente de vícios da educação nacional; o remédio, portanto, estaria na reforma dessa educação de acordo com os princípios da sã pedagogia” (Rocha, 1987, p. 225). Mas a realidade permanecia a mesma e a frequência da escola continuava a ser uma perda de rendimento para os pais e o seu prolongamento afectava as economias das famílias. Não era, por isso, considerada uma necessidade básica, um bem cultural, um investimento no futuro. A vontade política também não era suficientemente mobilizadora para transformar este estado de coisas; o importante era ensinar alguns a ler, escrever, contar e dar-lhes as noções elementares de Moral e

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Religião. Diz Reis “que o primeiro grau de instrução, em que se ensinava apenas a ler, a escrever, a contar e as noções de Moral e Religião, teve sempre por finalidade primordial “formar as almas” dos futuros portugueses, tornando-os obedientes às leis, tementes a Deus, amantes da Pátria e do Monarca e capazes de exercer a cidadania no seio do sistema constitucional vigente4” (1993, p. 24).

O predomínio da religiosidade na sociedade oitocentista, o atraso económico, a falta de desenvolvimento social, entre outros factores, contribuíram para o elevado grau de analfabetismo e, consequentemente, para o deficit de alfabetização. Com a Implantação da República, a situação económica e social não tendeu para a estabilidade e para a construção de solidariedades capazes de darem sentido a um combate eficaz contra os deficits económicos, sociais e políticos que se reflectissem na melhoria das condições de vida do povo português. A sociedade oitocentista portuguesa não conseguiu construir um projecto de sociedade suficientemente aglutinador de vontades aptas a criar nichos de desenvolvimento e de bem-estar. De facto, o período oitocentista entra pelo século XX, com todos os factores de instabilidade que o caracterizam.

4.3.1.Os modelos de conduta: o caso das mulheres

O conhecimento dos modelos de conduta mais estruturantes da Lisboa oitocentista ajuda-nos a compreender o papel das mulheres oitocentistas, de uma forma geral, e contribui, igualmente, para a compreensão dos modelos de conduta das mulheres pertencentes à família cigana aqui investigada. Estes modelos são influenciados por concepções paradigmáticas que abalroam as fronteiras oitocentistas. “A educação feminina situa-se regra geral no espaço doméstico ao abrigo de convivências com outras crianças, usualmente sob a protecção de uma ama, da mãe ou de uma preceptora” (Barreira, 1994, p. 35). Bordar era uma aptidão apreciada nas mulheres das classes economicamente mais favorecidas, a ausência de educação sexual é uma norma e a permanência da mulher casada no espaço doméstico é de interesse da família e só por manifesta necessidade económica é permitida a sua ausência. O Instituto de Educação para o Sexo Feminino criado em 3 de Agosto de 1870 pelo

ministério Saldanha (Barreira, 1994, p. 39) tem como propósito educar e formar a mulher para a “sua principal missão de verdadeira mãe de família bem como fornecer- lhe os primeiros lineamentos do ensino profissional, remate da educação” (idem). Os manuais escolares são veículos de doutrinação da mulher oitocentista e configuradores do modelo adequado de comportamento “decente”, como refere Cecília Barreira (1994, p. 49). A família deve reger-se por um triângulo ideológico que comporta “Deus, Pátria e Família”. A família, que é o suporte para a educação e sustentação dos filhos, deverá ser governada por valores devotos e patrióticos. A criança quer-se dócil e submissa, sem vontade própria, nem direito a expressar-se espontaneamente.

A educação da mulher tem como fim prepará-la para o casamento, “a jovem deveria manter-se casta”, como já referimos noutro capítulo. A ausência de pureza das mulheres é fortemente condenada, mas também estudada “cientificamente” e, por isso: “existem índices reveladores de uma ausência de “pureza” nas mulheres. Da grossura do colo, ao olhar e ao rosto em geral. Os olhos da virgem eram “belos e erguidos”, contrariamente a “tristes e baixos” quando ela o não fosse. A própria voz sofreria alterações. As virgens tinham-na clara e timbrada. Os peitos eram mais volumosos na mulher que “pecava” (1994, p. 81).

A pureza da mulher, na época oitocentista, é manifesta: os seus olhos denunciam o seu estado de pureza, porque neles está estampada de forma perceptível a sua condição; nos sons que emite está impregnado, de forma manifesta, o seu estado de pureza. As configurações do seu corpo não deixam dúvidas, porque os olhos dos homens estão treinados para apreender se determinadas formas corporais femininas denunciam ou não a pureza existente na mulher. A ”cientificidade” de que aqui se fala está formatada por uma ideologia que diz Bourdieu, “legitima uma relação de denominação inscrevendo-a numa natureza biológica que é ela própria uma construção social naturalizada” (1999, p. 20). Esta realidade, que emana de uma vontade androcentricamente construída, determinava, na época oitocentista, que o fim óbvio do casamento era a concepção de que a mulher, de acordo com o artigo 1185 do Código Civil (de 1867), deverá prestar obediência ao marido; que está proibida de publicar

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código; que a administração de todos os bens do casal pertence ao marido e só pertence à mulher na falta ou no impedimento deste, conforme artigo 1189, (Barreira, 1994). Como refere, ainda, Cecília Barreira: “o divórcio não é reconhecido. Apenas a separação judicial de pessoas e bens.” E a autora continua afirmando que, de acordo com o Código Civil que temos vindo a citar, “o marido que matasse a esposa adúltera e o seu cúmplice era apenas condenado a seis meses de desterro da comarca”; possuía ainda o direito de “abrir a correspondência da esposa” (1994, p. 84). A hierarquia de género assume toda a centralidade da sociedade oitocentista. De facto, na sociedade oitocentista “a visão androcêntrica é assim continuamente legitimada pelas próprias práticas que determina: pelo facto de as suas disposições serem o produto da incorporação do preconceito desfavorável contra o feminino que é instituído na ordem das coisas, as mulheres não podem senão confirmar constantemente esse preconceito” (Bourdieu, 1999: 28). Os pensamentos e as acções de todos os membros da sociedade oitocentista são universalmente compartilhados e impõem-se a cada um de forma transcendental. São, por isso, representações androcêntricas que se vêem investidas de um sentido comum, de reconhecimento prático que não necessita de se pensar e/ou afirmar (Bourdieu, 1999).

Mas os debates do século XIX não ficam reduzidos ao papel da mulher burguesa, eles incidem igualmente sobre a mulher trabalhadora. E aqui uma outra realidade é percebida dentro da realidade oitocentista. Joan Scott refere “que a mulher trabalhadora ganhou no século XIX uma proeminência extraordinária (…) é um produto da revolução industrial” (in Duby, G. & Perrot, M., 1991, p. 441). Em 1860 Jules Simon afirma que “uma mulher que trabalha deixa de ser mulher”, mas os debates não são pacíficos, outros defendem que as mulheres “só poderiam trabalhar durante curtos períodos da sua vida, abandonam o emprego remunerado depois de casar ou ter filhos” (Duby, G. & Perrot, 1991: 442). Na sociedade oitocentista, o lar e o trabalho organizam as diferenças biológicas e funcionais entre homens e mulheres. E de tal forma o espaço doméstico é determinante na organização social que acaba por justificar e institucionalizar as desigualdades entre géneros. Mas o dilema lar versus trabalho não só era construtor de desigualdades entre sexos, era igualmente causa de divisão do trabalho

certos tipos de trabalho” (Duby, G. & Perrot, 1991: 444). Esta divisão chegava aos próprios sindicatos. As políticas e práticas dos próprios sindicatos são também exemplo da oposição dos géneros no que concerne ao trabalho, existente na época oitocentista. Como refere Joan Scott, “na sua maioria, os sindicalistas procuravam proteger os seus empregos e os seus salários mantendo as mulheres afastadas das suas profissões e, a longo prazo, fora do mercado de trabalho” (Duby, G. & Perrot, 1991: 462).