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Capítulo III. Metodologias e Contextos de Investigação

S EGUNDA P ARTE

4.4. As relações entre o espacial e o social

4.4.3. Figuras típicas/populares da Lisboa oitocentista

Fig. nº 24 - Saloia Lavadeira Fig. nº 25 - Preta da

Fava-Rica

Fig. nº 26 -Turco das Sapatilhas Fig- nº 27 - Amolador e a sua flauta

A Lisboa pitoresca oitocentista é também a Lisboa dos pregões. O pregão é um fenómeno social de comunicação que atravessou diversas civilizações. Os pregões já foram mandados deitar pelos reis: justiça que manda fazer El-Rei. Agora são ditos pela

preta da fava-rica, pelo amolador e a sua flauta, pelo ferro-velho, pelo saloio da fava- rica, pelos turcos, que vendiam sapatilhas, pelo leiteiro, pelos rapazes das castanhas (cf.

Santana & Sucena, 1994; Isabel Nunes, 1988), estes são os pregões de Lisboa, muitos ditos pelos saloios, como é o caso, do saloio que vende queijadas, da saloia lavadeira,

da saloia padeira, da saloia leiteira, dos saloios que vendem na praça da Figueira. Esta era a realidade do quotidiano lisboeta. Mas quem são os saloios?

O termo saloio contém “a ideia de habitante do campo, em oposição ao da cidade, mas também a ideia de agricultor, homem que vivia do cultivo da terra e que vinha a Lisboa para vender os seus produtos, aliás, de um modo geral apreciados” (Castelo-Branco, 1987, p. 56). O conceito de saloio é, pois, uma construção que resulta em consequência dos contrastes entre a população de Lisboa e a dos seus arredores, é uma diferença construída entre o rural e o citadino, entre o centro e a periferia, entre o interior e o exterior de Lisboa, entre o

alfacinha, os que são de Lisboa, e os saloios,

os que são dos arredores de Lisboa. O conceito de saloio é uma construção depreciativa do outro, do que não é/não pertence a Lisboa.

5. O movimento etnográfico oitocentista e os ciganos21

A geração fundadora da etnografia portuguesa é constituída por um conjunto de intelectuais que se interessam pelas coisas do povo e, de entre eles, destacam-se diversas correntes de pensamento científico e, consequentemente, de abordagens etnográficas. Desta galeria de notáveis, interessa destacar aqueles que, no período oitocentista português, direccionaram as suas investigações para a problemática cigana. Os dois mais importantes investigadores, deste período, a estudar esta problemática são J. Leite de Vasconcelos (1858-1941) e Francisco Adolfo Coelho (1847-1919), como já referimos noutro local.

20 in Revista Municipal de Lisboa, 1987, nº 22, p, 49.

Relações Interétnicas, Dinâmicas Sociais e Estratégias Identitárias de uma Família Cigana Portuguesa - 1827 – 1957 Capítulo IV– Lisboa Oitocentista: o espaço e as relações sociais

A prática etnográfica inicia-se neste período. As investigações levadas a cabo por esta geração fundadora da etnografia portuguesa participam na construção de

outras imagens acerca dos ciganos e dos restantes lisboetas/portugueses. As

representações inspiradas em cenas da vida quotidiana/popular fazem-se a partir da “introdução das ferramentas e das ideias para a constituição de um saber etnográfico aplicado à realidade da nação, faz-se num âmbito teórico de doméstico/exótico, ou rural/primitivo” (Branco, F. C., 1987, p. 40). O etnógrafo está legitimado pela sua autoridade e na presumida objectividade dos dados recolhidos no trabalho de campo. A etnografia oitocentista assenta num paradigma que admite que a escrita do etnógrafo é de tal forma perceptível que se constituí numa janela transparente com vista para o

Outro (cf. Duarte, 2008). Neste período não se admite que as culturas convivem,

contrastam e dialogam, produzem práticas e artefactos híbridos.

Para os pais fundadores da etnografia portuguesa, predominam as investigações caseiras: as fronteiras do país são estáveis; fala-se uma única língua e não existem questões étnicas, logo, a problemática cigana é etnograficamente interessante quer pelo dialecto que falam, quer pelos marcadores culturais que os diferenciam.

A maioria destes etnógrafos divulga os seus estudos em muitas das publicações oitocentistas com relevância intelectual/científica. É de destacar, entre outras, as seguintes publicações: O Ocidente, (1878) Revista Ilustrada de Portugal e do Estrangeiro, fundada por Caetano Alberto da Silva, Manuel de Macedo (directores artísticos) e por Guilherme de Azevedo (director literário); O Positivismo (1878), dirigida por Teófilo Braga e Júlio de Matos; A Revista Lusitana (1887), dirigida por J. Leite de Vasconcelos e, já na alvorada do século XX, surge A Ilustração Portuguesa (1903), cujo editor foi José Joubert Chaves.

Fig. nº 29.30.31 – Capas de publicações oitocentistas

Algumas imagens, incluídas em alguns dos estudos etnográficos, publicadas, no fim do século XVIII e início do século XIX, em livros e revistas referentes aos ciganos:

Fig. nº 32 e 33 Capa do Livro Os Ciganos de Portugal (1892) de Adolfo Coelho e fotos de ciganos por ele investigados

Fig. nº 34 - Ciganos na feira Fig. nº 35 - Família de ciganos Fig. nº 36 - Crianças ciganas Fotos de Benoliel, Joshua Ilustração Portuguesa, 1909, de 8 de Março, pag.313.

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A leitura etnográfica e iconográfica – orientada para o passado – da vida quotidiana e das utilizações da cultura popular Lisboeta e dos ciganos oitocentistas é evidentemente facilitada pelo facto de se estruturarem em torno de discursos baseados na tradição e de seguirem uma ideologia de mimetização, isto é, com a preocupação (in)consciente de imitação e de adopção do comportamento, da linguagem, das ideias (já) construídas em relação àqueles entre os quais se vive de forma a tornar – o objecto de estudo – uma cópia exacta, ou não, desse homem oitocentista imaginado. As narrativas de diversos autores constroem-se, pois, como meras expressões de nostalgia

daquilo que vai desaparecendo a pouco e pouco: olham para o passado, diferente do

presente que vivem, e narram-no de forma nostálgica. É através da iconografia, aqui representada pelos retratos de uma realidade que se pretende fixar, que os seus discursos actuam. Por outro lado, os discursos são mais do que meras evocações nostálgicas daquilo que vai desaparecendo a pouco e pouco, estes discursos da nostalgia do passado – expressam, sobretudo, a transformação dessas práticas em símbolos – ou marcadores – da identidade lisboeta e/ou cigana oitocentista.

E ao mesmo tempo que, na sua retórica aparente, fala da linguagem da tradição e da nostalgia, ela faz efectivamente parte da construção de um presente que se projecta no futuro. De facto, a ideia daquilo que vai desaparecendo a pouco e pouco é, ela própria, uma ruptura com as pertenças tradicionais e a ilusão de uma continuidade no tempo. Aqui, como noutros casos, a linguagem da tradição é uma linguagem decididamente inovadora porque, ao reconhecer o que vai desaparecendo pouco a

pouco associa-se, (in)conscientemente, ao movimento de criação de novos sentidos e à

busca dinâmica de novos percursos. E ao fazê-lo, estas narrativas remetem para a importância que, na configuração da identidade, tem a oscilação entre identidades, que Stuart Hall define como enraizadas simultaneamente na tradição e na tradução (Hall, 2007).

Em síntese: neste capítulo pretende-se caracterizar, em traços largos, a situação económica, social, educacional e política da sociedade oitocentista portuguesa. Foi neste no espaço social oitocentista que as pessoas investigadas encontraram a cada momento

existentes, a emergência da ciência que se anuncia como uma nova religião e de novos esquemas organizacionais: os homens que se organizam na base das classes e das mulheres que se organizam na base do sexo e de novos direitos. As novas indústrias e os novos movimentos sociais exigem transformações estruturais que implicam o desenvolvimento e a extensão da educação elementar. A família rege-se por um triângulo ideológico que comporta Deus, Pátria e Família. Este triângulo ideológico assenta numa educação dos filhos, dócil e submissa. A educação da mulher tem como fim prepará-la para o casamento, razão pela qual tem de ser manter casta. A ausência de pureza da mulher é fortemente criticada. O lar e o trabalho organizam as diferenças biológicas e funcionais entre homens e mulheres. Na Lisboa oitocentista, os cafés e os botequins convertem-se em novos espaços de sociabilidade, à semelhança do que acontece com o Passeio Público. Os pregões, enquanto fenómeno social, anunciam a chegada de alguém que vende bens de primeira necessidade, mas anuncia, igualmente, a chegada do saloio, que expressa a diferença entre o rural e o citadino, o interior e exterior, entre o alfacinha e o saloio. O movimento etnográfico português emergente constrói imagens/iconografias dos ciganos e/ou lisboetas, localizando-as naquilo que

vai desaparecendo a pouco e pouco.

Esta é, pois, a construção aproximada da Lisboa do início do século XVIII e começo do século XIX onde nasceram e morreram Manuel António Botas, Maria da Conceição Botas e António Maia.

Relações Interétnicas, Dinâmicas Sociais e Estratégias Identitárias de uma Família Cigana Portuguesa - 1827 – 1957 Capítulo V. Honra e Vergonha na Comunidade Cigana e na Sociedade Portuguesa Oitocentista

Capítulo V. Honra e Vergonha na Comunidade Cigana e na Sociedade Portuguesa