2.4 Focos e Bases do Comprometimento
2.4.2 Enfoque Instrumental
A distinção básica deste enfoque em relação ao afetivo fica clara na seguinte afirmação: "empregados com forte comprometimento afetivo permanecem na organização porque eles desejam, enquanto aqueles com forte comprometimento instrumental, ou 'continuação' permanecem porque eles necessitam” (MEYER et al. 1990, p.710).
Esta modalidade de ligação foi denominada por Meyer e Allen (1984) de comprometimento duradouro (continuance commitment) e de comprometimento calculativo (calculative commitment) por Mathieu e Zajac (1990). Portanto, esta segunda grande vertente
rotulada de instrumental, calculativa, continuação ou side-bets, é também o segundo enfoque mais popular do comprometimento organizacional. Derivado dos estudos pioneiros de Becker, em seu artigo Notes on the concept of commitment, publicado em 1960, descreveu-se comprometimento como uma tendência do indivíduo em se engajar em “linhas consistentes de atividade” (BECKER, 1960, p. 33), sendo chamado por ele de “side bet” ou custos embutidos.
Na concepção dos autores Moraes et al. (1998), o comprometimento instrumental reflete o grau em que o indivíduo se sente prisioneiro pelos altos custos associados ao abandono do trabalho, traduzido em função da sua percepção quanto às recompensas, custos percebidos e trocas estabelecidas enquanto parte integrante da organização. Pode ser decorrente do sentimento de que já investiu muito de si na organização e perderia muito se a abandonasse, correndo o risco de não conseguir algo melhor fora.
Este estilo ou enfoque descreve Siqueira e Gomide Júnior (2004), seria suscitado pela avaliação positiva de resultados (privilégios ocupacionais, benefícios oferecidos a empregados antigos, planos específicos de aposentadoria) conseqüentes aos investimentos do empregado, e pela possibilidade percebida de perder, ou de não ter como repor, vantagens decorrentes dos investimentos, caso se desligasse da organização. Estes mesmo autores (2004, p.318) afirmam:
[...] parece, portanto, existir um processo cognitivo avaliativo, por meio do qual o trabalhador faz um balanço – comparando investimentos feitos, resultados alcançados na organização e custos associados à sua perda -, o qual, em última instância, determinaria a ação de permanecer ou não na organização, desencadeando uma linha consistente de ação, como foi defendido por Becker.
Neste mesmo entendimento, Bastos, Brandão e Pinho (1997) complementam o parágrafo anterior, comentando que o comprometimento na ótica do enfoque instrumental indica uma forma de apego psicológico, que reflete o grau em que o indivíduo se sente prisioneiro de um lugar pelos altos custos associados à sua saída, visto que, segundo a teoria dos side-bets20 de Becker, o trabalhador se sente recompensado com o que lhe é oferecido pela
organização e o seu desligamento implicaria sacrifícios significativos de ordem econômica, social ou psicológica.
20A Teoria de Side bets - cuja tradução é “apostas do mesmo lado” - de Becker consiste numa troca, ou seja, o empregado se vê na decisão de se manter em um emprego pelos investimentos acumulados ao longo do tempo, quer no domínio de habilidades, quer nas contribuições para fundos de pensão. Este termo é utilizado pelo autor também para se referir a algo de valor, como tempo, esforço e dinheiro investido pelo indivíduo durante sua relação com outro objeto social.
Atualmente, essa tradição de pesquisa, segundo os mesmos autores, une-se a uma corrente oriunda das teorias organizacionais, ressaltando que vínculos fortes podem emergir quando as organizações atendem às necessidades e expectativas trazidas pelo trabalhador, a exemplos de salários compatíveis com o mercado; salários indiretos, benefícios e incentivos como auxílio alimentação, plano de saúde, transporte, clubes recreativos, creche, incentivos funcionais e pessoais, custeio integral ou parcial de cursos, graduação e pós, dentre outros.
Essas duas perspectivas dominantes – Atitudinal e Instrumental – consistem no outro objetivo do nosso no estudo, sendo que partilham de uma estratégia metodológica comum: usam largamente estudos de corte-transversal e recorrem à análise quantitativa dos dados, sendo possível mesclar as variáveis e confrontar os resultados das duas bases concomitantemente, neste caso nas escalas de Mowday et al. (1982) e Bastos (2003).
Já os autores Meyer e Allen (1984, 1990) sugerem que as bases afetiva e instrumental devem possuir, preferencialmente, instrumentos específicos para mensurá-los, por se mostrarem construtos distintos e relacionados a diferentes antecedentes. Afirmam também nestas mesmas obras que no comprometimento afetivo existe um apego emocional à empresa, enquanto no instrumental a ênfase é nos custos associados à saída da organização.
Meyer (1990) encontrou evidências de que o comprometimento afetivo apresenta relações mais fortes com comportamentos prossociais, satisfação e desempenho, enquanto que o comprometimento instrumental tem relação mais forte com o deixar ou permanecer na organização. Já nos estudos de Popper e Lipshitz apud Bastos (1994), a preferência por trabalhar em organizações significativas para a sociedade associa-se ao comprometimento de base afetiva, enquanto a preferência por organizações que oferecem benefícios para o indivíduo se associa ao comprometimento calculativo.
Medeiros (1997) realizou uma pesquisa em municípios da grande Natal e do interior do Estado com 201 pequenas e médias empresas. Foram entrevistados, na ocasião, 201 gerentes de empresas e 398 funcionários, que teve como objetivo a identificação de características pessoais que explicassem os padrões de comprometimento organizacional.
Em sua pesquisa, Medeiros (1997) aponta que o comprometimento afetivo tem uma relação direta com: a) Grau de instrução e também com o dos pais; b) Está presente nas
chefias e com maioria de homens, que possuem a vida centrada na família; c) Produtividade e centralidade obtiveram valores medianos. Embora a literatura tenha procurado encontrar correlações entre o componente afetivo e a performance, os resultados nos mostram que o comprometimento afetivo puro não reflete a melhor performance no trabalho, desapontando os pesquisadores.
O comprometimento instrumental é o grupo - dentre os seis pesquisados21 - que
apresenta a menor média de idade e de solteiros. Possui um baixo escore de internalidade e onde se encontraram os que possuem o menor status sócio-econômico (renda e educação). Neste grupo se observou a menor importância ao estudo, sendo também os que possuem os menores salários, o menor grau de instrução dos pais e onde se encontram os menores escores de relacionamento comunitário (MEDEIROS, 1997).
Neste grupo se atribuiu um baixo valor da centralidade trabalho, sendo que suas vidas estão centradas na família, com elevado número de respostas para o lazer. Este padrão de comprometimento organizacional possui o menor índice de centralidade no trabalho. Aqui talvez se reflita o prejuízo que a má formação educacional e cultural causa às pessoas de baixo nível sócio-econômico e que também não se relacionam bem nas comunidades onde vivem. É o grupo caracterizado por trabalhar apenas porque precisam do trabalho. O alto escore negativo de afetividade indica que as pessoas deste grupo não gostam e não possuem sentimentos de obrigação ao trabalho (MEDEIROS, 1997).
Além destas duas perspectivas dominantes - afetiva e instrumental -, portanto alvos da maior parte das pesquisas de comprometimento, existem três outras que compõem o bojo das bases, sendo apresentadas a seguir. Embora de incontestável relevância, o presente trabalho não abordará em profundidade os enfoques Normativo, Comportamental e Sociológico, por não serem o cerne da questão, porém, serão apresentados de forma sucinta a fim de situar melhor o construto.