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Ensaio sobre o medo e a morte

No documento anamariastephan (páginas 145-153)

A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão. Mario Quintana Numa tarde de agosto de 2012, me envolvi na seguinte cena: estava parada junto ao meio fio do passeio da Av. Rio Branco, no bairro Bom Pastor, em frente ao Hospital de Pronto Socorro, esperando o sinal de trânsito autorizar a passagem. Junto a mim, na mesma linha da margem do passeio, dois jovens negros, sem camisa (estavam com ela nas mãos), com bonés, conversavam entre si, também aguardando o sinal verde para prosseguirem. Senti um puxadela na minha roupa

vindo das minhas costas. Virei-me e deparei com uma senhora de cerca de sessenta anos ostentando bom padrão econômico que me fez um sinal para vir para onde ela estava, uns dois passos atrás, e me cochichou muito baixinho, que eu “devia ter cuidado com aqueles rapazes, porque a gente nunca sabe quando eles vão nos agredir para roubar”. Os rapazes nem perceberam as suas apreensões e quando o sinal por fim nos deu passagem seguiram conversando despreocupadamente sem darem conta que eram alvo dos preconceitos da vizinha, e entraram no hospital em frente.

A senhora continuou falando e eu segui com ela para alcançar o ponto de embarque de ônibus me mantendo em silêncio, pois é difícil compreender tamanho medo de quem não fez nada para provocá-lo, a não ser, ser negro. Esperei compreender, não o consegui, mas o que me pareceu mais surpreendente ainda foi quando ela disse que era para ter medo deles porque eles não tinham fé e estavam “afastados de Deus”. Isso sem conhecê-los! Eles não estavam vestidos de maneira que se pudesse avaliar sua classe econômica. Pelo contrário, apesar de estarem sem camisas, suas bermudas e chinelos não supunha pessoas pobres. No caso, a religião serviu de rótulo para a absurda rejeição. Medo? Pânico? Não me pareceu nervosa nem agitada. Simplesmente preconceituosa e como tal, carecendo de fundamentação, a não ser essa não-religiosidade presumida.

Quando comentei com colegas o que havia presenciado, elas, não estando próxima de um público semelhante aos dois rapazes do passeio, como eu, disseram- me que a atitude da senhora não era assim tão incongruente e o que era diferente era ela ter assumido tal postura. Se fosse possível, muita gente se afastaria de jovens negros e pobres. Que esse incômodo só é amenizado quando se conhece pessoalmente os negros89, portanto pela via das afetividades. A maneira de pensar das minhas colegas pressupõe a reciprocidade do medo. Para Zygmunt Bauman (2005) esses temores relacionados à segurança desempenham papel crescente nas estratégias globais emergentes e na lógica das lutas pelo poder.

O equilíbrio frágil, inapelavelmente precário dos ambientes das terras de fronteiras baseia-se, como é sabido, “na vulnerabilidade mutuamente assegurada”. Daí os alarmes sobre a deterioração da segurança que amplificam os já amplos suprimentos de “temores relacionados à segurança”, ao mesmo tempo que conduzem as preocupações do público e os 89 CF Sales, Mione Apolinário (2007,29)

escoadouros da ansiedade individual para longe das raízes econômicas e sociais do problema, na direção de preocupações com segurança pessoal (corporal). (Baumam, 2005, p.14)

Artur, rapaz do Chapadão, disse que não gosta de sair do bairro. Aliás, ele disse não gostar nem de ir à igreja, pois ele não gosta do escuro da Igreja São Mateus. Foi um dos entrevistados que mais distanciamento demonstrou em relação às atividades religiosas realizadas no bairro dentre rituais litúrgicos e outros de caráter mais social. Disse que religião dá medo também por falar tanto de pecado e ele fica sem saber o que fazer. Para ele a religião não é lugar de refúgio e de acolhimento, mas de cobranças irrealizáveis. Que ele tem muito medo da sua própria morte e a da sua mãe e aí ele não gosta de ficar repetindo a mesma coisa, que para ele é o que a igreja faz para “colocar a gente no que eles dizem ser a verdade”.

É uma situação conflituosa: não esperam nada das igrejas, além de uma satisfação emocional imediata e pontual, mas, por outro lado, não se desligam afetivamente das religiões porque não tem instrumentos de operacionalizar a religiosidade residual, latente, arquetípica.

De uma maneira insinuante, a paralisação dos ensaios do REGGAEBEM também parece operar nesse limbo informe de emoções. Quando os observava tocando, parecia-me que eles estavam um pouco “ausentes” e tão distraídos que era necessário um movimento brusco do ensaiador para trazê-los para o chão que seus pés pisavam. Perguntei a André se isso correspondia a alguma sensação experimentada por ele, se seus colegas já haviam comentado sobre isso, de estar em outra dimensão de sentimentos.

Ele me disse que não era frequente essa “viagem”, mas que já havia acontecido com ele algumas vezes, também quando entrava no palco para cantar no conjunto de pagode “Os filhos de João”. Disse-me que sente algo parecido quando venta à tarde quando tem sol: uma mudança brusca de percepção, que mistura o presente com um passado que ele não sabe onde existiu. As palavras não foram literalmente as que estão neste parágrafo, mas uma das tarefas de um aprendiz de etnógrafo é dar voz ao que está silencioso, desculpem a pretensão de tê-lo pelo menos tentado. Dois colegas escutavam e concordavam com os gestos, evasivas, rodopios enfim o parangolé que André usava naquele momento para dar corpo às

suas emoções de forma rápida e incipiente. Uma forma inominada de êxtase religioso?

Isso me parece poder se aproximar do conceito de religião usado por Ronaldo Almeida (2009)

(...) religião, termo genérico e abrangente que, apesar de ser aplicado a um conjunto de experiências, revelações, ritos e doutrinas, de certa forma aponta para um eixo comum: a busca de contato com outro plano que transcende as vicissitudes do cotidiano e lhes dá sentido (...). Este é o plano do sagrado que, na multiplicidade de suas formas históricas e culturais, desde aquelas praticadas em pequenas comunidades até as religiões universais – assim chamadas por sua difusão e grau de institucionalização – oferece um sentido ordenador mais amplo (Almeida, 2009, p.20)

Esta citação é importante para a fundamentação de argumentos uma vez que traz para o debate a complementação histórica e cultural das práticas contemporâneas. Se existe uma maneira pessoal e intransferível de percepção da dimensão do sagrado, ela foi inserida pelas gerações anteriores de experiências místicas alternativas às das igrejas tradicionais.

Retornando às experiências concretas do cotidiano, quanto aos moradores de outros bairros e do centro da cidade ou mesmo de shoppings centers, qualquer lugar fora do bairro, Romário disse “ficar de greta”, pois em alguns desses lugares eles são só olhados “de banda”, mas que em outros, é briga certa, quando vão, por exemplo, ao bairro São Pedro. E teme os policiais fora dali. Conta que uma vez levou uma batida e “nem estava sujo”. Mas, em outra ocasião, quando um amigo dele que estava levando umas trouxinhas para entregar numa festa, “levou uma dura do homi (sic), mas eles ficaram com o dinheiro dele e a droga”. Disse também que os policiais se comportam de maneiras diferentes quando se encontram no bairro ou fora dele, pois quando estão no bairro eles não são tão maldosos como quando estão fora dali. Mas que mesmo assim os policiais são figuras amedrontadoras. O medo no bairro assume inúmeras feições.

Vive-se no bairro Dom Bosco num medo permanente e isso altera as relações pessoais e os projetos de vida.

A cultura do medo constrói, assim, uma barreira invisível que separa as pessoas e as isola, fazendo-as temer a tudo e a todos e nunca confiar no outro. Entre os jovens, esse embaraço ganha contornos mais nítidos, associado que está a um distanciamento maior e cada vez mais alongado

do poder de consumo, que vai desde o tempo e a qualidade da educação formal, à questão da inserção no mercado de trabalho precoce e cada vez mais difícil, até a aquisição de objetos de moda. O que amplia a distância entre as classes, com a exclusão e banalização dos miseráveis, ao mesmo tempo em que, também, demanda um estranhamento geral, já que jovens de classe média baixa, e às vezes alta, são cada vez mais apontados como executores de atos de delinquência juvenil. Atos que vão desde a participação em roubos e furtos, espancamentos de outros

jovens, envolvimento com droga, não apenas como consumidores,

mas também como integrantes do tráfico, à prática do estupro, sequestro e morte. (Koury,2011)

Como destaque na fala acima existe uma rede que envolve as pessoas que não deixa ninguém escapar impune. Só que a punição dos jovens é desproporcional aos delitos praticados. No Dom Bosco existe muita violência e a regras de moralidade parecem mais frouxas. Nos dias atuais as diferenças são menos visíveis, a não ser na ostensividade das roupas e do modo de falar em público, no mais, quer dizer que nas regras de moral da sexualidade, como troca frequente de parceiro, disputa pelos companheiros das amigas feita às claras, baixo controle de natalidade e de prevenção de doenças, isso não é muito mais diferente nem causa tanto espanto.

Na verdade, as mulheres pobres foram precursoras de uma moralidade mais livre no que diz respeito às conquistas de gênero, isso não correspondendo à liberdade econômica e mesmo social: elas não são mais livres, mas experimentaram o gosto da igualdade sexual e parece-me que não gostaram dele. Queriam mesmo era que suas famílias seguissem o modelo tradicional, pois a ausência dos maridos as sobrecarregam sem grandes benefícios pessoais e familiares, mas não é nenhum fim de mundo. Mas, quanto ao medo,

Todos os jovens, portanto, tornam-se sob suspeição. Os mais pobres, comumente, são os considerados marginais ou bandidos per si, pelo simples fato de serem pobres. O que equivale à visibilidade concreta da barreira social que está presente de modo claro, separando os que têm algum acesso aos benefícios sociais, culturais e econômicos de um cidadão e os que simplesmente ousam existir (a maioria da população). Os demais, das classes médias (baixa, média e alta e suas variações em torno de cada faixa) e da classe alta, são suspeitos uns em relação aos outros, provocando um medo generalizado sobre as ações possíveis que envolvam cada jovem em particular como vítima ou autor de um ato de maldade. (Koury, 2011)

É um emaranhado de irresponsabilidades e de impunidades. A impunidade é uma questão muito presente no dia-a-dia do bairro, sendo em si mesma fonte de conflitos barulhentos e angustiantes. A justiça ali também é muito frouxa e hermeneuticamente flexível. Quando uma mulher foi esfaqueada no abdome atingindo e matando o feto de sua gravidez e a colocando em risco por vários meses, o culpado não foi preso, nem expulso do bairro, e se houve algum tipo de constrangimento face-a-face ao agressor passou despercebido e deve ter sido de pouca monta. Apesar de uma indignação contida e sussurrante correr por bocas e ouvidos, no mesmo dia o agressor era visto em sua casa assistindo televisão sem temer represálias e acusações insuportáveis. A culpabilidade recaiu, todavia, com força sobre a vítima que não deveria, grávida ou não, estar à noite “na baderna” deixando os outros filhos com a mãe e bebendo e fumando sem controle.

Quando isso transborda os limites do bairro, via televisão e rádio sempre prontos e noticiar o que acontece ali, a sociedade é permanentemente lembrada desse lugar onde se mata sem que haja punição, o que não é fora de propósito, desde que não fosse esquecido que a polícia ali não age da mesma maneira que em locais menos estigmatizados: não houve investigação policial, nem inquéritos, apesar de noticiado e de haver obrigatoriamente ocorrência policial quando ocorreu a hospitalização.

Torna-se pois muito urgente não considerar a violência, e sim determinar, aqui e ali, quais são as situações que, ao menos para seus protagonistas, são consideradas violentas, como vetores de risco, quais e para quem. Mais tarde, caso tenhamos bastantes exemplos diferenciados e abordados de maneira comparáveis, talvez seja possível identificar os fatores reconhecidos como sendo constitutivos de situações de violência, e questionar as diferenças, as distâncias de uma sociedade para outra. (PIAULT, 2004, 25)

É correto presumir que a denúncia do crime não poderia partir do interior da comunidade do bairro uma vez que, já apresentei esse fato anteriormente, a rede de informação alternativa interna, a fofoca, não deixa nada escondido e a pessoa que fizesse a denúncia correria o risco de ser desprezada, ou coisa pior, pela comunidade. Impera assim uma rede interna de informações de pessoas amedrontadas e inseguras de forma mais aguda ainda que o medo e a insegurança dos que estão fora dali.

A insegurança, a desconfiança e o medo podem ser expandidao para os moradores do bairro de forma geral. Não se pleiteia sociedade sem medo, seria impossível. Não se pleiteia que os moradores do bairro Dom Bosco sejam santos, isso seria ridículo. O que seria desejável é que fossem vistos sem as máscaras do preconceito e que os aparelhos e instituições fossem ao menos básicos e igualitários. Os jovens não tem ali a contrapartida pela obrigatoriedade da educação, pois a escolaridade não lhes garante mais um futuro risonho, assim como o atendimento de saúde mão garante a prevenção de doenças e qualidade de vida, assim também como não estão presentes locais de esporte e de socialização.

Mas o medo nem sempre pode ser nomeado ou mesmo descrito. Muitas vezes ele está difuso ou escamoteado em doenças, pesadelos constantes, desejo de sair dali, dificuldade de relacionamento. Uma senhora me disse que a vontade de ir para outro bairro é muito grande, pois ali ela tem que conviver com muita indecência (sic) e que ela já tinha comprado um lote e se inscrito no programa de casas próprias do governo. Outra mantém os filhos trancados dentro de casa quando precisa se ausentar, algumas garotas tem medo do pai, pois eles são mais exigentes com elas, com receio de gravidez e aumento de despesa com a chegada de um bebê. Mas o maior medo, no segmento das mães, avós e pais são que os filhos não consigam evitar o consumo e o tráfico. Como muitas vezes são os pais também envolvidos como consumo de drogas, nesse caso o medo é deslocado para denúncias ou a chegada de policiais ou então perder a droga para o grupo rival. Medo de perder suas moradias nas chuvas, de não pagar o aluguel, de ficar sem água, sem emprego.

Especificamente quanto aos jovens, em quase todas nossas conversas, direta ou indiretamente, se falava dos seus medos: de não conseguir emprego ou de não conseguir pagar pensão dos filhos. Os rapazes me pareceram com mais dificuldades para enfrentar as situações do dia-a-dia que as garotas no que diz respeito à gravidez, por exemplo, que foram numerosas entre os jovens. Uma moça de 15 anos grávida não desperta nenhum constrangimento maior, mas cria insegurança acentuada entre os rapazes com quem ela convive: quem será que a mãe vai dizer que é o pai? A gravidez fora do casamento é um problema bem maior para os rapazes do que para as moças, diferentemente do que eu pensava antes desta pesquisa, mesmo tendo participado de projetos sobre prevenção da gravidez na

adolescência 90 e outros cuidados com a saúde, o foco sempre estava em instrumentalizar a não concepção ou, quando ela já havia ocorrido, na mãe e na criança. Para os pais, quase nada a não ser cuidados com a prevenção de gravidez e de doenças. Contaram-me que houve um caso de um rapaz desaparecer por muitos anos, pois não queria assumir o filho.

Também o medo de não conseguir se afastar do mundo das drogas. E se eu não conseguir nada, vou ter que me meter com as pedras (crack). Muito medo de ser preso, de ir para o CERESP, mas, coisa admirável, eles não têm rejeição aos que de lá voltam, nem falam com desprezo dos que lá estão. Consideram como falta de sorte, somente sem nenhum julgamento moral ou ético, desde que a prisão seja motivada por algum tipo de envolvimento com droga. Já para os outros delitos e crimes as opiniões divergem, pois existe uma moralidade interna difusa nas avaliações das atitudes dos moradores dali. O roubo é condenado entre eles, mas visto com menos rejeição fora dali; as brigas entre casais atraem os observadores e comentadores que dificilmente se propõem a apartar o casal, mas chamam com facilidade a polícia. Medo de que algo aconteça com suas mães. Essa sensação de insegurança permanente, de solo instável e de limites sufocantes, compromete a visão de mundo e de futuro.

Como informa Dubet (2006, p. 25), existe uma espécie de conformismo frustrado, em que os jovens de classes mais pobres se sentem perdedores: seja pela dificuldade de mobilidade social, mesmo quando incluídos em políticas sociais de inclusão social, como o Pró-Uni, o Bolsa Jovem, o Pró- Jovem, etc. Esses programas apresentam-se como uma alternativa, quase sempre frustrada, por não levarem em conta a defasagem da formação do jovem pobre com as demandas do mercado, inclusive com a lógica de ensino técnico e universitário brasileiros, gerando estigmatizações e os acusando de não competitivos e de difícil enquadramento.(Khoury,2011)91

Enfim não é possível a homogeneização de enquadramentos artificialmente construídos. O que complica porque as dimensões da vida contemporânea estão arrumadas em sistemas, e esta forma de organização é quase impossível de ser pensada em termos de individualidades. Os sistemas lidam com dificuldade com as diferenças e as singularidades. Essa situação prejudica demais jovens de 90 PEAS/ Programa Afetivo Sexual – SEE/ MG

91http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-69922011000300003&script=sci_arttext

comunidades pobres porque eles se fizeram, muitas vezes, na busca daquilo em que eles são diferentes em termos de habilidades pessoais na prestação de serviços.

As religiões também não absorvem de imediato essas formas de criatividades miúdas e frágeis que vão modelando aos poucos as suas doutrinas e os seus rituais. Mas não conseguem ficar imunes apesar de demorar a perceber o que já mudou. Está sempre correndo atrás das práticas que já estão no senso comum dos cotidianos complexos e efervescentes. Assim como custei a perceber que existiam adolescentes que tinham alguma religiosidade, mas que não compartilhavam suas experiências facilmente. Um dia isso aconteceu.

Capítulo 3

No documento anamariastephan (páginas 145-153)