Amar a Deus sobre todas as coisas: as palavras desta expressão são de tal nível de abstração que se eximem de explicações. Vemos o conceito de hipolucidez válido para entendermos o não-pensar sobe amor, Deus, sobre (preposição complicadora), as coisas. Honrar pai e mãe: disjuntivamente ainda é possível, mas entre as famílias pesquisadas, o duplo é duvidoso. Guardar domingos e festas de guarda: tudo o que significar repouso é passível de cumprimento e em muitos casos o domingo é estendido pela ausência de trabalho e evasão das escolas, mas com significado diverso do dos mandamentos. Não chamar seu santo nome em vão: nunca é em vão. Estes quatro primeiros mandamentos tratam da fé e da crença. Os demais tratam das relações entre as pessoas. Não pecar contra a castidade: prostituição infantil,troca de companheiros, sexualidade livre, gravidez na adolescência e no que significa este mandamento quanto ao cuidado com o próprio corpo, castidade é palavra complicada, quase um deboche frente ao desrespeito por si mesmo. O não matarás, ainda é preceito básico, mas é modulado pelas circunstâncias, uma vez que a população recusa o ato de matar entre eles, mas não o recusa em caso de estranhos. A morte ali tem um estatuto diferente uma vez que faz parte permanentemente dos temores, principalmente dos jovens, não só a morte física, mas também a morte moral, de não ter lugar no mundo pela privação das oportunidades devidas. Não roubar é o mais explicitamente descumprido, principalmente porque a noção de propriedade é também uma abstração pois quase nada ali é deles e eles vivem mesmo de apropriações, autorizadas ou não: são as invasões de terrenos, pequenos furtos das domésticas, crianças usadas como
pedintes e que furtam para aumentar a renda doméstica. Nada muito claro, essas práticas são condenadas quando falam delas, mas nas entrelinhas roubar fora do bairro não é visto como problemático o que muda de figura quando o furto acontece no próprio bairro e aí são conhecidos e evitados os que dele se ocupam. O oitavo mandamento, Não levantar falso testemunho, foi tão subvertido que se transformou numa das estruturas de moralidade no bairro: onde faltam leis, a fofoca impera, mesmo que os testemunhos não sejam falsos. Não cobiçar a mulher do próximo: o verbo dessa expressão perdeu intensidade frente ao seu objeto. Não cobiçar as coisas alheias é uma condição parcial: se cobiça ali não só as coisas do outro próximo, cobiçam-se as novas tecnologias, as roupas, bijuterias. A cobiça pela posse de coisas marca bastante a vida dos mais jovens.
Quanto aos sacramentos, batismo, confirmação, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio, pode-se tecer várias das mesmas considerações feitas em relação aos mandamentos.
Se os mandamentos e os sacramentos não são realizados não se deve mesmo pensar em religião, ou religiões (nesse momento não tenho elementos para fazer as mesmas considerações em relação às práticas evangélicas, mas acredito que elas ali também tenham uma estrutura de funcionamento semelhante). Não é, portanto, interessante entender as religiosidades por oposição aos cânones eclesiásticos, mas como elaborações necessárias ao dinamismo do cotidiano, na busca por conforto e no enfrentamento dos problemas, na subversão de dogmas nas redes construídas sob resquícios culturais. Modificações das religiões são temas de estudos em muitas partes do mundo ocidental. O que pretendemos aqui é cruzá-las com juventude e pobreza, num bairro de Juiz de Fora.
O novo significado dos estudos sobre juventude emerge ao que parece desse conjunto de transformações. Enquanto o adulto vive ainda sob o impacto de um modelo de sociedade que se decompõe, o jovem já vive em um mundo radicalmente novo, cujas categorias de inteligibilidade ele ajuda a construir. Interrogar essas categorias permite não somente uma melhor compreensão do universo de referências de um grupo etário particular, mas também da nova sociedade transformada pela mutação (Peralva, 2007,p.) Quando comecei esta pesquisa, meu olhar foi atraído para as diferenças em relação aos outros locais de Juiz de Fora atualmente. Ali se viam crianças brincando na rua, idosos em silêncio, simplesmente olhando a “vida passar”, vizinhas
conversando entre suas ocupações, bola, pipa, bicicleta, cadeiras nas calçadas e sem carros nas ruas. Isso me fez relembrar tempos passados de relações entre vizinhos e seu espaço de convivência. Solidariedade, fofocas. E crianças querendo estar nas fotos. Fora dali não se vê com facilidade este conjunto de atributos de vida comunitária.
Depois, comecei a sentir as ausências: quadra de esporte, pracinha, creche, escola, bibliotecas; transporte interno, atendimento médico e odontológico; casas inacabadas, muros sem proteção, escadas sem corrimão, equilíbrios sempre precários; senti de uma maneira muito forte, já pressentida mas não pensada com a intensidade que se mostrou, a ausência dos pais na educação dos filhos. E o peso disso para as mães, principalmente as adolescentes.
Também o conformismo e a despolitização nas atividades coletivas como táticas de sobrevivência. Para se viver em tais condições instáveis, competências emocionais e físicas são exigidas e estão em constante reelaboração. É comum vermos as desconfianças nos olhares das pessoas, mesmo depois de longo tempo de convívio. Vejo que às vezes elas têm vontade de perguntar o que eu estou fazendo ali. E com razão, uma vez que participam constantemente de pesquisas das quais nunca têm retorno.
Está em jogo a falta de controle sobre suas vidas que eles percebem, mas não sabem “representar”. A reação às pesquisas, às irresponsabilidades das ajudas sociais por meio de entidades assistenciais, a falta de projeto de vida e a dificuldade de se verem no mercado de trabalho “trabalhar em quê, onde, ganhar quanto” são situações em que alguns deles se sentem envolvidos sem respostas. Fica um incômodo inominado. Um rapaz, cujos depoimentos serão tratados no terceiro capítulo desta tese me disse que não sabia o que fazer no próximo ano (estaria terminando o segundo grau da educação básica) e que não queria fazer faculdade, pois seu colega estava terminando o curso de educação física e iria ser professor e que ele, André, não queria ser professor porque estes não eram respeitados e ganhavam muito pouco.
Esta fala mereceu réplica, pois queria saber o que fazia com que um professor não fosse respeitado, tendo em vista um olhar que trouxesse a maneira de adolescentes verem seus professores. Para ele, André, professor respeitado tinha de saber a matéria e, surpreendente, não deixar ninguém conversar em sala, não deixar
ter cola nas provas, e não ser xingado pelos alunos. No mesmo mote, perguntei-lhe o que era um bom sacerdote. Disse-me que era aquele que não culpava quem ia conversar com ele. Para ele as pessoas confiáveis (professor, padre) são aquelas sob as quais eles conseguem certo controle, cuja linguagem permite comunicação. Não é mais questão de autoridade do cargo, mas de reconhecimento face a face e de horizontalidade de discursos.
É isso, a religiosidade, no bairro, seja adolescente, criança ou adulto é uma forma recolocar-se em cena como atores principais e como ressignificadores dos mitos e dos ritos não das religiões tradicionais, mas ao contrário, dos mitos e ritos da sociedade, sacralizando-os de acordo com as linguagens possíveis. Uma religião contemporânea.