O campo desta pesquisa não está restrito às famílias que participam da Vida Plena/ABAN, mas destas famílias temos alguns dados importantes já computados, o que não acontece com as demais famílias do bairro. Portanto, os dados abaixo são somente indicativos da situação geral e sempre que possível serão agregadas informações que colaborem com as reflexões. Existem outros os levantamentos, mas eles me pareceram inconsistentes e insuficientes. Por exemplo, Menezes (2010) diz que
Segundo o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Juiz de Fora (Prefeitura de Juiz de Fora, 2006b) o bairro Dom Bosco localiza-se na Região de Planejamento do Centro, ou seja, no extremo sudoeste desta regionalização. No Alto Dom Bosco vivem cerca de 170 famílias e segundo o PDDU configura “(...) Parte da área doada pela Sociedade S. Vicente de Paula, sendo que vários moradores não possuem escritura. Perto da UFJF, ocupação expontânea (sic) em área pública, merecendo estruturação urbanística.” (Prefeitura de Juiz de Fora, 2006b,). Observe-se que para o Atlas Social de Juiz de Fora (Quadro 1) a micro área de exclusão no Dom Bosco consta como situação de infraestrutura urbana total.
Quadro 1
Micro áreas de exclusão em Juiz de Fora. Dom Bosco58 Quantidade
Domicílios (Estimada)
Dom Bosco Urbanização
1- Infraestrutura urbana: Saneamento: Total Acessibilidade: Total Serviços: Total 2- Habitação: Moradia: Mínima
Densidade de Ocupação: Média
Situação - Resumo:
1- Infraestrutura urbana: Total 2- Habitação: Mínima
3- Titularidade da Terra: Regular 4- Risco: Físico
5- Cond. Socioeconômica: Baixa Grupo III
300 Domicílios
Alto Dom Bosco Urbanização
Infraestrutura urbana: Saneamento: parcial Acessibilidade: Parcial Serviços: Parcial Habitação:
Moradia: Mínima Densidade de Ocupação: Média
Situação - Resumo:
1- Infraestrutura urbana: Parcial 2- Habitação: Mínima 3- Titularidade da Terra: Irregular 4- Risco: Físico 5- Cond. Socioeconômica: Muito Baixa Grupo II 30 Domicílios São Mateus (Rua Carlos Monteiro) Urbanização 1- Infraestrutura urbana: Saneamento: Total Acessibilidade: Parcial Serviços: Total 2- Habitação: Moradia: Mínima
Densidade de Ocupação: Média
Situação - Resumo:
1- Infraestrutura urbana: Parcial 2- Habitação: Mínima
3- Titularidade da Terra: Irregular
4- Risco: Inexistente
5- Cond. Socioeconômica: Baixa Fonte: Prefeitura de Juiz de Fora (2006a).
Mesmo sendo os dados somente estimativos, no Alto Dom Bosco são mais do que 30 as famílias que aparecem na estatística, o que faz com que a densidade demográfica seja alta. Onde se lê infraestrutura parcial, deveria ser lida infraestrutura mínima. Mas esta inconsistência dos dados fala do desconhecimento sobre as condições gerais desta população e os problemas de análises que se baseiam em estatísticas. Existe também uma diversificação no uso desta mínima infraestrutura, uma vez que a água, por exemplo, estaria computada como sendo oferecida, mas algumas famílias não têm como pagar pela oferta.
58 Cf. Prefeitura de Juiz de Fora. Atlas de Desenvolvimento social. 2006
Por isso, restringindo a amostragem às famílias que participam da Vida Plena/ABAN, pode-se ter uma ideia mais aproximada, numa escala menor das atribulações e das maneiras de sobrevivência elaboradas no bairro e submetidas permanentemente às imposições e direcionamentos de instituições estranhas às necessidades pessoais e coletivas do bairro.
São dezesseis famílias acompanhadas pelo trabalho voluntário da ABAN sob a metodologia Vida Plena e o número de pessoas gira em torno de cinquenta e cinco, com percentual de crianças em torno de 27,27 %; adolescentes 18,18 %, e idosos 7,27%. O percentual de mulheres adultas é de 38,18 %, assim como de homens a homens adultos é de 23,63 % e a de famílias com a presença de homem e mulher é de 43,75%. A renda per capta média é de R$ 220,90 e 43,75 % famílias estão abaixo da linha da indigência, 25,00 % na linha da pobreza e 31,25 % acima da linha da pobreza com problemas outros que não a pobreza, como violência doméstica e alcoolismo.
Elas apresentam uma configuração complexa de pobreza que perpassa diversos aspectos: a) Renda: 68,75% estão abaixo da linha de pobreza; b) Necessidades básicas: existe uma ausência de serviços básicos e os ligados a creche e lazer; c) Capacidades: existe um desafio ligado às capacidades de transformação social, pois, apesar de o conhecimento técnico ser viável (como no caso dos projetos desenvolvidos ali por instituições de ensino superior, por exemplo), seu funcionamento não altera as condições pessoais e as da comunidade de superação das condições de privação.
Numa primeira vista pode-se falar que o bairro é pobre e isto significaria uma homogeneidade de situações que estaria longe de descrever a multiplicidade e a diferenciação dos meios que os moradores usam para subverter e/ou aceitar as condições precárias de existência.
A pobreza nessas famílias não é só um atributo dado do exterior, uma classificação baseada em critérios de classes econômicas. As maiores rendas, nas famílias visitadas, eram aquelas provenientes de recebimento de pensões e aposentadorias do INSS, assim como de salários como empregadas domésticas para as mulheres e servente de pedreiro ou biscateiro para os homens (cerca de R$510,00 mensais, em fins de 2010). Raramente pai e mãe têm trabalho remunerado e o mais comum são as famílias sem a presença masculina responsável.
Avaliando as observações desta pesquisa durante o primeiro ano de trabalho de campo, algumas considerações podem ser feitas, levando-se em conta o que foi proposto no início deste capítulo: ser uma avaliação do conjunto de estranhamentos e da tentativa de pacificá-los através de comparações que, ao fim, colocam em oposição modos de vida idealizados e as concretas vivências cotidianas.
Assim, as diferenças no que dizem respeito a ser pobre num bairro pobre me pareceram estar ligadas também às idiossincrasias pessoais, ao nível de escolaridade e às redes de solidariedade das quais participam – familiares, assistenciais, religiosas e de vizinhança, e à configuração da família, sendo que a pobreza onera mais as famílias com pessoas doentes, idosas e muitas crianças. Muito pouco é destinado à educação dos jovens entre os mais pobres: cadernos, mochilas, espaço de estudo em casa (nem pensar), jornais e revistas (só desatualizados), livros (não têm hábito de leitura), informática (só os computadores instalados na sede da ABAN que, apesar dos cursos oferecidos por voluntários, acabam por ser utilizados sem critérios pedagógicos explícitos e voltados para a diversão e estão envelhecidos e desatualizados tecnologicamente). Na luta pela sobrevivência, nos segmento dos pauperizados, a educação perdeu o status de alavanca social, sendo em muitos casos somente instrumento de reparação da vida atual, com bolsa família, merenda, lugar de segurança para as crianças, etc.
Também a religiosidade adquire uma feição de contingência. Não existe projeto de futuro imediato muito menos de transcendência para após a morte. Então, não se pode deixar de admirar que a religião oficial (católica) ainda mantenha minimamente sua canonicidade civilizatória tradicional mesmo assumindo racionalidades locais, voltadas para a imprevisibilidade do cotidiano e, ao mesmo tempo, a previsibilidade da não mudança social. Os jovens vivem esta contingência e imprevisibilidade religiosas de maneira mais livres, pois não conhecem os cânones religiosos e lhes faltam informações e práticas de crenças coletivas. A religiosidade se individualiza sem limites e é pobre de mitos, ritos e mistérios.
Apesar da miséria e de outras privações, nem todas as pessoas são infelizes e algumas delas são tranquilas e alegres. Nada de lamentações, de culpar o Estado e os políticos pelas suas mazelas, nem fazem críticas à educação que seus filhos recebem nas escolas e ao distanciamento dos clérigos. Vivem em situação de pobreza como vivem aqueles que não são classificados como tal. Essa afirmação
pode parecer paradoxal, mas não se percebe sofrimento pelo fato de ser pobre. A vida no bairro é muito difícil, mas as dificuldades são sentidas como se estivessem acima da capacidade de resolução e por isso se deslocam do foco de ações e ficam latentes como desejo de ajuda pessoal. Imobilizados frente ao tamanho dos problemas, não sentem a pobreza enquanto privações acumuladas historicamente, mas como fatalidade e, enquanto tal, fugindo à capacidade de intervenção solitária. Algo semelhante à ideia de hipolucidez que nos traz Albert Piette.
O que nos fascina mais é precisamente suspensão empírica ou diária da lucidez que ocasionalmente pode iluminar inteligência e consciência. Não pensar verdadeiramente, pensar, mas não muito, lembrar-se de seu pensamento, mas sem esforço, não saber realmente. Letargia, mediocridade, restrição, desprendimento, reserva ou hesitação, hipoconsciência, hipolucidez. Hipo: não só em virtude da automacidade dos hábitos, por efeito da continuidade natural, mas também em virtude de uma nova competência cognitiva que confina o viver como seres humanos. É esse pensamento implica, portanto, que tenhamos interesse nos detalhes. (Tradução livre)59
Neste contexto de hipoconsciência, a religião cumpriria o papel de instrumento de não-pensar. Não deve ser vista como alienação, mas como ferramenta que explicita um desejo imediato ao qual escapa os dispositivos de realização. Com a graça de Deus, vou conseguir colocar piso no banheiro. Deus vai me ajudar e minha casa não cairá na próxima chuva. Se Deus quiser vou conseguir os cadernos para os meus filhos. São falas recorrentes nos diálogos. O que me causa estranhamento não é a recorrência a Deus (ou aos santos), mas o objeto dos pedidos, que de tão corriqueiros estariam na competência da legislação humana de direitos universais, e não na transcendência dos atributos religiosos. A recorrência a Deus parece se referir a falta de confiança em si mesmo e nos outros talvez. Invertendo-se a proposição, e talvez esteja aí, na exortação a Deus, uma das poucas maneiras de denunciar suas condições de vida sem se responsabilizar pelo
59
Ce qui nous fascine le plus est précisément la suspension empirique ou quotidienne de la lucidité que peuvent ponctuellement aviver intelligence et conscience. Ne pas vraiment penser, penser mais pas trop, retenir sa pensée, mais sans effort, ne pas vraiment savoir. Léthargie, médiocrité, restriction, dégagement, réserve ou flottement, hypoconscience, hypolucidité. Hypo: non seulement par l’effet de l’automaticité des habitudes, par l’effet de la continuité naturelle mais aussi par l’effet d’une nouvelle compétence cognitive qui aboutit à vivre comme humain. C’est à cette réflexion que nous entraîne donc l’intérêt aux détails. Etre anthropologue à l’état pratique, ethnographiques.org, Numéro 18 - juin 2009 [en ligne]. http://www.ethnographiques.org/../2009/Piette (consulté le 26/06/2009).
que intuitivamente sabem que não está em seu poder de resolver. Eles se preservam assim de desgastes inúteis. Vivem em suspensão dos desejos, individuais e coletivos.
Percebi sim, inquietação, insegurança e mesmo algo de desesperado em mães com filhos que lhe trazem problemas. Da mesma forma que as mães de outros segmentos sociais na preocupação com os filhos quando eles estão em conflito com os padrões de comportamento social e cultural. Existem diferenças quanto a estes padrões, como por exemplo, na compreensão da gravidez na adolescência, dos múltiplos pais das crianças de uma mesma mãe, etc. Não estou romantizando a pobreza, mas tentando compreendê-la como estruturadora da rotina e formadora de valores.
Tal visão renovada da realidade contraditória de cada fração do território deve ser oferecida à reflexão a sociedade em geral, tanto à sociedade organizada nas associações, sindicatos, igrejas, partidos como à sociedade desorganizada, que encontrarão nessa nova interpretação os elementos necessários para a postulação e o exercício de uma outra política, mais condizente com a busca do interesse social. (Santos, 2006, p.158)
Mas essa reflexão não poderia ir por outros caminhos? Como, por exemplo, de apropriação no cotidiano, fora do âmbito estritamente de relações com a dimensão do sagrado, das formas de religiosidades ancestrais “africanas” em algumas das quais qual relação com as entidades sagradas é mediada por ações concretas na vida das comunidades? Podemos imaginar que as religiões africanas no Brasil tenham construído um pragmatismo mais contingente, mais utilitário ainda que em sua origem e que, nelas, a temporalidade circular, situa no mundo terreno, diferentemente da “cidade de Deus”, as ações divinas?
A pobreza dos fiéis nas condições de deslocamento social e cultural poderia ter mantido um estrato de pulsões sedimentado e que, ao longo de uma história velada, mudou, talvez por isso mesmo, estruturas poderosas estáveis, e hoje ainda alimenta práticas religiosas neopentecostais e é um instrumento de recuperação e pacificação dos fiéis de múltiplos pertencimentos religiosos. Algumas situações se alteraram, principalmente perceptíveis ao longo do século XX, mas um dos seus componentes permaneceu (se bem que atualmente menos importante depois que as
religiões africanas passaram a ser lidas como culturais), qual seja a pobreza dos seus membros
Ou será que a religiosidade africana tem pouco a ver com isso e a rotina de sobrevivência frente às hostilidades formou uma comunidade que aprendeu conviver com um mínimo de insumos e tecnologias e que sufoca a insatisfação frente aos desejos insatisfeitos? Será que a religiosidade popular não se construiu assim, dessa mesma maneira em épocas passadas? Não foi sempre assim, sendo que agora percebemos sincronicamente, testemunhamos as mudanças (será possível?) e podemos fazer uma “tradução simultânea”?
Esta última proposição poderia ser complementada com a articulação com uma visão cosmogônica africana na qual a religiosidade contingente atual seria ferramenta de enfrentamento inconsciente das vicissitudes cotidianas. A religiosidade, nesta maneira de pensar seria então, ainda hoje, as marcas de resistência à dominação (não mais somente social e cultural, mas, sobretudo, econômica, como forma de falta de liberdade de organizar a própria vida).
Segundo Amartya Sen (2010),
A despeito de aumentos sem precedentes de opulência global, o mundo atual nega liberdades elementares a um grande número de pessoas – talvez até mesmo à maioria. Às vezes a ausência de liberdades substantivas relaciona-se diretamente com a pobreza econômica, que rouba das pessoas a liberdade de saciar a fome, de obter uma nutrição satisfatória ou remédios para doenças tratáveis, a oportunidade de vestir-se ou morar de modo apropriado, de ter acesso à água tratada ou saneamento básico. Em outros casos, a privação de liberdade vincula-se estreitamente à carência de serviços públicos e assistência social, com, por exemplo, a carência de serviços epidemiológicos, de um programa bem planejado de assistência médica e educação ou de instituições eficazes para a manutenção da paz e da ordem locais. Em outros casos, a violação da liberdade resulta diretamente de uma negação de liberdades políticas e civis por regimes autoritários e de restrições impostas à liberdade de participar da vida social, política e econômica da comunidade. (2010, 17)
Sob o crivo da citação acima, na comunidade de Dom Bosco, percebi as três liberdades substantivas não como ausências, mas como simulacro: existem, mas são frágeis, imperfeitas, inconsistentes. A religiosidade se adéqua a isto, se amolda e se modifica e talvez seja a liberdade entrevista. Uma religiosidade próxima, contingente e, ao mesmo, tempo marca de desesperança? Para Bauman (1997) a
religião marca os limites da potência humana e no caso de potências enfraquecidas a religião parece marcar a impotência.
O Chapadão é um lugar de cruzamentos, de nós em rizomas de conhecimento histórico e antropológico. Tem uma vista privilegiada sobre a cidade de Juiz de Fora ao mesmo tempo em que se esconde e se encolhe para diminuir a chance de ataques externos. É uma vida de vigilância contínua. Preocupam as chuvas que alagam as casas e dificultam a subida nos becos de terra quando não carregam as casas e diminuem o espaço geográfico. É ocupado por uma gente estranha aos olhares estrangeiros uma vez que vivem ou convivem com níveis baixos de higiene, de escolaridade e dos demais dispositivos de imersão nos direitos civis, sociais e políticos.
A parte isso, essa obrigatoriedade de compartilhamento com valores indesejados e até impensados, a etnografia mais ampla deste capítulo desvelou um modo de vida em que o conformismo frente às condições de vida significa mais que simples inércia pessoal. Significa que eles estão sem instrumentos de localização nos caminhos dos direitos e das conquistas científicas e tecnológicas. Assusta encontrar, quase dentro do território da Universidade Federal de Juiz de Fora pessoas analfabetas, doentes, sem meios de comunicação eficientes, sem perspectivas de melhorias. Porque as pessoas moradoras dali não lutam pelos seus direitos? Por que aceitam os estigmas e os preconceitos sem reagir?
Temos muito ainda que estudar essa situação, cuja complexidade extrapola a capacidade de compreensão. Existe algo inapreensível e que arrisco a dizer que se trata de autopreservação, na medida em que cada instituição, cada pesquisa, esta incluída, aumenta a fragilidade dos laços esgarçados pelas práticas de sobrevivência individualizadas e dispersas.
Neste campo fluido, os adolescentes se movem no movimento da corrente e que parece levá-los ao um redemoinho absorvente e com baixo potencial de libertação e de segurança pessoal e coletiva.