2.1 SAINDO DA INVISIBILIDADE
2.1.4 Entre a norma e a efetividade
Com o advento da CF/88, instrumentos internacionais e legislação infraconstitucional
posterior, como o Decreto n.º 6.040/2007, cada vez mais se firmam, pelo menos na legislação
(formalmente), esses grupos sociais com identidades coletivas próprias, chamados povos e
comunidades tradicionais (BURIOL, 2014a).
Mas além do reconhecimento legal (formal), que vem evoluindo, é necessário também
o reconhecimento real (efetivo). E quanto a esse tema pode-se afirmar que o direito dos povos
e comunidades tradicionais passou do invisível real para o visível formal:
[...] o direito não tem respondido de forma satisfatória as demandas oriundas dos diversos grupos sociais, cuja expressão mobilizatória consolida identidades coletivas, pelo fato de pretender adequá-las mecanicamente às suas previsões, as quais se encontram distantes das situações de fato. Em outras palavras, o direito não tem sido suficientemente sensível às transformações que vêm ocorrendo no seio da sociedade, caracterizadas pela emergência de grupos sociais politicamente organizados que expressam demandas específicas e de natureza étnica (SHIRAISHI NETO, 2013, p. 161).
Mais do que o reconhecimento de direitos, é necessário efetivá-los. E no que diz
respeito à forma de efetivação dos direitos reconhecidos aos povos e comunidades
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“Art. 105. Finda a legislatura, arquivar-se-ão todas as proposições que no seu decurso tenham sido submetidas à deliberação da Câmara e ainda se encontrem em tramitação, bem como as que abram crédito suplementar, com pareceres ou sem eles, salvo as: I - com pareceres favoráveis de todas as Comissões; II - já aprovadas em turno único, em primeiro ou segundo turno; III - que tenham tramitado pelo Senado, ou dele originárias; IV - de iniciativa popular; V - de iniciativa de outro Poder ou do Procurador-Geral da República” (BRASIL, 1989).
tradicionais, as ações têm sido viabilizadas mediante articulação com outras políticas
públicas, amparadas em estruturas já existentes (ALMEIDA, 2008). Assim, tenta-se adaptar a
estrutura existente, com seus vícios, para abranger os pleitos dos povos e comunidades
tradicionais. Não há uma formulação de políticas amparadas em estruturas realmente
inovadoras e independentes, sob a perspectiva desses grupos sociais e dos direitos alcançados
por eles na CF/88 e nos demais instrumentos examinados.
Apesar de termos iniciado um reconhecimento formal, demonstrado anteriormente,
ainda é necessário consolidar práticas de reconhecimento e de respeito aos povos e
comunidades tradicionais, relativamente à manutenção de seus peculiares modos de vida, aos
seus territórios, aos seus conhecimentos, à sua cultura. Inclusive, a percepção de que tais
grupos são culturalmente diferenciados, evitando-se o intuito de uniformização, é
fundamental para que não seja violado o princípio da dignidade da pessoa humana.
Cabe ao Direito reconhecer essas aspirações sociais, e mesmo diante de ausência
legislativa, assim como ocorre em outras demandas que desafiam novas soluções diante da
realidade social
18, buscar em princípios explícitos e implícitos da CF/88 (como os da
dignidade da pessoa humana, da liberdade, da autodeterminação, da igualdade,
do pluralismo, da intimidade, da não discriminação e da busca da felicidade) soluções para as
atuais necessidades sociais (BURIOL, 2014a).
Portanto, “o lugar do Direito não é mais a busca de pontos comuns entre os indivíduos,
mas das diferenças que devem ser compartilhadas, implicando reafirmar que a pluralidade
reaparece como valor jurídico a ser protegido” (SHIRAISHI NETO, 2013, p. 131).
Esse processo de reconhecimento e respeito tem sido lento, seja pelas formalidades
inerentes ao processo legislativo, seja pela ausência de instrumentos adequados à tutela dos
seus direitos
19, seja ainda pelas dificuldades impostas a esses grupos sociais em diversas
esferas da sociedade. É que “em razão do nascer e existir para o Direito de Grupos sociais
com identidades coletivas antes invisibilizados surge a tensão entre os sujeitos de Direito e os
‘novos’ sujeitos de Direito diferenciados” (MACIEL, 2011, p. 173).
As noções de reconhecimento e de respeito estão associadas, pois o desrespeito
representa a negação, ou supressão, do reconhecimento (HONNETH, 2011, p. 180). Portanto,
18 Decisão proferida pelo STF no Recurso Extraordinário n.º 477.554 AgR, na qual reconheceu e qualificou a união estável homoafetiva como entidade familiar, tendo como um de seus fundamentos o princípio da busca da felicidade, o qual seria extraído de forma implícita do princípio da dignidade da pessoa humana (BRASIL, 2011a).
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Apesar da evolução da legislação acerca dos povos e comunidades locais, apenas recentemente sobreveio a Lei Federal n.º 12.966, de 24 de abril de 2014, que alterou a Lei Federal n.º 7.347, de 24 de julho de 1985 (Lei da Ação Civil Pública), para incluir a proteção à honra e à dignidade de grupos raciais, étnicos ou religiosos.