2.2 CONCEITO DE POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS
2.2.1 Grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais
O reconhecimento legal da existência de “grupos culturalmente diferenciados”
demonstra que um dos fundamentos do Decreto n.º 6.040/2007 é o respeito à diversidade de
culturas existentes no Brasil. Os direitos culturais devem ser entendidos como direitos
humanos, derivando “do reconhecimento da dignidade da pessoa humana, em seu contexto
individual e social”, sendo que “o exercício desses direitos pressupõe o respeito, o
reconhecimento e a valorização da diversidade cultural” (DOURADO, 2013, p. 35).
Considerando o disposto no referido Decreto, na Convenção 169 da OIT e na
Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, pode-se afirmar que a nossa nação é
20 “Muitos são os termos que correspondem à concepção de povos e comunidades tradicionais nas normas nacionais e internacionais. Assim, temos as expressões: ‘povos indígenas e tribais’ da Convenção n. 169 da OIT (1989); ‘comunidades locais e populações indígenas com estilo de vida tradicionais’, no art. 8j da CDB (1992); ‘minorias’ e ‘populações autóctones’ na Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural (2001); ‘comunidades indígenas’ na Convenção sobre a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (2003); ‘minorias e povos indígenas’ na Convenção para a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais (2005). Somam-se ainda as expressões utilizadas na legislação brasileira: ‘índios’ na Constituição Federal de 1988, ‘comunidades indígenas’ e ‘comunidades locais’ na Medida Provisória n. 2.186-16/2001, ‘povos e comunidades tradicionais’ no Decreto n. 6.040 de 2007” (DOURADO, 2013, p. 34).
composta por “grupos portadores de identidades específicas” (DUPRAT, 2013, p. 11). Além
do reconhecimento dessas identidades, nos termos da Convenção 169 da OIT, é necessário
reconhecer “as aspirações desses povos a assumir o controle de suas próprias instituições e
formas de vida e seu desenvolvimento econômico, e manter e fortalecer suas identidades,
línguas e religiões, dentro do âmbito dos Estados onde moram” (BRASIL, 2004b).
Nesse contexto, a defesa da diversidade cultural é um imperativo ético, inseparável do
respeito à dignidade da pessoa humana, nos termos do art. 4º da Declaração Universal Sobre a
Diversidade Cultural (UNESCO, 2001). Assim, aos tratados internacionais versando sobre
direitos culturais, ainda que não internalizados segundo a sistemática do § 3º do art. 5º da
CF/88, por versarem sobre direitos humanos adquirem no Brasil status supra legal, conforme
entendimento do Supremo Tribunal Federal, antes analisado.
É fundamental, portanto, o reconhecimento do valor cultural inerente aos povos e
comunidades tradicionais. Há reconhecimento e respeito quando a pessoa ou o grupo social é
compreendido e valorizado considerando a sua cultura, os seus aspectos peculiares, e não
como alguém sem identidade. Assim, “o respeito a esses grupos culturalmente diferenciados
coloca em evidência a importância dos costumes, dos seus modos peculiares de vida”
(BURIOL, 2014a, p. 91).
Deve ser evitado o intuito de massificação, de uniformização cultural, assim como o
objetivo de “integração à comunhão nacional”. A cultura vista sob o aspecto nacionalista é
restritiva, porque uma nação não possui uma cultura uniforme. Reduzir o aspecto cultural à
dimensão nacionalista representaria uma uniformização das diferentes culturas existentes
dentro da nação; algo inconcebível no Brasil, um País tão diverso, formado por povos que
sempre estiveram aqui presentes, e por povos oriundos de diversos continentes (africanos,
europeus, asiáticos, americanos) (BURIOL, 2014a).
Todos esses grupos sociais possuem rituais, formas de alimentação, de diversão, de
comportamento, religiões diversas, e que se sentem incluídos em determinados grupos
justamente em razão dessas características comuns ao grupo.
O Brasil não tem uma cultura, mas diversas. Se fosse necessário dar uma qualidade geral à “cultura brasileira”, essa qualidade seria a de ser impossível taxá-la, defini-la, uniformizá-la, pois a nossa identidade é o plurisculturalismo (BURIOL, 2014a, p. 92).
As políticas públicas devem levar em conta a cultura da pessoa ou grupo social a que
se destinam. Assim começa o reconhecimento efetivo, a visibilidade real. E esses aspectos
culturais inerentes aos povos e comunidades tradicionais constituem elemento
especificamente protegido pelo sistema jurídico. Nesse sentido o já referido art. 216 da CF/88,
que reconhece como “patrimônio cultural” os bens portadores de referência aos diferentes
grupos formadores da sociedade brasileira, incluindo suas formas de expressão, seus modos
de criar, de fazer e de viver, e os elementos destinados às manifestações artístico-culturais.
Por sua vez, o art. 215 da CF/88 determina que o Estado garanta a todos o pleno
exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, devendo apoiar e
incentivar a valorização e a difusão das “manifestações culturais”, bem como proteger “as
manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e as de outros grupos
participantes do processo civilizatório nacional” (BRASIL, 1988a).
Neste ponto deve ser destacada a inclusão dos bens culturais “imateriais” na lista do
conjunto do patrimônio cultural pela UNESCO:
Essa inclusão corresponde, principalmente, a uma concepção de cultura adotada oficialmente a partir dos anos 2000, que privilegia as expressões da diversidade cultural em lugar das expressões nacionalistas. Se até a década de 1990 o patrimônio cultural era composto exclusivamente por bens corpóreos, marcados pela monumentalidade e pela excepcionalidade, selecionados sob critérios elitistas, atualmente o rol de bens culturais sob a proteção do Estado é repleto de expressões intangíveis variadas, de saberes, de celebrações, de tradições orais que são cotidianas, populares e muito diversas. Dentro do que se considera um “conjunto” de “bens imateriais” ou intangíveis, este estudo enfoca os saberes e práticas de povos e comunidades tradicionais, correspondentes às categorias jurídicas “conhecimentos tradicionais” e “expressões culturais tradicionais” e sua importância como elementos de afirmação de identidades culturais (DOURADO, 2013, p. 12).
Os modos de vida são tão relevantes que o pertencimento a tais grupos não decorre
essencialmente do nascimento, mas do autorreconhecimento das pessoas como pertencentes a
tais grupos. Ou seja, a pessoa se identifica com aquele grupo não apenas pelo fato de ser
descendente de algum membro, mas por assimilar seus costumes e crenças, ou seja, por se
identificar com aqueles peculiares modos de vida, com aquela cultura.
O grupo pode aceitar pessoas até então não vinculadas ao mesmo, com origens
diversas. Trata-se da lógica adotada pela Convenção n.º 169 da OIT, sobre povos indígenas e
tribais, no que diz respeito à autodefinição como fundamento na definição dos povos.
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Conforme consta na introdução da referida Convenção 169 da OIT, a autoidentidade indígena ou tribal é uma inovação do instrumento para a definição dos povos sujeitos da Convenção. Nenhum Estado ou grupo social tem o direito de negar a identidade a um povo indígena ou tribal que como tal ele próprio se reconheça. E no item 2 do art. 1º a Convenção estabelece que a consciência de sua identidade indígena ou tribal deverá ser considerada como critério fundamental para determinar os grupos aos que se aplicam as disposições da Convenção (BRASIL, 2004b).
Sem respeito aos valores culturais desses povos estará sendo violada a dignidade da
pessoa humana. E parte importante desse processo de reconhecimento dos povos e
comunidades tradicionais, considerando sua cultura, suas características, refere-se ao
reconhecimento da sua linguagem (BURIOL, 2014a, p. 94).
O reconhecimento dessa diversidade linguística sempre foi menosprezado pelas
políticas educacionais, sendo “inclusive criminalizado pela política de ‘Nacionalização do
Ensino’, iniciada pela ditadura do Estado Novo, entre 1937 e 1945, que reprimiu duramente as
línguas autóctones” (ALMEIDA, 2013b, p. 246).
Sobre a importância da co-oficialização de língua indígena destaca-se que:
As leis municipais reforçam a figura da auto-definição ou a consciência da sua identidade coletiva pelos próprios agentes sociais, reforçando o grau de autonomia frente ao Estado e às demais agências do campo de poder, nos termos da Convenção 169 da OIT.
[...]
A iniciativa de co-oficialização das línguas traz o território indígena para dentro das repartições públicas, dos logradouros públicos, das agências bancárias, das escolas, dos hospitais e dos locais de entretenimento. A identidade coletiva objetivada em movimento social passa a ter no fator linguístico um de seus mais destacados fundamentos sociais e de mobilização. Entretanto, não é a língua em si, senão a sua combinação com a ação organizada de defesa de direitos básicos que evidencia tal transformação. Neste sentido é que se pode falar de uma politização da língua e de uma objetivação das identidades étnicas em movimento social (ALMEIDA, 2013b, p. 247-248).