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6 - Entre a sala de aula e a cozinha

Enquanto a mãe e a irmã labutavam no sítio, a professora dividia-se entre os afazeres da sala de aula e os cuidados, na cozinha, com as panelas no fogão a lenha. Às vezes, quando a lenha era “verde” ou molhada, a fumaça vinha até a sala de aula. Era de pouca monta, mas sentida por todos. Em certas ocasiões, a professora solicitava a uma das alunas mais graúdas que desse uma “olhada” nas panelas. O cheiro da comida ao fogo rescendia pela sala de aula. Brincalhões, os alunos tentavam “farejar” o que a professora e sua família haveria de almoçar. Quando o cheiro não se fazia sentir, na hora do recreio, dizia-se: “Hoje a boia tá fraca”. E todos caíam na mais estrepitosa gargalhada.

Como já se pôde perceber, era comum que as escolas da rede municipal funcionassem nas próprias casas das professoras. A Prefeitura pagava um aluguel. Igualmente comum, era que as professoras dividissem as tarefas do magistério com os afazeres domésticos, sobretudo, no que tangia às tarefas de cozinhar. Ainda mais penosa era a vida da professora quando ela tinha filhos. Não era o caso, contudo, daquela professora.

7 - A alfabetização

Num pedaço de cartolina que a professora apresentava, estava cada uma das letras do alfabeto. Ela as apresentava na sequência. E na linguagem interiorana. Não se dizia “jota”, por exemplo. Dizia-se “ji”. E assim por diante. Era uma profusão de “ê”, na pronúncia das letras consoantes.

Primeiro, dava-se a conhecer as letras maiúsculas. Depois, as letras minúsculas. O li-vreto ABC era de capa verde, embora não se recorde o nome do autor. Além das letras enfilei-radas, maiúsculas e minúsculas, continha sílabas em série com cada uma das letras consoantes, seguidas pelas letras vogais. Exemplo: ba, be, bi, bo, bu, e assim por diante. No fim do livreto, formavam-se palavras dissílabas: ba-la, be-la, bi-co, bo-la, bu-le. As sílabas prosseguiam com as demais letras consoantes, justapostas às vogais. Esse aprendizado, porém, viria com o tem-po. Aprender as sílabas significava a passagem para a cartilha.

As lições eram tomadas todos os dias. A professora apontava no ABC de cada aluno, a letra que ela escolhia, colocando-a entre os dois polegares. E perguntava: “Que letra é esta?”. Às respostas certas, ela exaltava o aluno: “Muito bem!”. A cada resposta errada, um cascudo no meio da cabeça. A mão dela era ossuda. Doía muito. Alguns alunos deixavam “voar” lágrimas dos olhos muitas vezes remelentos. Além dos cascudos, ela gostava de dar beliscões. Era o

que se fazia à época. Muitos pais davam guarida àquele tipo de conduta. Diziam: “Na escola, a mãe é a professora”. Embora a disciplina fosse rígida, alguns alunos não se endireitavam. Eram, por assim dizer, cascas grossas. Ou, no jargão corrente entre as professoras, eram “espíritos de porco”. Não raro, eram expulsos da escola. E os pais diziam: “O cavalo que não dá para a sela, dá para a cangalha”. Metiam os meninos no trabalho duro, na roça ou naquilo que eles tinham como profissão ou meio de vida. As meninas seguravam-se mais na escola. Uma ou outra saía para cuidar da casa e dos irmãos menores do que elas. Eram, às vezes, uns “ticos” de gente, que, desde cedo, se tornavam “donas de casa”. Daí, talvez, o fato de se casarem cedo. Faziam-se mulheres antes do tempo.

Uma das meninas, cujo nome não ocorre mais a este articulista, pois as lembranças, por vezes, vão se enevoando, as memórias vão como que se diluindo nos desvãos do tempo, tinha um ABC diferente dos demais. O dela tinha seis letras vogais: a, e, i, o, u, y. O autor ficava curioso porque somente o dela tinha aquela letra diferente e esquisita. Quando ela dava a lição, dizia sempre “pissilone”. A professora reagia, dizendo: “ípissilon”. Mas, a aluna repetia sempre: “pissilone”. Recebia uns “agrados”, na forma de beliscões ou cascudos. Ela chorava. O autor tinha muita pena dela. Ficava agoniado com o seu choro incontido. Às vezes, ele queria chorar também. Solidariedade. Ela era gordinha, negra como o autor. Filha, aí, sim, lembra muito bem o subscritor, de Dona Maria Gorda, louvada engomadeira que morava no Beco do Canto Escuro, quase na confluência com a Rua do Ouro. Dizia-se que ela era “capa de sela”, isto é, concubina de um marchante vizinho dos pais do autor, e que as duas filhas da engo-madeira eram filhas dele. Ainda hoje, quando este subscritor ouve a música “ABC do Sertão”, do genial Luiz Gonzaga, lágrimas lhe vêm aos olhos. De certo, um trauma, que nunca foi vencido. Diz a letra da música: “Até o ípissilon lá é pissilone”. O autor lembra-se da colega, que nunca acertava dizer o nome daquela letra diferente e esquisita.

Luiz Gonzaga retratou muito bem o nosso ABC nordestino. As letras tinham outros sons. Disse o Rei do Baião: “Lá no meu sertão pros caboclo lê / Têm que aprender um outro ABC / O jota é ji, o éle é lê / O ésse é si, mas o érre / Tem nome de rê”. Era assim mesmo. Que retrato fiel do nosso aprendizado matuto!

Vencida a fase do ABC, para os que “desasnavam” imediatamente, no segundo semes-tre passavam para a cartilha. Era a “Cartilha da Lili”. Na capa, uma menina loira, sorridente. Um estereótipo. Os meninos não se sentiam incomodados por terem na capa da cartilha uma menina. Pelo contrário, todos se deslumbravam com o belo sorriso da menina loira, que irradiava felicidade. Era a namorada pretendida na inocência de muitos meninos, que, via de regras, nem despertavam ainda para o sexo oposto.

Os que não conseguiam “desasnar” de imediato, somente passavam para a cartilha no ano seguinte. Não eram poucos.

Na fase da cartilha, já se dava a tabuada. As operações de somar e de diminuir. As demais operações ficavam para o 1º ano. Juntava-se uma récua de meninos e meninas ao redor da professora para dar a tabuada. As perguntas eram feitas a partir do aluno postado à direita da professora: “Dois mais dois?”. Se o aluno errasse, ela perguntava ao seguinte e assim por diante. Se dois ou três ou quase todos errassem, quem acertasse tinha o direito de dar um

bolo de palmatória na mão de cada um. Era uma festa, para quem batia. Às vezes, o aluno que acertava e batia os demais, apanhava na volta para casa de um dos outros alunos que tinham errado a resposta. De volta à escola no dia seguinte, o aluno delatava o agressor, que era punido pela professora.

8 - O recreio

Momento sempre esperado. Algazarra geral. No período do recreio, que se dizia “hora da merenda”, os alunos eram instados a deixar a sala de aula. Danavam-se, então, na rua. Brincavam de bola de gude, pião, cabra-cega, amarelinho, corrida etc. As meninas eram mais reservadas. Apenas algumas brincavam na calçada da escola com bonecas de pano ou de plás-tico, algumas destas sem pernas ou braços.

Nem todos tinham o que degustar. Não raro, uma fruta, na estação própria, como uma manga, uma banana etc. Quem trazia de casa algumas moedas, comprava um bolachão ou alguns bombons na bodega de “seu” Vangelo (Evangelino Soares Santana). E quem morava por perto, ia até em casa. Longe estava o tempo da merenda escolar distribuída na escola.

Vez em quando, os alunos se assanhavam e corriam de volta para a sala de aula. Era quando algum boi brabo estava à solta, ou quando uma pequena boiada era tocada a caminho de algum matadouro. A cerca de meio quilômetro da escola, mais ou menos, e um após o ou-tro, situavam-se três currais de abater gado bovino: o do pai deste subscritor e os de seus dois tios. Um boi brabo correndo nas ruas era algo perigoso, porém, divertido. Uma ligeira festa, como se poderia dizer.

A rua era, então, uma espécie de complemento da escola, no horário do recreio. Pe-dagogicamente, aquilo não era bom, porém, era o que se tinha. Para Faria Filho, era preciso separar a escola da rua:

A busca em separar a escola da rua implicou também, e fundamental-mente, a criação do pátio escolar, um espaço de transição, inexistente nas escolas isoladas, que permitia fazer com que os alunos saíssem da rua, dando-lhes maior segurança e afastando-os de sua influência maléfica, mas também permitia evitar que eles adentrassem à sala de aula no mes-mo ritmes-mo que vinham da rua (FARIA FILHO, 2000, p. 63).

A rua tinha sempre os seus perigos. E os alunos dela voltavam em ritmo acelerado, ain-da com energia em ebulição. Voltavam suados. Sujos. Até se reacomoain-darem-se, levava tempo.

No horário do recreio, a professora ouvia as novelas, no rádio a pilhas. Ainda consiga o autor lembrar os títulos de duas delas: “O Egípcio” e “O Direito de Nascer”. Esta, quase todos os dias, arrancava lágrimas da professora. Aliás, o amor de Alberto Limonta e Isabel Cristina arrebatava o público ouvinte. Mais tarde, na televisão, deu-se a mesma coisa. Aliás, o tema do dramalhão mexicano viraria uma afamada marchinha de carnaval, em 1966, composição

de Brasinha e Blecaute.

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