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Guarda documental: Preservação de uma memória

Os documentos produzidos pelas instituições ou recebidos apresentam uma ampla re-presentatividade histórica, haja vista, que podemos encontrar nesses arquivos, fonte iconográ-fica, ou seja, fotos que marcaram a história da instituição, documentação de sua fundação, do-cumentos dos funcionários e alunos. Essa documentação traz um vasto saber histórico, nesse tocante a criação e implementação dos arquivos em instituição de ensino superior, emerge como importante local de guarda e preservação documental dos documentos existentes.

Partindo das premissas já postas, o autor Murguia (2010, p.8) enuncia que “toda me-mória, oficial ou não, precisa de um enquadramento, de uma organização para que possa vir a ser um elemento importante na formação das identidades”. Deste modo, buscando com-preender a produção documental e estabelecer uma organização que contemple os princípios básicos da Arquivologia, uma série de atividades para preservação da memória institucional vem sendo realizada neste local.

A autora Ferreira (2002), nos traz um outro conceito de memória, que faz-se neces-sário para melhor compreensão desse conceito, ou seja, para ela a “memória é também uma construção do passado, mas pautada em emoções e vivências; ela é flexível, e os ventos são lembrados à luz da experiência subsequente e das necessidades do presente”.

Le Goff retoma em seus escritos os debates acerca da importância do documento, pois o mesmo serve como um testemunho para os historiadores que mergulham no mar da pesquisa para obter respostas acerca dos acontecimentos de uma determinada época, mas ten-do ciência ten-do lugar de fala ten-do ten-documento, ou seja, ele é importante para a escrita da história, porém necessita uma análise aprofundada do mesmo. Nesse sentindo o autor discorre que:

No entanto, a dificuldade começa aqui. Se o documento é mais fácil de definir e referenciar que o fato, histórico que nunca é dado tal e qual, mas construído, não são menores os problemas que se põem ao historiador. Em primeiro lugar, só passa a ser documento na seqüência de uma investigação e de uma escolha – em geral, a investigação não é um assunto do próprio historiador, mas de auxiliares que constituem reservas de documentos onde o historiador escolherá a sua documentação: arquivos, investigações arqueológicas, museus, bibliotecas, etc. As perdas, a escolha dos compiladores de documentos, a qualidade da documentação são condições objetivas, mas limitativas do ofício de historiador. Mais delicados são os problemas que se põem ao próprio historiador a partir desta documentação (LE GOFF,1990, p. 87-88).

Partindo do pensamento de Langlois e Seignobos, que sem documento não existe história, o arquivo ganha papel fundamental de guarda, sendo esse um espaço que difusão do conhecimento. Portanto, cabe considerar que acerca da valia dos documentos produzidos pela instituição, Bellotto, nos apresenta a seguinte explanação.

A ignorância dos administradores sobre o fato de que os documentos administrativos contêm, como informação histórica, uma dimensão muito mais ampla do que a que envolve a sua criação tem causado gra-ve danos à historiografia. Documentos são diariamente destruídos, nas diferentes instâncias governamentais, por desconhecimento de sua im-portância para posterior estudo crítico da sociedade que o produziu. Tal desconhecimento acarreta o desleixo e a não-priorização no que tange aos serviços de arquivo e à preservação de documentos. É preciso que os responsáveis pelas políticas de informação documental dos diferentes órgãos governamentais estejam cientes de que, uma vez cumprida a ra-zão administrativa pela qual um documento foi criado, este não se torna automaticamente descartável. Sua utilização jurídica pela própria admi-nistração e/ou pela pesquisa histórica poderá ocorrer sempre. Assim a entidade não deve e não pode ditar sua destruição sem antes consultar as autoridades arquivísticas do nível administrativo a que pertença o órgão governamental (BELLOTTO, 2006, p. 26-27).

A respeito da preservação documental e rigor por parte da administração no descarte de documentos, fez-se necessário uma gestão instruída e que compreenda o processo de ma-nutenção e descarte documental, sem essa instrução, muitos documentos poderiam ter sido perdidos por achar que poderia descartar. Bellotto chama atenção sobre a ignorância por parte da gestão documental, sem um preparo e uma tabela de temporalidade muitos documentos deixaram de existir, simplesmente por falta de conhecimento da relevância do mesmo para a escrita da história.

Necessitamos nesse estudo recorrer ao conceito de documento para melhor compre-ensão. Assim, utilizamos o Le Goff para referenciar este conceito. Conforme o historiador francês:

O termo latino documentum, derivado de docere “ensinar”, evoluiu para o significado de ‘prova’ e é amplamente usado no vocabulário legislativo. É no século XVII que se difunde, na linguagem jurídica francesa, a expres-são titres et documents e o sentido moderno de testemunho histórico data apenas do início do século XIX. O significado de “papel

justifica-do”, especialmente no domínio policial, na língua italiana, por exemplo, demonstra a origem e a evolução do termo. O documento que para a escola histórica positivista do fim do século XIX e do início do século XX, será o fundamento do fato histórico, ainda que resulte da escolha, de uma decisão do historiador, parece apresentar-se por si mesmo como prova histórica. A sua objetividade parece opor-se à intencionalidade do monumento, além do mais, afirma-se essencialmente como testemunho escrito (LE GOFF, 2003, p. 536).

À luz desse conceito, o documento resulta de uma produção/montagem, consciente ou inconsciente da história de uma determinada época, nesse sentido fica evidenciado que o documento é um testemunho escrito, carregado de significados, cabe o historiador questionar o documento. Temos que problematizar o documento a partir de uma visão crítica e não co-meter anacronismo com os mesmos, uma vez que foram produzidos em outras épocas, com um modelo de sociedade diferente da vigente. Nesse cenário de ascensão de documentos se fez necessário à criação de locais apropriados para a manutenção desses escritos, nessa pers-pectiva surge a era dos arquivos, pois a procura por documentos por parte dos historiadores teve um crescente aumento, cabendo esses locais de guarda receber estes documentos para ser utilizados pelos pesquisadores.

Bellotto discorre sobre a importância da guarda documental para futuras pesquisas e, nesse sentido disserta que:

[...] os arquivos administrativos correntes, que permitem que a admi-nistração siga em frente; de outro, os arquivos permanentes, que são a matéria-prima da história. Ali estão documentos direitos e deveres do Estado para com o cidadão e do cidadão para com o Estado: provas e testemunhos que ficarão armazenados. Serão “dados” até que a pesquisa ou resgaste, transformando-os em “informações”, que poderão demons-trar, afinal, como se efetuaram as relações Estado-sociedade, e deles faça sua análise, síntese, crítica e “explicação” (BELLOTTO, 2006, p. 29).

Assim como Le Goff, Bellotto chama atenção para a relevância do documento, uma vez que o mesmo é considerado um testemunho e que servirá de prova para comprovar um fato. Assim como Le Goff (2003) e Bellotto (2006), Bacellar (2011) versa em seus escritos a importância do documento e como é preciso aprimorar o conhecimento sobre o tema.

Ao iniciar a pesquisa documental, já dissemos que é preciso conhecer a fundo, ou pelo menos da melhor possível, a história daquela peça docu-mental que se tem em mãos. Sob quais condições aquele documento foi redigido? Com que propósito? Por quem? Essas perguntas são básicas

e primárias na pesquisa documental, mas surpreende que muitos ain-da deixem de lado tais preocupações. Contextualizar o documento que é coletado é fundamental para o ofício do Historiador (BACELLAR, 2011, p. 63).

Precisamos entender o processo de análise dos documentos como uma uma fonte que transmite uma memória dos fatos ocorridos no passado. Enquanto pesquisador, temos que ter a clareza que nenhum documento é neutro, todos têm sua especificidade, mais uma vez elucidamos a importância de se compreender o documento no contexto da época escrita.

Pesquisar em arquivo necessita de um olhar cuidadoso sobre os documentos. Oautor Bacellar reforça em seus escritos a importância do documento e como é preciso aprimorar o conhecimento acerca dele.

Pierre Nora evidencia que os lugares são essenciais para a preservação da memória e só existem porque não há outros meios: “se ainda habitássemos nossa memória, não precisaría-mos consagrar-lhe lugares”. Nesse sentido, Nora (1991) afirma que:

Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há me-mória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, nota-riar atas, porque essas operações não são naturais [...] mas se o que eles defendem não estivesse ameaçado, não se teria, tampouco a necessidade de construí-los. Se tivéssemos verdadeiramente as lembranças que eles envolvem eles seriam inúteis. E, se, em compensação, a história não se apoderasse deles para deformá-los, sová-los e petrificá-los eles não se tornariam lugares de memória. É este vai – e- vem que os constitui: mo-mentos de história arrancados do movimento da história, mas que lhes são devolvidos. Não mais inteiramente a vida, nem mais inteiramente a morte, como as conchas na praia quando o mar se retira da memória viva (NORA, 1991, p. 13).

Ainda, no que diz respeito à concepção de arquivo como guarda de memória, a autora Santana (2014), afirma que:

[...] há uma concepção mais ampla sobre arquivos, que não se reduz à documentação, mas a um espaço físico especificamente criado para abrigar um conjunto documental e que tem por finalidade principal a pesquisa e a reconstituição do passado, imbuído de um valor não so-mente material, mas simbólico, ou seja, um lugar guardião de memória (SANTANA, 2014, p. 174).

Fica evidenciando, que ambos norteiam suas discussões de como o arquivo serve de guarda de memórias, cabendo ao pesquisador resgatar estas memórias do passado para o presente.

Jean Jacque Le Goff ressalta que o documento ao longo de sua trajetória, sofrem alterações, interrupções, acréscimos e decréscimos, que propiciam uma possível alteração de seu discurso original. Acerca disso ele afirma que:

O documento não é inócuo. É antes de mais nada, o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, dá época, das so-ciedades que produzem, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma coisa que fica, que dura, é o testemunho, o ensinamento (para evocar a etimologia) que ele traz deve ser em primeiro lugar analisado desmitificando-lhe o seu significado aparente. O documento é um monumento. Resultado do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro-voluntária ou involuntariamente determinada imagem de si próprio (LE GOFF, 2003, p.548).

O autor ressalta acima a importância do documento, enquanto monumento, e dentro do arquivo encontramos esses documentos que guardam a memória em seus escritos.

Barros nos apresenta o pensamento de Ranke em relação à crítica documental, ou seja, ele disserta a relevância da criticidade por parte do historiador sobre o documento investiga-do. Nesse cerne, ele discorre que:

[...] começamos por ressaltar que o traço mais essencial, o primeiro, que é habitualmente lembrado quando pensamos neste célebre historiador, vem da metodologia que ele e os pioneiros do historicismo alemão her-dam dos grandes dos grandes teólogos e filólogos que desde há muito vinham desenvolvendo técnicas que preparam, em parte, a instalação da Crítica Documental. Os historicistas, no entanto, levam a crítica docu-mental muito além, porque ao lado de se assenhorearem de técnicas para a crítica externa, passam a atribuir à documentação um lugar essencial para a análise histórica. A atenção central à ‘fonte de época’, e a uma metodologia que a permitisse abordar com maior precisão, constituiu o vértice de partida do ideário historicista, cumprindo notar que os histo-ricistas sempre insistiram acertadamente em fazer notar que esta aten-ção às fontes deve ser acompanhada pela consciência de que qualquer documento ou texto foi um dia produzido por seres humanos sujeitos a contextos históricos e interesses específicos (BARROS, 2013, p. 978).

A construção de Arquivo foi um marco na história da civilização, pois nele os historia-dores tiveram livre acesso aos documentos, mas de acordo com a crítica documental de Ranke, enquanto historiadores precisamos problematizar o documento, ou seja, necessitamos ter um olhar criterioso para o que eles nos apresentam, precisamos ter clareza que o documento foi feito por homens, esses com intenções. No entanto, no que diz respeito àguarda documental, o arquivo tem cumprido esse papel, de ser uma ponte entre os pesquisadores e as fontes.

Portanto, a guarda documental é importante para disseminar a memória coletiva, uma vez que nos arquivos institucionais nos deparamos com uma gama de documentos de di-ferentes décadas e com didi-ferentes informações, cabendo ao pesquisador trazer à torna as memórias escondidas nesses documentos . Neste sentindo faz-se necessário se apropriar dos ensinamentos do autor Bacellar, onde o mesmo afirma que devemos ter um olhar cuidadoso sobre o documento, precisamos ficar atento para ter uma melhor compreensão do mesmo.

Considerações finais

Consideramos que a contribuição dos arquivos para as pesquisas históricas, enfatizan-do que estes locais de pesquisas veem galganenfatizan-do destaque na sociedade moderna. Por isso nos utilizamos das fontes coletadas nos arquivos para auxiliar nos esclarecimentos de questões acerca do passado. À luz da relevância desses espaços, cabe pontuar que as instituições de ensino superior precisam cada vez mais investir na gestão documental, pois esses documentos servirão de fontes para os pesquisadores do presente e do futuro.

Nos arquivos encontramos inúmeras fontes, ou seja, podemos encontrar: fotografias, atas, portarias, inventários e cartas, entre outras fontes. São através dessas fontes que os pes-quisadores conseguem fazer um trabalho empírico para disseminar o conhecimento para a sociedade.

Necessitamos cada vez mais desbravar as fontes guardadas nesses espaços, pois elas retratam a memória de uma sociedade, de um povo, de um indivíduo ou de uma instituição. Porém cabe aos pesquisadores, um olhar atento para essas fontes, como já discorremos acima em algumas passagens, enquanto pesquisador precisamos problematizar e questionar a fonte documental, pois ela foi construída por homens, esses carregados de intencionalidades. Para compreender estas fontes, precisamos lançar mãos de leituras que darão arcabouços para com-preender a análise desse documento. Pois isso que se faz necessário a leitura e apropriação de estudiosos sobre a questão em foco.

As instituições necessitam de uma política efetiva de gestão documental, porque um dos grandes problemas enfrentados por essas instituições é falta de espaço para guardar toda a documentação produzida por ela, isso acaba acarretando outro problema maior, que é o descarte dessa documental, ou seja, muitos documentos se perdem por falta de espaço para armazenar. Ainda sobre os problemas, outro ponto crucial para a guarda e preservação desses documentos, diz respeito aos funcionários capacitados para lidar com esses papéis, pois não é qualquer funcionário que deve cuidar e zelar por essa documentação. Este precisa de uma

formação e vivência.

Diante de uma sociedade tecnológica, onde os documentos estão sendo digitalizados e por sua vez os originais estão sendo descartados, merece uma reflexão por parte dos pes-quisadores acerca desse descarte, pois o documento original traz em sua essência toda uma história, mas infelizmente a sociedade atual passa por uma reformulação no pensamento no que diz respeito àguarda de itens “velhos”, ou seja, simplesmente descarte sem mensurar o valor histórico do dito velho, necessitamos pensar na forma de preservar essa história mate-rial. Nessa perspectiva as instituições de ensino superior precisa rever a política de descarte desses documentos ao serem digitalizados, precisamos pensar nesses documentos como uma “fonte”, ou seja, um local que bebemos das memórias individuais e coletivas e que precisamos preservar e não destruí-la.

Os arquivos são fontes de águas cristalinas para os historiadores que necessitam de água para regar sua pesquisa, essa água dará subsídio para que essa pesquisa dê frutos, ou seja, estes locais darão respostas às perguntas realizadas pelos pesquisadores mediante a análise do documento encontrado nos arquivos institucionais.

Portanto, os arquivos tiveram e tem um papel importante no ofício do historiador, pois os mesmos dão subsídios para que os pesquisadores possam se utilizar da fonte documental para responder indagações dos estudos e somente encontrará essas respostas mediante ao trato das fontes. O Arquivo de Instituição de Ensino Superior cumpre seu papel, ou seja, recebendo, conservando e divulgando para a comunidade os documentos que se encontram em sua guarda.

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