No relatório de análise das atividades dos três primeiros anos do Centro de Criati-vidade, a diretora Aglaé Fontes revela que nem tudo inicialmente saiu como planejado. Os laços com a comunidade, estabelecidos oficialmente na inauguração do Centro, volta e meia desandavam. As brigas nas quadras eram constantes, e havia ameaças de retorno dos antigos “ocupantes” do local. Tudo era motivo de descontentamento para alguns. O gradil colocado para proteger a área era questionado: “as pessoas teriam que dar a volta no Centro para ir para o outro lado da rua em vez de passar por dentro do local como fizeram por anos? E por que não se poderia estender roupa no gradil?” (RELATÓRIO DO CENTRO DE CRIATIVI-DADE, 1987, p.7).
Talvez tivéssemos cometido um erro ao anunciar aos adolescentes e crianças: este espaço é de vocês... a casa é sua. [...] Ou então, um dado que víamos como muito forte: nós invadimos seu espaço. A construção
limitou a área que era usada antes para brincar de pegar, pra subir nas árvores, para empinar arraia, pra correr, pra não fazer nada, pra fazer tudo. Enfim, ao construir no seu espaço, ferimos também seu conceito de liberdade. O fato é que, no primeiro ano, se contrapunham cenas contraditórias: a) Algumas semanas, total tranquilidade, b) Outras se-manas, desiquilíbrio total [...] vidros, globos, lâmpadas quebradas [...] (RELATÓRIO DO CENTRO DE CRIATIVIDADE, 1987. p.6.7).
Foi preciso recuar, ouvir mais, pensar novas estratégias e incorporar sugestões rece-bidas. Enfim, estabelecer regras, mas estabelecer também uma maior parceria com a comu-nidade. Assim, o uso da quadra ganhou horários mais flexíveis, um instrutor de capoeira da comunidade passou a dar aulas no local e o “Arraiá do Arranca Unha”, comandado pelo “seu” João Soares desde 1950, foi transferido da rua para o Centro de Criatividade. Também foi criado um troféu para premiar as quadrilhas juninas vencedoras do concurso anual (ME-NENDÉZ, 2017).
Os frequentadores do Centro de Criatividade ganharam um jornal no ano seguinte a sua inauguração. Em novembro de 1986, o número 1 do Jornal Expressão (com tiragem não informada) circulou no bairro e entorno. Impresso simples, tamanho folha A4, preto e branco, em três colunas, datilografado e com oito páginas. A linguagem era clara e simples.
Figura 4 – Primeiro exemplar do jornal Expressão – Capa e p.4. nov. 1986
No recorte temporal deste artigo, a pesquisa teve acesso a cinco exemplares do Jornal Expressão. Não havia periodicidade definida. Algumas vezes foi produzido e impresso arte-sanalmente no Centro de Criatividade; posteriormente, passou a ser impresso pelo Banco do Estado de Sergipe (Banese). Era uma produção coletiva da equipe do Centro sob a direção de Aglaé Fontes. O jornal nº 1 apresentou o seguinte conteúdo.
Quadro 3 - Resumo do conteúdo do Jornal Expressão- nº1 Ano 01
Aracaju- SE Ano 01-Nov. 1986
Página 1. Capa (com ilustração natalina)
Pagina 2. Editorial ( balanço das atividades do Centro de Criatividade)
Página 3. Imaginação Observação e Criatividade- (texto de Aglaé Fontes com críticas, inclusive às práticas educativas utilizadas por algumas escolas)
Página 4. Notícias culturais ( resumo do que foi apresentado e o calendário das próximas atividades. Registro fotográfico de uma apresentação da oficina de teatro de bonecos ocupa boa parte da página)
Página 5. Uma foto panorâmica do Centro de Criatividade ocupa metade da página; o restante do espaço apresenta uma breve matéria (com foto) do Projeto Memória ( exposições de cunho didático, reunindo várias fases do artista em foco). Até aquele momento tinham participado José Inácio, José Fernandes e Anete Sobral
Página 6. Fala Comunidade. Entrevista com o “seu” João da Cruz, que há 50 anos comandava o “Arraiá do Arranca Unha”. Aos 81 anos, à época, ele continuava no comando do Arraiá
Página 7. “Expediente” (Redação: Maria de Fátima C. da Silva, Aglaé Fontes de Alencar, Rosina Rocha Fonseca; Fotografias: Marcelo Nauer; Desenhos: Marcos Brito e alunos da Oficina Criar/Crescer; Diagramação: Marcos Brito; Edição: GRA; Apoio: Maria das Graças Menendéz, Kim Moura Costa Chagas). Lista com os nomes dos participantes do projeto; e um desenho (com traços infantis) assinado por Márcia
Página 8. Matéria sobre Oficina de Arte; 8 depoimentos de crianças sobre a comunidade e 2 desenhos (com traços infantis)
O “Jornal Expressão” é fonte relevante desta pesquisa. Conteúdo, ilustração, linha edi-torial, tipologia das fontes, diagramação, entre outros pontos, contribuem para a compreensão de como aquele aparelho cultural funcionou e foi recepcionado pela comunidade no período pesquisado.
Numa primeira análise de uma única edição, já é possível compreender e/ou com-plementar diversas informações e situações como: a recepção e anseios da comunidade em relação às atividades do Centro, a participação de artistas nos projetos e oficinas, o perfil do público frequentador da casa, entre outras revelações. Também foi possível identificar críticas, inclusive à educação, ou arte-educação, desenvolvidas em algumas escolas da capital.
As fontes são sempre reveladoras. Falando ou silenciando, estão possibilitando a escri-ta de uma história que, segundo Ferreira (2002), “busca produzir um conhecimento racional, uma análise crítica através de uma exposição lógica dos acontecimentos e vidas do passado” (FERREIRA, 2002, p.321). Na produção desse conhecimento, as memórias assumem papel fundamental.
Considerações finais
Ainda é cedo para se chegar a conclusões, preferimos tecer considerações, pois esta pesquisa está apenas começando. Buscou-se neste artigo, a partir de fontes diversas, e privile-giando a metodologia da História Oral, conhecer como se deu a implantação e funcionamen-to do Centro de Criatividade, espaço que marcou a vida cultural sergipana na década de 1980. Através das memórias individuais e coletivas dos sujeitos que participaram daquele momento e das atividades desenvolvidas no Centro, foi possível compreender para além das informações oferecidos pelos documentos oficiais. Aliadas as revelações desses documentos estão diversos tipos de fontes bem recepcionadas pela História Cultural, abordagem escolhida para esta pesquisa. As propostas pedagógicas pretendidas, os resultados obtidos, as oficinas de artes, exposições, palestras, cinema e outras atividade oferecidas gratuitamente à comunidade do bairro Cirurgia e entorno, confirmam a importância do objeto de estudo e sua contribui-ção para História da Educacontribui-ção no estado de Sergipe.
Indícios foram apontados, memórias convergentes e divergentes foram cotejadas e deu-se início a compreensão e escrita de uma história, que não é linear, não estabelece au-tarquias de fontes. E assim, como lembra Halbwachs (1990), aos poucos vão se esboçando representações da história que se pretende escrever.
Os referenciais teóricos escolhidos para análise das fontes coletadas até o momento e utilizados neste artigo contribuíram sobremaneira para ampliação do entendimento do que revelam as fontes. Ao pesquisador, cabe sempre questionar, saber ouvir, desconfiar. As fontes falam, e as dessa história estão apenas começando a ser ouvidas.
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Documentos
RELATÓRIO DO CENTRO DE CRIATIVIDADE Governador João Alves Filho-Casa de Experimentar e Descobrir.1987. Aracaju-SE.
Entrevistas
ALVES, Rosivaldo. Entrevista concedida à pesquisadora em 21 jun. 2017. Aracaju-SE. FONTES, Aglaé d’Ávila. Entrevista concedida à pesquisadora. 1 e 14 set. 2015. e 4 ago. 2016 Aracaju-SE .
MENANDÉZ, Maria das Graças Costa Souza. Entrevista concedida à pesquisadora. 7 jan. e 12 fev. 2017. Aracaju-SE.
PORTO, Clara Angélica Porto. Entrevista concedida à pesquisadora (online) em 23 jul.2017.
Fotografia
Figura 1- A Bandinha Rítmica da Escolinha de Música de Agláe.195? Sem autoria. Fonte. Acervo de Agláe d’Ávila Fontes.
Figura 4- Primeiro exemplar do Jornal Expressão – Capa e p.4. nov. 1986
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Sites e Vídeos
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AGÊNCIA SERGIPANA DE NOTÍCIAS. Governo de Sergipe entrega a primeira
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TV ATALAIA, BALANÇO GERAL. Arraiá Arranca Unha marca a reinauguração do
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