2.3 MODELOS DE PORTFÓLIO DE COMPRAS
2.3.1 Estado da Arte em Modelos de Portfólio de Compras
A obra seminal de Kraljic (1983) é o modelo de portfólio de compras mais reconhecido na literatura (CANIËLS; GELDERMAN, 2005, 2007; HESPING; SCHIELE, 2015, 2016; MONTGOMERY; OGDEN; BOEHMKE, 2018; PAGELL; WU; WASSERMAN, 2010) e utilizado na prática empresarial por gestores de compras (CANIËLS; GELDERMAN, 2005; GELDERMAN; MAC DONALD, 2008; GELDERMAN; SEMEIJN, 2006)
Alguns pesquisadores, baseados na obra de Kraljic (1983), refinaram os conceitos propostos originalmente, indicando outras possibilidades e pontos de vista de análise. Esses novos apontamentos não negam a importância do modelo seminal. Surgem tanto da necessidade do setor em que a matriz está sendo empregada, quanto das mudanças econômicas ocorridas ao longo do tempo e que impactaram na gestão de compras (PAGELL; WU; WASSERMAN, 2010).
Evidencia-se que, ao longo dos anos, os estudos na área de portfólio de compras vêm ganhando destaque. Da publicação da obra seminal de Kraljic (1983)
até o segundo estudo a ser lançado (OLSEN; ELLRAM, 1997), demorou 14 anos. Porém, foi a partir dos anos 2000, que os estudos, nessa área, começaram a se destacar. Esse crescimento foi impulsionado pela globalização das transações comerciais, pelas coordenações das cadeias de suprimentos e, por consequência, por um novo direcionamento do papel de compras, para compras estratégicas (MONTGOMERY; OGDEN; BOEHMKE, 2018).
Após o lançamento do KPM, até meados de 2008, com exceção de Olsen e Ellran (1997), que, também, propuseram um novo modelo, grande parte dos estudos se concentrou em discutir os conceitos e proposições fundamentais do KPM. Uma outra característica dessa fase foi a predominância de abordagens qualitativas nos estudos. Pode-se denominar essa fase como fase de amadurecimento e fortalecimento da TPC, proposta por Kraljic (1983).
No período seguinte, entre os anos de 2009-2019, outros modelos teóricos de portfólio de compras foram propostos para atender a novas realidades. Esse período, também, é caracterizado pelo crescente número de estudos quantitativos, em sua maioria visando à aplicação do KPM. Pode-se denominar essa fase como fase de consolidação da TPC, e do KPM como modelo mais proeminente. A Figura 5 ilustra o crescimento de estudos nessa área nos últimos anos.
Figura 5 - Publicações Anuais em Journals Acerca de Portfólio de Compras
Analisando os objetivos e metodologias dos estudos publicados ao longo desse período, foi realizada uma classificação identificando cinco clusters: (1) estudos que desenvolveram modelos originais; (2) estudos de discussões teóricas sobre o KPM; (3) testes empíricos de proposições do KPM; (4) aplicações do KPM; (5) aplicação de modelos combinados.
Na sequência, serão discutidos os estudos pertencentes a cada cluster e, no final da seção, os Quadros 5 e 6 apresentam uma síntese dos pontos discutidos.
Cluster I - Desenvolvimento de Modelos Originais
O primeiro cluster é formado por estudos que desenvolveram modelos de portfólio originais, constituindo, no total, 11 modelos. Alguns estudos propuseram, apenas, o modelo teórico conceitual (KRALJIC, 1983; OLSEN; ELLRAM, 1997), outros; além de desenvolver o modelo conceitual, aplicaram o mesmo empiricamente (BILDSTEN, 2014; BOHME et al., 2008; COX, 2015; LAMENZA; FONTAINHA; LEIRAS, 2019; LEE; DRAKE, 2010; LUZZINI et al., 2012; PAGELL; WU; WASSERMAN, 2010; TRAUTMANN; BALS; HARTMANN, 2009; VIIO; GRÖNROOS, 2014) .
Como tratam de modelos específicos, serão apresentados, separadamente, na sequência.
a) Modelo de Olsen e Ellran (1997)
Baseados na obra de Kraljic (1993), Olsen e Ellran (1997) desenvolveram um modelo teórico de portfólio. Os autores, apesar de não aplicarem, empiricamente, o modelo, sugeriram, para obtenção dos pesos das dimensões e critérios, o método de apoio à decisão Analytic Hierarchy Process (AHP). Foi a primeira vez que o método foi indicado para resolução de problemas de portfólio de compras, sendo, posteriormente, utilizado em outros estudos da área (DRAKE; LEE; HUSSAIN, 2013; PARK et al., 2010).
O modelo de Olsen e Ellran (1997) faz uma análise dos itens comprados, considerando a situação ideal da empresa em relação aos produtos comprados (etapa
1). A classificação dos itens, nessa etapa, se dá por meio da análise de duas dimensões: importância estratégica da compra e dificuldade em gerir a situação de compra.
A segunda etapa representa a situação real. É analisado o relacionamento que a empresa tem com os fornecedores dos itens classificados como estratégicos na primeira etapa. Na análise de relacionamento, são consideradas as dimensões de atratividade do fornecedor e intensidade do relacionamento. Com base nesse diagnóstico, o modelo sugere um plano de ação para alcançar a situação ideal (OLSEN; ELLRAM, 1997).
A Figura 6 ilustra as matrizes de classificação dos itens comprados e do relacionamento com fornecedores, proposta no modelo de portfólio de compras de Olsen e Ellran (1997).
Figura 6 - Matriz de Portfólio de Compras de Olsen e Ellran (1997)
b) Modelo de Böhme et. al. (2008)
Em uma análise empírica de poder e dependência entre fornecedores e compradores, discutida nos estudos de Caniëls e Gelderman (2005, 2007), aponta-se o estudo de Böhme et al. (2008). Os autores propuseram um modelo de portfólio para analisar esses constructos em indústrias. O modelo tem como dimensões a dependência do comprador e a dependência do fornecedor. Ele foi testado numa amostra de 141 indústrias, buscando classificar os relacionamentos entre compradores e fornecedores.
c) Modelo de Trautmann, Bals e Hartmann (2009)
Trautmann, Bals e Hartmann (2009) desenvolveram um modelo de carteira de compras globais que oferece uma visão relevante para organizações de compras híbridas, a partir do modelo de portfólio de Kraljic (1983). A base teórica decorre da teoria do processamento da informação, do comportamento de compra organizacional e da economia dos custos de transação.
d) Modelo de Pagell, Wu e Wasserman (2010)
Pagell, Wu e Wasserman (2010) readaptaram a matriz de portfólio para análise de cadeias de suprimentos sustentáveis. Pagell, Wu e Wasserman (2010) definem esse tipo de cadeia, como aquelas em que os relacionamentos são de longo prazo e baseados na medida de desempenho sustentável do triple bottom line, no qual aborda não apenas o lucro, mas também o impacto da cadeia nos sistemas sociais e ambientais. Os autores substituem a categoria de alavancagem do modelo original de Kraljic (1983), propondo, em seu lugar, três novas categorias: commodity estratégica, commodity transitória e commodity real. O modelo proposto foi testado por meio de estudo de caso em 10 indústrias de diferentes setores. A Figura 7 ilustra o modelo de Pagell, Wu e Wasserman (2010).
Figura 7 - Matriz de Portfólio de Compras de Pagell, Wu e Wasserman (2010)
Fonte: Pagell, Wu e Wasserman, 2010
e) Modelo de Lee e Drake (2010)
Lee e Drake (2010) propuseram um modelo de portfólio para gestão de componentes de um produto. Os autores utilizaram as mesmas categorias do modelo de Kraljic (1983), modificando os critérios para uma análise relacionada a custo, qualidade, flexibilidade e velocidade. A etapa de validação do modelo proposto foi realizada na análise de peças de uma indústria de elevadores, utilizando o método multicritério AHP.
f) Modelo de Luzzini et al. (2012)
Luzzini et al. (2012) combinaram a TPC de Kraljic (1983) com a teoria de custos de transação. Como resultado, propuseram um modelo de classificação de itens baseado em critérios advindos das duas teorias. Este foi testado, empiricamente, com análise fatorial confirmatória, tendo, como amostra, compradores de diversas indústrias.
g) Modelo de Bildsten (2014)
Bildsten (2014) propôs um modelo de classificação baseado no relacionamento com fornecedores. Sua matriz é composta pelas dimensões de proximidade do relacionamento (solto/fechado) e duração da relação (curto / longo prazo). O modelo foi testado em um estudo de múltiplos casos, considerando quatro indústrias de construção civil. A Figura 8 ilustra o modelo proposto por Bildsten (2014).
Figura 8 - Matriz de Portfólio de Compras de Bildsten (2014)
h) Modelo de Viio e Grönroos (2014)
Viio e Grönroos (2014) propuseram um modelo baseado em três fatores: adaptação do processo de vendas, orientação das relações e carteira de compras. O desenvolvimento da teoria proposta tinha como objetivo entender como os diferentes modos de adaptação do processo de vendas estão relacionados às categorias de itens e à orientação de relacionamento vendedor-comprador. A análise do modelo foi realizada em uma empresa prestadora de serviço de dados móveis, sendo utilizada a metodologia de estudo de caso. A Figura 9 ilustra o modelo de Viio e Grönroos (2014).
Figura 9 - Matriz de Portfólio de Compras de Viio e Grönroos (2014)
i) Modelo de Cox (2015)
Ao criticar o modelo de Kraljic (1983), Cox (2015) propôs um modelo que tinha como foco mostrar várias análises não feitas pelo primeiro. O modelo foi testado com base em uma comparação dos resultados do modelo de Kraljic (1983) e o sugerido por Cox (2015), usando o método de estudo de caso em uma indústria de petróleo e gás.
Cox (2015) comprovou que critérios mais rigorosos, que apresentem mais especificidade com o contexto, assim como a análise de dependência, alteram a classificação de itens na matriz. Uma contribuição do estudo relaciona-se à dinamicidade da classificação de itens. Com base na utilização de melhores práticas, é possível reduzir a dependência da empresa compradora e, com isso, permitir a modificação do posicionamento de um item para uma categoria menos restritiva (COX, 2015). A Figura 10 ilustra o modelo sugerido por Cox (2015).
Figura 10 – Matriz de Portfólio de Compras de Cox (2015)
j) O Modelo de Lamenza, Fontainha e Leiras (2019)
Lamenza, Fontainha e Leiras (2019) desenvolveram um modelo de portfólio para o contexto de compras em eventos humanitários. O modelo que apresenta as mesmas dimensões do KPM, inova em relação aos critérios utilizados. Os autores utilizaram o método AHP e aplicaram em uma instituição de logística humanitária de São Paulo (CEDEC-SP).
Cluster II - Discussões Teóricas das Proposições do KPM
Um segundo cluster de estudos, em menor número, buscou discutir, teoricamente, as proposições, conceitos e framework propostos no modelo de Kraljic (1983), sem testar, empiricamente, suas análises (DUBOIS; PEDERSEN, 2002; TIEMAN; GHAZALI; CHE GHAZALI, 2013).
Dubois e Pedersen (2002) analisaram as suposições do KPM à luz da abordagem de rede industrial. O foco é a relação comprador-fornecedor e como essa pode interferir na complexidade do fornecimento. À medida que se aumenta a interdependência, se torna mais caro mudar de comprador ou de fornecedor. Nessa situação, deve-se desenvolver a co-criação de valor entre as partes, o que resultará em um melhor relacionamento e desenvolvimento conjunto (DUBOIS; PEDERSEN, 2002)
Em uma proposta de conjugar modelos, Tieman e Ghazali (2013) analisaram as implicações da certificação e requisitos Halal para a função de compras, buscando compreender os desafios e soluções que cercam as práticas de abastecimento das empresas que possuem certificação Halal. O trabalho utiliza o modelo de portfólio de compra Kraljic (1983) e o modelo de processo de compra de Van Weele (2010) como parâmetro para a discussão proposta.
Cluster III - Análise Empírica das Proposições do KPM
O terceiro cluster reúne estudos que testaram, empiricamente, as proposições propostas no modelo de Kraljic (1983) (CANIËLS; GELDERMAN, 2005, 2007; GELDERMAN; SEMEIJN, 2006; GELDERMAN; VAN WEELE, 2002, 2003, 2005; HESPING; SCHIELE, 2016; HOMBURG; KUESTER, 2001; KANG et al., 2018; KNIGHT; TU; PRESTON, 2014).
Em relação aos estudos do terceiro cluster, o autor mais proeminente é Gelderman, estando presente em seis dos nove estudos do grupo. Em parceria com outros autores, ele testou diversas proposições da obra original de Kraljic (1983).
Gelderman e Van Weele (2002) aplicaram o KPM propondo estratégias e alavancas táticas adequadas a cada categoria de itens. Em 2003, os autores analisaram as metodologias utilizadas para classificação dos itens nas categorias do KPM, em empresas que aplicam esse modelo. Além disso, analisaram as estratégias utilizadas por essas empresas para mover os itens para categorias menos críticas (GELDERMAN; VAN WEELE, 2003). Em 2005, avaliaram e confirmaram que a utilização de modelos de portfólio de compras está relacionada à maturidade, ao profissionalismo e à sofisticação em compras (GELDERMAN; VAN WEELE, 2005). Gelderman e Semeijn (2006) analisaram os ganhos obtidos por indústrias que utilizavam o KPM. O estudo de caso foi efetivado em uma indústria têxtil.
Caniëls e Gelderman (2005, 2007) estudaram as relações de poder e dependência entre compradores e fornecedores, analisando as quatro categorias de itens, propostas por Kraljic (1983). Enquanto Kraljic (1983) pressupõe que as relações de poder e dependência, na categoria de itens estratégicos, podem estar equilibradas ou com uma das partes dominando; os estudos empíricos de Caniëls e Gelderman (2005, 2007) apontam que, para essa categoria de itens, mesmo havendo relações de parceria, o poder do fornecedor é predominante. Os autores, também, reforçam a necessidade de analisar o poder e a dependência para todas as demais categorias.
Homburg e Kuester (2001) analisaram o comportamento de compras em relação ao número de fornecedores, baseados nas propostas do KPM. O estudo teve como amostra 165 compradores de diferentes indústrias. Por meio de regressão
múltipla, três hipóteses foram suportadas: quanto mais complexa a situação de compra, maior os custos de transação e um menor número de fornecedores estão envolvidos; produtos de maior impacto financeiro necessitam de um número maior de fornecedores; e produtos, com exigências altas, tendem a ter um número de fornecedores limitados, o que seria o caso dos itens estratégicos e gargalos (HOMBURG; KUESTER, 2001).
Knight, Tu e Preston (2014) avaliaram trinta e três habilidades necessárias aos compradores para negociar em cada categoria de compras. A aplicação foi realizada com 72 compradores de diferentes indústrias, utilizando a análise de cluster tanto para classificação das categorias de compras, quanto para classificar as habilidades necessárias a cada categoria. Foram formados três clusters divididos em compras estratégicas, táticas e de rotina e as habilidades necessárias a cada um.
Hesping e Schiele (2016) utilizaram a técnica de análise fatorial confirmatória para analisar, entre sete alavancas táticas, aquelas que estavam relacionadas as categorias de itens. Foi considerada uma amostra de 107 itens de compras da indústria automobilística. Inicialmente, os itens foram classificados nas categorias propostas por Kraljic (1983) e, posteriormente, avaliadas quanto às táticas utilizadas pelos compradores. O estudo comprovou que uma mesma alavanca é utilizada para diferente categoria de itens, o que também foi defendido por Ateş et al. (2015), Caniëls e Gelderman (2005) e Cox (2015). Uma crítica ao estudo é que a baixa amostragem de itens não-críticos e alavancagem pode influenciar na confiabilidade dos resultados.
Quadro 4 - Alavancas Táticas Aplicadas a Categorias de Itens Alavancas táticas Categorias de Itens Não-crítico n=11 Alavancagem n=8 Gargalo n=55 Estratégico n=33 1.Consolidação de volume * *
2.Limitação prévia de preço * * *
3.Extensão da base de fornecedores * *
4.Otimização do produto * * *
5.Otimização do processo * *
6.Otimização das relações de
fornecimento * * *
7.Otimização por categoria de itens * *
Fonte: Hesping e Schiele, 2016
Kang et al. (2018) analisaram se os estilos de negociação de compradores estão alinhados com o gerenciamento das categorias de itens propostas pelo KPM. Os autores concluíram que compradores mais experientes não se limitam a seguir as sugestões do KPM; buscam seguir combinar estilos e analisar o contexto, para maximizar seus resultados (KANG et al., 2018).
Cluster IV - Aplicações do KPM
O quarto cluster de estudos agrupa aqueles que fizeram aplicações práticas do KPM. Parte dessas aplicações utilizou metodologia qualitativa (GELDERMAN; MAC DONALD, 2008; HEIKKILÄ et al., 2016; JAIPURIA; JENAMANI; RAMKUMAR, 2016). Outros, em maior escala, metodologias quantitativas (ARANTES; FERREIRA; KHARLAMOV, 2014; BIANCHINI et al., 2019; FERREIRA, LUÍS MIGUEL D.F. ARANTES; KHARLAMOV, 2014; LIU; XU, 2008; MEDEIROS; FERREIRA, 2018; MONTGOMERY; OGDEN; BOEHMKE, 2018; PADHI; WAGNER; AGGARWAL, 2012; WAGNER; PADHI; BODE, 2013).
Gelderman e Mac Donald (2008) analisaram se o KPM poderia ser aplicado em ambientes onde a infraestrutura logística fosse pouco desenvolvida. Nesse sentido,
os autores utilizaram um estudo de caso em uma indústria de petróleo no Suriname, país onde há poucos fornecedores qualificados, tornando o suprimento mais crítico. O estudo mostra as adaptações necessárias para aplicação do portfólio de compras em condições remotas.
Jaipuria, Jenamani e Ramkumar (2016) aplicaram o KPM em uma indústria metalúrgica apenas adaptando os critérios ao contexto. No estudo, foi utilizado método qualitativo, com foco em entrevistas com gestores, tanto para identificação dos critérios, quanto na classificação dos itens.
Heikkilä et al. (2016) utilizaram a matriz de Kraljic para analisar as relações entre uma empresa operadora de hub, seus fornecedores e investidores, buscando entender os desafios da coinovação entre esses atores. O estudo de natureza qualitativa utilizou 17 entrevistas, divididas entre cada ator.
Os estudos de Xu e Liu (2009), Padhi, Wagner e Aggarwal (2012) e Wagner, Padhi e Bode (2013), Ferreira, Arantes e Kharlamov (2015) e Medeiros e Ferreira (2018) têm em comum a proposta de metodologias quantitativas, para auxiliar gestores na classificação dos itens na matriz, proposta por Kraljic(1983). A diferença entre os estudos está nos métodos empregados e contextos de aplicação.
Xu e Liu (2009) utilizaram o método fuzzy para classificar itens da indústria siderúrgica. Padhi, Wagner e Aggarwal (2012) propuseram a classificação com uso de abordagem multiatributo combinada com números fuzzy e escalonamento multidimensional (MDS), sendo estes aplicados a itens de commodities rurais. Já Wagner, Padhi e Bode (2013) utilizaram a abordagem multiatributo simples e o MDS, aplicados para itens de uma indústria automobilística.
Arantes, Ferreira e Kharlamov (2014) e Ferreira, Arantes e Kharlamov (2015) aplicaram a matriz de Kraljic (1983) em uma indústria da construção civil. Os autores utilizaram as mesmas dimensões e classes de itens da obra seminal, porém adaptaram os critérios ao contexto da organização estudada. O método multicritério AHP foi utilizado no levantamento do peso dos critérios. Nessa mesma linha, o estudo de Medeiros e Ferreira (2018) aplicou o método fuzzy-TOPSIS, adaptando dois dos critérios propostos por Kraljic (1983), ao contexto hospitalar e o estudo de Bianchini
et al. (2019) aplicou o KPM em uma indústria de lâmpadas visando classificar fornecedores de acordo com a criticidade do lead-time de fornecimento, utilizando o método AHP.
Montgomery, Ogden e Boehmke (2018), utilizando a matriz de classificação de itens proposta por Kraljic (1983), tiveram como foco do seu estudo a proposição de um método multiobjetivo para classificação dos itens na matriz. O objetivo da aplicação era auxiliar a empresa a classificar os itens de compras que melhor permitisse uma maximização do valor estratégico e a minimização dos riscos de suprimentos. Para cada dimensão do modelo, foi utilizada uma função de valor de atributo único, desenvolvida a partir de entrevistas com os gestores, de modo a captar as preferências do decisor. Na etapa de elicitação, foi utilizado o método de swing e, ao final, realizada uma etapa de análise de sensibilidade para testar a robustez do modelo. Os autores não citam a área da organização em que aplicaram o método.
Ghanbarizadeh et al. (2019) propuseram uma aplicação multimétodo, combinando os métodos multicritério DEMATEL, ANP e VIKOR, para resolver problemas de classificação no KPM. O estudo foi aplicado em uma indústria da construção civil.
Cluster V - Aplicação de Modelos Combinados
O quinto cluster está relacionado a estudos que aplicaram, empiricamente modelos de outros autores ou combinação de modelos (DRAKE; LEE; HUSSAIN, 2013; PARK et al., 2010; WU; SHEN, 2006).
Com base no modelo de portfólio de Olsen e Ellran (1997), Wu e Shen (2006) avaliaram o relacionamento com fornecedores de 194 empresas de manufatura. O estudo identificou que os relacionamento com fornecedores têm estratégias de compras diferenciadas, a depender da categoria de itens (WU; SHEN, 2006). Itens não-críticos têm a estratégia baseada no menor preço. Itens de alavancagem, além do preço, a capacidade tecnológica e a confiabilidade do fornecedor também são fatores importantes. Para itens gargalos, a segurança financeira e a consistência no
fornecimento são fatores de maior peso. Paro os itens estratégicos, além da capacidade tecnológica, confiabilidade, consistência do fornecimento e finanças, o fator relacionamento também é considerado (WU; SHEN, 2006).
O estudo de Park et al. (2010), baseado numa visão integrada do conceito de gestão de relacionamento com fornecedores, analisa a estratégia de compra desenvolvida pela empresa, sua seleção, avaliação e desenvolvimento com fornecedores. O modelo de portfólio de compras é visto por Park et al. (2010), como etapa fundamental na gestão de compras e gerenciamento de fornecedores. Os autores aplicaram o modelo proposto em uma empresa coreana de semicondutores, utilizando o método multicritério AHP para ponderar os pesos dos critérios.
O modelo de portfólio de compras de Park et al. (2010) é dividido em três etapas: análise dos itens comprados, análise dos relacionamentos com fornecedores e plano de ação. A etapa de análise de itens comprados é baseada nos critérios do modelo de Kraljic (1983), enquanto a etapa de análise de relacionamento com fornecedores é baseada no modelo de Olsen e Ellran (1997).
Nesse modelo, os autores dividem as categorias originais propostas por Kraljic (1983) em duas principais: baixo risco de fornecimento e alto risco de fornecimento. Para itens classificados nesta última categoria, é sugerida uma abordagem de compra colaborativa e uma gestão de relacionamento com fornecedores mais atuantes. A Figura 11 ilustra o modelo de portfólio proposto por Park et al. (2010).
Figura 11 - Matriz de Portfólio de Compras de Park et al. (2010)
Alguns estudos de portfólio têm utilizado critérios sem garantir a