CAPÍTULO 6. FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE
6.6. FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE E TERRAS PÚBLICAS
6.6.1. O Estatuto da Terra
A Emenda Constitucional n. 10, de 1964, alterando o art. 5º, inciso XV, da Constituição Federal de 1946, concedeu à União competência para legislar sobre Direito Agrário. Em 30.11.1964, editou-se o Estatuto da Terra - Lei 4.504 -, que recebeu regulamentação pelo Decreto 59.566, de 14.11.1966. Apesar de produzida sob um regime de exceção, a novel legislação configurou um conjunto de normas de vanguarda, tendo, na maioria dos dispositivos, adotado posições das mais adiantadas e consonantes ao espírito do direito contemporâneo.
O Estatuto da Terra prevê, em seu artigo 12, que: "À propriedade privada da terra cabe intrinsecamente uma função social e seu uso é condicionado ao bem-estar coletivo previsto na Constituição Federal e caracterizado nesta lei."
Na busca da caracterização do que seja a função social da propriedade estabelece o Estatuto, em seu artigo 13, que "O Poder Público promoverá a gradativa extinção das formas de ocupação e de exploração da terra que contrariem sua função social."
Assim, o Estatuto da Terra previu, expressamente, a necessidade de o poder público atuar de forma comissiva na consecução da função social da terra rural.
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Estabeleceu, portanto, franca opção pela função social da propriedade, configurando uma das primeiras manifestações de ruptura do "privatismo individualista" no sistema positivo nacional, ruptura essa que, sem dúvida, influenciou toda a discussão seguinte, que redundou na Constituição Federal de 1988 e preparou o caminho para evoluções como as leis de locações e de defesa do consumidor, bem como para a atual legislação agrária.
O Estatuto da Terra representou uma das primeiras manifestações concretas do "solidarismo jurídico" e da efetiva busca de concretização da função social da propriedade.
A legislação rural mais recente – Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993 – que dispõe sobre a regulamentação dos dispositivos constitucionais relativos à reforma agrária, previstos no Capítulo III, Título VII, da Constituição Federal, aponta para o mesmo caminho, em seus artigos referentes à função social da propriedade rural, a saber, os artigos 2º, caput e § 1º; 5º, caput; 9º, caput e incisos I, II, III e IV, verbis:
Artigo 2º - A propriedade rural que não cumprir a função social prevista no art. 9º é passível de desapropriação, nos termos dessa lei, respeitados os dispositivos constitucionais.
§ 1º - Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social.
Artigo 5º - A desapropriação por interesse social, aplicável ao imóvel rural que não cumpra sua função social, importa prévia e justa indenização em títulos de dívida agrária.
Artigo 9º - A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo graus e critérios estabelecidos em lei, os seguintes requisitos:
I - aproveitamento racional e adequado;
II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente;
III - observância das disposições que regulam as relações de trabalho; IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e trabalhadores. Reproduz essa norma, pois, os dispositivos da Constituição Federal de 1988, no que diz respeito à matéria referente à função social da propriedade das terras, sejam elas privadas ou públicas.
CXXXI
Eleitos os objetivos a serem alcançados, a eles correspondem a situações abrangidas sob o princípio geral da função social da propriedade. Neste desiderato, utiliza-se o Estado de meios diretos e indiretos, limitando o direito de propriedade.249
Nos meios diretos, intervém o Estado na condição de pessoa jurídica de direito público em relações jurídicas das quais faz parte, utilizando-se do jus imperii que lhe é inerente, como por exemplo, quando desapropria por interesse social.
Há, em contrapartida, situações em que o Estado age indiretamente através do regramento de relações das quais não faz parte diretamente, mas nas quais sua ingerência tem influência, conduzindo aos fins colimados. Nessa ordem de idéias, encontra-se o controle exercido pelos Tribunais de Contas na utilização de terras públicas por particulares na busca da função social da propriedade, eis que a economicidade e o controle operacional permitem tal análise.250
É de ressaltar, novamente, que a função social da propriedade é um princípio maior, sob o qual compreendem-se diversos fins, constituindo uma soma complexa de preceitos a serem atingidos. Não basta tornar a terra produtiva, ou distribui-la garantindo o acesso à terra. Além disso, é preciso tutelar as relações que tenham por objeto o solo, garantindo proteção às partes menos favorecidas, à proteção ambiental, ao uso racional dos recursos, à proteção e ao resguardo das normas trabalhistas, porque no atingimento de todos esse objetivos é que se assegura a efetividade da função social da propriedade.
Ao proprietário, como membro de uma sociedade, impõem-se obrigações que ultrapassam os direitos de vizinhança, no âmbito do direito privado, abrangendo o campo dos direitos da coletividade, para que seja alcançado o bem-estar geral, no âmbito do direito público.251
249 A propósito, consultar Helita Barreira CUSTÓDIO. A Questão Constitucional: Propriedade, Ordem
Econômica e Dano Ambiental. Competência Legislativa Concorrente. In: Dano Ambiental. Prevenção,
Reparação e Repressão. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1993, p. 115 a 143. 250 Cf., a respeito, artigo 171 da Constituição de 1988.
251 CUSTÓDIO, Helita Barreira. A Questão Constitucional: Propriedade, Ordem Econômica e Dano Ambiental.
Competência Legislativa Concorrente. In: Dano Ambiental. Prevenção, Reparação e Repressão. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1993, p. 118.
CXXXII Como bem coloca René SAVATIER,
la propriété individuelle a singulièrement changé de nature. Au lieu d’être égoïste, comme elle le fut dans sa jeunesse, - la jeunesse est volontiers l’âge de l’égoïsme, car l’homme y a pour rôle son développement individuel em vue des tâches sociales qu’il remplira plus tard – la propriété individuelle doit elle-même se mettre au service public. Et il y a sur ce point toute une législation.252