• Nenhum resultado encontrado

Estrutura argumentativa do discurso sindical

(e, portanto, da confiança) obtido pelo grupo dominante por causa de sua posição e de

GOVERNO FEDERAL VISTO COMO VILÂO

3.3.4. Estrutura argumentativa do discurso sindical

A fim de entender a construção do discurso sindical em torno da questão da reforma da Previdência, seus argumentos para convencer a opinião pública, expressão de idéias e formalização de estratégias para rebater observações feitas pelo governo, faz-se necessário compreender a estrutura argumentativa do impresso sindical em contraposição ao discurso governista. O fato de os discursos desses dois sujeitos sociais serem analisados em conjunto facilita a percepção da lógica da construção da cadeira argumentativa, entre outros aspectos decorrentes desse embate de idéias, firmado a partir de uma disputa de interesse em torno de um modelo de Previdência Pública e, conseqüentemente, em torno de um modelo de sociedade.

O discurso do governo, em janeiro de 2003, foca a apresentação do tema Previdência Social e a relação do governo com esse tema. Argumentos em torno da necessidade de mudança e justificativa da reforma marcam o primeiro artigo de opinião assinado pelo ministro da Previdência Social (datado de 24 de janeiro), que apresenta a problemática e coloca argumentos de forma leve, sem se ater a questões específicas. O próprio ministro diz não ter um projeto político pronto: “A partir do debate, que deve contar com a participação de todos, queremos chegar a um regime que represente mudar com segurança” (BERZOINI, a). A proposta colocada pelo ministro da Previdência é, então, de construção conjunta, em debate com a sociedade, embora não mencione quais segmentos participam, ou estariam interessados em participar dessa discussão.

Apesar da forma simplificada com que situa a questão da Previdência e do tom didático, o artigo é permeado de argumentos e traz, já bem marcada, a visão do governo, principalmente no que diz respeito à necessidade das mudanças, apontadas como uma verdade óbvia e incontestável. Ao expressar, por exemplo, a importância da questão da

Previdência para o Governo Lula, o artigo coloca valores como segurança, respeito a direitos, garantia de um futuro melhor, justiça social e viabilidade financeira como metas a serem perseguidas. Essas metas fundamentam e caracterizam o discurso governamental, emprestam sentido às suas ações (grifos da pesquisadora29):

O presidente Luís Inácio Lula da Silva, eleito por quase 53 milhões de votos e pela esperança na construção de um Brasil melhor, assumiu durante a campanha o compromisso de tratar a Previdência Social como uma prioridade de governo.

[...]

A rediscussão das regras da Previdência está na agenda de praticamente todos os países, sejam eles desenvolvidos ou em desenvolvimento. Não devemos mudar por modismos. Nem vamos ceder a argumentos tecnocráticos. A partir do debate, que deve contar com a participação de todos, queremos chegar a um regime que represente mudar com segurança, respeitando direitos e garantindo um futuro melhor.

[...]

Por sua relevância social e seu impacto econômico, sua reforma será um dos pilares desse novo país. Um pilar fundado em dois pressupostos essenciais: justiça social e viabilidade financeira

(BERZOINI, Previdência justa e sustentável, a). Ao anunciar a ausência de proposta concreta em relação à reforma da Previdência (“A partir do debate, que deve contar com a participação de todos, queremos chegar a um regime que represente mudar com segurança [...]”(BERZOINI, a) ) o governo coloca em discussão a necessidade de reforma e não a reforma em si, privilegia o processo e não o conteúdo da reforma, noticia o objeto “reforma” como algo ainda abstrato, imaturo. Isso contribuiu para o adiamento do debate em torno da proposta de reforma, uma vez que não se pode analisar ou criticar algo que não existe ou, pelo menos, não está explicitado. Sujeitos sociais como os sindicatos ficam impedidos de falar de algo que não tomou forma oficialmente, que ainda está sendo delineado.

As justificativas de necessidade de mudança são, então, pontos fortes do artigo do ministro (em lugar de falar do conteúdo do projeto de lei que propõe as mudanças na Previdência). Ao mesmo tempo em que esclarece a sociedade sobre a Previdência Social e a idéia de uma mudança em sua estrutura, o governo tenta convencê-la da necessidade dessa mudança, como algo inexorável, incontestável:

A necessidade de um sistema que possa ser sustentável e ao mesmo tempo justo socialmente nos dá a direção para um conjunto de medidas que possa conferir segurança aos beneficiários de hoje e do amanhã.

[...]

O que se quer, em linhas gerais, é transformar o sistema atual, complexo e em alguns casos até injusto, num conjunto de regras claras e, sempre que possível, isonômicas.

[...]

Não há recursos que financiem as regras atuais. Além disso, felizmente, vive-se hoje cada vez mais. Portanto, é preciso reequilibrar as contribuições necessárias aos benefícios que duram mais e mais anos (BERZOINI, a).

Os argumentos governamentais seguem uma lógica de antítese relacionada aos objetos (a Previdência) de hoje30 (a realidade) e a do

futuro (depois da mudança, hipotética). Resumindo os argumentos acima, tem-se: O atual sistema é insustentável, vamos torná-lo sustentável. O atual sistema é inseguro, vamos adotar medidas que confiram segurança. O atual sistema é complexo, vamos torná-lo claro. É injusto em alguns casos, vamos transformá-lo num conjunto de regras, sempre que possível, isonômicas. Não há recursos para as regras atuais, vamos equilibrá-lo. Simplificando em um quadro, tem-se os seguintes adjetivos contrapostos da Previdência real e os da Previdência a ser construída pelo governo em conjunto com a sociedade, de acordo com o discurso do governo:

30 Ao se referir à Previdência atual ou Previdência de hoje, está se falando do período de janeiro a julho de 2003. que antecede a reforma. É o momento presente para as matérias e artigos analisados, as quais estão disputando um projeto político e ideológico que, para elas, ainda não se concretizou.

Tabela 6 – Previdência do presente e do futuro no discurso sindical Previdência real Objeto HOJE Previdência a ser construída, Objeto do FUTURO insustentável X sustentável inseguro X seguro complexo X claro injusto X isonômico

sem recursos (desequilibrado) X equilibrado

É contra o argumento de que o sistema previdenciário é insustentável, desequilibrado que a imprensa sindical realiza, ao longo de todo o ano de 2003, uma ferrenha contraposição. Ainda em janeiro, o Tem Novidade contra-argumenta: “Segundo Moura, os debatedores do evento foram unânimes em afirmar que a previdência social brasileira não é deficitária e, por isso, não faz sentido falar em taxação de aposentados e pensionistas”. (Tem Novidade, jan, p.3). Essa questão do déficit X não déficit da Previdência é abordada não apenas nessa matéria do Tem Novidade, já em janeiro, mas também ao longo de todo o jornal e também nas matérias do InformAndes: “Para a CNESF, não existe déficit previdenciário por causa do setor público, pois quando se faz o cálculo do déficit não se considera todas as fontes de financiamento da seguridade social” (Informandes, fev, p.6).

A tentativa do ministro de retardar o debate ou, pelo menos, seu acirramento, principalmente em torno de questões polêmicas - e isso pode ser percebido na ausência de menção a questões como a taxação de inativos, o estabelecimento de um teto na Previdência Pública no discurso do site da Previdência - é contrariada por organismos como a imprensa

sindical dos servidores públicos que, em suas matérias, tece duras críticas à proposta de reforma sinalizada pelo poder executivo.

Essas matérias trazem à tona questões que vêm sendo deixadas de lado pelos textos do site da reforma da Previdência e deixam clara a posição dos sindicatos diante de pontos considerados cruciais para o movimento sindical (teto da Previdência, paridade entre ativos e aposentados, taxação de aposentados, previdência complementar), além de questionarem a postura do governo. Abaixo, seguem trechos onde os jornais sindicais analisados levantam esses pontos considerados importantes, ao mesmo tempo em que se colocam a respeito da reforma da Previdência:

O ANDES – SN combate a reforma anunciada e reafirma a defesa dos direitos previdenciários dos servidores na sua integralidade, ao mesmo tempo em que luta pela extensão destes direitos ao conjunto da classe trabalhadora (Informandes, jan, editorial).

“Os servidores pleiteiam a manutenção da previdência pública e do modelo de repartição em vez de capitalização, além da paridade entre ativos e aposentados”, acrescenta Gleidson Ferreira (Tem Novidade, jan, p.3).

Sob esse ângulo, a reforma previdenciária, anunciada por Berzoini, aponta para perdas ainda mais drásticas do que aquelas impostas por FHC, por exemplo, quando empurra para o novo regime de previdência complementar até mesmo os trabalhadores que estão hoje no sistema (Informandes, jan, editorial).

O debate sustentado pela imprensa sindical centra-se mais na reforma sinalizada pelo novo governo, mesmo não tendo sido apresentada proposta formal ao Congresso Nacional ou à sociedade, do que na imagem da Previdência atual ou dos próprios servidores públicos. Como a imprensa sindical critica algo que ainda não existe, precisa fazê-lo mediante os indícios deixados pelo governo, por meio do seu discurso em que aponta direcionamentos para o sistema previdenciário. A imprensa sindical relata, então, dentro do seu discurso, o discurso do governo para

construir o seu em contraposição. Novamente tem-se um quadro rico em antíteses, agora presente no discurso do sujeito social sindicato.

Tabela 7 – Previdência projetada nos diferentes discursos

Previdência projetada pelo governo

de acordo com o discurso sindical

(FUTURO – ABSTRAÇÃO)

Previdência almejada pelo sindicato

de acordo com o discurso sindical

(FUTURO - ABSTRAÇÃO)

é necessária. “’se necessária’, deveria ser precedida da tributária”.

(Informandes, jan, p.6) quer implantar a contribuição

previdenciária dos aposentados. (Tem Novidade, fev, artigo)

X “[...] não-contribuição

previdenciária dos aposentados”. (Tem Novidade, jan, p.1) teto de aposentadoria de 20

salários mínimos (R$1.561,00). (Informandes, jan, p.6)

X “[...] deverá atender aos princípios de integralidade dos vencimentos no ato da aposentadoria”.

(Informandes, jan, editorial) busca aplicar a política de

flexibilização e desregulamentação.

(Informandes, jan, editorial)

X reafirma a defesa dos direitos previdenciários dos servidores na sua integralidade e luta pela extensão destes direitos ao conjunto da classe trabalhadora.

(Informandes, jan, p.6)

paridade de vencimentos entre ativos e aposentados.

(Informandes, jan, p.6) implantação de previdência

complementar.

(Informandes, jan, p.6) “[...] empurra para o novo

regime de previdência

complementar até mesmo os trabalhadores que estão hoje no sistema”.

(Informandes, jan, editorial) X

manutenção da previdência

pública e do modelo de repartição. (Tem Novidade, jan, p.3)

“A União é, portanto, a maior caloteira da Previdência. E ainda fica chorando que há sonegação”.

(Tem Novidade, fev, p.2)

X auditoria nas contas da

Previdência Social para identificar focos de sonegação.

“[...] a reforma previdenciária, anunciada por Berzoini, aponta para perdas ainda mais drásticas do que aquelas impostas por FHC”.

(Informandes, jan, editorial)

X “[...] reafirma a defesa dos direitos previdenciários dos

servidores na sua integralidade, ao mesmo tempo em que luta pela extensão destes direitos ao

conjunto da classe trabalhadora”. (Informandes, jan, editorial)

Como se pode observar pelo quadro, o discurso sindical reproduz o discurso governista nos seus impressos para contra-argumentar suas idéias, para fazer observações a respeito do que acredita ser melhor para edificação do sistema previdenciário que almeja. O seu discurso é feito em cima do discurso e das opiniões do governo, primeiro porque é este que detém informações e posições a respeito da mudança no sistema previdenciário, de forma que o discurso sindical precisa resgatar essas informações, colocando-as em seu próprio discurso. Segundo porque a lógica de construção do discurso sindical é a de contraposição, é a de colocar-se contrário ou crítico a algo, no caso do tema estudado, contrário a proposta de reforma sinalizada pelo governo.

As suas idéias e opiniões visam, fundamentalmente, rebater as argumentações feitas por outro sujeito social, no caso, o governo. O embate de idéias se dá nesse esquema de rebater o discurso do governo e as propostas construídas pelo governo. Daí, a constante referência à voz do outro, mesmo que essa voz seja transcrita sobre a visão não do outro, mas de quem a está utilizando.

Ainda com relação à visão crítica relacionada à postura do governo, são presentes comparações entre o Governo Lula e governos anteriores e menções sobre a influencia de interesses internacionais na iniciativa de reforma do governo brasileiro:

Diante dos aposentados, dos servidores públicos e de toda a sociedade, como vamos explicar a semelhança entre a vontade do governo FMI-FHC e do novo governo de implementar a contribuição previdenciária dos aposentados, entre outras mazelas?” (Tem Novidade, jan, p.1).

Numa situação marcada, de um lado, pela expectativa popular e pelo protagonismo das massas e, de outro, pelas exigências ditadas pelo imperialismo, o governo Lula busca os meios de aplicar a política de flexibilização e desregulamentação com o beneplácito das organizações dos trabalhadores (Informandes, jan, editorial).

As metas do Fundo Monetário Internacional devem ser cumpridas, custe o que custar. Ou melhor, custe mais emprego, insegurança, instabilidade social e econômica. Sempre fomos e seremos contra qualquer tipo de interferência na soberania brasileira, e desta não abrimos mão (Tem Novidade, jan, p.1).

A imprensa sindical, ao mencionar governos anteriores, como os governos dos ex-presidentes Fernando Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso, faz referência a um imaginário da sociedade relacionado a esses governos e períodos, subentendendo que o leitor compartilha desse imaginário, tem acesso a um conhecimento prévio de como foram esses governos e de como a imprensa sindical e a opinião pública o percebem hoje. Ao comparar esses governos passados e situações que os caracterizam (como a possível ligação do FMI ao governo FHC, colocada nos textos sindicais) com o governo atual e à situação atual (atual para o ano de 2003), apontando semelhanças entre ambos, a imprensa sindical tenta “colar” parte desse imaginário permeado de rótulos e conceitos ao “novo governo”.

Serge Moscovici fala do sistema de ancoragem e define a função de categorização da seguinte forma: “Categorizar alguém ou alguma coisa significa escolher um dos paradigmas estocados em nossa memória e estabelecer uma relação positiva ou negativa com ele” (MOSCOVICI, 2003, p.63). Para Moscovici, a neutralidade é proibida, pela própria lógica do sistema, “onde cada objeto e ser devem possuir um valor positivo ou negativo e assumir um determinado lugar em uma clara escala hierárquica” (MOSCOVICI, 2003, p.62).

Logo, quando o discurso sindical compara por semelhança aspectos de governos anteriores ou de organismos outros ao governo presente, ele está categorizando o governo presente (utilizando os paradigmas estocados na memória coletiva) e estabelecendo uma relação crítica com esse governo, incutindo juízos de valores.

O exemplo “Como vamos explicar a semelhança entre a vontade do governo FMI-FHC e do novo governo de implementar a contribuição previdenciária dos aposentados, entre outras mazelas?” (Tem Novidade, jan, p.1) ilustra essa representação por categorização e a referência a características, que o imaginário coletivo retém e que pode ser transferida de um sujeito social a outro.