1. Sobre a “adolescência”
1.4. Estudos da perspectiva histórico-cultural
A psicologia histórico-cultural24 converge na mesma direção das teses históricas e das pesquisas sociológicas no que se refere às idades como produtos de um contexto histórico e como criação cultural. Esta teoria considera o homem enquanto corpo e mente; ser biológico e social; membro da espécie humana e participante de um processo histórico. Para esta perspectiva teórica quando alguém nasce se encontra mergulhado numa sociedade específica, na qual as relações humanas se desenvolvem a partir da assimilação cultural daquela sociedade. Assim, pode-se dizer que as características humanas não estão presentes nas pessoas desde o nascimento, mas se desenvolvem na vivência cotidiana permeada de práticas sociais e mergulhada numa cultura desenvolvida historicamente. Nessa relação indivíduo/sociedade o homem só entra em contato com o mundo através de uma mediação — trabalho social, instrumentos, linguagem — que ocorre nas condições sociais de vida historicamente formadas.
Segundo Rego (1995, p. 58) o desenvolvimento não pode ser considerado um processo “previsível, universal, linear ou gradual”, pois está relacionado com o contexto sócio- cultural onde o homem se desenvolve, passando por rupturas que provocam reorganizações no indivíduo. Assim, as funções psicológicas superiores têm gênese nas relações com o “outro” e com a cultura, por isso as relações sociais devem ser investigadas ao se examinar o desenvolvimento do sujeito. A constituição do homem é mediada socialmente: o homem, imerso em uma cultura, interage porque é produtor e intérprete de uma linguagem e assim se constitui enquanto ser social. As práticas culturais são constitutivas do comportamento humano — a maturação biológica é um fator preliminar, por isso não é negada, mas a formação dos homens depende em grande medida da interação social. O desenvolvimento do psiquismo é sempre mediado socialmente pelo “outro”, pelos signos e instrumentos. Assim, ao contrário do que supõe a visão dominante de adolescência, a Teoria Histórico-Cultural considera essa idade como uma etapa da vida constituída socialmente, portanto, um produto histórico.
Para a teoria histórico-cultural o indivíduo se desenvolve a partir de sua relação com o mundo social e cultural. Cada indivíduo aprende a ser membro da sociedade adquirindo o legado cultural produzido no decurso da história humana (LEONTIEV, 1978). Assim, as formas que assumimos como identidades e personalidades se constroem a partir de possibilidades
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históricas. A sociedade, construída por nós, nos dá os limites e as possibilidades de ser. A partir disso, podemos tomar as idades, incluindo-se a adolescência, como categorias socioculturais com origem histórica. Nessa perspectiva, o homem é um ser determinado pela realidade social e histórica ao mesmo tempo em que é determinante dessa realidade de forma coletiva. Assim, a adolescência não pode ser considerada como algo abstrato e natural; mas deve ser tomada como uma etapa da vida que se desenvolve na sociedade, com características determinadas pelas condições sociais e culturais. São os seres humanos que interpretam e constroem essa idade; a adolescência faz parte da cultura enquanto significado — se torna referência para a constituição dos sujeitos. Esse conjunto de ideias, valores e referências contribui para uma adolescência significada com diferenças em relação às outras idades, sendo tomada como um momento de vida particular e diferente da infância, da idade adulta e da velhice.
Os autores que abordam a adolescência a partir da perspectiva da psicologia histórico-cultural, ou sócio-histórica25, se colocam numa posição de contestação em relação à concepção hegemônica de adolescência26 abordada no início deste capítulo — esta, além de mapeada, é denunciada e criticada como sendo uma leitura naturalizante, patologizante, universalizante e a-histórica da adolescência27. Muitos desses autores reforçam seus argumentos tendo por base a teses históricas e os estudos das ciências sociais, sobretudo da antropologia cultural e da sociologia, que convergem na ideia de que a adolescência, como vemos hoje em dia, é uma construção histórica e cultural — no passado e em culturas diferentes das nossas, as transformações corporais (de criança a adulto) não levavam a crises de rebeldia e transgressões. Nessa perspectiva, algumas características e as crises supostamente típicas dessa idade não fazem parte da natureza humana, porque não são experiência fisiológica, mas sim experiência social.
Bock (2004, 2007) reconhece que a maturação biológica — sobretudo a puberdade e os hormônios lançados na corrente sanguínea — são universais como fenômeno biológico,
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Tanto a psicologia histórico-cultural quanto a psicologia sócio-histórica se utilizam dos estudos de Lev Semenovich Vygotsky (1896-1934), bem como de seus seguidores. Em geral os pesquisadores da PUC-SP utilizam o termo “sócio-histórico” por entenderem que o “social” está mais condizente com o materialismo dialético do que o termo “cultural”. Por outro lado, os autores que adotam o termo “histórico-cultural” pressupõem que o “social” está presente no termo “cultural”.
26 Como já apontado anteriormente, os principais autores são Stanley Hall, Erikson, Debesse, Osório, Aberastury e
Knobel. Um ponto de convergência entre esses autores é de que a crise se encontra relacionada ao biológico, algo que “naturalmente” surgiria no amadurecimento do indivíduo adolescente.
27 São inúmeras pesquisas que seguem nessa direção; destaco alguns dos principais autores dos quais me apoio:
Aguiar, Bock & Ozella (2001); Bock (1999, 2004, 2007); Bock & Liebesny (2003); Checchia (2006); Clímaco (1991); Gonçalves (2003); Ozella (2002, 2003); Ozella & Aguiar (2008); Koshino (2011); Tomio & Facci (2009).
porém, argumenta que adolescência não se resume à puberdade, e o que constitui essa idade não é universal, por isso os padrões da adolescência diferem. Não existe um padrão de desenvolvimento universal para a maturidade, apenas um padrão biológico que é significado de múltiplas formas diferentes em tempos, espaços e culturas distintas. Historicamente, os ciclos de vida são pontuados e significados de maneiras diferentes. Isso ocorre porque as idades e o crescimento dos indivíduos estão intimamente ligados às condições e às mudanças socioculturais. Determinada noção universalista sincroniza os tempos biológico, psicológico e social no tempo vital humano que é chamado de adolescência, porém a existência de um sujeito se inscreve em realidades sociais e individuais, singulares e específicas. A generalização e os aspectos universais da concepção dominante de adolescência não dão conta de explicar a particularidade dos jovens numa realidade marcada pela heterogeneidade, contradições, desigualdades e diferenças (BOCK, 2004).
Aguiar, Bock & Ozella (2001) se opõem aos estudos que colocam a crise como aspecto principal da adolescência, ao mesmo tempo em que buscam demonstrar como a concepção dominante de adolescência foi construída e sustentada por alguns autores. Stanley Hall é colocado como um dos principais contribuintes para que a adolescência fosse estigmatizada como etapa da vida marcada por tormentos e conturbações ligadas à emergência da sexualidade. Os escritos de Erikson, Debesse, Aberastury e Knobel são criticados e descritos como concepções que universalizam a adolescência, tomando-a como algo “natural” no percurso do desenvolvimento, ao mesmo tempo em que reforçam a carga negativa dessa idade ressaltando a crise como inerente a ela.
Segundo Ozella (2002, 2003), os autores citados acima fazem uma leitura naturalizante, universalizante e patologizante28 da adolescência. Esta é vista por estes autores como etapa natural, inerente e própria do desenvolvimento humano, onde as crises são inerentes a essa idade porque os tormentos e as conturbações estão relacionados à sexualidade emergente. Ozella questiona a ênfase que esses autores dão à crise e às características negativas da adolescência.
Bock (2004, 2007) critica Erickson (1976) por descrever a adolescência através do conceito de moratória, que considera essa idade como uma fase do processo de desenvolvimento
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entre a infância e a vida adulta, marcada pela dificuldade de se estabelecer uma identidade própria em meio a uma confusão de papéis.
Aguiar, Bock & Ozella (2001) questionam o enfoque biologicista, que toma a adolescência apenas com base nas mudanças físicas, bioquímicas e psicológicas — onde se pressupõe um caráter invariável de crise devido à puberdade, aos hormônios e a maturação sexual. Os autores contestam que essa idade seja padronizada e imanente ao processo de desenvolvimento humano; afirmam que as características do adolescente são interpretadas nas relações em sociedade — na medida em que a formação dos homens depende em grande medida da interação social. As significações sociais são construídas, e os adolescentes se utilizam dessa referência para a construção de sua identidade, num movimento de conversão de elementos sociais em individuais. Não podemos tomar as mudanças corporais como aspecto inerente dessa idade, como se as mudanças biológicas justificassem a universalidade do conceito de adolescência, pois as marcas corporais são significadas na cultura. Assim, Aguiar, Bock & Ozella (2001) separam as mudanças biológicas (tomadas como “naturais”) do conceito de adolescência, considerando ambas como fenômenos distintos:
A adolescência não é um período natural do desenvolvimento. É um momento significado, interpretado e construído pelos homens. Estão associadas a ela marcas do desenvolvimento do corpo. Essas marcas constituem também a adolescência enquanto fenômeno social, mas o fato de existirem enquanto marcas do corpo não deve fazer da adolescência um fato natural. Há muitas outras características que constituem a adolescência; mesmo as marcas corporais são significadas socialmente e não devem ser tomadas no conceito de adolescência em si, como características do corpo e, portanto, naturais. Exemplo disso são os seios da menina e a força muscular nos meninos. Sabemos que os seios e o desenvolvimento da massa muscular acontecem na mesma fase da adolescência, mas a menina que tem seus seios se desenvolvendo não os vê, sente e significa como possibilidade de amamentar seus filhos no futuro, o que seria vê-los como naturais. Com certeza, em algum tempo ou cultura isso já foi assim. Hoje, os seios tornam as meninas sedutoras e sensuais. Esse é o significado atribuído em nosso tempo. A força muscular dos meninos já foi significativa como possibilidade de trabalhar, guerrear e caçar. Hoje é beleza, sensualidade e masculinidade. (op. cit , 2001, p. 168).
Bock (2004, 2007) se opõe ao conceito de "síndrome da adolescência normal", de Aberastury & Knobel (1989), acusando essa visão de considerar a adolescência como algo que ocorrerá naturalmente, supondo que as características da adolescência são decorrentes apenas do amadurecimento biológico: os hormônios e a puberdade são as causas da adolescência como fase
difícil e carregada de conflitos “naturais”. Desse modo, para Aberastury & Knobel (1989) a crise da adolescência, inerente a essa idade, brota do biológico. Para Bock (2004) a fonte da crise, ou problemas, dessa idade se encontra nas condições sociais29 que se configuram como uma contradição: os jovens apresentam possibilidades físicas, cognitivas e afetivas de se inserirem no mundo adulto, além de capacidades de trabalho e de reprodução sexual. Contudo, estão desautorizados a isso. Em outros tempos históricos talvez fosse possível ingressar na vida adulta, mas as necessidades sociais contemporâneas impedem isso, pois a adolescência é uma fase de preparo para a vida adulta, está afastada do mundo do trabalho e das possibilidades de obter sustento e autonomia financeira — socialmente está algemada num vínculo de dependência do adulto. São essas condições sociais que constituem as principais características da adolescência: moratória, instabilidade, busca de identidade, rebeldia e conflitos com adultos (BOCK, 2004). A autora relaciona esse período de moratória às circunstâncias históricas levantadas por Clímaco (1991): a adolescência é um período de latência social que se constitui na sociedade capitalista, onde as exigências do mercado de trabalho contribuíram para a extensão da escolarização e necessidade de preparo técnico.