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EVOLUÇÃO E DIREITO ANIMAL

No documento Abolicionismo animal (páginas 107-111)

3 A L UTA PELOS D IREITOS DOS A NIMAIS

4.3 EVOLUÇÃO E DIREITO ANIMAL

Como vimos, a luta pelos direitos dos animais ainda enfrenta obstáculos psicológicos e conceituais muito fortes, mesmo porque ela atinge um dos mais importantes institutos do sistema jurídico: o direito de propriedade, por muitos considerado um direito natural absoluto.

Por outro lado, os animais cada vez mais estão sendo reconhecidos por seu valor sentimental, pois embora tenham diferenças significativas em relação aos humanos, são dotados de sentimentos e emoções, o que nos impede de considerá-los simples coisas inanimadas.

Não esqueçamos que a própria idéia de igual dignidade moral entre os homens decorreu de um longo processo de lutas,366 que somente se consolidou quando a lei escrita passou a ser uma regra geral e uniforme, aplicável indistintamente a todos os

365

REGAN, Tom. The struggle for animal rights. Clarks Summit: International Society for Animal Rights, 1987. p. 48. 366

membros de uma sociedade organizada.367 Muitos povos, ainda hoje, desconhecem o conceito de ser humano como uma categoria geral, acreditando que os membros que não pertencem ao seu grupo são de outras espécies.368

Todas as grandes conquistas da história do direito, desde a abolição da escravatura até a liberdade de manifestação religiosa, somente tiveram êxito à custa de ardentes lutas através dos séculos, pois normalmente os interesses das classes dominantes se apoiam no direito existente, que “não pode ser abolido sem irritá-las fortemente”.369

Alguns segmentos do movimento abolicionista têm se utilizado da ação direta, desde o uso de modelos despidos para chamar a atenção da opinião pública até a sabotagem de laboratórios de experimentação animal. Essas atividades, no entanto, embora chamem a atenção da opinião pública para a questão, não têm o condão de mudar o sistema, pois o direito só muda através das leis ou da jurisprudência.

Outros ativistas, porém, têm buscado inserir o discurso abolicionista na esfera política, seguros de que a importância que os legisladores darão aos interesses dos animais depende da extensão e do número de organizações de apoio a essas reivindicações.

Outros utilizam o sistema judicial para atingir seus objetivos, seja ingressando diretamente com ações judiciais seja oferecendo representações aos promotores e procuradores do Ministério Público, denunciando as atividades que violam a integridade física e psíquica dos animais, tais como circos, zoológicos, rodeios, rinhas de galo,

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COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2001. p. 12. 368

Segundo COMPARATO, Fábio Konder “[…] foram necessários vinte e cinco séculos para que a primeira organização internacional a englobar a quase totalidade dos povos da Terra proclamasse, na abertura de uma Declaração Universal de Direitos Humanos, que ‘todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos", ibidem, p. 11-12.

369

vaquejadas, etc., embora os resultados ainda sejam pouco satisfatórios.370 Segundo Bourdieu:

A interpretação opera a historicização da norma, adaptando as fontes a circunstâncias novas, descobrindo nelas possibilidades inéditas, deixando de lado o que está ultrapassado ou o que é caduco. Dada a extraordinária elasticidade dos textos, que vão por vezes até à indeterminação ou ao equívoco, a operação hermenêutica de declaratio dispõe de uma imensa liberdade.(Pierre Bourdieu)371

Os animais domésticos, por exemplo, ainda são tratados na esfera judicial como propriedade privada, o que acaba por reforçar o conceito tradicional de direito subjetivo cunhado nos séculos XVII e XVIII,372 que protege os interesses humanos, ainda que superficiais, em detrimento dos interesses dos animais.

Outro obstáculo é a dominante concepção liberal de justiça que entende que a forma com que tratamos os animais é mais uma questão moral do que jurídica, e que o Estado deve permanecer neutro em relação a essas questões, já que a sua função principal é proteger as liberdades individuais, não perseguir objetivos sociais.373

Os juristas, de um modo geral, ainda são muito céticos em relação à possibilidade de os animais serem admitidos em juízo como titulares de direitos, e na ausência de um suporte legislativo claro, os tribunais dificilmente tomarão uma decisão avançada como essa.

370

Sobre essa questão ver os dados jurisprudenciais coletados por LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos animais. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2004. p.108-117. Cf. CARVALHO, Carlos Gomes de. O meio ambiente nos tribunais: do direito de vizinhança ao direito ambiental. São Paulo: Método, 2001. p. 459-534.

371

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989. p. 223. 372

PAYNE, Ruth. Animal welfare, animal rights, and the path to social movement’s struggle for coherency in the quest for change.

Virginia Journal of Social Policy and the Law Association. p. 620, Spring, 2002. 373

Além disso, muitos acreditam que mesmo que exista um suporte efetivo da opinião pública,374 uma decisão deste tipo seria insignificante, reformista e ineficaz, pois dificilmente haveria uma força política capaz de executá-la.375

Para muitos juristas a retórica abolicionista é contraproducente, pois estigmatiza a maioria das pessoas que, de uma forma ou de outra, participam do sistema de exploração institucionalizada dos animais, o que só faz aumentar a resistência psicológica a esse tipo de mudança.

Não obstante, apesar dos bloqueios ideológicos e psicológicos, entendemos que o judiciário pode ser um poderoso agente no processo de mudança social, uma vez que ele não apenas tem o poder, mas o dever de agir quando o legislativo se recusa a fazê-lo, por ser, muitas vezes, o único poder capaz de corrigir as injustiças sociais quando os demais poderes estão comprometidos politicamente ou presos aos interesses dos grandes grupos econômicos.376

Apesar disso, se não houver um avanço na mentalidade da comunidade jurídica em geral (juízes, advogados, promotores, e principalmente da comunidade acadêmica, responsável pela formação desses profissionais), dificilmente os direitos dos animais serão reconhecidos.

374

PAYNE, Ruth. Animal welfare, animal rights, and the path to social movement’s struggle for coherency in the quest for change.

Virginia Journal of Social Policy and the Law Association. p. 619, Spring, 2002. 375

Para HAMILTON, Alexander et al. O federalista: um comentário à Constituição americana. Rio de Janeiro: Nacional de Direito, 1959. p. 312. “O judicial, em troca, não influi nem sobre as armas, nem sobre o tesouro; não dirige a riqueza nem a força da sociedade, e não pode tomar resolução ativa. Pode se dizer realmente, que não possui FORÇA nem VONTADE, senão unicamente discernimento, e que tem de se apoiar definitivamente na ajuda do braço executivo até mesmo para que tenham eficácia suas sentenças”. No entanto, segundo Ruth PAYNE, op. cit. p. 600: “Rosenberg afirma que apesar dos tribunais estarem impedidos pela Constituição de promover reformas sociais, quando as condições políticas, sociais e econômicas se tornam favoráveis a mudança, eles podem efetivamente prover significativas mudanças sociais” (Tradução nossa).

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No documento Abolicionismo animal (páginas 107-111)