3 ENCONTROS COM O PENSAMENTO DE BAKHTIN:
4.2 FESTAS
4.2.3 Farinhada
A festa da Farinhada revive, em três dias, todo o processo de fabricação da farinha de mandioca nos moldes artesanais da colheita, raspagem, moagem e ainda o processo de forneamento realizado no único engenho de farinha de mandioca existente hoje na comunidade, na vila conhecida como Vila Verde e como era de costume, na estação do inverno, segundo Seu Maneca III (75 anos): “Aqui já tivero muinto engenho: di farinha i di cana di açúcar. Cada vila tinha mági di um, pogi intão nógi si reunia pra módi ajuda ungi aos otro. No frio era o tempo da farinha, do biju e do porvilho. Nógi varava a noiti cum piroca16 di café e
uma cachaçinha pra igiquentá do frio. Mági era tempo difícil aquele!” (DC2.verão.2011).
A prática da farinhada, nos dias de hoje, visa à preservação desse engenho e aos poucos se transforma em espaço de convívio sociocultural que articula as relações entre a memória positiva dessa atividade coletiva e a tradição, o gesto recorrente entre as gerações como na foto da Figura 7.
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Refere-se à pirão de café, mistura de farinha de mandioca com café, acompanhado de peixe frito.
Figura 7 - Peneirando a Farinha. Inverno. 2011
Fonte: Acervo de um dos Interlocutores da Pesquisa
Os sujeitos responsáveis pela coordenação da Associação do Engenho começaram no ano de 1998 o trabalho de resgate do processo de fabricação da farinha de mandioca em parceria com a escola, que utiliza o espaço do engenho para realizar a festa junina e a festa do folclore. De lá para cá, esse encontro entre escola e comunidade vem sofrendo alterações, em grande parte em razão da substituição dos responsáveis pela Associação do Engenho.
Hoje, a festa da Farinhada passa por um momento de reavaliação e reorganização das estratégias para captar recursos para continuar o trabalho de resgate dessa prática cultural. Também conta com o apoio institucional da Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC) em parceria com a comunidade, que, por sua vez, conta com a colaboração de sujeitos nativos e não-nativos que se responsabilizam pela organização do processo de fabricação da farinha de mandioca, em meio a apresentações musicais de artistas que moram na comunidade e também pelos embalos do som mecânico que veicula músicas de vários estilos, especialmente sertanejo, vanerão, reggae pop e rock.
São vendidos nessa festa, como mostram as fotos das Figuras 8 e 9, churrasco, bolo, refrigerante, cerveja, farinha de mandioca e distribuídos gratuitamente beijus17.
Figura 8 - Espetinho na “farinhada”. Inverno. 2011.
Fonte: Acervo de um dos Interlocutores da Pesquisa Figura 9 - Bolos na “farinhada” Inverno. 2011.
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Fonte: Acervo de um dos Interlocutores da Pesquisa
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Massa úmida feita com mandioca, erva-doce, açúcar ou sal. Dessa massa são feitos bolinhos que, achatados, vão para a chapa no forno.
Com um formato mais intimista, se fazem presentes as rodas de violão, samba e capoeira, que se distribuem em momentos de embalos musicais por três dias seguidos, antecendo o domingo, dia em que é realizada a apresentação do boi-de-mamão da escola da Costa da Lagoa. Essa festa recebe a visita de estudantes e professores das universidades públicas de Florianópolis (UFSC e UDESC), em sua maioria pessoas ligadas aos cursos de História, Antropologia, Pedagogia, Ciências Sociais e Geografia (Ciências Humanas).
A farinhada retoma elementos significativos para os estudos culturais relativos à açorianidade, em extinção, acreditamos, mas em luta para manter-se viva por meio dos elementos de sua cultura ainda sobreviventes, tais como o engenho da comunidade da Costa da Lagoa, o único em funcionamento nesse espaço, a exemplo de outros engenhos mantidos em algumas comunidades da ilha de Santa Catarina, como o engenho de farinha localizado em Santo Antônio de Lisboa, que também realiza a festa da farinhada em parceria com o projeto Roda Engenho.
Desse modo, a esfera acadêmico-científica representada pela Universidade do Estado (UDESC) incorpora em seu calendário a festa da farinhada, tornando-a objeto de pesquisa. Ainda que a prática da farinhada esteja atualmente vinculada ao resgate da memória das comunidades nativas e açorianas, é a relação entre vida e cultura que nesse processo se revigora.
Na Costa da Lagoa a escola, como esfera institucional, participa da farinhada mostrando as produções artísticas dos alunos, seja no campo das artes visuais ou cênicas. A professora Maricota VI (36 anos) conta que
Antes, há alguns anos atrás, a escola era convidada a participar das festas da comunidade,
levando apresentações das crianças,
principalmente nas farinhadas, mas depois isso foi se perdendo com o tempo... Agora o processo da farinhada é retomado e devolvido as mãos de um nativo da comunidade que coordena todo o processo, aos poucos as pessoas das outras vilas começam a participar e a escola está voltando a participar da farinhada como fazíamos no começo, inclusive voltamos a participar dos momentos de preparo da festa como é o caso de irmos com as crianças colher a mandioca e descascar. É muito interessante acompanhar o processo todo, assim faz sentido! (DC2. inverno. 2012)
Reconhecemos no enunciado da professora Maricota VI um movimento de recuos e avanços no encontro entre comunidade e escola, que se posiciona como partícipe na vida cultural da comunidade, como se pode comprovar pela foto da Figura 10, que segue abaixo. Essa integração não ocorreu a esmo, sem dúvida é resultado do esforço coletivo na busca por um currículo ancorado nas manifestações da cultura local, basilar para as relações entre ensino e aprendizagem, conforme já demonstramos no subitem que trata da pedagogia da escola. Figura 10 - Crianças da Escola no Engenho da Comunidade. Verão. 2011
Fonte: Acervo da Escola