CAPÍTULO 1 – DA COMUNICAÇÃO DE MASSA À CONTRA-HEGEMONIA
1.5 Fora da ordem: sindical, alternativo e basista
Conforme a periodização proposta por Habermas e analisada por Marcondes Filho (2002), desde a primeira fase do jornalismo havia manifestações da “imprensa sindical ou partidária”. Para o autor, esse tipo de imprensa não acompanhava o noticiário diário e superficial da imprensa comercial, e se voltava assim para um tipo de veículo de “persuasão, doutrinação e confirmação de ideias”.
Esse tipo de imprensa também se desenvolveu na América Latina e no Brasil. Inúmeros jornais de categorias profissionais e grupos anarquistas circularam nas fábricas em todo o território nacional. Giannotti levanta que cerca de 500 publicações operárias existiram de 1858 (ano em circula o primeiro deles, o Jornal dos Tipógrafos) até 1930.
Podemos dizer que a imprensa anarquista desse período cumpriu o papel de uma imprensa política. Uma imprensa ideológica alternativa. Uma imprensa que se colocava contrária à visão dominante da burguesia liberal da época. Como não havia partidos políticos de esquerda até 1922, quando nasce o Partido Comunista, era essa imprensa operária anarquista que exercia o papel de imprensa política alternativa (GIANNOTTI, 2007, p. 79).
Esse tipo de imprensa – identificada como operária ou sindical – remonta à ideia de Lênin de atuação para a conscientização, educação, propaganda e agitação política, com vistas a ser um organizador coletivo.
Com o objetivo de se contrapor à imprensa produzida pela classe dominante como instrumento de dominação, a imprensa operária vai buscar disputar espaço nas mentes e corações dos trabalhadores. A disputa não é pela informação, pois não na maioria das vezes não há estrutura para alcançar rapidez na aquisição de informação […] Entretanto, é possível, a partir das informações da grande imprensa, que entidades sindicais as interpretem e apresentem para os trabalhadores com sua própria visão dos fatos, mostrando a manipulação da mídia e apontando uma perspectiva do olhar da própria classe sobre a informação (COSTA, 2010, p. 16).
Costa, amparada em Araújo6, coloca seis pressupostos para que uma comunicação se classifique como sindical: a existência de interlocutores da classe ou da estrutura institucional; a mediação profissional na produção de mensagens; o conteúdo deve repercutir os interesses imediatos dos trabalhadores; a imprensa deve estar ligada a uma ação estratégica; deve dar contornos gerais aos fragmentos das lutas específicas e admitir a diferença entre linguagem e discurso. Esse tipo de imprensa existiu desde o século XIX e segue atuante no cenário atual, com diferentes fases, de acordo com o momento político, que não é o caso de destrinchar aqui.
Como se pôde observar, há confusão entre os termos “sindical”, “operária”, “partidária” e “alternativa”. Como os meios de comunicação produzidos por organizações ou grupos de trabalhadores fogem à lógica da imprensa hegemônica, há uma tendência em agrupar todas essas produções sob o rótulo de “alternativo”.
No entanto, esse termo tem também sua especificidade. Está ligado a um tipo de jornalismo produzido em contraposição a contextos de censura e repressão política, como resistência a um autoritarismo de Estado. Na América Latina, está identificada com as produções de combate às ditaduras civis-militares da segunda metade do século XX, mas também tem sua origem antes disso.
Kucinski (1991) pesquisa jornais alternativos produzidos durante a ditadura no Brasil e explica que o fenômeno é anterior a esse momento:
Apesar de complexo, o fenômeno alternativo teve contornos nítidos no tempo, como outros surtos da história do nosso jornalismo, entre os quais o dos pasquins irreverentes e panfletários do período da Regência, que atingiu seu apogeu em 1830, com cerca de cinquenta títulos, e o dos jornais anarquistas de operários, meio século depois (1880-1920), com quase quatrocentos títulos. Nos três casos, pequenos jornais sem fins mercantis, produzidos precariamente, às vezes por um homem só, como eram muitos pasquins, dirigiam-se à sociedade civil e às classes subalternas criticando o Estado e propondo mudanças. A imprensa alternativa dos anos 70 pode ser vista, no seu conjunto, como sucessora da imprensa panfletária dos pasquins e da imprensa anarquista, na função social de criação de um espaço público reflexo, contra-hegemônico (KUCISNKI, 1991, p. 21).
Caparelli (1986) identifica que foram usados os termos “nanica” e “política” para definir esse tipo de imprensa, mas considera “alternativa” a conceituação mais correta:
É um dos termos mais apropriados, principalmente porque esse conceito sugere
6ARAÚJO, Silvia Pereira de. Imprensa sindical: instrumento de ação e objeto de conhecimento – 1976 a
1990. ( Doutorado em Comunicação Social) . Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, 1991.
imediatamente referência ao contexto de seu aparecimento. Alternativa indica uma relação com outro, um alter que chama a si os que se desviam de um caminho inicial, no caso, a imprensa tradicional. Aqui, alternativa poderia ser do ponto de vista do produtor, que, não contente com a imprensa tradicional, se propõe elaborar ele mesmo seu produto. Ou do leitor, que no mercado capitalista das ideias, tem opção a uma maior diversidade de conteúdos, fugindo ao monopólio dos grandes grupos que reforçam o status quo (CAPARELLI, 1986, p. 45).
O autor apresenta um documento do Centro de Informações do Exército Brasileiro, da década de 1970, que busca também fazer uma conceituação do termo imprensa alternativa, levantando suas características a apontando sugestões para “coibir a atividade nefasta da imprensa nanica contestatória” (CAPARELLI, 1986, p. 116). Este exemplo reforça o entendimento que o termo “imprensa alternativa” possui, no caso brasileiro, uma ligação direta com a ditadura civil-militar.
Kucinski (1991, p. 13) destaca que “nasceram e morreram cerca de 150 periódicos que tinham como traço a oposição intransigente ao regime militar”. Ele propõe quatro elementos principais para caracterizar a imprensa alternativa:
[...] o de algo que não está ligado a políticas dominantes; o de uma opção entre duas coisas reciprocamente excludentes; o de única saída para uma situação difícil e, finalmente, o do desejo das gerações dos anos 60 e 70 de protagonizar as transformações sociais que pregavam (Idem).
O autor resgata os principais jornais em circulação no período e levanta questões para situar esse tipo de imprensa em seu contexto histórico específico. Um elemento fundamental é que esses jornais tinham a intenção de dialogar com a sociedade como um todo, fazendo frente à grande imprensa, depois de terem sido fechadas as portas para a atuação profissional dos jornalistas críticos.
Havia um tensionamento político forte, fazendo que projetos concebidos inicialmente do ponto de vista jornalístico fossem disputados e apropriados por partidos políticos, e outros que já começaram vinculados diretamente a alguma organização. Em comum, repudiavam não só a ditadura, mas também o capitalismo, fazendo com que os empreendimentos sofressem de despreparo empresarial.
Apesar de ter tido seu período auge durante a ditadura, o autor aponta que ela não “foi a única razão de ser da imprensa alternativa” (KUCINSKI, 1991: XXV) . Esses jornais comungavam com o ideal de construção de uma “contra-hegemonia ideológica”, para além de uma resistência conjuntural. Cada um por um motivo, os jornais desse período foram fechando suas portas, pouco a pouco. Com a abertura do aparato repressivo e por fim com a
redemocratização do país, um novo momento político é inaugurado, sinalizando o fim das “grandes manifestações de utopia”, como classifica o autor.
Além desses grandes empreendimentos de jornais alternativos, dos jornais anarquistas e da imprensa sindical, há outro tipo de comunicação presente durante todo esse período, denominada ora como “comunitária”, “alternativos basistas” ou como “comunicação popular”.
“Alternativo basista” é o termo escolhido por Kucinski para tratar de experiências de jornalismo ligadas aos movimentos de base, articulados em torno de lutas específicas e de alcance regional, a partir da década de 1970, potencializados pelo trabalho das Comunidades Eclesiais de Base (CEB's), de uma parte da Igreja católica atuante sob a perspectiva da Teologia da Libertação7.
Surgiram desses movimentos de base várias centenas de jornais, boletins e folhetins populares, apesar do agrafismo das populações pobres e da inexistência de uma tradição de imprensa comunitária no Brasil. A maioria desses veículos sequer podiam ser classificados de jornais por sua precária materialidade. Eram boletins ou folhas xerografadas ou mimeografadas, com tiragens diminutas, com pouca agregação de trabalho jornalístico. Não expressavam uma articulação jornalística – eram apenas difusores de uma ou outra articulação de base (KUCINSKI, 1991, p. 97).
Segundo o autor, esse tipo de instrumento atraía principalmente jornalistas jovens, em busca de trabalho e que se articulavam em torno de um movimento de base, fazendo do jornal a própria forma de atuação política. Ele classifica esses empreendimentos de jornalismo basista como fruto da vontade de autorrealização de seus protagonistas, atendendo em segunda medida à necessidade de expressão dos movimentos populares. “É o fracasso dessa alternativa, mais do que o de qualquer outro, que aponta para o encerramento da possibilidade de uma imprensa alternativa”. (idem: 104).
No entanto, é necessário aprofundar a discussão sobre a comunicação popular, que, no nosso entender, não se resume às experiências descritas acima.