1.2 Arranjos Produtivos Locais
1.2.1 Dinâmica tecnológica das empresas inseridas em APLs
1.2.1.1 Formas de conhecimento e mecanismos de aprendizagem
O conhecimento tem-se tornado fator chave para o desenvolvimento econômico das empresas, regiões e países. Nesse sentido, uma das principais vantagens locacionais presentes nos arranjos produtivos locais refere-se às oportunidades geradas em termos de realização de atividades inovativas pelas empresas inseridas, que se capacitam via aprendizado interativo20.
De acordo com Vargas (2002, p.20b), o processo de aprendizado consiste no “uso de informações e a geração e difusão de conhecimentos (tácitos ou codificados), constituindo-se numa atividade coletiva que integra a experiência de indivíduos e organizações”21. Assim,
para a construção de vantagens competitivas dinâmicas, “o que realmente importa [...] é a habilidade para o aprendizado [...] e não o estoque de conhecimento” (p.16), visto que o “aprendizado é o mecanismo chave para o processo de acumulação de conhecimento” (p.27).
Por sua vez, Malerba (1992) aponta que o aprendizado possui um caráter path
dependence, ocorrendo de forma cumulativa e incremental – a partir de conhecimentos
disponíveis ou anteriormente gerados, acumulados e absorvidos pela firma. Dessa forma, o estoque de conhecimento consiste no principal determinante de suas trajetórias tecnológicas,
20 Entende-se como inovação toda mudança técnica realizada pela empresa, podendo ou não ser inédita para o
mercado, seja esta referente ao processo produtivo, à introdução de novos produtos ou no âmbito organizacional da firma. As inovações subdividem-se em inovações radicais, inovações incrementais, mudanças no sistema tecnológico e alterações no paradigma tecno-econômico (FREEMAN e PEREZ, 1988).
21 Num outro conceito apresentado por Dodgson (1996 apud VARGAS, 2002b, p.27), aprendizado é “a forma
pela qual as firmas constroem, suplementam e organizam conhecimentos e rotinas em torno de competências e cultura inerentes, ao mesmo tempo em que adaptam e desenvolvem sua eficiência organizacional através da melhoria destas competências”.
que é determinada, em última instância, pelo paradigma tecnológico vigente no setor produtivo em questão. Nesse particular, entende-se como paradigma tecnológico o padrão de solução para problemas técnico-econômicos selecionados, sendo responsável pela definição das oportunidades inovativas, bem como pela forma de explorá-las (DOSI, 1988b).
O conhecimento acumulado pode ser de natureza tácita ou codificada. O conhecimento tácito é aquele que está incorporado e mal definido dentro dos indivíduos, adquirido através da experiência, não podendo ser codificado ou publicado e, portanto, sua transferência é extremamente difícil. Assim, quanto maior for a tacitividade do conhecimento, maior a importância da proximidade territorial e dos mecanismos informais de transmissão de informações entre os agentes. Nesse aspecto, Vargas (2002, p.34) apresenta quatro tipos distintos de conhecimento:
(i) know-what: refere-se ao conhecimento sobre fatos e pode ser chamado de informação no sentido de que é facilmente divisível e armazenável; (ii) know-why: refere-se ao conhecimento científico sobre princípios e leis naturais, sociais ou morais e pode ser organizado, produzido e reproduzido por instituições, como universidades; (iii) know-how: refere-se às capacitações que permitem fazer algo e pode ou não estar vinculado com um processo de produção e tende a se desenvolver e manter internamente nas empresas e (iv) know-who: refere-se a um conjunto de diferentes qualificações, inclusive aquelas de natureza social, e envolve um tipo de informação sobre “quem sabe o que” e “quem sabe como fazer o que”, permitindo um uso eficiente do conhecimento na sociedade.
A obtenção do conhecimento, portanto, está vinculada a canais de aquisição e mecanismos de aprendizagem distintos. Nesses termos, Malerba (1992) apresentou uma taxonomia sobre as variedades do processo de aprendizado. Dentre as formas de aprendizado que podem ocorrer no interior da firma, têm-se: (i) learning by doing (aprender fazendo) - processo informal, relacionado com o conhecimento tácito adquirido através da realização de atividades produtivas; (ii) learning by using (aprender usando) – também informal e ligado ao uso de produtos, maquinário e insumos; (iii) learning by searching (aprendizado através de pesquisa) - baseado na busca interna de conhecimento, realizada via atividades formais direcionadas para geração de conhecimento, como as atividades de P&D. Em relação às fontes externas de conhecimento têm-se: (iv) aprendizado vinculado ao avanço da ciência e tecnologia – que é a absorção, pela firma, de novos conhecimentos científicos e tecnológicos; (v) aprendizado via spillovers intraindustrial – relacionado a absorção de conhecimento gerado por concorrentes localizadas próximas ou não; (vi) learning by interacting (aprendizado por interação) – no qual o processo de aprendizado ocorre a partir da interação e/ou cooperação com fornecedores, clientes finais e outras firmas da mesma indústria. Nesse aspecto, as categorias know-what e know-why são mais facilmente codificados e, assim,
transferíveis através de publicações, aulas, entre outros meios, em comparação aos conhecimentos do tipo know-how e know-who.
Sendo assim, a concentração setorial de empresas torna-se fundamental para a última forma de aprendizado referenciada, tendo em vista que a proximidade entre os agentes é pré- requisito, tanto para o spillover do conhecimento tácito, como para existência de especificidades necessárias para seu acontecimento. Acerca desse ponto, Vargas (2002b) aponta que o aprendizado por interação tem cinco características principais: (a) pressupõe a existência de fluxo sistemático de informações e, logo, também de canais de comunicações e códigos comuns que viabilizem a troca de informações; (b) remete ao estabelecimento de relações de confiança; (c) requer a existência de incentivos ao fortalecimento dos vínculos entre os agentes; (d) requer um horizonte temporal para consolidação desses vínculos (confiança, interação, estabelecimentos de códigos comuns, etc) e (e) consolidados os processos de interação e cooperação, constitui-se um espaço de aprendizado que tende a se auto-reforçar.
É importante ressaltar que, nesse processo de busca tecnológica22, as firmas alteram
suas condutas a cada avaliação do seu desempenho (seleção) e a habilidade de aprender se expressa na sua capacidade em adaptar-se a novas situações, a partir da incorporação de novas rotinas. No âmbito empresarial, rotina é definida como uma “capacidade factível para um desempenho repetido em algum contexto que foi aprendido pela organização em resposta a pressões seletivas” (COHEN et al., 1996 apud BINOTTO, 2000). Assim, as rotinas são as características de comportamento que as firmas assumem a partir de experiência e aprendizado acumulado ao longo das suas operações produtivas, organizacionais e de pesquisa, bem como de comercialização com clientes e fornecedores e interação com concorrentes, consistindo num estoque de conhecimento operacional da empresa. Como são formas de memória empresarial, fazem parte das habilidades de algumas pessoas dentro das empresas e, então, as rotinas têm caráter extremamente tácito (DOSI, 1988b).
Nesse processo, as assimetrias entre firmas existem porque a disponibilidade de conhecimento e informações não garante seu acesso universal, pois a utilização dos mesmos depende da capacidade de aprender dos potenciais usuários, que é, certamente, altamente distinta. Conforme Dosi (1988b), a assimetria tecnológica pode ser entendida como as diferença em termos de grau de acumulação e de capacidade de absorção tecnológica, no
22 Entende-se como busca tecnológica, os procedimentos realizados pelos agentes no intuito de descobrir
soluções de problemas técnicos. Por sua vez, esses procedimentos serão diferentes conforme o paradigma tecnológico envolvido, que possui padrões de soluções e oportunidades tecnológicas específicos. Uma análise dessas diferenças setoriais que determinam as condutas serão apresentadas no item 1.2.1.2.
sentido de maior ou menor eficiência da empresa no processo de busca inovativa. Portanto, assim como há um grande hiato entre as economias desenvolvidas e as subdesenvolvidas quanto a inserção na economia do conhecimento, existe também uma grande assimetria tecnológica entre firmas de um mesmo setor, especialmente no caso dos setores onde há possibilidade de atuação de MPEs (VARGAS, 2002b).
Dessa forma, é preciso criar espaços de aprendizado interativo, que podem ser implementados a partir de diversos tipos de organizações formais ou redes de pesquisa. Ademais, a característica de tacitividade do conhecimento tem implicações para o aumento da importância das aglomerações como espaços de aprendizagem, uma vez que a concentração de empresas estimula os processos learning by doing, learning by using e learning by
interacting. As práticas de learning by searching, por exemplo, realizadas pelas firmas de
maior porte, geram conhecimentos que, passado algum tempo, acabam difundidos no local e desencadeiam inovações nas MPEs a partir de práticas imitativas (BELL e ALBU, 1999; VARGAS, 2002b).
Vale ressaltar que o contexto organizacional e institucional no arranjo tem grande influência para estimular ou restringir a difusão de conhecimentos tácitos nesses locais. Por outro lado, a existência de uma infra-estrutura de ensino e tecnologia não é suficiente para assegurar o dinamismo tecnológico de um APL ou para reduzir as incertezas inerentes ao processo inovativo. Assim, assume relevância, dentre os diversos mecanismos de difusão tecnológica, a interação das empresas com os institutos de pesquisa, universidades e centros de capacitação profissional. Cabe explicitar que essa interação não ocorre de forma natural, em virtude das divergências entre os objetivos que levam os atores, do meio acadêmico e do empresarial, à busca de conhecimentos. Contudo, os valores acadêmicos tem, cada vez mais, direcionado “os trabalhos em desenvolvimento para a geração de tecnologias passíveis de
aproveitamento e de comercialização junto ao setor privado” (CASSIOLATO, 1996, p.31)23.
Um fator recente, que tem contribuído para a interação universidade-empresa consiste na diminuição da especialização do conhecimento em detrimento da relevância do caráter interdisciplinar das competências científicas e tecnológicas. Através da interpenetração de diferentes campos do conhecimento científico, essa tendência tem sido manifestada diante da emergência de inovações sistêmicas, baseada na integração de diversos serviços e tecnologias, além da maior interação entre produtor e usuário. Nesse aspecto, a interação entre
23 Do lado das universidades, essa mudança tem também como objetivo obter recursos junto ao setor privado
para financiar as atividades de pesquisa, além de possibilitar, através dessa aproximação, a adaptação dos currículos acadêmicos às necessidades de mercado.
universidade-indústria tende a ser maior se a inovação pretendida é de cunho radical e, portanto, ocorre mais frequentemente com empresas pertencentes a setores que estão na fronteira tecnológica. No caso de inovações incrementais, o meio acadêmico também é importante fonte de contribuição, mais especificamente, na resolução de problemas práticos de produção, prestação de serviços técnicos, qualificação de recursos humanos e acesso, pelas firmas, as fontes de informações das instituições acadêmicas.