3.1 Revisão Bibliográfica
3.1.1 O fenómeno do fogo
3.1.1.3 Frequência, severidade e intensidade do fogo
Muitos dos impactes referidos anteriormente de um modo sumário e outros, decorrentes dos incêndios, são influenciados pela frequência, severidade e intensidade dos fogos que lhes dão origem. As referidas variáveis são utilizadas para descrever os regimes de fogo, sendo este conceito referente à natureza dos fogos que ocorrem durante um intervalo de tempo longo, pelo menos na ordem de algumas décadas, assim como aos seus efeitos mais proeminentes, que caracterizam um determinado ecossistema ou tipo de coberto vegetal e uso do solo (Brown, 2000, citado por Pereira et al., 2006), ou seja o regime do fogo compreende a globalidade dos aspectos ligados ao comportamento do fogo numa dada região ou ecossistema
(Agee, 1993).
Segundo Shakesby e Doerr (2006), a frequência (número de fogos por unidade de tempo) com que se dá um incêndio varia largamente consoante o tipo de coberto vegetal e o clima, podendo o período de retorno variar entre 6 000 anos no caso das florestas temperadas europeias e menos de 50 anos no caso das florestas constituídas por eucaliptal, localizadas no Sudeste da Austrália (Wheelan, 1995, citado por Shakesby e Doerr, 2006); a frequência funciona como uma força selectiva importante quando a duração de vida das árvores excede o período de retorno do fogo, sendo que as espécies incapazes de lhe sobreviver ou de se reproduzirem após a sua ocorrência extinguir-se-ão (Fernandes et al., 2005). Os períodos de retorno para além de serem influenciados pelos factores climáticos, são mais recentemente afectados pela acção humana, conduzindo ao incremento do número de ignições e alterando de um modo directo a carga combustível e suas características.
Na Europa, por exemplo, as práticas de exploração intensiva a longo prazo levaram à produção de uma mescla de espécies florestais, arbustivas e de cultivo, com as suas espécies a possuírem uma fraca relação comparativamente aos padrões existentes inicialmente, resultando em consequência numa carga combustível também bastante distinta. Deste modo, a frequência e o comportamento actual dos fogos estão longe da situação “natural”, sendo apontados alguns factores para tal divergência. Um desses factores é o despovoamento rural, resultando este comportamento migratório num aumento da carga combustível, decorrente do abandono de determinadas actividades agro-florestais. Inicialmente a carga combustível era reduzida, em determinadas regiões da Europa, devido ao desbaste florestal e ao pastoreio animal (Shakesby e Doerr, 2006).
Outro factor conducente à alteração da frequência é a introdução de espécies arbóreas altamente inflamáveis (nomeadamente pinheiro e eucalipto), levando ao aumento da incidência dos fogos florestais. Associada à tendência contrária (menor frequência) está a aplicação de práticas de supressão/extinção de fogo, levando ao incremento artificial da quantidade de combustível presente em determinadas áreas para níveis considerados elevados, tendo como resultado, e apesar da menor frequência, fogos de maior dimensão e grau de severidade (Allen
et al., 2002).
A severidade do fogo representa uma medida qualitativa dos efeitos do fogo sobre o solo e os recursos locais que influenciam os diversos ecossistemas (Hartford e Frandsen, 1992, citado por Neary et al., 1999), sendo normalmente classificada de acordo com o grau de destruição da biomassa existente acima do solo (Shakesby e Doerr, 2006). Esta depende de diversos parâmetros, como a intensidade, duração (período de tempo durante o qual a queima ocorre num determinado ponto), carga de combustível, tipo de combustível e grau de oxidação, declive e topografia, textura do solo e humidade, teor de matéria orgânica existente no solo, tempo desde a última ocorrência, assim como da área ardida, entre muitos outros factores. Embora seja importante classificar a severidade de um determinado fogo, com o objectivo de melhor se compreender os impactes hidrológicos ou outros, torna-se relevante mencionar que
as classificações de severidade do fogo nem sempre são explanatórias de algumas alterações críticas, no que concerne a tais impactes (Shakesby e Doerr, 2006).
Um exemplo do tipo de classificação referida é a classificação proposta por Parsons (2003), em que são consideradas quatro classes distintas de severidade, estando esta classificação direccionada para documentar como as alterações nas propriedades do solo afectam as funções hidrológicas, a partir das evidências verificadas relativamente a alterações nas características do solo e/ou consumo do combustível existente à superfície (matéria vegetal). As narrativas associadas a cada uma das classes descritivas encontram-se enunciadas no Anexo I.
Por sua vez o termo intensidade refere-se à taxa a que a energia térmica é produzida face às condições em que se dá a combustão (Parsons, 2003; Neary et al., 2003; Shakesby e Doerr, 2006), constituindo um factor preponderante no que concerne à classificação da severidade do fogo (Neary et al., 1999). A intensidade pode ser medida em termos da temperatura ou do calor libertado, podendo a temperatura variar entre 50 ºC e 1500 ºC, e a quantidade de calor libertado situar-se entre os 2,1 kJ/kg e os 2100 kJ/kg, sendo a severidade directamente proporcional à intensidade. A taxa de propagação do fogo pode variar entre 0,5 m/semana (fogo em profundidade) e 6-7 km/h (grandes fogos florestais), condicionando, a par da intensidade, a severidade. No Quadro 6 dá-se um exemplo encontrado na literatura relativo à intensidade do fogo e sua relação com a severidade, para uma floresta constituída maioritariamente por eucalipto.
Quadro 6 - Intensidade do fogo e sua relação com a severidade para uma floresta tendo como espécie
dominante o eucalipto. Intensidade (kW.m-1) Altura máxima das chamas (m)
Severidade Características da vegetação após o fogo
≤500 1,5 Baixa
Apenas o combustível junto à superfície sofre combustão assim como os arbustos com altura inferior a 2m
501 – 3000 5,0 Moderada
É consumido todo o combustível à superfície e também vegetação arbustiva com altura inferior a 4 m
3001 – 7000 10,0 Alta
É consumido todo o combustível presente à superfície e a vegetação arbustiva, assim como as copas das árvores mais baixas (<10 m)
7001 – 70000 10 – 30 Muito Alta
Toda a vegetação verde, incluindo as copas das árvores (até 30 m) e a vegetação lenhosa com diâmetro <5 mm é consumida
70001 - 100000 20 – 40 Extrema Toda a vegetação verde e lenhosa de diâmetro inferior a 10 mm é consumida Fonte: Shakesby e Doerr (2006)