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Trânsitos, fronteiras e ordenamentos transnacionais da intimidade

2. Fronteiras da identidade e políticas da intimidade

Quando se discutem mobilidades transnacionais, as fronteiras surgem, inevitavelmente, como uma dimensão de análise incontornável. Refere-se, propositadamente, o termo no plural, pois a circulação internacional de pessoas, bens, capital, informação, imagens não interpelam apenas fronteiras político-administrativas. Interpelam também fronteiras de “raça” e etnicidade, de cidadania, de classe, de género, etno-sexuais, entre outras. Além desta sua considerável multiplicidade, importa ainda ter em atenção que nem todas as pessoas que interagem num mesmo espaço transnacional, como é o caso daquele que aqui se toma como referência empírica, têm o mesmo estatuto perante as mesmas fronteiras e as constroem subjectivamente, ou com elas se relacionam, de igual forma. A origem geográfica, a nacionalidade o género, a classe social, a etnicidade são alguns dos principais elementos que configuram a condição de cada qual face às fronteiras e o modo como elas são percepcionadas.

Comecemos por situar a discussão no contexto mais imediato das fronteiras político-administrativas. Erguidas como obstáculos quase intransponíveis para cidadãos pobres, mestiços e/ou pertencentes a minorias étnicas, elas, ao mesmo tempo, são

dissipadas para os cidadãos de nacionalidades e classes mais privilegiadas, e para interesses económicos que, em muitos casos, ameaçam a própria soberania dos Estados (Alvarez 1995)68. A sua permeabilidade selectiva – tal qual uma membrana que identifica, classifica, filtra (Kearney 2004b) e só deixa passar o que quer e quem quer – expressa, deste modo, profundas assimetrias materiais e simbólicas (Cunningham e Heyman, 2004) que introduzem e/ou reforçam hierarquias nos fluxos e conexões transnacionais. Aliás, esta situação é particularmente evidente se compararmos o turismo e as migrações: de um modo geral, a mobilidade turística é desejada e as fronteiras desvanecem-se; ao passo que os movimentos migratórios tendem a ser vistos como uma ameça nos contextos de acolhimento e, por isso, são sujeitos a fronteiras praticamente intransponíveis. Ancorados em diferentes “regimes de mobilidade” (Schiller e Salazar 2013), os fluxos de turistas e de imigrantes entre a Europa e o Brasil têm subjacente esta assimetria de fluidez. Os homens europeus que vão passar as suas férias a Natal encontram um país que os deseja (acima de tudo enquanto portadores de capital e, por isso, potenciais consumidores), e lhes abre completamente as portas. Em sentido inverso, as mulheres que com eles se relacionam e que procuram entrar na Europa, por vezes só para uma estadia relativamente curta (mais turística que migratória), são confrontadas com uma autêntica fortaleza69 que, não as conotando com o perfil social dos nómadas desejados, ainda que delas precise como força de trabalho barata e multi-funcional (Ehrenreich e Hochschild 2002), contraditória e dificilmente lhes abre as portas.

Os turistas usufruem de uma liberdade de circulação, protecção e demais direitos que os tornam em cidadãos privilegiados quando comparados com outros “nómadas globais”, tais como migrantes de países pobres, dissidentes políticos e pessoas que requerem asilo (Aas 2007: 295). É precisamente considerando a maior fluidez e transitoriedade das mobilidades no contexto do turismo que ele tende a ser visto como o paradigma de um mundo em movimento (Franklin 2003a). O reverso da medalha serão as                                                                                                                

68 Como é destacado por Heyman (1994), o capital é mais flexível e móvel que os direitos residenciais. Esta

assimetria é referenciada por Sparke (2006) como uma das principais evidências do “nexo neoliberal”, que procura conjugar formas securitárias de nacionalismo e amplas manifestações globais de mercado livre. Daqui resulta o que Davis (2008) designa por “grande muro do capital”, responsável pela segregação da população pobre dos países pobres.

69 Com bastante frequência, como se poderá constatar detalhadamente mais adiante, ainda antes da sua saída

do Brasil, a maioria destas mulheres já tem algumas noções sobre a austeridade da fronteira externa europeia, o que lhes suscita inúmeras indefinições, angústias e temores quando são confrontadas com a possibilidade de viajar e empreender um projecto migratório. Estes conhecimentos e receios vão sendo construídos por via da absorção de alguma informação mediática e, acima de tudo, através das conversas mantidas com compatriotas que já estiveram na Europa e/ou com os turistas que vão conhecendo em Ponta Negra. Ao contrário destes, elas deparam-se com a fronteira antes mesmo de a ela se submeterem fisicamente.

migrações. Considerados em conjunto, ambos os fluxos exprimem os contrastes induzidos pela permeabilidade selectiva das fronteiras nacionais, uma situação que Cunningham (2004) traduz, de forma assertiva, através da expressão gated globe. Esta ideia, mais que a imagem de um mundo fluido a transbordar de conexões, sinaliza a necessidade de ter sempre presente a dimensão política na reflexão sobre a mobilidade: “ela não é neutra e revela formas de poder, controle, monitoramento e vigilância, devendo ser lida como potência e performance. […] esta potência varia de acordo com o indivíduo ou grupo social, segundo estruturas de poder” (Lemos 2009: 29). No entender de Werbner (1999: 18), esta reflexão política esbate-se nas metáforas da fluidez, do hibridismo e da dupla consciência70: “[…] the celebration of hybridity, in-betweenness or double consciousness by diasporic poets, artists and intellectuals proves to be a self-interested strategy, divorced from working class migrants’ (or indigenous people’s) predicaments and concerns”.

Embora se esteja numa época em que muitas das manifestações da vida social, como já disse, extravasam os limites do Estado-nação, as suas fronteiras continuam, todavia, bastante fortes (Mapril 2008a). Talvez até mais musculadas e omnipresentes que em qualquer outro período da história, sobretudo quando o que está em causa são as migrações de cidadãos pobres e pouco qualificados dos países do Sul. A figura do Estado- nação continua, assim, a desempenhar uma função incontornável na estruturação, regulação e controlo dos fluxos internacionais. É mesmo pouco provável, como notam Levitt e Jaworsky (2007), que perca relevância num futuro próximo. Entretanto, continuará, certamente, a participar como elemento-chave de um jogo ambíguo de abertura e fechamento, condicionando o volume e composição dos diferentes fluxos que interceptam as suas fronteiras. O resultado é um sistema configurado com base na qualificação e selecção dos trânsitos e na coexistência da circulação com a restrição à mobilidade. Neste sistema, uns estão em constante movimento e outros vêem apenas o mundo movimentar-se à sua volta (Bauman 1998). No entender de Friedman (2002), considerando que a esmagadora maioria das pessoas integra as “massas sedentárias”, as                                                                                                                

70 No contexto transatlântico, em especial no espaço anglófono, uma das mais conhecidas é a metáfora do

“Atlântico negro”, uma expressão heurística usada por Gilroy (2001) para dar conta da diáspora das comunidades negras entre os dois lados do Atlântico e a consequente emergência de manifestações culturais em constante circulação e metamorfose, que foram criando estruturas identitárias e sentimentos de pertença trans-territoriais, permeados por uma “dupla consciência”, “[…] decorrente da situação de ser interno e ao mesmo tempo externo ao Ocidente […]” (idem: 84). Partindo das ideias de Gilroy e procurando analisar criticamente os alegados hibridismos da chamada lusofonia, Almeida (2002: 29-30) propõe em alternativa, com algum sentido irónico, a metáfora do “Atlântico pardo”, que utiliza “[...] para designar o mundo criado durante o império português, ou, mais exactamente, a narrativa hegemónica mais vasta do suposto projecto de miscigenação português, a sua suposta actualização na construção do Brasil e o seu falhanço (apesar de discursos a contrario) em África”. Veja-se, ainda, Bastos (1998).

metáforas de um mundo em movimento são exageradas, devendo, por isso, ser sempre submetidas a exame crítico. Diz mesmo que muitos dos discursos sobre transnacionalismo não tem grande fundamentação científica e se inscrevem, acima de tudo, numa agenda ideológica elitista.

As fronteiras administrativas que facilitam a circulação de turistas, capital, tecnologia e imagens, exercem ao mesmo tempo um obstinado “dromocontrole” sobre amplas categorias sociais de nómadas (Justo e Rocha 2006), com o objectivo de bloquear a constituição de “ethnoscapes” tidos como indesejados. Através dos sofisticados meios tecnológicos, nomeadamente os que têm permitido a criação de “fronteiras digitais” (Broeders 2007), os Estados são agora mais capazes de controlar os fluxos transnacionais que no passado71. A sua capacidade de controlo tem vindo a assumir uma extraordinária flexibilidade e abrangência, permitindo a vigilância das delimitações fronteiriças propriamente ditas, a monitorização interna de cidadãos estrangeiros e o “controlo remoto” (Zolberg 2003) dos potenciais imigrantes nos seus contextos de origem ou em países de trânsito migratório. Está, assim, em curso a construção de fronteiras desterritorializadas e panópticas, que não se limitam à regulação dos fluxos nos perímetros dos Estados e se estendem, de modo difuso e metafísico, para o seu interior e exterior, fazendo do controlo uma operação virtualmente omnipresente.

Apesar da extensa blindagem fronteiriça imposta pelos países mais prósperos no cenário mundial, os actores sociais engendram, frequentemente, “contra-estratégias” (Broeders e Engbersen 2007) que, por vezes, lhes permitem ludibriar a rigorosa fiscalização a que estão sujeitos e/ou enquadrar-se nos critérios definidos para a aceitação da sua mobilidade e permanência num determinado espaço nacional. Os relacionamentos e matrimónios entre mulheres natalenses e turistas da Europa podem ser tomados como exemplo de um quadro social que permite às primeiras entrar na fortaleza europeia. Isto não significa, todavia, que se trate necessariamente de um simples arranjo instrumental(izado) para lhes assegurar a permissão de entrada e estadia na Europa. Como                                                                                                                

71 A aparente ineficácia de regulação destes fluxos reside no mito de uma soberania perfeita que nunca

existiu (Nieuwenhuys e Pécoud 2007). Na última década, com as ameaças terroristas e a emergência de riscos globais (Beck 2002b), a “domopolítica” (vigilância e controlo das mobilidades para a manutenção da segurança interna) tem vindo a constituir-se como uma das grandes prioridades dos Estados (Walters 2004). Uma consequência imediata é a implementação, por parte dos países ricos, de políticas migratórias cada vez mais restritivas, assentes quase sempre num quadro ideológico em que os imigrantes pobres tendem a ser vistos como “folk devils” (Saux 2007) e “inimigos públicos” (Broeders, 2007). Foi esta visão, certamente, que motivou o Governo Sarkozy, no Verão de 2010, a expulsar várias comunidades ciganas de França, responsabilizando-as de modo infundado por muitos dos problemas do país, em particular os mais relacionados com a criminalidade e a insegurança.

veremos, nem todos esses relacionamentos remetem, linearmente, para um processo de “selling sex for visas” (Brennan 2002), ou representam situações de “casar com o passaporte” (Grassi 2006).

Os fluxos que ocorrem no âmbito do turismo e das migrações e que geram configurações de intimidade transnacionais não interpelam somente, como já se disse, fronteiras político-administrativas; ou, dito de outro modo, o cruzamento destas poderá representar, ao mesmo tempo, a porta de entrada para a intersecção e eventual esbatimento de outras fronteiras, com formatos e sistemas de tipificação diversos72. Destacam-se, desde logo, dois conjuntos bastante próximos e articulados de fronteiras: fronteiras simbólicas e fronteiras sociais. Vejamos as suas especificidades e convergências, de acordo com Lamont e Molnár (2002: 168-169):

Symbolic boundaries are conceptual distinctions made by social actors to categorize objects, people, practices, and even time and space. They are tools by which individuals and groups struggle over and come to agree upon definitions of reality. […] Social boundaries are objectified forms of social differences manifested in unequal access to and unequal distribution of resources (material and nonmaterial) and social opportunities. […] Only when symbolic boundaries are widely agreed upon can they take on a constraining character and pattern social interaction in important ways. Moreover, only then can they become social boundaries […]. But symbolic and social boundaries should be viewed as equally real: the former exist at the intersubjective level whereas the latter manifest themselves as groupings of individuals. At the causal level, symbolic boundaries can be thought of as a necessary but insufficient condition for the existence of social boundaries.

Na esteira da abordagem relacional de Barth (1969), pioneira na compreensão da etnicidade como manifestação de oposições identitárias cruzadas entre diferentes grupos, identifica-se, precisamente, este jogo de espelhos e de confrontações como o principal mecanismo de construção de fronteiras simbólicas e sociais e de politização da alteridade (Gupta e Ferguson 1992). Mesmo em esferas como o género e a sexualidade seria este o processo de formulação de sistemas de classificação social e de circunscrição das identidades. Mas é preciso ter em consideração que as fronteiras, sobretudo estas de que agora se fala, tendem a ser porosas e fluidas. Assim, não apenas dividem, como também articulam e suscitam a negociação de identidades, afirmando-se como espaços “in- between” (Bhabha, 1994). Enquanto interstícios de interface cultural ligam indivíduos e grupos diferentes, constituindo potenciais eixos de incidência de hibridismos e de                                                                                                                

72 A língua portuguesa e a generalidade das línguas latinas dispõem apenas do termo fronteira para designar

a diversidade de fronteiras. A língua inglesa, por seu lado, permite a utilização de expressões distintas:

boundaries é, preferencialmente, utilizada para fazer referência às fronteiras simbólicas e sociais e borders para denominar as fronteiras administrativas (Barth 1969, Heyman 1994, Kearney 2004b).

manifestações identitárias transnacionais (v.g. os afro-americanos e os chicanos nos EUA, os afro-baianos no Brasil) que superam categorias rígidas e monolíticas (Alvarez 1995, Lamont e Molnár 2002, Kearney 2004b, Cunha e Cunha 2007).

A perspectiva das fronteiras como demarcações que tanto podem opor como justapor diferenças, seguindo uma lógica mais dicotómica face a um “outro” privilegiado, ou uma lógica mais complexa e difusa face a “outros” (Lamont e Molnár 2002), é incontornável na análise da construção da intimidade em configurações sociais transnacionais. Desde logo, porque os fluxos de pessoas que estão na origem de relacionamentos transnacionais de cariz afectivo-sexual cruzam múltiplas fronteiras, nem sempre convergentes e com diferentes características em termos de plasticidade e permeabilidade, que podem funcionar para os actores sociais (no contexto em causa, turistas europeus e mulheres brasileiras) como factores tendencialmente geradores de atracção, e união ou, em sentido inverso, antagonismo e rejeição. As fronteiras interpeladas, como já se enunciou, são da esfera político-burocrática e de âmbito simbólico. As primeiras delimitam pertenças nacionais e, com base nesse aspecto, tendem a aproximar ou a separar, facilitando ou dificultando mobilidades e contactos. Atrás, a discussão em torno da sua selectividade, mostrou como elas favorecem ou represam o movimento, de acordo com as pessoas em causa (v.g. turistas ou imigrantes; homens ou mulheres) e com a direcção que ele toma (v.g. Europa-Brasil ou o inverso). As fronteiras simbólicas, por seu lado, criam esquemas de classificação da realidade e de demarcação social, podendo, tal como as demais, agregar ou dividir, seja com base na semelhança ou na diferença.

Estas últimas ganham forma a partir de uma multiplicidade articulada de marcadores socialmente construídos, amplamente discutidos pelas ciências sociais, e que se inscrevem num conjunto de conceitos que são centrais para a teoria social: classe, “raça”, etnicidade, género, sexualidade e nacionalidade73. Contudo, na maior parte dos                                                                                                                

73 Desde logo, o conceito de classe, que remonta aos primórdios da sociologia e que, na linha dos postulados

marxistas, tem vindo a ser usado como ferramenta de conceptualização das hierarquias e clivagens sociais, estabelecidas de forma relacional e alicerçadas numa determinada “estrutura de capitais” (económico, cultural, social e simbólico) a que estão associados habitus distintivos (Bourdieu 2007). Também com grande espessura histórica, sobretudo na antropologia, o conceito de “raça”, apesar do seu passado problemático, é agora utilizado para traduzir a categoria homónima do senso comum, por via da qual características fenotípicas (v.g. cor da pele) são apresentadas como indicadores de alteridade (naturalização da cultura) e qualificadas ideologicamente num quadro de políticas de identidade, situando pessoas e grupos numa estrutura de relações de poder assimétricas (Goldstein 1999, 2003, Almeida 2000a, Cunha 2000, Fry 2005, Veissière 2011). A sua discussão tende a convocar o conceito de etnicidade, usado para dar conta das expressões culturais politizadas dos membros de um grupo ou comunidade, através das quais criam coesão interna e, acima de tudo, afirmam as fronteiras da sua

casos, não têm sido debatidos numa perspectiva sistémica, considerando as suas articulações e o modo como, em conjunto, produzem ordenamentos simbólicos e sistemas de diferenciação social. A excepção talvez mais relevante podemos encontrá-la no seio do debate feminista a partir de meados dos anos 90 do século passado, com a tentativa de mostrar que o género está densamente imbricado noutras categorias que importa convocar para a discussão das diferenças sociais (Stolcke 1993, McClintock 1995), desde logo para a discussão das diferenças que pautam as relações entre homens e mulheres. Estas categorias de articulação ou intersecção, incluindo a de género, foram designadas de “interseccionalidades” (McClintock 1995, Brah e Phoenix 2004, Brah 2006). No entender de Piscitelli (2008), elas constituem importantes referências analíticas na compreensão dos processos de inserção das mulheres brasileiras migrantes nos mercados globais do trabalho (incluindo-se aqui a indústria do sexo) e da aliança, designadamente na avaliação da sua capacidade de agência no âmbito das interacções de poder que estabelecem com outros actores sociais. A autora parece conferir especial destaque à nacionalidade, afirmando que “no lugar desigual atribuído ao Brasil no âmbito global, a nacionalidade brasileira, mais do que a cor da pele, confere-lhes essa condição [mulheres de “raça” mestiça ou mulata]. E essa racialização é sexualizada” (Piscitelli 2008: 269).

Na construção da intimidade entre os europeus e as mulheres locais em Ponta Negra são mobilizadas e relacionadas noções por uns e outras enquadráveis nas categorias de intersecção a que venho fazendo referência. Neste processo, a relevância e operacionalidade de cada uma e a forma como se entrecruza com as demais pode                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 identidade face aos “outros” (Barth 1969). As construções sociais de “raça” poderão integrar as manifestações de etnicidade, mas também existir em relativa autonomia, como nota Sansone (2004) para o contexto brasileiro. Quer umas, quer outras, como destacam Anthias e Yuval-Davis (1993), são permeadas e condicionadas por diversas variáveis, entre as quais a classe (Fanon (1989 [1952]) e o género (McClintock 1995), e podem coexistir com a partilha de uma mesma nacionalidade – conjunto de vínculos, desde logo jurídicos, entre os indivíduos e um determinado Estado-Nação. Ainda que com uma nacionalidade comum, cada pessoa poderá revelar diferentes graus de identificação com as narrativas, mais ou menos imaginadas (Anderson 2005), de construção da Nação e expressar diferentes sentimentos de pertença. Todos estes conceitos irão sendo cruzados e articulados em diferentes dimensões de análise do fenómeno aqui em estudo. No vértice desta estrutura tenderá a situar-se o binómio género-sexualidade. O primeiro elemento deste binómio enuncia sistemas de valores contextualmente variáveis e multidimensionais que enformam identidades masculinas e femininas, partindo sempre do princípio que “masculinidade e feminilidade não são sobreponíveis, respectivamente, a homens e mulheres” (Almeida 2004: 155). Enquanto que o corpo, ou melhor o dimorfismo sexual (o sexo biológico) não determina o género, a sexualidade pode ser considerada uma das dimensões centrais da sua constituição; ainda que congregue vários outros elementos não necessariamente com ele relacionados, como é destacado por Weeks (2010: 7-8 ): “[...] sexuality is an historical construction, which brings together a host of different biological and mental possibilities, and cultural forms – gender identity, bodily differences, reproductive capacities, needs, desires, fantasies, erotic practices, institutions and values – which need not be linked together, and in other cultures have not been”. A classe e a etnicidade são identificadas por Vance (1984) como duas das muitas variáveis que informam a visão da sexualidade, a forma como é vivida e as suas práticas.

apresentar variações significativas, desde logo, em função de subjectividades e contextos relacionais mais ou menos permeados por lógicas e processos de mercantilização da intimidade. Ainda que a análise das configurações de intimidade transnacionais tendo em conta as “interseccionalidades” vá sendo desenvolvida em capítulos posteriores, aí com maior explanação e sustentação etnográfica, sinalizo aqui um exemplo concreto que nos mostra a pertinência de uma abordagem integrada e transversal: as (supostas) especificidades de género da mulher brasileira, as construções racializadas que lhe são dirigidas, a hiper-sexualização do Brasil, muito em especial o Brasil no feminino, mestiço e das classes populares, fazem parte de um complexo simbólico unitário presente nos discursos e comportamentos da generalidade dos turistas europeus. Os elementos deste complexo, dependendo dos contextos e das circunstâncias, vão sendo convocados para sinalizar fronteiras entre o Brasil e a Europa (ou um país em concreto) e, em particular, entre a mulher brasileira e a europeia (Piscitelli 2004a, 2008, Ribeiro e Sacramento 2006). Alguns deles, em particular aqueles que remetem para qualificações positivas ou que podem garantir determinadas vantagens estratégicas, também são apropriados, eventualmente reformulados e mobilizados pelas próprias mulheres locais na construção das suas identidades, sobretudo nas esferas do género e da sexualidade. Por outro lado, estas mesmas mulheres recorrem praticamente ao mesmo conjunto de marcadores sociais, ainda que, como é óbvio, lhes atribuam valores e cargas ideológicas distintas, para articular linhas de distinção identitária entre os homens europeus e os brasileiros. Em regra, a distinção que fazem tem subjacente uma tentativa de fundamentação da sua própria preferência pelos primeiros para casar e constituir família.

Estes processos cruzados de delimitação de identidades e de constituição de