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4 O dano existencial aplicado ao direito do trabalho

4.5 FUNDAMENTOS JURIDICOS DO DANO EXISTENCIAL

O dano existencial não consta expressamente qualificado no ordenamento jurídico pátrio. Entretanto, a análise da doutrina em conjunto com dispositivos constitucionais, permitem a sua caracterização, a fim de tornar legítimo o ressarcimento proveniente dele.

Nesse sentido, destacam-se os artigos constitucionalmente previstos nos arts. 1°, III, e 5°, V e X, assim como os dispositivos do Código Civil que, quando ofendidos, autorizam a reparação do dano moral, os direitos da personalidade, elencados nos arts. 11 a 21, combinado com o 186 e 927, todos do Código Civil.

Art. 1º. A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: […] III – a dignidade da pessoa humana […].162

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.163

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.164

Outrossim, ante ao objetivo geral deste trabalho, tem-se como autorizador, ainda, o artigo 6o da Constituição Federal, da qual trata sobre o Direito Social Fundamental ao Lazer e, em decorrência, os artigos da Lei Consolidada que tratam sobre os limites de jornada de trabalho.

162

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Out. de 1988. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em 20 mar. 2014.

163

BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002: institui o Código Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406compilada.htm>. Acesso em 2 jun. 2014

164

Sob essa conjuntura legal, é de pouca importância que a legislação constitucional ou ordinária não mencione expressamente a espécie de dano, pois o indispensável é a análise sob o prisma do princípio fundamental da dignidade da pessoa humana, que a par de consolidar um sistema jurídico de responsabilidade civil, determina a reparação de todos os danos, dentre eles, o existencial.165

Com razão, Flaviana Rampazzo comenta:

Em relação às demais críticas doutrinárias, impede tecer algumas considerações. Nesse diapasão, tem-se que a caracterização do dano existencial não reflete modismo, mas espelha a evolução da responsabilidade civil no tocante aos danos extrapatrimoniais. Demonstra a necessidade de uma melhor classificação e especificação dos danos, desdobrando-os em figuras que satisfaçam adequadamente a padrões mais técnicos de tutela dos interesses juridicamente protegidos.

Outrossim, ao contrário do que se presume, a concepção de novas modalidades de danos, a exemplo dos danos existenciais, serve como filtro que visa impedir a ocorrência de abusos produzidos pela denominada 'industria dos danos morais'.166

É consenso entre doutrinadores e jurisprudência que foge à intenção legislativa tornar exaustiva as hipóteses de reparação por dano extrapatrimonial, haja vista a complexidade da pessoa humana e o dever de resguardo da sua dignidade, porquanto que o termo, tecnicamente mal escolhido pela Carta Mágna, “dano moral”, não pode servir de limitação à reparação integral do dano pelo Poder Judiciário, quando chamado à prestação jurisdicional.167

Com relação a quantificação do quantum indenizável, assim como qualquer dano extrapatrimonial, devem ser arbitrados pelo juízo de forma subjetiva, sob a perspectiva de sua reparação integral, levando-se em consideração a extensão do dano, além de outras destinadas a função punitiva e pedagógica.

Por fim, Julio César Beber, citado por Jorge Cavalcante Boucinhas Filho, sugere elementos que devem ser observados pelo julgador quanto à aferição do dano existencial. Quais sejam:

a) a injustiça do dano. Somente dano injusto poderá ser considerado ilícito; b) a situação presente, os atos realizados (passado) rumo à consecução do projeto de vida e a situação futura com a qual deverá resignar-se a pessoa;

165

SOARES, Flaviana Rampazzo. Responsabilidade civil por dano existencial. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009.

166

Ibid., 2009, p. 63

167

SOARES, Flaviana Rampazzo. Responsabilidade civil por dano existencial. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009.

c) a razoabilidade do projeto de vida. Somente a frustração injusta de projetos razoáveis (dentro de uma lógica do presente e perspectiva de futuro) caracteriza dano existencial. Em outras palavras: é necessário haver possibilidade ou probabilidade de realização do projeto de vida;

d) o alcance do dano. É indispensável que o dano injusto tenha frustrado (comprometido) a realização do projeto de vida (importando em renúncias diárias) que, agora, tem de ser reprogramado com as limitações que o dano impôs168

Não obstante as correntes contrárias, consciente de todo o exposto, é notória a autonomia do dano existencial dentro do ordenamento jurídico brasileiro, posto que suas características são aptas a guardar sua distinção frente a outros danos juridicamente reconhecidos, e sobretudo por demonstrar-se hábil a melhor proteção dos direitos da pessoa humana.

Por oportuno, cabe neste ato rebater sucintamente duas das principais criticas doutrinarias que visam impedir a aplicação do Dano Existencial. Inicia-se com a negação de que se trata de modismo, posto que vislumbra-se, sim, como evolução da responsabilidade civil à serviço da proteção da pessoa humana.

Ao contrário do que se presume, por fim, a necessidade de ser melhor classificado e reconhecido juridicamente do dano está respaldado na segurança jurídica imprescindível a rechaçar possíveis abusos produzidos pela tão temida “indústria do dano moral”.