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4. A VOZ DA RUA NO TRABALHO DE CAMPO

4.2 Gestão e Poder Público

Para a realização das entrevistas semi-estruturadas foram selecionadas lideranças atuantes na área da pesquisa e com envolvimento no estabelecimento da política pública sobre a APA da Avenida Assis Valente e o Parque em Rede Pedra de Xangô. Um Liderança Independente (LI); uma Liderança Religiosa (LR); uma Liderança Ambiental e uma Liderança dos Bairros (LB).

A Liderança Independente, LI, abordada nas entrevistas semiestruturadas, relaciona a criação da APA pela Prefeitura com a força demonstrada pela militância ambientalista na época da ocorrência dessa iniciativa por parte do Poder Público municipal. E fala sobre as invasões que continuaram a ocorrer em terrenos nas ruas próximas ou mesmo dentro da área da APA.

Percebo que o pontapé que a prefeitura deu no sentido de pensar a Pedra de Xangô como uma unidade de conservação foi em função do movimento ambiental que estava ocorrendo em Cajazeiras naquele momento, naquele contexto. Tanto isso que a gente vê que a APA não se constitui em nada, né? Você vai lá agora e, de quando decretou para cá, tem várias invasões, então não há fiscalização, não há nada objetivo, material, que identifique aquela área como uma área de preservação ambiental, não tem nada, além de um decreto no papel e que pouco a comunidade de Cajazeiras sabe. Se você for agora perguntar à minha mãe, à minha avó, as pessoas não sabem que aquilo ali é uma área de proteção ambiental, as pessoas desconhecem isso. Sabem e têm conhecimento da Pedra de Xangô, do valor simbólico dela, mas não surpreendem enquanto uma política ambiental, enquanto gestão pública (LI, informação verbal).

A Liderança Independente (LI), também manifesta preocupação com a gestão desse recorte de ruas do espaço urbano a partir do fato de que o Poder Público não busca um contato efetivo com a sociedade estabelecida no território.

Eu percebo que a prefeitura tomou essa iniciativa de fazer um decreto com uma APA Municipal mas eu não percebo determinação no campo de gestão para que isso aconteça. Ninguém gere nada, nem um órgão do estado, sem verba, sem orçamento, sem recurso, sem plano de manejo, e eu não percebo que exista essa preocupação de uma construção em parceria com a sociedade civil para que aconteça os conselhos, para que aconteça uma gestão de fato da APA (LI, informação verbal).

A Liderança Independente (LI), faz uma comparação entre a APA estadual do rio Ipitanga e a APA municipal da Avenida Assis Valente, destacando que na primeira há uma maior participação da representação de moradores das ruas do território, além de representantes de outros municípios.

No conselho da APA Joanes/Ipitanga, que é uma APA estadual, então ela abrange pessoas de outros municípios, então, é uma reunião muito maior, com pessoas de outros municípios, com outras demandas, com outras

problemáticas. Tem uma representação daqui do território, que eu acho que acaba agora, esse ano, que é um colega que ele é técnico em engenharia ambiental, Alisson, ele representa a União de Associações de Moradores de Cajazeiras, na APA (LI, informação verbal).

A mesma Liderança Independente (LI), é bastante crítica ao falar sobre Parque em Rede da Pedra de Xangô, incluído na proposta da APA municipal.

Não conheço esse projeto em detalhes [...]. Mas eu acredito que nenhum projeto que é pensado sem discussão com o sujeito daquele local, numa discussão ampliada, porque não é uma discussão com 2, 3, 4 cabeças, é uma discussão ampliada, não funciona, não dá certo. Essa prefeitura tem várias experiências aqui em Cajazeiras, no Mercado Municipal é uma experiência dessa (LI, informação verbal).

A Liderança Religiosa, LR, critica a proposta de gestão da APA a partir do que chama de “um grupinho”, sem a participação da Associação Pássaro das Águas, organizadora das Caminhadas da Pedra de Xangô, que durante 10 anos chamou a atenção da população e do Poder Público para a necessidade de preservação da Pedra. A LR afirma que

até agora não tem esclarecimento dessa APA. O que eles estão fazendo é com um grupozinho que se permite ser levado para esta APA. O governo do Estado ainda a gente está em conversa para ver qual situação ele vai estar nessa APA, então a gente está negociando com o governo do Estado, mas o município, a prefeitura de Salvador, a gente ainda não negociou. A negociação dessa APA ou conversar o que seria melhor para o povo do santo, ainda não teve essa conversa. E volto a dizer, com um grupinho que é manipulado tem, mas com a maioria ao qual faz uma caminhada com mais de 3 a 4 mil pessoas, ainda não teve essa conversa. Mas a gente está tendo com o Estado (LR, informação verbal).

A presença da Prefeitura Bairro de Cajazeiras no processo de construção da gestão da APA é desqualificada pela Liderança Religiosa.

A Prefeitura Bairro de Cajazeiras ela procura fazer política. Ela faz política, ela faz se promover e promover o político dela. Ela não é atuante dentro de Cajazeiras. As conveniências da prefeitura é que é a prefeitura bairro. As conveniências delas, é promover fulano ou cicrano, na prefeitura de Salvador. Mas procurar a comunidade? Não (LR, informação verbal). A mesma Liderança Religiosa faz um equacionamento sobre o que pode ser considerada, de fato, como “ação política” da Prefeitura Bairro em relação à gestão dos bens territoriais do bairro.

A prefeitura e o estado, aparentemente, estão no palco, mas no diálogo existe uma questão de diferencial. A prefeitura quer se promover, a prefeitura quer deixar o legado dela, e o estado, a esquerda, sempre procurando política e não favorecimento de políticas públicas. Porque falar de políticas públicas é uma coisa, agora se promover é outra coisa. Onde a prefeitura e o estado estão querendo se promover (LR, informação verbal).