2 CAPITAL MULTICULTURAL CONTEMPORÂNEO
2.1 Processo de identidade, cultura e hibridismo
Nesta tese os conceitos hibridação e hibridismo foram adotados em dois sentidos. O primeiro diz respeito ao fato de que diferentes etnias africanas, oriundas de diferentes territórios (Angola, Daomé, Congo, Moçambique, etc), no período colonial brasileiro, foram compulsoriamente colocadas numa convivência forçada pelo colonizador português. E um dos centros nevrálgicos da escravidão era Salvador, na Bahia, onde essa convivência ocorreu, obviamente.
O segundo, com características ainda mais agudas, refere-se à própria convivência entre senhores e escravos, agora não mais na senzala, mas na própria casa grande, fato amplamente registrado por clássicos da sociologia brasileira. Resultando em contatos entre culturas ainda mais diversas.
Para citar apenas um exemplo desse tipo de hibridismo, as mulheres de candomblé se vestem com muitas anáguas engomadas como as damas das corte europeias e brasileiras. Portanto, Salvador no período colonial, foi palco de um profundo processo de hibridismo cultural.
Uma reflexão importante sobre os processos de hibridismo e hibridação cultural é feita pelo jamaicano Stuart Hall (2003, p. 74), ao falar sobre o que ele chama, citando Aijaz Ahmad (1995), de fertilização cruzada das culturas, referindo- se a todos os movimentos populacionais envolvidos em viagens, contato, transmutação.
Um termo que tem sido utilizado para caracterizar as culturas cada vez mais mistas e diaspóricas dessas comunidades é “hibridismo”. Contudo, seu sentido tem sido comumente mal interpretado. Hibridismo não é uma referência à composição racial mista de uma população. É realmente outro termo para a lógica cultural da tradução (grifo do autor). Essa lógica se torna cada vez mais evidente nas diásporas multiculturais e em outras comunidades minoritárias e mistas do mundo pós-colonial (HALL, 2003, p.74).
Colocada essa sinalização de Hall (2003), relativa à não referência de hibridismo à composição racial mista da população, destaca-se que no caso desta pesquisa se buscou falar exatamente do processo de tradução das diferentes culturas, das diferentes etnias africanas que se encontraram nas senzalas do Brasil colonial e produziram uma sistematização de referência identitária que culmina no que hoje é chamado de matrizes culturais africanas, uma base cultural obrigatória
para amplos setores da população que habita o recorte adotado para a pesquisa. Hall (2003), prossegue sua conceituação afirmando que
o hibridismo não se refere a indivíduos híbridos, que podem ser contrastados com os “tradicionais” e “modernos” como sujeitos plenamente formados. Trata-se de um processo de tradução cultural, agonístico uma vez que nunca se completa, mas que permanece em sua indecidibilidade (HALL, 2003, p.74).
A experiência teórica do pesquisador indiano Homi Bhabha (1977), é citada por Hall (2003, pp. 74-75), quando aborda a questão dos sistemas de referência de cada cultura no processo de hibridismo. Bhabha (1977) é conhecido por suas formulações sobre hibridação quando fala, nesses casos, sobre a relação entre identidade e representação social.
Não é simplesmente apropriação ou adaptação; é um processo através do qual se demanda das culturas uma revisão de seus próprios sistemas de referência, normas e valores, pelo distanciamento de suas regras habituais ou “inerentes” de transformação. Ambivalência e antagonismo acompanham cada ato de tradução cultural, pois o negociador com a “diferença do outro” revela uma insuficiência radical de nossos próprios sistemas de significado e significação (BHABHA, 1977, apud HALL, 2003, p.75).
Nos processos de hibridação é possível se afirmar que os valores “traduzidos” serão acompanhados por condições complexas e muitas vezes conflituosas, como explica Bhabha (1977):
o hibridismo significa um momento ambíguo e ansioso de ... transição, que acompanha nervosamente qualquer modo de transformação social, sem a promessa de um fechamento celebrativo ou transcendência das condições complexas e até conflituosas que acompanham o processo...[Ele] insiste em exibir ... as dissonâncias a serem atravessadas apesar das relações de proximidade, as disjunções de poder ou posição a serem contestadas; os valores éticos e estéticos a serem “traduzidos”, mas que não transcenderão incólumes o processo de transferência (BHABHA, 1977, apud HALL, 2003 p.75).
O resultado desse intenso processo de hibridação é a cultura que se produz hoje na cidade de Salvador e, em particular, no recorte adotado para a pesquisa, onde negros e mestiços que se definem culturalmente como de ancestralidade Angola, Congo, Ketu, Jêje, Nagô, consideradas nações do candomblé baiano, convivem e produzem seus territórios de forma nem sempre harmônica.
As senzalas brasileiras no período colonial escravocrata foram os locais onde viviam os escravos durante o regime que vitimou populações negras oriundas de diversos territórios na África Ocidental, territórios esses que constituem, hoje, diferentes países como Angola, Nigéria, Benin, Senegal, Moçambique, entre outros. Os negros oriundos desses territórios não falavam a mesma língua, já que vinham de “troncos linguísticos” diferentes, portanto, culturas diferentes, crenças e práticas religiosas diversas.
As senzalas, então, tornaram-se ponto de encontro dessas populações, passando a ser o locus de novas práticas socioculturais bastante específicas, num processo que hoje é considerado como de hibridação cultural ou hibridismo, que vai resultar no que chama se de cultura negra baiana e brasileira.
Tornou-se usual na Bahia em particular, e no Brasil de forma mais geral, a utilização da palavra “afro” para designar tudo aquilo que diz respeito à diversificada cultura dos negros trazidos da África para o Brasil, na condição de escravos. É como se fosse possível pensar em uma África única, um lugar idealizado, com uma cultura única, integrada por pessoas de uma única característica, de uma única etnia. Um “afro” genérico.
O mesmo acontece com o conceito de “matriz africana”, usado no singular. Não existe uma matriz africana única, já que a África é um continente, assim como não existe um conceito que possa ser considerado o “afro” referencial. Nesta tese é proposta a defesa de que existem no Brasil diversas manifestações de diferentes matrizes africanas e diversas manifestações do fenômeno cultural sintetizado no genérico “afro”, amplamente aceito pelos setores negros e mestiços da população.
Por isso, nesta tese, se trabalhou com o uso do plural em relação às matrizes africanas, explicitando que as culturas negras que chegaram ao Brasil formavam algo como um caleidoscópio. A realidade da escravidão e os conflitos sociais do período colonial, dizimaram algumas dessas culturas e modificaram cada uma das que sobreviveram, dificultando a identificação de algumas das características originais peculiares de cada uma delas.
Muitas dessas referências podem ser identificadas claramente nas ruas de Salvador, inclusive na área adotada para estudo. Por um complexo mecanismo divinatório a ancestralidade das pessoas é identificada como pertencente a pelo menos três grandes grupos: os ketus, os jêjes e os angolas, cada um desses
grupos relacionados com uma “nação” do candomblé, cada um usando uma língua africana referencial.
Uma parte significativa desse complexo cultural, independente da língua mãe referencial, está relacionada, entre outras características, com o culto à natureza e aos seus fenômenos tidos como sagrados, com aquilo que é considerado divino, como os rituais das religiões praticadas pelos negros e, hoje, aceitas e praticadas, inclusive, por não negros. Muitos desses rituais precisam acontecer nas ruas ou em pequenos trechos de Mata Atlântica, como é o caso de inúmeras áreas internas do polígono definido como a APA e o Parque em Rede objetos desta pesquisa.
Por isso considera-se importante a definição das culturas africanas presentes na cultura baiana e brasileira como representativas de um patrimônio cultural da humanidade, como ocorre na área escolhida para o estudo.